Um estudo autobiogrfico, Inibies, sintomas e ansiedade, A questo da anlise leiga
e outros trabalhos
















VOLUME XX
(1925-1926)














Dr. Sigmund Freud



UM ESTUDO AUTOBIOGRFICO (1925 [1924])
         
         NOTA DO EDITOR INGLS
         
         SELBSTDARSTELLUNG 
         
         (a) EDIES ALEMS:
         1925 Em Grote's Die Dedizin der Gegenwart in Selbstdarstellungen, 4, 1-52 (Leipzig: Meiner.)
         1928 G.S., 11, 9-82.
         1934 Sob a forma de livro, com o ttulo Selbstarstellung. Leipzig, Viena e Zurique: Internationaler Psychoanalytischer Verlag. 52 Pp.
         1936 2 ed. Viena: Internationaler Psychoanalytischer Verlag. 107 Pp. Com novas notas de rodap e outro assunto adicional incluindo 'Nachschrift 1935', 
(ver adiante).
         1946 Londres: Imago Publishing Co. Reimpresso da anterior com ilustraes diferentes. 107 Pp.
         1948 G.W., 14, 33-96, com as novas notas de rodap da 2 ed., mas sem o outro assunto adicional. (Quanto a 'Nachschrif 1935', ver adiante.)
         1935 'Nachschrift 1935'. Almanach 1936, 9-14.
         1936 Em Selbstdarstelung, 2 ed. (ver acima), 102-7.
         1946 Na reimpresso de Londres da anterior.
         1950 G.W., 16, 31-4.
         
         (b) TRADUO INGLESA:
         
         An Autobiographical Study
         1927 Em The Problem of Lay-Analyses. Nova Iorque: Brentano. Pp. 189-316.(Trad. de James Strachey.)
         1935 Londres: Hogarth Press and the Institute of Psycho-Analysis, 137 Pp. Mesma traduo, revista a partir da 2 ed. alem, com novas notas de rodap e 
outro assunto adicional, incluindo 'Postscript (1935)'.
         
         Autobiography
         1935 Nova Iorque: Norton. 153 Pp. Como a anterior, mas com ttulo diferente.
         
         A presente traduo inglesa  uma verso modificada da publicao em 1935.
         
         Como Freud explica em seu Ps-Escrito,ver em ([1]), a traduo inglesa dessa obra, quando publicada pela primeira vez nos Estados Unidos. em 1927, foi includa 
no mesmo volume que seu exame da 'anlise leiga'; mas o Estudo Autobiogrfico no foi mencionado nem na pgina de rosto nem na capa externa do livro. Quando, oito 
anos depois, um novo editor norte-americano se encarregou da obra, sugeriu a Freud que ela devia ser revista e atualizada. Assim o novo material apareceu em ingls 
antes de sua publicao em alemo. O Volume XI dos Gesammelte Schriften, publicado em 1928, naturalmente s traz o texto da primeira edio. O Volume XIV das Gesammelte 
Werke, publicado em 1948, apresenta uma reproduo fotogrfica daquela verso, juntamente com as novas notas de rodap que foram acrescentadas  segunda edio. 
Infelizmente, contudo, desprezou-se o fato de que considervel nmero de modificaes e acrscimos tinham sido feitos no verdadeiro texto da obra. Estes, conseqentemente, 
no foram includos nas Gesammelte Werke, embora naturalmente sejam encontrados nas edies do livro lanadas separadamente (1936 e 1946). Essas omisses so observadas 
na traduo inglesa que se segue. Soubemos por Ernest Jones (1957, 123) que a obra principal foi escrita em agosto e setembro de 1924, havendo na realidade surgido 
em fevereiro de 1925; o Ps-Escrito foi concludo por volta de maio de 1935.
         Esta obra  geralmente, e de maneira bastante desorientadora, mencionada como 'Autobiografia' de Freud. O ttulo da srie para a qual originalmente constitui 
contribuio - Die Medizin der Gegenwart in selbstdarstellungen (que poderia ser traduzido por 'Medicina Contempornea em Auto-Retratos') - revela com bastante clareza 
que o objetivo de seus organizadores ( foi publicada em quatro volumes, 1923-5, com colaboraes de cerca de vinte e sete autoridades mdicas de renome ) era apresentar 
um relato da histria recente da cincia mdica feito por aqueles que haviam desempenhado um papel de destaque na sua elaborao. Assim o estudo de Freud  essencialmente 
um relato de sua participao pessoal no desenvolvimento da psicanlise. Como ele prprio ressalta no pargrafo inicial, ele estava inevitavelmente revendo muito 
do que j tinha sido tratado em seu artigo 'A Histria do Movimento Psicanaltico' (1914d), cerca de dez anos antes. No obstante, como um confronto entre as duas 
obras revelar, sua disposio de nimo ento era bem diferente. As controvrsias que haviam impregnado de exacerbao o artigo mais antigo tornaram-se agora insignificantes 
e ele pde apresentar um relato frio e inteiramente objetivo da evoluo dos seus pontos de vista cientficos.
         Aqueles que desejam a histria de sua vida pessoal devem, mais uma vez, ser encaminhados aos trs volumes da biografia de Ernest Jones.
         
         UM ESTUDO AUTOBIOGRFICO
         
         I 
         Vrios dos colaboradores desta srie de 'Estudos Autobiogrficos' comearam expressando suas apreenses pelas dificuldades inusitadas da tarefa que empreenderam. 
As dificuldades no meu caso so, assim penso, ainda maiores pois mais de uma vez publiquei artigos nos mesmos moldes que o presente, artigos que pela natureza do 
assunto tm tratado mais de consideraes pessoais do que  habitual ou do que de outra forma teria sido necessrio.
         Apresentei meu primeiro relato do desenvolvimento e do tema da psicanlise em cinco lies que pronunciei em 1909 na Clark University, em Worcester, Mass., 
para onde fora convidado a fim de assistir s comemoraes do vigsimo aniversrio de fundao daquela entidade. S recentemente cedi  tentao de prestar uma contribuio 
de natureza semelhante a uma publicao coletiva norte-americana que aborda os primeiros anos do sculo XX, visto que seus editores haviam demonstrado seu reconhecimento 
quanto  importncia da psicanlise, dedicando-lhe um captulo especial. Entre essas duas datas surgiu um artigo, 'A Histria do Movimento Psicanaltico' [1914d], 
que, de fato, encerra a essncia de tudo que posso dizer sobre a presente ocasio. Visto que no devo contradizer-me e como no tenho nenhum desejo de repetir a 
mim mesmo exatamente, devo esforar-me por construir uma narrativa na qual atitudes subjetivas e objetivas, interesses biogrficos e histricos, se combinem em uma 
nova proporo.
         Nasci a 6 de maio de 1856, em Freiberg, na Morvia, pequena cidade situada onde agora  a Tchecoslovquia. Meus pais eram judeus e eu prprio continuei 
judeu. Tenho razes para crer que a famlia de meu pai residiu por muito tempo no Reno (em Colnia), que ela, como resultado de uma perseguio aos judeus durante 
o sculo XIV ou XV, fugiu para o leste, e que, no curso do sculo XIX, migrou de volta da Litunia, passando pela Galcia, at a ustria alem. Quando eu era uma 
criana de quatro anos fui para Viena e ali recebi toda minha educao. No 'Gymnasium' [escola secundria] fui o primeiro de minha turma durante sete anos e desfrutava 
ali de privilgios especiais, e quase nunca tive de ser examinado em aula. Embora vivssemos em circunstncias muito limitadas, meu pai insistiu que, na minha escolha 
de uma profisso, devia seguir somente minhas prprias inclinaes. Nem naquela poca, nem mesmo depois, senti qualquer predileo particular pela carreira de mdico 
Fui, antes, levado por uma espcie de curiosidade, que era, contudo, dirigida mais para as preocupaes humanas do que para os objetivos naturais; eu nem tinha apreendido 
a importncia da observao como um dos melhores meios de gratific-la. Meu profundo interesse pela histria da Bblia (quase logo depois de ter aprendido a arte 
da leitura) teve, conforme reconheci muito mais tarde, efeito duradouro sobre a orientao do meu interesse.Sob a influncia de uma amizade formada na escola com 
um menino mais velho que eu, e que veio a ser conhecido poltico, desenvolvi, como ele, o desejo de estudar direito e de dedicar-me a atividade sociais. Ao mesmo 
tempo, as teorias de Darwin, que eram ento de interesse atual, atraram-me fortemente, pois ofereciam esperanas de extraordinrio progresso em nossa compreenso 
do mundo; e foi ouvindo o belo ensaio de Goethe sobre a Natureza, lido em voz alta numa conferncia popular pelo professor Carl Brhlpouco antes de eu ter deixado 
a escola, que resolvi tornar-me estudante de medicina.
         Quando em 1873, ingressei na universidade, experimentei desapontamentos considerveis. Antes de tudo, verifiquei que se esperava que eu me sentisse inferior 
e estranho porque era judeu. Recusei-me de maneira absoluta a fazer a primeira dessas coisas. Jamais fui capaz de compreender por que devo sentir-me envergonhado 
da minha ascendncia ou, como as pessoas comeavam a dizer, da minha 'raa'. Suportei, sem grande pesar, minha no aceitao na comunidade, pois parecia-me que apesar 
dessa excluso, um dinmico companheiro de trabalho no poderia deixar de encontrar algum recanto no meio da humanidade. Essas primeiras impresses na universidade, 
contudo, tiveram uma conseqncia que depois viria a ser importante, porquanto numa idade prematura familiarizei-me com o destino de estar na Oposio e de ser posto 
sob o antema da 'maioria compacta'.Estavam assim lanados os fundamentos para um certo grau de independncia de julgamento.
         Fui compelido, alm disso, durante meus primeiros anos de universidade, a fazer a descoberta de que as peculiaridades e limitaes de meus dons me negavam 
todo sucesso em muitos dos campos da cincia nos quais minha jovem ansiedade me fizera mergulhar. Assim aprendi a verdade da advertncia de Mefistfeles:
         Vergebens, dass ihr ringsum wissenschaftlich schweift,Ein jeder lernt nur, was er lernen kann.
         Por fim, no laboratrio de fisiologia de Ernst Brcke encontrei tranqilidade e satisfao plena - e tambm homens que pude respeitar e tomar como meus 
modelos: o prprio grande Brcke e seus assistentes, Sigmund Exner e Ernst Fleischl von Marxow. Com o segundo, um homem brilhante, tive o privilgio de manter relaes 
de amizade.Brcker confiou-me um problema para solucionar na histologia do sistema nervoso; consegui resolv-lo para sua satisfao e levar o trabalho mais adiante 
por conta prpria. Trabalhei nesse instituto, com breves interrupes, de 1876 a 1882, e geralmente se julgava que eu estava destinado a preencher a vaga de professor 
assistente que viesse a ocorrer ali.Os vrios ramos da medicina propriamente dita, afora a psiquiatria, no exerciam qualquer atrao sobre mim. Eu era realmente 
negligente em meus estudos mdicos e somente em 1881, um tanto tardiamente, recebi o grau de doutor em medicina.
         O momento decisivo ocorreu em 1882, quando meu professor, por quem sentia a mais alta estima, corrigiu a imprevidncia generosa de meu paiaconselhando-me 
vivamente, em vista de minha precria situao financeira, a abandonar minha carreira terica. Segui seu conselho, abandonei o laboratrio de fisiologia e ingressei 
no Hospital Geral como Aspirant [assistente clnico]. Logo depois fui promovido a Sekundararzt [mdico estagirio ou interno], e trabalhei em vrios departamentos 
do hospital, entre outros por mais de seis meses sob a orientao de Meynert,cujo trabalho e personalidade muito me haviam impressionado quando eu ainda era estudante.
         Num certo sentido, no obstante, permaneci fiel  linha de trabalho na qual originalmente me iniciara. O assunto que Brcke propusera para minhas pesquisas 
fora a medula espinhal de um dos peixes mais inferiores (Ammocoetes Petromyzon) e prossegui ento at o sistema nervoso central. Justamente nessa poca, as descobertas 
de Fleichsig sobre a no-simultaneidade da formao das bainhas de mielina lanavam luz reveladora sobre o curso intrincado de seus tratos. O fato de eu ter comeado 
por escolher as medulas oblongas como assunto nico e exclusivo do meu trabalho foi outro sinal da continuidade de meu desenvolvimento. Em completo contraste com 
o carter difuso de meus estudos durante os primeiros anos de universidade, estava agora desenvolvendo uma inclinao para concentrar meus trabalhos exclusivamente 
em um nico assunto ou problema. Essa inclinao tem persistido e desde ento me levou a ser acusado de unilateralidade.
         Tornei-me to atuante no Instituto de Anatomia Cerebral quanto o havia sido no de fisiologia. Alguns breves artigos sobre o curso dos tratos e das origens 
nucleares na medula oblonga datam desses anos de hospital, havendo Edinger tomado conhecimento de meus achados at certo ponto. Um belo dia Meynert, que me dera 
acesso ao laboratrio mesmo durante as ocasies em que eu na realidade no trabalhava sob sua orientao, props que eu devia dedicar-me inteiramente  anatomia 
do crebro e prometeu passar-me suas atividades como conferencista, visto sentir-se velho demais para lidar com os mtodos mais novos. Declinei dessa oferta, alarmado 
com a magnitude da tarefa;  possvel tambm que eu j tivesse adivinhado que esse grande homem de modo algum se encontrasse favoravelmente inclinado a meu respeito.Do 
ponto de vista material, a anatomia do crebro certamente no era melhor que a fisiologia, e, tendo em vista consideraes pecunirias, comecei a estudar as doenas 
nervosas. Havia naquela poca, em Viena, poucos especialistas nesse ramo de medicina, o material para seu estudo estava distribudo por grande nmero de diferentes 
departamentos do hospital, no havia oportunidade satisfatria para aprender a matria, e se era forado a ser professor de si mesmo. At mesmo Nothnagel que fora 
nomeado pouco tempo antes, por causa do seu livro sobre localizao cerebral, no isolou a neuropatologia das outras subdivises da medicina. A distncia brilhava 
o grande nome de Charcot assim, formei um plano de em primeiro lugar obter uma designao como conferencista universitrio [Dozent] sobre doenas nervosas, em Viena, 
e ento dirigir-me a Paris para continuar meus estudos.
         No curso dos anos seguintes, enquanto continuava a trabalhar como mdico estagirio, publiquei grande nmero de observaes clnicas sobre doenas orgnicas 
do sistema nervoso. Gradativamente familiarizei-me com o terreno; fui capaz de situar o local de uma leso na medula oblonga de maneira to exata que o anatomista 
patolgico no teve mais informao alguma a acrescentar, fui a primeira pessoa em Viena a encaminhar um caso para autpsia com um diagnstico de polineurite aguda.
         A fama de meus diagnsticos e de sua confirmao post-mortem trouxe-me uma afluncia de mdicos norte-americanos, perante os quais pronunciei conferncias 
sobre os pacientes do meu departamento numa espcie de pidgin-English.* Sobre as neuroses eu nada compreendia. Em certa ocasio, apresentei ao meu auditrio um neurtico 
que sofria de dor de cabea persistente como um caso de meningite crnica localizada; todos se levantaram imediatamente, revoltados, e me abandonaram, e minhas atividades 
prematuras como professor chegaram ao fim.  guisa de desculpas, posso acrescentar que isso aconteceu numa poca em que maiores autoridades do que eu, em Viena, 
tinham o hbito de diagnosticar a neurastenia como tumor cerebral.
         Na primavera de 1885, fui nomeado conferencista [Dozent] de neuropatologia com base em minhas publicaes histolgicas e clnicas. Logo depois, como resultado 
de caloroso testemunho de Brcke, foi-me concedida umabolsa de estudos de considervel valor..No outono do mesmo ano empreendi a viagem at Paris.
         Tornei-me aluno [lve] na Salptrire, mas, como um dos numerosos alunos estrangeiros, dispensavam-me inicialmente pouca ateno. Certo dia, ouvi Charcot 
externar o pesar de que desde a guerra no tinha tido mais notcias do tradutor alemo de suas conferncias, prosseguiu dizendo que ficaria satisfeito se algum 
se encarregasse de verter o novo volume de suas conferncias para o alemo. Escrevi-lhe oferecendo meus prstimos; ainda me recordo de uma frase da carta, no sentido 
de que eu sofria apenas de 'l'aphasie motrice' e no de 'l'aphasie sensorielle du franais'. Charcot aceitou a oferta, fui admitido no crculo de seus conhecidos 
pessoais, e a partir dessa poca tomei parte integral em tudo que se passava na clnica.
         No momento em que escrevo estas linhas, grande nmero de trabalhos e artigos de jornais me chegam da Frana, dando provas de violenta objeo  aceitao 
da psicanlise e fazendo freqentemente as asseres mais inexatas no tocante a minhas relaes com a escola francesa. Li, por exemplo, que fiz uso de minha visita 
a Paris para familiarizar-me com as teorias de Pierre Janet e ento fugir com o tesouro. Gostaria, portanto, de dizer explicitamente que durante toda a minha estada 
na Salptrire o nome de Janet nem sequer foi mencionado.
         O que mais me impressionou enquanto privei com Charcot foram suas ltimas investigaes acerca da histeria, algumas delas levadas a efeito sob meus prprios 
olhos. Ele provara, por exemplo, a autenticidade das manifestaes histricas e de sua obedincia a leis ('introite et hic dii sunt') a ocorrncia freqente de histeria 
em homens, a produo de paralisias e contraturas histricas por sugesto hipntica e o fato de que tais produtos artificiais revelam, at em seus menores detalhes, 
as mesmas caractersticas que os acessos espontneos, que eram muitas vezes provocados traumaticamente. Muitas das demonstraes de Charcot comearam por provocar 
em mim e em outros visitantes um sentimento de assombro e uma inclinao para o ceticismo, que tentvamos justificar recorrendo a uma das teorias do dia. Ele se 
mostrava sempre amistoso e paciente ao lidar com tais dvidas, mas era tambm muito resoluto; foi numa dessas discusses que (falando de teoria) ele observou: 'a 
n'empche pas d'exister' um mot que deixou indelvel marca em meu esprito.
         Sem dvida, nem tudo o que Charcot nos ensinou naquela poca  vlido hoje: parte se tornou duvidoso, parte deixou definitivamente de resistir ao teste 
do tempo. Mas sobrou muita coisa que encontrou lugar permanente no acervo da cincia. Antes de partir de Paris, examinei com o grande homem um plano para um estudo 
comparativo das paralisias histricas e orgnicas. Desejava estabelecer a tese de que na histeria as paralisias e anestesias das vrias partes do corpo se acham 
demarcadas de acordo com a idia popular dos seus limites e no em conformidade com fatos anatmicos. Ele concordou com esse ponto de vista, mas foi fcil ver que 
na realidade no teve qualquer interesse especial em penetrar mais profundamente na psicologia das neuroses.Quando tudo j havia sido dito e feito, foi a partir 
da anatomia patolgica que seu trabalho havia comeado.
         Antes de retornar a Viena, passei algumas semanas em Berlim, a fim de adquirir um pouco de conhecimentos sobre os distrbios gerais da infncia. Kassowitz 
que estava  frente de um instituto pblico de Viena para tratamento de doenas infantis, prometera encarregar-me de um departamento para doenas nervosas de crianas. 
Em Berlim, recebi assistncia e uma amistosa recepo de Baginsky. No curso dos poucos anos seguintes publiquei, do Instituto Kassowitz, vrias monografias de considervel 
vulto sobre paralisias cerebrais unilaterais e bilaterais em crianas. E por esse motivo, numa data ulterior (em 1897), Nothnagel me fez responsvel pelo tratamento 
do mesmo assunto em seu grande Handbuch der allgemeninen und speziellen Therapie.
         No outono de 1886, fixei-me em Viena como mdico e casei-me com a moa que ficara  minha espera numa distante cidade h mais de quatro anos. Posso agora 
retornar um pouco ao passado e explicar como foi a culpa de minha fiance por eu ainda no ser famoso naquela jovem idade. Um interesse secundrio, embora profundo, 
levara-me em 1884, a obter da Merck uma pequena quantidade do ento pouco conhecido alcalide cocana e estudar sua ao fisiolgica. Quando me achava no meio dessa 
tarefa, surgiu a oportunidade de uma viagem a fim de visitar minha fiance, de quem eu estava afastado h dois anos. Rapidamente encerrei minha pesquisa da cocana 
e contentei-me, em minha monografia sobre o assunto [1884e], em profetizar que logo seriam descobertos outros usos para ela. Sugeri, contudo, a meu amigo Knigstein 
o oftalmologista, que ele devia investigar a questo de saber at que ponto as propriedades anestesiantes da cocana eram aplicveis em doenas dos olhos. Quando 
voltei de minhas frias, verifiquei que no fora ele, mas outro dos meus amigos, Carl Koller (ento em Nova Iorque), com o qual eu tambm falara sobre a cocana, 
quem fizera os experimentos decisivos em olhos de animais e os demonstrara no Congresso Oftalmolgico de Heildelberg. Koller, portanto , considerado, com justia, 
o descobridor da anestesia local pela cocana, que se tornou to importante na cirurgia secundria; mas no guardo nenhum rancor de minha fiance pela interrupo.
         Voltarei agora ao ano de 1886, poca em que me estabeleci em Viena como especialista em doenas nervosas. Cabia-me apresentar um relatrio perante a 'Gesellschaft 
derAerzte' [Sociedade de Medicina] sobre o que vira e aprendera com Charcot. Tive, porm, m recepo. Pessoas de autoridade, como o presidente (Bamberger, o mdico), 
declararam que o que eu disse era inacreditvel. Meynert desafiou-me a encontrar alguns casos em Viena semelhantes queles que eu descrevera e a apresent-los perante 
a sociedade. Tentei faz-lo; mas os mdicos mais antigos, em cujos departamentos encontrei casos dessa natureza, recusaram-se a permitir-me observ-los ou a trabalhar 
neles. Um deles, velho cirurgio, na realidade irrompeu com a exclamao: 'Mas, meu caro senhor, como pode dizer tal tolice? Hysteron (sic) significa o tero. Assim 
como pode um homem ser histrico?' Objetei em vo que o que desejava no era ter meu diagnstico aprovado, mas ter o caso posto  minha disposio. Por fim, fora 
do hospital, deparei-me com umcaso de hemianestesia histrica clssica em um homem, e demonstrei-o perante a 'Gesellschaft der Aerzte' [1886s]. Dessa vez fui aplaudido, 
mas no adquiriram mais interesse por mim. A impresso de que as altas autoridades haviam rejeitado minhas inovaes permaneceu inabalvel; e, com minha histeria 
em homem e minha produo de paralisias histricas por sugesto, vi-me forado a ingressar na Oposio. Como logo depois fui excludo do laboratrio de anatomia 
cerebral e como durante interminveis trimestres no tive onde pronunciar minhas conferncias, afastei-me da vida acadmica e deixei de freqentar as sociedades 
eruditas. Faz uma gerao inteira desde que visitei a 'Gesellschaft der Aerzte'.
         Qualquer um que deseje ganhar para subsistncia com o tratamento de pacientes nervosos deve ser claramente capaz de fazer algo para ajud-los. Meu arsenal 
teraputico continha apenas duas armas, a eletroterapia e o hipnotismo; receitar uma visita a um estabelecimento hidroptico aps uma nica consulta era uma fonte 
insuficiente de renda. Meu conhecimento de eletroterapia provinha do manual de W. Erb [1882], o qual proporcionava instrues detalhadas para o tratamento de todos 
os sintomas de doenas nervosas. Infelizmente, logo fui impelido a ver que seguir essas instrues no era absolutamente de qualquer valia e que o que eu tomara 
por um compndio de observaes exatas era meramente a construo de fantasia. Foi penosa a compreenso de que a obra do maior nome da neuropatologia alem no tinha 
maior relao com a realidade do que um livro de sonhos 'egpcio' vendido em livrarias baratas, mas ajudou-me a livrar-me de outro fragmento de inocente f na autoridade, 
da qual eu ainda no estava livre. Assim, pus de lado meu aparelho eltrico, mesmo antes de Moebius haver salvo a situao, explicando que os xitos do tratamento 
eltrico em distrbios nervosos (at onde havia algum) eram o efeito de sugesto por parte do mdico.
         Com o hipnotismo o caso foi melhor. Enquanto ainda estudante, assistira a uma exibio pblica apresentada por Hansen o 'magnetista' e notara que um dos 
pacientes em quem se fizera a experincia se tornara mortalmenteplido no incio da rigidez catalptica, e assim havia permanecido enquanto aquela condio havia 
durado. Isso me convenceu firmemente da autenticidade dos fenmenos da hipnose. Apoio cientfico foi logo depois dado a esse ponto de vista por Heidenhain, mas no 
impediu os professores de psiquiatria de declararem por muito tempo que o hipnotismo era no somente fraudulento como tambm perigoso, e de considerarem os hipnotizadores 
com desprezo. Em Paris vira o hipnotismo usado livremente como um mtodo para produzir sintomas em pacientes, ento removendo-os novamente. E agora nos chegava a 
notcia de que surgira uma escola em Nancy que fazia uso extenso e marcantemente bem-sucedido da sugesto, com ou sem hipnotismo, para fins teraputicos. Ocorreu 
assim, como algo natural, que, nos primeiros anos de minha atividade como mdico, meu principal instrumento de trabalho, afora os mtodos psicoteraputicos aleatrios 
e no sistemticos, tenha sido a sugesto hipntica.
         Isso implicou, naturalmente, em eu ter abandonado o tratamento de doenas nervosas orgnicas; mas isso foi de pequena importncia, pois, por um lado, as 
perspectivas no tratamento de tais desordens em nenhum caso jamais eram promissoras, enquanto que, por outro lado, na clnica particular de um mdico exercendo suas 
atividades numa grande cidade, a quantidade de tais pacientes era nada em comparao com as multides de neurticos, cujo nmero parecia ainda maior pelo modo como 
eles corriam, com seus males no solucionados, de um mdico a outro. E, independente disso, havia algo de positivamente sedutor em trabalhar com o hipnotismo. Pela 
primeira vez havia um sentimento de haver superado o prprio desamparo, e era altamente lisonjeiro desfrutar da reputao de ser fazedor de milagres. S depois  
que iria descobrir os processos do mtodo. No momento havia apenas dois pontos passveis de queixa: em primeiro lugar, que eu no era capaz de hipnotizar todos os 
pacientes, e, em segundo, que fui incapaz de pr os pacientes individuais num estado to profundo de hipnose como teria desejado. Com a idia de aperfeioar minha 
tcnica hipntica, empreendi uma viagem a Nancy, no vero de 1889, e passei ali vrias semanas. Testemunhei o comovente espetculo do velho Libeault trabalhando 
entre as mulheres e crianas pobres das classes trabalhadoras. Eu era um espectador dos assombrosos experimentos de Bernheim em seus pacientes do hospital, e tive 
a mais profunda impresso da possibilidade de que poderia haver poderosos processos mentais que, no obstante, permaneciam escondidos da conscincia dos homens. 
Pensando que seria instrutivo, persuadi uma de minhas pacientes a acompanhar-me at Nancy. Essa paciente era uma histrica altamente dotada, uma mulher bem-nascida, 
que me fora confiadaporque ningum sabia o que fazer com ela. Pela influncia hipntica eu lhe tornara possvel levar uma existncia tolervel, e sempre fui capaz 
de tir-la da misria de sua condio. Mas ela sempre recaa aps breve tempo, e em minha ignorncia eu atribua isso ao fato de que sua hipnose jamais alcanara 
a fase de sonambulismo com amnsia. Bernheim tentou ento vrias vezes provocar isso, mas ele tambm fracassou. Admitiu-me que seus grandes xitos teraputicos por 
meio da sugesto eram alcanados apenas em sua clnica hospitalar, e no com seus pacientes particulares. Tive muitas conversas estimulantes com ele, e comprometi-me 
a traduzir para o alemo umas duas obras sobre a sugesto e seus efeitos teraputicos.
         Durante o perodo de 1886 a 1891, realizei poucos trabalhos cientficos e no publiquei quase nada. Estava ocupado em estabelecer-me em minha nova profisso 
e em assegurar minha prpria existncia material, bem como a de uma famlia que aumentava rapidamente. Em 1891 apareceu o primeiro dos meus estudos sobre as paralisias 
cerebrais de crianas, escrito em colaborao com meu amigo e assistente, o Dr. Oskar Rie [Freud, 1891a]. Um convite que recebi no mesmo ano, para colaborar em uma 
enciclopdia de medicina levou-me a investigar a teoria da afasia. Esta na poca estava dominada pelos pontos de vista de Wernicke e Lichtheim, que davam nfase 
exclusivamente  localizao. O fruto dessa indagao foi um pequeno livro crtico e especulativo, Zur Auffassung der Aphasien [1891b].
         Agora, no entanto, devo revelar como aconteceu o fato de a pesquisa cientfica mais uma vez ter-se tornado o principal interesse de minha vida.
         II 
         Devo complementar o que acabo de dizer, explicando que bem desde o incio fiz uso da hipnose de outra maneira, independentemente da sugesto hipntica. 
Empreguei-a para fazer perguntas ao paciente sobre a origem de seus sintomas, que em seu estado de viglia ele podia descrever s muito imperfeitamente, ou de modo 
algum. No somente esse mtodo pareceu mais eficaz do que meras ordens ou proibies sugestivas, como tambm satisfazia a curiosidade do mdico, que, afinal de contas, 
tinha o direito de aprender algo sobre a origem da manifestao que ele vinha lutando para eliminar pelo processo montono da sugesto.
         A maneira pela qual cheguei a esse outro processo ocorreu como se segue. Enquanto ainda trabalhava no laboratrio de Brcke, eu travara conhecimento com 
o Dr. Josef Breuer que era um dos mdicos de famlia mais respeitados de Viena, mas que tambm possua um passado cientfico, visto que produzira vrios trabalhos 
de valor permanente sobre a fisiologia da respirao e sobre o rgo do equilbrio. Era um homem de notvel inteligncia e quatorze anos mais velho que eu. Nossas 
relaes logo se tornaram mais estreitas e ele se tornou meu amigo, ajudando-me em minhas difceis circunstncias. Adquirimos o hbito de partilhar todos os nossos 
interesses cientficos. Nessa relao s eu naturalmente tive a ganhar. O desenvolvimento da psicanlise, depois, veio a custar-me sua amizade. No me foi fcil 
pagar tal preo, mas no pude fugir a isso.
         Mesmo antes de dirigir-me a Paris, Breuer me havia falado sobre um caso de histeria que, entre 1880 e 1882, ele havia tratado de maneira peculiar, o qual 
lhe permitira penetrar profundamente na acusao e no significado dos sintomas histricos, isto, portanto, ocorreu numa poca em que os trabalhos de Janet ainda 
pertenciam ao futuro. Ele por vrias vezes me leu trechos da histria clnica, e tive a impresso de que isto contribua mais no sentido de uma compreenso das neuroses 
do que qualquer observao prvia. Tomei a determinao de informar Charcot a respeito dessas descobertas quando cheguei a Paris, e na realidade o fiz. Mas o grande 
homem no teve qualquer interesse pelo meu primeiro esboo do assunto, de modo que nunca mais voltei ao mesmo e deixei que fugisse de minha mente
         Quando do meu retorno a Viena, recorri mais uma vez  observao de Breuer e fiz com que ele me contasse mais alguma coisa sobre o caso. Apaciente tinha 
sido uma jovem de educao e dons incomuns, que adoecera enquanto cuidava do pai, pelo qual era devotamente afeioada. Quando Breuer se encarregou do caso, este 
apresentou um quadro variado de paralisias com contraturas, inibies e estados de confuso mental. Uma observao fortuita revelou ao mdico da paciente que ela 
podia ser aliviada desses estados nebulosos de conscincia se fosse induzida a expressar em palavras a fantasia emotiva pela qual se achava no momento dominada. 
A partir dessa descoberta, Breuer chegou a um novo mtodo de tratamento. Ele a levava a uma hipnose profunda e fazia-a dizer-lhe, de cada vez, o que era lhe oprimia 
a mente. Depois de os ataques de confuso depressiva terem sido separados dessa forma, empregou o mesmo processo para eliminar suas inibies e distrbios fsicos. 
Em seu estado de viglia a moa no podia descrever mais do que outros pacientes como seus sintomas haviam surgido, assim como no podia descobrir ligao alguma 
entre eles e quaisquer experincias de sua vida. Na hipnose ela de pronto descobria a ligao que faltava. Aconteceu que todos os seus sintomas voltavam a fatos 
comovedores que experimentara enquanto cuidava do pai; isto , seus sintomas tinham um significado e eram resduos ou reminiscncias daquelas situaes emocionais. 
Verificou-se na maioria dos casos que tinha havido algum pensamento ou impulso que ela tivera de suprimir enquanto se encontrava  cabeceira de enfermo, e que, em 
lugar dele, como substituto do mesmo, surgira depois o sintoma. Mas em geral o sintoma no era o precipitado de uma nica cena 'traumtica' dessa natureza, mas o 
resultado de uma soma de grande nmero de situaes semelhantes. Quando a paciente se recordava de uma situao dessa espcie de forma alucinatria, sob a hipnose, 
e levava at sua concluso, com uma expresso livre de emoo, o ato mental que ela havia originalmente suprimido, o sintoma era eliminado e no voltava. Por esse 
processo Breuer conseguiu, aps longos e penosos esforos, aliviar a paciente de seus sintomas.
         A paciente se recuperara e continuara bem, e de fato tornara-se capaz de executar trabalhos de importncia. Mas na fase final desse tratamento hipntico 
permaneceu um vu de obscuridade, que Breuer jamais levantou para mim, e no pude compreender por que mantivera por tanto tempo em segredo o que me parecia uma descoberta 
inestimvel, em vez de com ela tornar a cincia mais rica. A questo imediata, contudo,  se era possvel generalizar a partir do que ele encontrara em um caso isolado. 
O estado de coisas que ele descobrira pareceu-me ser de natureza to fundamental que no pude crer que pudesse deixar de estar presente em qualquer caso de histeria, 
caso se tivesse provado ter ele ocorrido num caso isolado. Mas a dvida s podia serresolvida pela experincia. Comecei ento a repetir as pesquisas de Breuer com 
meus prprios pacientes e afinal, especialmente depois que minha visita a Bernheim, em 1889, me havia ensinado as limitaes da sugesto hipntica, no trabalhei 
em outra coisa. Aps observar durante vrios anos que seus achados eram invariavelmente confirmados em cada caso de histeria acessvel a tal tratamento, e depois 
de haver acumulado considervel quantidade de material sob a forma de observaes anlogas s dele, propus-lhe que devamos lanar uma publicao conjunta. De incio 
ele objetou com vee- mncia, mas por fim cedeu, especialmente tendo em vista que, nesse meio tempo, as obras de Janet haviam previsto alguns dos seus resultados, 
tais como o rastreamento de sintomas histricos em fatos da vida do paciente e sua eliminao por meio da reproduo hipntica in statu nascendi. Em 1893 lanamos 
uma comunicao preliminar, 'Sobre o Mecanismo Psquico dos Fenmenos Histricos', e em 1895 seguiu-se nosso livro, Estudos sobre a Histeria.
         Se o relato apresentado por mim at agora levou o leitor a esperar que os Estudos sobre a Histeria devem, em todos os pontos essenciais de seu contedo 
material, ser produto da mente de Breuer,  precisamente isto que sempre tenho sustentado, e aqui tem sido meu objetivo repetir isto. No tocante  teoria formulada 
no livro, fui em parte responsvel, mas em uma medida que hoje no  mais possvel determinar. Essa teoria foi de qualquer maneira despretensiosa e quase no ultrapassou 
a descrio direta das observaes. No procurou estabelecer a natureza da histeria mas apenas lanar luz sobre a origem de seus sintomas. Assim, dava nfase  significao 
da vida das emoes e  importncia de estabelecer distino entre os atos mentais inconscientes e os conscientes (ou, antes, capazes de ser conscientes); introduziu 
um fator dinmico, supondo que um sintoma surge atravs do represamento de um afeto, e um fator econmico, considerando aquele mesmo sintoma como o produto da transformao 
de uma quantidade de energia que de outra maneira teria sido empregada de alguma outra forma. (Esse segundo processo foi descrito como converso.) Breuer referiu-se 
ao nosso mtodo como catrtico; explicou-se sua finalidade teraputica como sendo a de proporcionar que a cota de afeto utilizada para manter o sintoma, que se desencaminhara 
e que, por assim dizer, se tinha tornado estrangulada ali, fosse dirigida para a trilha normal ao longo da qual pudesse obter descarga(ou ab-reao). Os resultados 
prticos do processo catrtico foram excelentes. Seus defeitos, que se tornaram evidentes depois, eram os de todas as formas de tratamento hipntico. Ainda existe 
grande nmero de psicoterapeutas que no foi alm da catarse como Breuer a compreendia e que ainda fala em seu favor. Seu valor como mtodo resumido foi revelado 
novamente por Simmel [1918] em seu tratamento das neuroses de guerra no exrcito alemo, durante a primeira guerra mundial. A teoria da catarse no tinha muito a 
dizer sobre o tema da sexualidade. Nos casos clnicos com que contribu para os Estudos, os papis sexuais desempenhavam certa funo, mas quase no se prestou mais 
ateno a eles do que a outras excitaes emocionais. Breuer escreveu sobre a moa, que desde ento se tornou famosa como sua primeira paciente, que sua faceta sexual 
era extraordinariamente no desenvolvida. Teria sido difcil adivinhar pelos Estudos sobre a Histeria a importncia que tem a sexualidade na etiologia das neuroses.
         A fase de desenvolvimento que ento se seguiu, a transio da catarse para a psicanlise propriamente dita, j foi descrita por mim vrias vezes com tantos 
pormenores que julgo difcil formular quaisquer fatos novos. O evento que constituiu a abertura desse perodo foi o afastamento de Breuer do nosso trabalho comum, 
de modo que me tornei o nico administrador do seu legado. Tinham-se verificado divergncias de opinies entre ns numa fase bem inicial, mas no haviam constitudo 
uma base para nosso afastamento. Ao responder  pergunta sobre quando  que um processo mental se torna patognico - isto , quando  que se torna impossvel lidar 
com ele normalmente - , Breuer preferiu o que poderia ser chamado de teoria fisiolgica: julgava ele que os processos que no podiam encontrar um resultado normal 
eram aqueles que se haviam originado durante estados mentais 'hipnides' inusitados. Isto provocou a questo ulterior da origem desses estados hipnides. Eu, por 
outro lado, estava inclinado a suspeitar da existncia de uma ao mtua de foras e da atuao de intenes e propsitos como os que devem ser observados na vida 
normal. Era assim um caso de 'histeria hipnide' versus 'neuroses de defesa'. Mas divergncias como essa quase no o teriam afastado do assunto, se no tivesse havido 
outros fatores em ao. Um desses foi indubitavelmente que seu trabalho como clnico e mdico de famlia tomava grande parte de seu tempo, e ele no podia, como 
eu, devotar todas as suas foras ao trabalho da catarse. Alm disso, viu-se atingido pela recepo que nosso livro obtivera tanto em Viena como na Alemanha. Sua 
autoconfiana e poderes de resistncia no estavam desenvolvidos to plenamente quanto o resto de sua organizao mental. Quando, por exemplo, os Estudos foram alvo 
do mau acolhimento por parte de Strmpell fui capaz de rir pela falta de compreenso que sua crtica demonstrava, mas Breuer sentiu-se magoado e tornou-se desencorajado. 
Mas o que contribuiu principalmente para sua deciso foi que meu prprio trabalho ulterior conduzia a uma direo com a qual ele achava impossvel reconciliar-se.
         A teoria que havamos tentado construir nos Estudos continuou, como j disse, muito incompleta; em particular, quase no tnhamos tocado no problema da 
etiologia, na questo do terreno onde o processo patognico lana razes. Aprendi ento por experincia prpria, a qual aumentava rapidamente, que no era qualquer 
espcie de excitao emocional que estava em ao por trs dos fenmenos da neurose, mas habitualmente uma excitao de natureza sexual, quer fosse um conflito sexual 
comum, quer o efeito de experincias sexuais anteriores. Eu no estava preparado para essa concluso e minhas expectativas no desempenharam papel algum nela, pois 
eu havia comeado minha investigao de neurticos de maneira bem insuspeitvel. Enquanto escrevia minha 'A Histria do Movimento Psicanaltico' em 1914, vinham-me 
 mente algumas observaes que me tinham sido feitas por Breuer, Charcot e Chrobak, as quais poderiam ter-me conduzido mais cedo a essa descoberta. Mas na ocasio 
em que as ouvi no compreendi o que essas autoridades queriam dizer; na realidade haviam-me dito mais do que elas prprias sabiam ou estavam preparadas para defender. 
O que ouvi delas permaneceu em estado latente e inativo dentro de mim, at que a oportunidade de meus experimentos catrticos o trouxe  luz como uma descoberta 
aparentemente original. Tambm no estava cnscio de que ao derivar a histeria da sexualidade eu estava voltado aos prprios incios da medicina e acompanhando um 
pensamento de Plato. S depois  que vim a saber disso por um ensaio de Havelock Ellis.
         Sob a influncia de minha surpreendente descoberta, dei ento um passo importante. Fui alm do domnio da histeria e comecei a investigar a vidasexual dos 
chamados neurastnicos, que costumavam visitar-me em grande nmero durante minhas horas de consulta. Essa experincia custou-me,  verdade, minha popularidade como 
mdico, mas trouxe-me convices que hoje em dia, quase trinta anos depois, no perderam nada de sua fora. Havia muitos equvocos e mistrios a serem superados, 
mas, uma vez isto feito, veio a ocorrer que em todos esses pacientes graves irregularidades da funo sexual se encontravam presentes. Considerando quo extremamente 
difundidas se acham, por um lado, essas irregularidades e, por outro, a neurastenia, uma freqente coincidncia entre as duas no teria comprovado grande coisa; 
mas havia algo mais nela do que um nico fato insignificante. Uma observao mais detida sugeriu-me que era possvel escolher, dentre a confuso dos quadros clnicos 
encobertos pela designao de neurastenia, dois tipos fundamentalmente diferentes, que podem surgir em qualquer grau de mistura mas que, no obstante, iriam ser 
observados em suas formas puras. Em um dos tipos a manifestao central era o ataque de ansiedade com seus equivalentes, formas rudimentares e sintomas substitutivos 
crnicos; em conseqncia, dei-lhe a denominao de neurose de angstia, limitando o termo neurastenia ao outro tipo. Agora era fcil estabelecer o fato de que cada 
um desses tipos tinha uma anormalidade diferente da vida sexual como seu fator etiolgico correspondente: no primeiro, coitus interruptus, a excitao no consumada 
e a abstinncia sexual, e no segundo, masturbao excessiva e emisses noturnas numerosas demais. Em alguns casos especialmente instrutivos, que haviam revelado 
surpreendentes alteraes no quadro clnico de um tipo para o outro, pde ser provado que se havia verificado uma mudana correspondente no regime sexual subjacente. 
Se fosse possvel pr termo  irregularidade e permitir que seu lugar fosse ocupado pela atividade sexual normal, uma surpreendente melhoria da condio seria a 
recompensa.
         Fui, assim, levado a considerar as neuroses como sendo, sem exceo, perturbaes da funo sexual, sendo as denominadas 'neuroses atuais' a expresso txica 
direta de tais perturbaes e as psiconeuroses sua expresso mental. Minha conscincia mdica sentia-se satisfeita por eu haver chegado a essa concluso. Esperei 
ter preenchido uma lacuna na cincia mdica, a qual, ao lidar com uma funo de to grande importncia biolgica, deixara de levar em conta quaisquer danos alm 
daqueles causados pela infeco ou por leses anatmicas grosseiras. O aspecto mdico do assunto era, alm disso, apoiado pelo fato de que a sexualidade no era 
algo puramente mental. Possua tambm uma faceta somtica sendo tambm possvel atribuir-lheprocessos qumicos especiais, e atribuir a excitao sexual  presena 
de algumas substncias especficas, embora desconhecidas no momento. Deve tambm ter havido alguma boa razo pela qual as verdadeiras neuroses espontneas no se 
assemelhavam a nenhum grupo de doenas mais estreitamente do que as manifestaes de intoxicao e abstinncia, que so produzidas pela administrao ou privao 
de certa substncias txicas, ou do que o bcio exoftlmico, que, conforme se sabe, depende do produto da glndula tireide.
         Desde aquela poca no tive oportunidade de voltar  pesquisa das 'neuroses atuais' nem essa parte do meu trabalho foi continuada por outro. Se hoje lano 
um olhar retrospectivo aos meus primeiros achados , eles me surpreendem como sendo os primeiros delineamentos toscos daquilo que  provavelmente um assunto muito 
mais complicado. Mas no todo ainda me parecem vlidos, Teria ficado muito satisfeito se tivesse sido capaz, posteriormente, de proceder a um exame psicanaltico 
de mais alguns casos de neurastenia juvenil, mas infelizmente no surgiu a ocasio. A fim de evitar concepes errneas, gostaria de esclarecer que estou longe de 
negar a existncia de conflitos mentais e de complexos neurticos na neurastenia. Tudo que estou afirmando  que os sintomas desses pacientes no so mentalmente 
determinados ou removveis pela anlise, mas devem ser considerados como conseqncias txicas diretas de processos qumicos sexuais perturbados.
         Durante os anos que se seguiram  publicao dos Estudos, tendo chegado a essas concluses sobre o papel desempenhado pela sexualidade na etiologia das 
neuroses, li alguns artigos sobre o assunto perante vrias sociedades mdicas, mas s me defrontei com incredulidade e contradio. Breuer fez o que pde, por mais 
algum tempo, para lanar na balana o grande peso de sua influncia pessoal a meu favor, mas nada conseguiu, sendo fcil constatar que tambm ele se esquivou de 
reconhecer a etiologia sexual das neuroses. Ele poderia ter-me esmagado ou pelo menos me desconcertado, apontando sua prpria primeira paciente, em cujo caso os 
fatores sexuais ostensivamente no haviam de forma alguma desempenhado qualquer papel.Mas nunca o fez, e no pude compreender por que agiu dessa forma, at que vim 
a interpretar o caso corretamente e a reconstituir, a partir de algumas observaes que fizera, a concluso de seu tratamento desse mesmo caso. Depois que o trabalho 
de catarse parecia estar concludo, a moa subitamente desenvolvera uma condio de 'amor transferencial' ele no havia feito a ligao disso com sua doena e ento 
se afastara desalentado. Evidentemente foi-lhe penoso ser lembrado desse aparente contretemps. Sua atitude em relao a mim oscilou por algum tempo entre admirao 
e crtica acerba; depois surgiram dificuldades acidentais, como nunca deixam de surgir numa situao tensa, e nos afastamos.
         Outro resultado de eu haver empreendido o estudo de perturbaes nervosas em geral foi que alterei a tcnica da catarse. Abandonei o hipnotismo e procurei 
substitu-lo por algum outro mtodo, porque estava ansioso por no ficar ficar restringido ao tratamento de condies histeriformes. Uma maior experincia tambm 
dera lugar a duas graves dvidas em minha mente quanto ao emprego do hipnotismo, mesmo como um meio para a catarse. A primeira foi que at mesmo os resultados mais 
brilhantes estavam sujeitos a ser de sbito eliminados, se minha relao pessoal com o paciente viesse a ser perturbada. Era verdade que seriam restabelecidos se 
uma reconciliao pudesse ser efetuada, mas tal ocorrncia demonstrou que a relao emocional pessoal entre mdico e paciente era, afinal de contas, mais forte que 
todo o processo catrtico, e foi precisamente esse fator que escapava a todos os esforos de controle. E certo dia tive a experincia que me indicou, sob a luz mais 
crua, o que eu h muito tinha suspeitado. Essa experincia ocorreu com uma de minhas pacientes mais dceis, com a qual o hipnotismo me permitia obter os resultados 
mais maravilhosos e com quem estava comprometido a minorar os sofrimentos, fazendo remontar seus ataques de dor a suas origens. Certa ocasio, ao despertar, lanou 
os braos em torno do meu pescoo. A entrada inesperada de um empregado nos livrou de uma discusso penosa, mas a partir daquela ocasio houve um entendimento tcito 
de que o tratamento hipntico devia ser interrompido. Fui bastante modesto em no atribuir o fato aos meus prprios atrativos pessoais irresistveis, e senti que 
ento havia apreendido a natureza do misterioso elemento que se achava em ao por trs do hipnotismo. A fim de exclu-lo, ou de qualquer maneira isol-lo, foi necessrio 
abandonar o hipnotismo.
         Mas o hipnotismo fora de imensa ajuda no tratamento catrtico, ampliando o campo de conscincia da paciente e pondo ao seu alcance conhecimentos que no 
possua em sua vida de viglia. No pareceu ser tarefa fcil encontrar um substituto para os mesmos. Enquanto me encontrava nesse estado de perplexidade, veio em 
meu auxlio a lembrana de uma experincia que muitas vezes testemunhei quando estava com Bernheim. Quando o paciente despertava do seu estado de sonambulismo parecia 
haver perdido toda recordao do que tinha acontecido enquanto se encontrava naquele estado. Mas Bernheim afirmava que a lembrana se achava presente da mesma maneira; 
e se insistia para que o paciente se recordasse, se afirmava que o paciente sabia de tudo e que tinha apenas de falar, e se ao mesmo tempo punha a mo na testa do 
paciente, ento as lembranas esquecidas de fato voltavam, de incio de forma hesitante, mas finalmente numa torrente e com clareza completa. Determinei que agiria 
da mesma forma . Meus pacientes, refleti, devem de fato 'saber' todas as coisas que at ento s tinham sido tornadas acessveis a eles na hipnose; e garantias e 
encorajamento da minha parte, auxiliados talvez pelo toque da minha mo, teriam, pensei, o poder de forar os fatos e ligaes esquecidos na conscincia. Sem dvida, 
isto parecia um processo mais laborioso do que levar os pacientes  hipnose, mas poderia resultar como sendo altamente instrutivo. Assim, abandonei o hipnotismo, 
conservando apenas meu hbito de exigir do paciente que ficasse deitado num sof enquanto eu ficava sentado ao lado dele, vendo-o, mas sem que eu fosse visto. 
         III 
         Minhas expectativas foram correspondidas; livrei-me do hipnotismo. Mas, justamente com a mudana de tcnica, o trabalho de catarse assumiu novo aspecto. 
A hipnose interceptara da viso uma ao recproca de foras que surgiam agora  vista e cuja compreenso proporcionava um fundamento slido  minha teoria.
         Como ocorrera que os pacientes se haviam esquecido de tantos dos fatos de suas vidas externas e internas mas podiam, no obstante, record-los se uma tcnica 
especfica fosse aplicada? A observao forneceu uma resposta exaustiva a essa pergunta. Tudo que tinha sido esquecido de alguma forma ou de outra fora aflitivo; 
fora ou alarmante ou penoso ou vergonhoso pelos padres da personalidade do indivduo. Foi impossvel no concluir que isto foi precisamente assim porque fora esquecido 
- isto , porque no tinha permanecido consciente. A fim de torn-lo consciente novamente apesar disto, foi necessrio superar algo que lutava contra alguma coisa 
no paciente, foi necessrio envidar esforos da parte do prprio paciente a fim de compeli-lo a recordar-se. A dose de esforo do mdico variava em diferentes casos; 
aumentava em proporo direta com a dificuldade do que tinha de ser lembrado. O dispndio de fora por parte do mdico era evidentemente a medida de uma resistncia 
por parte do paciente. Bastou traduzir em palavras o que eu prprio havia observado e fiquei de posse da teoria da represso.
         Ento foi fcil reconstituir o processo patognico. Fiquemos em um exemplo simples no qual um impulso especfico surgira na mente do indivduo mas se defrontava 
com a oposio de outros impulsos poderosos. Devamos ter esperado o conflito mental que ento apareceu para obedecer ao seguinte curso. As duas dinmicas - para 
nossa finalidade atuais denominemo-las 'o instinto' e 'a resistncia' - lutavam uma com a outra  plena luz da conscincia, at que o instinto era repudiado e a 
catexia de energia era retirada de sua impulso. Isto teria sido a soluo normal. Em uma neurose, contudo (por motivos que eram ainda desconhecidos), o conflito 
encontrou um resultado diferente. O ego recuou, por assim dizer, na sua primeira coliso com o impulso instintual objetvel; impediu o impulso de ter acesso  conscincia 
e  descarga motora direta, mas ao mesmo tempo o impulso reteve sua catexia integral de energia. Denominei esse processo de represso; era uma novidade e nada semelhante 
a ele jamais fora reconhecido na vida mental. Era obviamente um mecanismo primrio de defesa, comparvel a uma tentativa de fuga, e era apenas um percurso do julgamento 
de condenao normal desenvolvido depois. O primeiro ato de represso envolvia outras conseqncias. Em primeiro lugar, o ego era obrigado a proteger-se contra a 
constante ameaa de uma renovada investida por parte do impulso reprimido, fazendo um dispndio permanente de energia, uma anticatexia, e assim se empobrecia. Por 
outro lado, o impulso reprimido, que era agora inconsciente, era capaz de encontrar meios de descarga e de satisfao substituda por caminhos indiretos e de assim 
levar toda a finalidade de represso a nada. No caso da histeria de converso, o caminho indireto levava  inervao somtica; o impulso reprimido irrompia em um 
ponto ou outro e produzia sintomas. Os sintomas eram assim resultado de uma conciliao, pois embora fossem satisfaes substitutivas eram distorcidos e desviados 
de sua finalidade devido  resistncia do ego.
         A teoria da represso tornou-se a pedra angular da nossa compreenso das neuroses. Um ponto de vista diferente teve ento de ser adotado no tocante  tarefa 
da terapia. Seu objetivo no era mais 'ab-reagir' um afeto que se desencaminhara, mas revelar represses e substitu-las por atos de julgamento que podiam resultar 
quer na aceitao, quer na condenao do que fora anteriormente repudiado. Demonstrei meu reconhecimento da nova situao no denominando mais meu mtodo de pesquisa 
e de tratamento de catarse, mas de psicanlise.
          possvel considerar a represso como um centro e reunir todos os elementos da teoria psicanaltica em relao a ele. Mas antes de proceder dessa forma 
tenho outro comentrio a tecer, de natureza polmica. De acordo com o ponto de vista de Janet, uma mulher histrica era uma criatura infeliz que, por causa de uma 
fraqueza de constituio, era incapaz de manter reunidos seus atos mentais e por esse motivo ela foi vtima de uma diviso (splitting) da mente e de uma restrio 
do campo de sua conscincia. O resultado de pesquisas psicanalticas, por outro lado, revelou que essas manifestaes eram a decorrncia de fatores dinmicos - de 
conflito mental e de represso. Essa distino parece-me bastante exagerada para pr termo  cansativa repetio do ponto de vista de que qualquer coisa de valor 
na psicanlise  simplesmente tomada de emprstimo s idias de Janet. O leitor ter aprendido pelo meu relato que historicamente e psicanlise  de todo independente 
das descobertas de Janet, do mesmo modo que em seu contedo diverge delas e vai muito alm da mesmas. As obras de Janet jamais teriam tido as implicaes que tornaram 
a psicanlise de tal importncia para as cincias mentais e que fizeram com que ela atrasse tal interesse universal. Sempre tratei o prprio Janet com respeito, 
visto que suas descobertascoincidiram em considervel medida com as de Breuer, que foram feitas antes, mas que vieram a lume depois das dele. Quando, porm, no curso 
do tempo a psicanlise se tornou objeto de debates na Frana, Janet portou-se mal, mostrou ignorncia dos fatos e utilizou feios argumentos. E finalmente revelou-se 
aos meus olhos, e destruiu o valor de seu prprio trabalho, declarando que quando falara de atos mentais 'inconscientes' nada quisera dizer com essa frase - no 
havia passado de uma faon de parler.
         Mas o estudo das represses patognicas e de outras manifestaes que ainda tm de ser mencionadas compeliu a psicanlise a adotar o conceito do 'inconsciente' 
de maneira sria. A psicanlise considerava tudo de ordem mental como sendo, em primeiro lugar, inconsciente; a qualidade ulterior de 'conscincia' tambm pode estar 
presente ou ainda pode estar ausente. Isto naturalmente provocou uma negao por parte dos filsofos, para os quais 'consciente' e 'mental' eram idnticos, e que 
protestaram que no podiam conceber um absurdo como o 'mental inconsciente'. Isto, contudo, no pde ser evitado, e essa idiossincrasia dos filsofos no merece 
outra coisa seno ser posta de lado com um dar de ombros. A experincia (adquirida de material patolgico, que os filsofos ignoravam) da freqncia e do poder de 
impulsos dos quais nada se sabia diretamente, e cuja existncia teve de ser inferida como algum fato do mundo externo, no deixou qualquer alternativa em aberto. 
Pode-se frisar, incidentalmente, que isso era o mesmo que algum tratar de sua vida mental como sempre se tratara de outras pessoas. No se hesitou em atribuir processos 
mentais a outras pessoas, embora no se tivesse qualquer conscincia imediata dos mesmos e somente se pudesse inferi-los de suas palavras e aes. Mas o que permanecia 
vlido para outros indivduos devia ser aplicvel a si prprio. Qualquer um que tentasse levar o argumento mais para frente e concluir do mesmo que os prprios conceitos 
ocultos de algum pertenciam realmente a uma segunda conscincia, defrontar-se-ia com o conceito de uma 'conscincia inconsciente' - e isso dificilmente seria prefervel 
 suposio de um 'mental inconsciente'. Se, por outro lado, algum declarasse, como alguns outros filsofos, que se estava preparando para levar em conta as manifestaes 
patolgicas, mas que os processos subjacentes aos mesmos no devem ser descritos como mentais mas como 'psicides', a diferena de opinio degeneraria numa disputa 
estril quanto a palavras, embora mesmo assim a convenincia decidisse favoravelmente por manter a expresso 'mental inconsciente'. A outra questo quanto natureza 
final desse inconsciente no  mais sensvel ou lucrativa do que a mais antiga quanto  natureza do consciente.
         Seria mais difcil explicar concisamente como veio a acontecer que a psicanlise fizesse outra distino no inconsciente e o separasse em um pr-consciente 
e em um inconsciente propriamente ditos. Basta dizer que pareceu ser um caminho natural complementar da experincia com hipteses que estavam destinadas a facilitar 
o manuseio do material, e que estavam relacionadas com assuntos que poderiam no ser objeto de observao imediata. O mesmssimo mtodo  adotado pelas cincias 
mais antigas. A subdiviso do inconsciente faz parte de uma tentativa de retratar o aparelho da mente como sendo constitudo de grande nmero de instncias ou sistemas, 
cujas relaes mtuas so expressas em termos espaciais, sem contudo implicarem qualquer ligao com a verdadeira anatomia do crebro. (Descrevia esse ponto como 
o mtodo topogrfico de abordagem.) Idias como estas fazem parte de uma superestrutura especulativa da psicanlise, podendo qualquer parcela da mesma ser abandonada 
ou modificada, sem perda ou pesar, momento em que a sua insuficincia tenha sido provada. Mas resta ainda muita coisa a ser descrita que est mais perto da verdadeira 
experincia.
         J mencionei que minha investigao das causas precipitantes e subjacentes das neuroses levou-me cada vez com maior freqncia a conflitos entre os impulsos 
sexuais do indivduo e suas resistncias  sexualidade. Em minha busca das situaes patognicas, nas quais as represses de sexualidade se haviam estabelecido e 
nas quais os sintomas, como substitutos do que foi reprimido, tinham tido sua origem, fui levado cada vez mais de volta  vida do paciente e terminei chegando aos 
primeiros anos de sua infncia. O que os poetas e os estudiosos da natureza humana sempre haviam assegurado veio a ser verdade: as impresses daquele perodo inicial 
de vida, embora estivessem na sua maior parte enterradas na amnsia, deixaram vestgios indelveis no crescimento do indivduo e, em particular, fundamentaram a 
disposio para qualquer distrbio nervoso que viesse a sobrevir. Mas visto que essas experincias da infncia sempre se preocuparam com as excitaes sexuais e 
a reao contra elas, encontrei-me diante do fato da sexualidade infantil - mais uma vez uma novidade e uma contradio de um dos mais acentuados preconceitos humanos. 
A infncia era encarada como 'inocente' e isenta dos intensos desejos do sexo, e no se pensava que a luta contra o domnio da 'sexualidade' comeasse antes da agitada 
idade da puberdade. Tais atividades sexuais ocasionais, conforme tinha sido impossvel desprezar nas crianas, eram postas de lado como indcios de degenerescncia 
ou de depravao prematura, ou como curiosa aberrao da natureza. Poucos dos achados da psicanlise tiveram tanta contestao universal ou despertaram tamanha exploso 
de indignao como a afirmativa de que a funo sexual se inicia no comeo da vida e revela sua presena por importantes indcios mesmo na infncia. E contudo nenhum 
outro achado da anlise pode ser demonstrado de maneira to fcil e completa.
         Antes de avanar ainda mais na questo da sexualidade infantil, devo mencionar um erro no qual incidi por algum tempo e que bem poderia ter tido conseqncias 
fatais para todo o meu trabalho. Sob a influncia do mtodo tcnico que empreguei naquela poca, a maioria dos meus pacientes reproduzia de sua infncia cenas nas 
quais eram sexualmente seduzidos por algum adulto. Com pacientes do sexo feminino o papel do sedutor era quase sempre atribudo ao pai delas. Eu acreditava nessas 
histrias e, em conseqncia, supunha que havia descoberto as razes da neurose subseqente nessas experincias de seduo sexual na infncia. Minha confiana foi 
fortalecida por alguns casos nos quais as relaes dessa natureza com um pai, tio ou irmo haviam continuado at uma idade em que se devia confiar na lembrana. 
Se o leitor sentir-se inclinado a balanar a cabea pela minha credulidade, no poderei de todo censur-lo, embora possa alegar que isto ocorreu numa poca em que 
intencionalmente conservava minha faculdade crtica em suspenso, a fim de preservar uma atitude no tendenciosa e receptiva em relao s muitas novidades que despertavam 
minha ateno diariamente. Quando, contudo, fui finalmente obrigado a reconhecer que essas cenas de seduo jamais tinham ocorrido e que eram apenas fantasias que 
minhas pacientes haviam inventado ou que eu prprio talvez houvesse forado nelas, fiquei por algum tempo inteiramente perplexo. De igual modo, minha confiana em 
minha tcnica e nos seus resultados sofreu rude golpe; no se podia discutir que eu havia chegado a essas cenas por um mtodo tcnico que eu considerava correto, 
e seu tema estava indubitavelmente relacionado com os sintomas dos quais partira minha pesquisa.Quando me havia refeito, fui capaz de tirar as concluses certas 
da minha descoberta: a saber, que os sintomas neurticos no estavam diretamente relacionados com fatos reais, mas com fantasias impregnadas de desejos, e que, no 
tocante  neurose, a realidade psquica era de maior importncia que a realidade material. Mesmo agora no creio que forcei as fantasias de seduo aos meus pacientes, 
que as 'sugeri'. Eu tinha de fato tropeado pela primeira vez no complexo de dipo, que depois iria assumir importncia to esmagadora, mas que eu ainda no reconhecia 
sob seu disfarce de fantasia. Alm disso, a seduo durante a infncia retinha certa parcela, embora mais humilde, na etiologia das neuroses. Mas os sedutores vieram 
a ser, em geral, crianas mais velhas.
         Ver-se-, ento, que meu erro foi o mesmo que seria cometido por algum que acreditasse que a histria lendria dos primeiros reis de Roma (segundo narrada 
por Lvio) era uma verdade histrica em vez daquilo que de fato ela  - uma reao contra a lembrana de tempos e circunstncias que foram insignificantes e ocasionalmente, 
talvez, inglrias. Quando o erro foi esclarecido, o caminho para o estudo da vida sexual das crianas estava desvendado. Tornou-se assim possvel aplicar a psicanlise 
a outro campo da cincia e utilizar seus dados como meio de descobrir um novo conhecimento biolgico.
         A funo sexual, conforme verifiquei, encontra-se em existncia desde o prprio incio da vida do indivduo, embora no comeo esteja ligada a outras funes 
vitais e no se torne independente delas seno depois; ela tem de passar por um longo e complicado processo de desenvolvimento antes de tornar-se aquilo com que 
estamos familiarizados como sendo a vida sexual normal do adulto. Comea por manifestar-se na atividade de todo um grande nmero de instintos componentes. Estes 
esto na dependncia de zonas ergenas do corpo; alguns deles surgem em pares de impulsos opostos (como o sadismo e o masoquismo ou os impulsos de olhar e de ser 
olhado); atuam independentemente uns dos outros numa busca de prazer e encontram seu objetivo, na maior parte, no corpo do prprio indivduo. Assim, de incio a 
funo sexual  no centralizada e predominantemente auto-ertica. Depois, comeam a surgir snteses nela; uma primeira fase de organizao  alcanada sob o domnio 
dos componentes orais, e segue-se uma fase anal-sdica, e s depois de a terceira fase ter sido finalmente alcanada  que a funo sexual comea a servir aos fins 
de reproduo. No curso desse processo de desenvolvimento, grande nmero de elementos dos vrios instintos componentes vm a ser inteis para essa ltima finalidade 
e so, portanto, deixados de lado ou utilizados para outros fins, enquanto outros so desviados de seus objetivos e levados para a organizao genital. Dei o nome 
de libido  energia dos instintos sexuais e somente a essa forma de energia. Fui depois impelido a supor que a libido nem sempre passa pelo seu recomendado curso 
de desenvolvimento de maneira suave. Como resultado quer da excessiva fora de certos componentes, quer de experincias que implicam uma satisfao prematura, fixaes 
da libido podem ocorrer em vrios pontos no curso de seu desenvolvimento. Se subseqentemente verificar-se uma represso, a libido reflui a esses pontos (um processo 
descrito como regresso), sendo a partir deles que a energia irrompe sob a forma de um sintoma. Depois tornou-se ainda claro que a localizao do ponto de fixao 
 que determina a escolha da neurose, isto , a forma pela qual a doena subseqente vem a surgir.
         O processo de chegar a um objeto, que desempenha papel to importante na vida mental, ocorre juntamente com a organizao da libido. Aps a fase do auto-erotismo, 
o primeiro objeto de amor no caso de ambos os sexos  a me, afigurando-se provvel que, de incio, uma criana no distingue o rgo de nutrio da me do seu prprio 
corpo. Depois, mas ainda nos primeiros anos da infncia, a relao conhecida como complexo de dipo se torna estabelecida: os meninos concentram seus desejos sexuais 
na me e desenvolvem impulsos hostis contra o pai, como sendo rival, enquanto adotam atitude anloga. Todas as diferentes variaes e conseqncias do complexo de 
dipo so importantes, e a constituio inatamente bissexual dos seres humanos faz-se sentir e aumenta o nmero de tendncias simultaneamente ativas. Para as crianas 
no ficam claras durante muito tempo as diferenas entre os sexos, e durante esse perodo de pesquisas sexuais produzem teorias sexuais tpicas que, estando circunscritas 
pelo fato de no estar completo o prprio desenvolvimento fsico de seus autores, constituem uma mescla de verdade e erro, e deixam de solucionar os problemas da 
vida sexual (o enigma da Esfinge - isto , a questo de onde vm os bebs). Vemos, ento, que a primeira escolha de objeto de uma criana  incestuosa. Todo o curso 
do desenvolvimento que descrevi  percorrido rapidamente, porquanto a feio mais notvel da vida sexual do homem  seu desencadeamento bifsico, seu desencadeamento 
em duas ondas, com um intervalo entre elas, que atinge um primeiro clmax no quarto ou quinto ano da vida de uma criana. Mas a partir da essa eflorescncia prematura 
da sexualidade desaparece; os impulsos sexuais que mostraram tanta vivacidade so superados pela represso, e segue-se um perodo de latncia, que dura at a puberdade 
e durante o qual as formaes reativas de moralidade vergonha e repulsa so estruturadas. De todas as criaturas vivas somente o homem parece revelar esse desencadeamento 
bifsico do crescimento sexual, e talvez seja ele o determinante biolgico de uma predisposio a neuroses. Na puberdade, os impulsos e as relaes de objeto dos 
primeiros anos de uma criana se tornam reanimados e entre eles os laos emocionais do seu complexo de dipo. Na vida sexual da puberdade, verifica-se uma luta entre 
os anseios dos primeiros anos e as inibies do perodo de latncia. Antes de seu desenvolvimento sexual infantil, estabelece-se certa organizao genital, mas somente 
os rgos genitais do indivduo masculino desempenham nela seu papel, permanecendo os rgos sexuais femininos no revelados. (Descrevi isso como o perodo de primazia 
flica.) Nessa fase o contraste entre os sexos no se inicia em termos de 'macho' ou 'fmea', mas de possuir um 'pnis' ou de ser 'castrado'. O complexo de castrao 
que surge nesse sentido  da mais profunda importncia na formao tanto do carter quanto das neuroses.
         A fim de tornar mais inteligvel esse relato resumido de minhas descobertas sobre a vida sexual do homem, enfeixei concluses s quais cheguei em datas 
diferentes e que incorporei,  guisa de suplemento ou correo, nas sucessivas edies de minha obra Trs Ensaios sobre a Teoria da Sexualidade (1905d). Espero que 
tenha sido fcil apreender a natureza de minha ampliao ( qual se atribuiu tanta nfase e que provocou tanta oposio) do conceito da sexualidade. Essa extenso 
 de natureza dplice. Em primeiro lugar, a sexualidade est divorciada da sua ligao por demais estreita com os rgos genitais, sendo considerada como uma funo 
corprea mais abrangente, tendo o prazer como a sua meta e s secundariamente vindo a servir s finalidades de reproduo. Em segundo lugar, os impulsos sexuais 
so considerados como incluindo todos aqueles impulsos meramente afetuosos e amistosos aos quais o uso aplica a palavra extremamente ambgua de 'amor'. No considero, 
contudo, que essas extenses sejam inovaes, mas antes restauraes: significam a eliminao de limitaes inoportunas do conceito ao qual nos permitimos ser conduzidos.
         O destacar a sexualidade dos rgos genitais apresenta a vantagem de nos permitir levar as atividades sexuais da crianas e dos pervertidos para o mesmo 
mbito que o dos adultos normais. As atividades sexuais das crianas at agora foram inteiramente desprezadas e, embora as dos pervertidos tenham sido reconhecidas, 
foram-no com indignao moral e sem compreenso. Encaradas do ponto de vista psicanaltico, mesmo as perverses mais excntricas e repelentes so explicveis como 
manifestaes da primazia dos rgos genitais e que se acham agora em busca do prazer por sua prpria conta, como nos primeiros dias do desenvolvimento da libido. 
A mais importante dessas perverses, a homossexualidade, quase no merece esse nome. Ela pode ser remetida  bissexualidade constitucional de todos os seres humanos 
e aos efeitos secundrios da primazia flica. A psicanlise permite-nos apontar para um vestgio ou outro de uma escolha homossexual em todos os indivduos. Se eu 
descrevi as crianas como 'polimorficamente perversas' estava apenas empregando uma terminologia que era geralmente corrente; no estava implcito qualquer julgamento 
moral. A psicanlise no se preocupa em absoluto com tais julgamentos de valor.
         A segunda da minhas alegadas extenses do conceito de sexualidade encontra sua justificativa no fato revelado pela pesquisa psicanaltica de que todos esses 
impulsos afetuosos foram originalmente de natureza sexual, mas se tornaram inibidos em sua finalidade ou sublimados. A maneira como os instintos sexuais podem assim 
ser influenciados e desviados lhes permite ser empregados para atividades culturais de toda espcie, para as quais, realmente, prestam as mais importantes contribuies.
         Minhas surpreendentes descobertas quanto  sexualidade das crianas foram efetuadas, no primeiro exemplo, mediante a anlise de adultos. Mas depois (mais 
ou menos a partir de 1908) tornou-se possvel confirm-las plenamente e em todos os detalhes por observaes diretas em crianas. Na realidade,  to fcil algum 
se convencer das atividades sexuais regulares, que no se pode deixar de perguntar, atnito, como a raa humana pode ter conseguido desprezar os fatos e manter por 
tanto tempo a lenda impregnada de desejo da assexualidade da infncia. Essa surpreendente circunstncia deve estar ligada  amnsia que, na maioria dos adultos, 
oculta sua prpria infncia.
         IV 
         As teorias da resistncia e da represso, do inconsciente, da significncia etiolgica da vida sexual e da importncia das experincias infantis - tudo 
isto forma os principais constituintes da estrutura terica da psicanlise. Nestas pginas, infelizmente, pude apenas descrever os elementos separados e no suas 
interligaes e sua relao uns com os outros. Mas sou obrigado agora a voltar s alteraes que gradativamente se verificam na tcnica do mtodo analtico.
         Os meios que primeiramente adotei para superar a resistncia do paciente, pela insistncia e pelo estmulo, tiveram de ser indispensveis para a finalidade 
de proporcionar-me um primeiro apanhado geral que era de se esperar. Mas em ltima anlise veio a ser um esforo demasiado de ambos os lados, e alm disso parecia 
aberto a certas crticas evidentes. Deu, portanto, lugar a outro que era, em certo sentido, seu oposto. Em vez de incitar o paciente a dizer algo sobre algum assunto 
especfico, pedi-lhe ento que se entregasse a um processo de associao livre - isto , que dissesse o que lhe viesse  cabea, enquanto deixasse de dar qualquer 
orientao consciente a seus pensamentos. Era essencial, contudo, que ele se obrigasse a informar literalmente tudo que ocorresse  sua autopercepo, e no desse 
margem a objees crticas que procurassem pr certas associaes de lado, com base no fundamento de que no eram irrelevantes ou inteiramente destitudas de sentido. 
No houve necessidade de repetir explicitamente a exigncia de franqueza por parte do paciente ao relatar seus pensamentos, pois era precondio do tratamento analtico 
inteiro.
         Poder parecer surpreendente que esse mtodo de associao livre, levado a cabo sob a observao da regra fundamental da psicanlise, deva ter alcanado 
o que dele se esperava, a saber, o levar at a conscincia o material reprimido que era retido por resistncias. Devemos, contudo, ter em mente que a associao 
livre no  realmente livre. O paciente permanece sob a influncia da situao analtica, muito embora no esteja dirigindo suas atividades mentais para um assunto 
especfico. Seremos justificados ao presumir que nada lhe ocorrer que no tenha alguma referncia com essa situao. Sua resistncia contra a reproduo do material 
reprimido ser agora expressa de duas maneiras. Em primeiro lugar, ser revelada por objees crticas; e foi para lidar com tais objees que a regra fundamental 
da psicanlise foi inventada. Mas se o paciente observar essa regra e assim superar suas reservas, a resistncia encontrar outro meio de expresso. Tal regra a 
dispor de tal forma que o prprio material reprimido jamais ocorrer ao paciente, mas somente algo que se aproxima dele de maneira alusiva;e quanto maior a resistncia, 
mais remota da idia real, da qual o analista se acha  procura, estar a associao substitutiva que o paciente tem de informar. O analista, que escuta serenamente, 
mas sem qualquer esforo constrangido,  torrente de associaes e que, pela sua experincia, possui uma idia geral do que esperar, pode fazer uso do material trazido 
 luz pelo paciente de acordo com duas possibilidades. Se a resistncia for leve, ele ser capaz, pelas aluses do paciente, de inferir o prprio material inconsciente; 
se a resistncia for mais forte, ele ser capaz de reconhecer seu carter a partir das associaes, quando parecerem tornar-se mais remotas do tpico em mo, e o 
explicar ao paciente. A descoberta da resistncia, contudo constitui o primeiro passo no sentido de super-la. Assim, o trabalho de anlise implica uma arte de 
interpretao, cujo manuseio bem-sucedido pode exigir tato e prtica, mas que no  difcil de adquirir. Mas no  apenas na poupana de trabalho que o mtodo de 
associao livre possui vantagem sobre o anterior. Ele expe o paciente  menor dose possvel de compulso, jamais permitindo que se perca contato com a situao 
corrente real, e garante em grande medida que nenhum fator da estrutura da neurose seja desprezado e que nada seja introduzido nela pelas expectativas do analista. 
Deixa-se ao paciente, em todos os pontos essenciais, que determine o curso da anlise e o arranjo do material; qualquer manuseio sistemtico de sintomas ou complexos 
especficos torna-se desse modo impossvel. Em completo contraste com o que aconteceu com o hipnotismo e com o mtodo de inicitao, o material inter-relacionado 
aparece em diferentes tempos e em pontos diferentes no tratamento. Portanto, para um espectador - embora de fato no deva haver nenhum - um tratamento analtico 
pareceria inteiramente obscuro.
         Outra vantagem do mtodo  que jamais precisa ser decomposto. Deve, teoricamente, sempre ser possvel ter uma associao, contanto que no se estabeleam 
quaisquer condies quanto ao seu carter. Contudo, h um nico caso no qual de fato ocorre essa diviso com absoluta regularidade; por sua prpria natureza sui 
generis, contudo, esse caso tambm pode ser interpretado.
         Chego agora  descrio de um fator que acrescenta uma feio essencial ao meu quadro de anlise, e que pode reivindicar, tanto tcnica quanto teoricamente, 
ser considerado como de importncia primacial. Em todo tratamento analtico surge, sem interferncia do mdico, uma intensa relao emocional entre o paciente e 
o analista, que no deve ser explicada pela situao real. Pode ser de carter positivo ou negativo, e pode variar entre os extremos de um amor apaixonado, inteiramente 
sensual, e a expresso infrene de desafio e dio exacerbados. Essa transferncia - para design-la pelo seu nome abreviado - logo substitui na mente do paciente 
o desejo de ser curado, e, enquanto for afeioada e moderada, torna-se o agente da influncia do mdico e nem mais nem menos do que a mola mestra do trabalho conjunto 
de anlise. Posteriormente, quando se tiver tornado arrebatada ou tiver sido convertida em hostilidade, torna-se o principal instrumento da resistncia. Poder ento 
acontecer que paralise os poderes de associao do paciente e ponha em perigo o xito do tratamento. Contudo, seria insensato fugir  mesma, pois uma anlise sem 
transferncia  uma impossibilidade. No se deve supor, todavia, que a transferncia seja criada pela anlise e no ocorra independente dela. A transferncia  meramente 
descoberta e isolada pela anlise. Ela  um fenmeno universal da mente humana, decide o xito de toda influncia mdica, e de fato domina o todo das relaes de 
cada pessoa com seu ambiente humano. Podemos facilmente reconhec-la como o mesmo fator dinmico que os hipnotistas donominaram de 'sugestionabilidade', que  o 
agente do rapport hipntico e cujo comportamento imprevisvel levou tambm a dificuldades com o mtodo catrtico. Quando no existe nenhuma inclinao para uma transferncia 
de emoo tal como esta, ou quando se torna completamente negativa, como acontece na demncia precoce ou na parania, ento tambm no h qualquer possibilidade 
de influenciar o paciente por meios psicolgicos.
          perfeitamente verdade que a psicanlise, como outros mtodos psicoteraputicos, emprega o instrumento da sugesto (ou transferncia). Mas a diferena 
 esta: na anlise no  permitido desempenhar o papel decisivo na determinao dos resultados teraputicos. Utiliza-se, ao contrrio, induzir o paciente a realizar 
um trabalho psquico - a superao de suas resistncias  transferncia - que implica uma alterao permanente em sua economia mental. A transferncia  tornada 
consciente para o paciente pelo analista, e  resolvida convencendo-o de que em sua atitude de transferncia ele est reexperimentando relaes emocionais que tiveram 
sua origem em suas primeiras ligaes de objeto, durante o perodo reprimido de sua infncia. Dessa forma, a transferncia  transformada de arma mais forte da resistncia 
em melhor instrumento do tratamento analtico. No obstante, seu manuseio continua sendo o mais difcil, bem como a parte mais importante da tcnica de anlise.
         Com a ajuda do mtodo de associao livre e da arte correlata de interpretao, a psicanlise conseguiu alcanar uma coisa que parecia no ser de importncia 
prtica alguma, mas que de fato conduziu necessariamente a uma atitude totalmente nova e a uma nova escala de valores no pensamento cientfico. Tornou-se possvel 
provar que os sonhos tm um significado, e descobri-lo. Na Antigidade clssica dava-se grande importncia aos sonhos, como forma de prever o futuro; mas a cincia 
moderna nada quis com eles, passando-os  superstio, declarando-os processos puramente somticos - uma espcie de crispao de uma mente que de outra forma est 
adormecida. Afigurava-se inteiramente inconcebvel que qualquer um que houvesse realizado um trabalho cientfico srio pudesse aparecer como um 'intrprete de sonhos'. 
Mas desprezando a excomunho lanada contra os sonhos, tratando-os como sintomas neurticos inexplicados, como idias delirantes ou obsessivas, descurando de seu 
contedo aparente, e fazendo de suas imagens componentes isoladas temas para associao livre, a psicanlise chegou a uma concluso diferente. As numerosas associaes 
produzidas por aquele que sonhava levaram  descoberta de uma estrutura de pensamentos que no pode mais ser descrita como absurda ou confusa, que se classificava 
como um produto psquico inteiramente vlido, e do qual o sonho manifesto no passava de uma traduo distorcida, abreviada e mal compreendida, e na sua maior parte 
uma traduo em imagens. Esses pensamentos onricos latentes encerravam o significado do sonho, enquanto seu contedo manifesto era simplesmente um simulacro, uma 
fachada, que poderia servir como ponto de partida para as associaes, mas no para a interpretao.
         Surgiu uma srie de perguntas a serem respondidas, sendo a mais importante delas sobre se a formao de sonhos tinha um motivo, em que condies se verificava, 
por quais mtodos os pensamentos onricos (que so invariavelmente plenos de sentido) se tornavam convertidos no sonho (que amide  destitudo de sentido), e outras 
alm disto. Tentei solucionar todos esses problemas em A Interpretao de Sonhos, que publiquei no ano de 1900. S posso encontrar espao aqui para o resumo mais 
breve de minha pesquisa. Quando os pensamentos onricos latentes que so revelados pela anlise de um sonho so examinados, verifica-se que um deles se destaca dentre 
os demais que so inteligveis e bem conhecidos daquele que sonha. Esses ltimos pensamentos so resduos da vida de viglia (os resduos diurnos, como so intitulados 
tecnicamente); mas verifica-se que o pensamento isolado  um impulso de desejo, muitas vezes de natureza repelente, que  estranho  vida de viglia daquele que 
sonha, sendo, em conseqncia, repudiado por ele com surpresa ou indignao. Esse impulso  o construtor real do sonho: proporciona a energia para sua produo e 
faz uso dos resduos diurnos como material. O sonho que assim se origina representa uma situao para o impulso,  a realizao do seu desejo. No seria possvel 
a esse processo verificar-se sem ser favorecido pela presena de algo da natureza de um estado de sono. A precondio mental necessria de sono  a concentrao 
do ego sobre o desejo de dormir e a retirada da energia psquica de todos os interesses da vida. Visto que ao mesmo tempo todas as trilhas de aproximao  mortalidade 
se acham bloqueadas, o ego  tambm capaz de reduzir o dispndio [de energia] pelo qual em outras ocasies mantm as represses. O impulso inconsciente faz uso desse 
relaxamento noturno da represso a fim de abrir seu caminho at a conscincia com o sonho. A resistncia repressiva do ego, contudo, no  abolida no sono, mas apenas 
reduzida. Parte dela permanece sob a forma de uma censura de sonhos e probe o impulso inconsciente de expressar-se nas formas que apropriadamente assumiria. Em 
conseqncia da severidade da censura de sonhos, os pensamentos onricos latentes so obrigados a se submeter a serem alterados e amaciados a fim de tornarem o significado 
proibido do sonho irreconhecvel. Esta  a explicao da distoro do sonho, que d conta das caractersticas mais surpreendentes do sonho manifesto. Estamos, portanto, 
justificados em afirmar que um sonho  a realizao (disfarada) de um desejo (reprimido). Ver-se- agora que os sonhos so interpretados como um sintoma neurtico: 
so conciliaes entre as exigncias de um impulso reprimido e a resistncia de uma fora censora no ego. Visto terem uma origem semelhante, so igualmente ininteligveis 
e tm igual necessidade de interpretao.
         No h qualquer dificuldade para descobrir a funo geral do sonhar. Ela serve  finalidade de desviar, por uma espcie de ao calmante, os estmulos externos 
ou internos que tenderiam a despertar aquele que sonha, e assim de assegurar o sono contra interrupes. Os estmulos externos so desviados, recebendo uma nova 
interpretao e sendo entretecidos em alguma situao incua; os estmulos internos, causados por exigncias instintuais, recebem liberdade de atuao por aquele 
que dorme, sendo-lhes permitido encontrar satisfao na formao de sonhos, enquanto os pensamentos onricos latentes submetem-se ao controle da censura. Mas se 
ameaam irromper em liberdade e se o significado do sonho se torna por demais claro, o que sonha interrompe o sonho e desperta assustado. (Os sonhos dessa natureza 
so conhecidos como sonhos de ansiedade.) Uma falha semelhante na funo do sonhar ocorre se um estmulo externo tornar-se demasiado forte para ser desviado. (Esta 
 a classe dos sonhos do despertar.) Dei a designao de elaborao onrica ao processo que, com a cooperao da censura, transforma os pensamentos latentes no contedo 
manifesto do sonho. Ele consiste em uma maneira peculiar de tratar o material pr-consciente do pensamento, de modo que suas partes componentes se tornam condensadas, 
sua nfase psquica torna-se deslocada, e o seu todo  traduzido em imagens visuais ou dramatizadas, e completado por uma elaborao secundria. A elaborao onrica 
constitui excelente exemplo dos processos que ocorrem nas camadas mais profundas e inconscientes da mente, que diferem consideravelmente dos processos normais familiares 
do pensamento. Exibe tambm grande nmero de caractersticas arcaicas, tais como o uso de um simbolismo (nesse caso de natureza predominantemente sexual), o qual 
desde ento tem sido possvel descobrir em outras esferas da atividade mental.
         Explicamos que o impulso instintual inconsciente do sonho liga-se a um resduo diurno, com certo interesse da vida de viglia que no foi eliminado; ele 
d assim ao sonho que constri duplo valor para o trabalho de anlise, pois por um lado um sonho que foi analisado revela-se como a realizao de um desejo reprimido, 
mas por outro pode ser a continuao de alguma atividade pr-consciente do dia anterior, e poder conter todas as espcies de assuntos e dar expresso a uma inteno, 
a uma advertncia, a uma reflexo, ou mais uma vez  realizao de um desejo. A anlise explora o sonho em ambas as direes, como meio de obter conhecimento tanto 
do consciente do paciente quanto de seus processos inconscientes. Ela tambm se beneficia do fato de que os sonhos tm acesso ao material esquecido da infncia e 
assim acontece que a amnsia infantil , na sua maior parte, superada em relao com a interpretao de sonhos. Nesse sentido, os sonhos realizam uma parte do que 
era anteriormente tarefa do hipnotismo. Por outro lado, jamais sustentei a afirmao, tantas vezes a mim atribuda, de que a interpretao de sonhos revela que todos 
os sonhos tm um contedo sexual ou provm de foras motoras sexuais.  fcil ver que a fome, a sede ou a necessidade de excretar podem produzir sonhos de satisfao 
to bem quanto qualquer impulso sexual ou egosta reprimido. O caso de criancinhas nos proporciona um teste convincente da validade da nossa teoria dos sonhos. Nelas 
os vrios sistemas psquicos ainda no se acham acentuadamente divididos e as represses ainda no se tornaram profundas, de modo que amide nos deparamos com sonhos 
que nada mais so do que realizaes indisfaradas de impulsos impregnados de desejos que sobraram da vida de viglia. Sob a influncia de necessidades imperativas, 
os adultos podem tambm produzir sonhos desse tipo infantil.Da mesma forma que a psicanlise faz uso da interpretao de sonhos, tambm se beneficia do estudo de 
numerosos pequenos deslizes e erros que as pessoas cometem - aes sintomticas, como so denominadas. Pesquisei esse assunto em uma srie de artigos que foram publicados 
pela primeira vez sob a forma de livro com o ttulo de The Psychopathology of Every Day Life [Freud, 1901b]. Nessa obra amplamente difundida, ressaltei que esses 
fnomenos no so acidentais, que exigem mais do que explanaes fisiolgicas, que tm um significado e podem ser interpretados, e que h justificativas para inferir-se 
deles a presena de impulsos e intenes refreados ou reprimidos. Mas o que constitui a enorme importncia da interpretao de sonhos, bem como desse segundo estudo, 
no  a assistncia que do ao trabalho de anlise, mas um outro de seus atributos. Previamente, a psicanlise se interessara apenas em solucionar manifestaes 
patolgicas e, a fim de explic-las, tinha muitas vezes sido impelida a fazer suposies cujo carter abrangente era inteiramente desproporcional para a importncia 
do material real em considerao. Quando, no entanto, se tratava de sonhos, no estava mais lidando com sintoma patolgico, mas com uma manifestao da vida mental 
normal que poderia ocorrer em qualquer pessoa s. Se os sonhos viessem a ser interpretados como sintomas, se sua explanao exigisse as mesmas suposies - a represso 
de impulsos, formao substitutiva, formao de conciliao, a diviso do consciente e do inconsciente em vrios sistemas psquicos - , ento a psicanlise no seria 
mais uma cincia auxiliar no campo da psicopatologia, mas antes o ponto de partida de uma cincia nova e mais profunda da mente, que seria igualmente indispensvel 
para a compreenso do normal. Seus postulados e achados poderiam ser levados a outras regies da ocorrncia mental; estava aberto para ela um caminho que conduzia 
muito longe, at as esferas do interesse universal.
         V 
         Devo interromper meu relato do crescimento interno da psicanlise e voltar-me para sua histria externa. O que descrevi at agora sobre suas descobertas 
relacionou-se em sua maior parte com os resultados de meu prprio trabalho, mas tambm preenchi minha histria com material proveniente de datas ulteriores e no 
estabeleci distino entre minhas prprias contribuies e as de meus alunos e seguidores.
         Por mais de dez anos aps meu afastamento de Breuer, no tive seguidores. Fiquei completamente isolado. Em Viena, fui evitado; no exterior, ningum me deu 
ateno. Minha Interpretao de Sonhos, vinda a lume em 1900, mal foi objeto de crticas nas publicaes tcnicas. Em meu artigo 'A Histria do Movimento Psicanaltico' 
[1914d], mencionei como exemplo da atitude adotada por crculos psiquitricos de Viena uma conversa com um assistente na clnica [na qual eu fazia palestras], que 
escrevera um livro sobre minhas teorias, mas que nunca havia lido minha Interpretao de Sonhos. Haviam-lhe dito na clnica que no valia a pena. O homem em questo, 
que depois veio a ser professor, chegou ao ponto de repudiar meu relato da conversa e de lanar dvidas em geral sobre a exatido de minha memria. S posso dizer 
que sustento todas as palavras do relato que ento fiz.
         Logo que percebi a natureza inevitvel daquilo com que me defrontara, minha sensibilidade diminuiu grandemente. Alm disso, meu isolamento gradativamente 
chegou ao fim. Para comear, um pequeno crculo de alunos reuniu-se em torno de mim em Viena; e ento, depois de 1906, chegou a notcia de que os psiquiatras de 
Zurique, E. Bleuler seu assistente C. G. Jung e outros, estavam adquirindo vivo interesse pela psicanlise. Entramos em contato pessoal, e na Pscoa de 1908 os amigos 
da nascente cincia reuniram-se em Salzburg, concordaram com a realizao regular de outros congressos informais semelhantes e adotaram providncias para a publicao 
de um rgo que foi organizado por Jung e que recebeu o ttulo de Jahrbuch fr psychoanalytische und psychopathologische Forschungen [Anurio de Pesquisas Psicanalticas 
e Psicopatolgicas]. Veio a lume sob a minha direo e a de Bleuler, deixando de ser publicado no incio da [primeira] guerra mundial. Ao mesmo tempo que os psiquiatras 
suos ingressavam no movimento, o interesse pela psicanlise comeou tambm a ser despertado em toda a Alemanha, tornando-se tema de grande nmero de comentrios 
escritos e de vivos debates em congressos cientficos. Mas sua acolhida em parte alguma foi amistosa ou mesmo benevolentemente neutra. Aps travar o mais leve conhecimento 
com a psicanlise, a cincia alem estava coesa para rejeit-la.
         Mesmo hoje, -me naturalmente impossvel prever o julgamento final da posteridade sobre o valor da psicanlise para a psiquiatria, a psicologia e as cincias 
mentais em geral. Mas imagino que, quando a histria da fase em que vivemos vier a ser escrita, a cincia alem no ter motivo para orgulhar-se daqueles que a representaram. 
No estou pensando no fato de que rejeitaram a psicanlise ou na forma incisiva como o fizeram; ambas essas coisas eram facilmente inteligveis, eram de se esperar 
e, de qualquer maneira, no lanaram descrdito algum sobre o carter dos adversrios da anlise. Mas pelo grau de arrogncia que demonstraram, pelo seu desprezo 
sem conscincia da lgica e pela aspereza e falta de gosto dos seus ataques, no poderia haver desculpa alguma. Poder-se- dizer que  infantilidade de minha parte 
dar livre curso a tais sentimentos, depois de transcorridos quinze anos, nem o faria, a menos que tivesse algo mais a acrescentar. Anos depois, durante a grande 
guerra, quando uma coorte de inimigos fazia contra a nao alem a acusao de barbarismo, acusao que resume tudo o que escrevi acima, ela no obstante feriu profundamente, 
de modo a sentir que minha prpria experincia no me permitiria contradiz-la.
         Um dos meus antagonistas vangloriava-se de silenciar seus pacientes logo que comeavam a falar sobre qualquer coisa de natureza sexual, e evidentemente 
pensava que essa tcnica lhe dava o direito de julgar o papel desempenhado pela sexualidade na etiologia das neuroses. Fora as resistncias emocionais, to facilmente 
explicveis pela teoria psicanaltica que era impossvel ter sido conduzido erroneamente por elas, parecia-me que o principal obstculo estava no fato de que meus 
adversrios consideravam a psicanlise como um produto da minha imaginao especulativa, e no estavam dispostos a crer no trabalho longo, paciente e imparcial que 
fora dedicado  sua elaborao. Visto que na opinio deles a anlise nada tinha a ver com a observao ou a experincia, acreditavam que eles prprios estavam justificados 
em rejeitarem-na sem experincia. Outros ainda, que no se sentiam to fortemente convencidos disso, repetiam em sua resistncia a manobra clssica de no olhar 
pelo microscpio a fim de evitar ver o que haviam negado.  notvel, realmente, quo incorretamente as pessoas agem quando so obrigadas a formar um julgamento prprio 
sobre algum novo assunto. Durante anos foi-me dito por crticos 'benevolentes' - e ainda hoje ouo a mesma coisa - que a psicanlise est certa at tal e tal ponto, 
mas que a ela comea a exagerar e a generalizar sem justificativa. E sei que, embora nada seja mais difcil do que decidir onde tal ponto se encontra, esses crticos, 
algumas semanas ou alguns dias antes, ignoravam inteiramente o assunto.
         O resultado da antema oficial contra a psicanlise foi que os analistas comearam a ficar mais coesos. No segundo congresso, realizado em Nuremberg em 
1910, constituram-se, por proposta de Ferenczi, em uma 'Associao Psicanaltica Internacional', dividida em grande nmero de sociedades locais, mas com um presidente 
comum. A associao sobreviveu  primeira guerra mundial e ainda existe, consistindo hoje em sociedades ramificadas na ustria, Alemanha, Hungria, Sua, Gr-Bretanha, 
Holanda, Rssia e ndia, bem como duas nos Estados Unidos. Providenciei no sentido de que C. G. Jung fosse nomeado primeiro presidente, o que depois veio a ser uma 
medida muito infeliz. Ao mesmo tempo, foi iniciado um segundo peridico dedicado  psicanlise, o Zentralblatt fr Psychoanalyse [Peridico Central de Psicanlise], 
organizado por Adler e Stekel, e pouco depois um terceiro, Imago, organizado por dois analistas no mdicos, H. Sachs e O. Rank, e destinado a tratar da aplicao 
da psicanlise s cincias mentais. Logo depois Bleuler [1910]publicou um artigo em defesa da psicanlise. Embora fosse um alvio encontrar dessa vez honestidade 
e lgica direta tomando parte na pendncia, no pude sentir-me inteiramente satisfeito com o ensaio de Bleuler. Ele procurava com demasiada ansiedade uma aparncia 
de imparcialidade; nem constitui uma questo de acaso ser a ele que nossa cincia deve o valioso conceito de ambivalncia. Em artigos ulteriores, Bleuler adotou 
tal atitude crtica em relao  estrutura terica da anlise e rejeitou ou lanou dvidas sobre tais pontos essenciais dela, que eu no podia deixar de perguntar 
a mim prprio com assombro o que poderia restar para ele admirar. Contudo, no somente externou ele subseqentemente os fortes apelos em favor da ('psicologia profunda', 
como baseou nela seu estudo abrangente de esquizofrenia [Bleuler, 1911]. No obstante, Bleuler no continuou por muito tempo membro da Associao Psicanaltica Internacional, 
exonerando-se da mesma como resultado de desentendimento com Jung, e perdeu-se o Burghlzli para a anlise.
         A desaprovao oficial no pde prejudicar a divulgao da psicanlise nem na Alemanha nem em outros pases. Em outra parte [1914d] acompanhei as fases 
de seu crescimento e dei os nomes daqueles que foram seus primeiros representantes. Em 1909, G. Stanley Hall convidou Jung e a mim para irmos aos Estados Unidos 
visitar a Clark University, Worcester, Mass., da qual era ele presidente, e passar uma semana pronunciando conferncias (em alemo) nas comemoraes do vigsimo 
aniversrio de fundao daquela entidade. Hall era, com justia, estimado como psiclogo e educador, e introduzira a psicanlise em seus cursos vrios anos antes; 
havia um certo qu de 'fazedor de reis' em relao a ele, um prazer em erigir autoridades e depois dep-las. Conhecemos tambm ali James J. Putnam o neurologista 
de Harvard, que apesar de sua idade era partidrio entusiasta da psicanlise e que lanou todo o peso de uma personalidade que era universalmente respeitada em defesa 
do valor cultural da anlise e da pureza de suas finalidades. Era um homem estimvel, no qual, como reao contra uma predisposio  neurose obsessiva, predominava 
uma tendenciosidade tica, e a nica coisa inquietante nele era sua inclinao para vincular a psicanlise a um sistema filosfico particular a para fazer dela serva 
de objetivos morais. Outro fato dessa poca que me causou impresso duradoura foi um encontro com William James, o filsofo. Jamais me esquecerei de uma pequena 
cena que ocorreu quando passevamos juntos. Ele parou de repente, entregou-me uma bolsa que carregava e pediu-me que continuasse a caminhar, dizendo que me alcanaria 
logo que se recuperasse de um acesso de angina do peito que estava justamente surgindo. Morreu dessa doena um ano depois, e sempre desejei que me mostrasse to 
destemido quanto ele em face da morte que se aproximava.
         Naquela poca eu contava apenas cinqenta e trs anos de idade. Sentia-me jovem e saudvel, e minha curta visita ao novo mundo encorajava meu auto-respeito 
em todos os sentidos. Na Europa eu me sentia como um proscrito, mas ali me via acolhido pelos melhores como um igual. Quando subi ao estrado em Worcester para pronunciar 
minhas Cinco Lies de Psicanlise [1910a], isto pareceu a concretizao de um incrvel devaneio: a psicanlise no era mais um produto de delrio, tornara-se uma 
parte valiosa da realidade. Ela no perdeu terreno nos Estados Unidos desde a nossa visita,  extremamente popular entre o pblico leigo e reconhecida por grande 
nmero de psiquiatras oficiais como importante elemento nos estudos mdicos. Infelizmente, contudo, muito sofreu por ter sido diluda. Alm disso, muitos desmandos 
que no tm relao alguma com ela encontram guarida sob seu nome, havendo poucas oportunidades de qualquer formao completa na tcnica ou na teoria. Tambm nos 
Estados Unidos ela entrou em conflito com o behaviorismo, uma teoria que  suficientemente ingnua para vangloriar-se de haver tornado todo o problema da psicologia 
inteiramente improcedente.
         Na Europa, durante os anos de 1911-13, ocorreram dois movimentos secessionistas da psicanlise, conduzidos por homens que haviam previamente desempenhado 
considervel papel na nova cincia, Alfred Adler e C. G. Jung. Ambos os movimentos pareceram altamente ameaadores e rapidamente obtiveram grande nmero de adeptos, 
contudo, sua fora estava no em seu prprio contedo, mas na ateno que ofereciam de estar libertados do que se julgava como os achados repelentes da psicanlise, 
muito embora seu material real no fosse mais rejeitado. Jung tentou dar aos fatos da anlise uma nova interpretao de natureza abstrata, impessoal e no histrica, 
e assim esperava escapar da necessidade de reconhecer a importncia da sexualidade infantil e do complexo edipiano bem como da necessidade de qualquer anlise da 
infncia. Adler parecia afastar-se ainda mais da psicanlise; repudiou inteiramente a importncia da sexualidade, remeteu a formao tanto do carter quanto das 
neuroses unicamente ao desejo dos homens pelo poder e  necessidade de compensarem suas inferioridades constitucionais, lanou todas as descobertas psicolgicas 
aos ventos. Mas o que ele rejeitara forou sua volta ao seu sistema fechado sob outras designaes; o 'protesto masculino' dele no passa da represso injustificavelmente 
sexualizada. A crtica com que os dois herticos se defrontaram foi branda; eu apenas insisti que tanto Adler como Jung deixassem de descrever suas teorias como 
'psicanlise'. Aps um espao de dez anos pode-se afirmar que ambas as tentativas contra a psicanlise foram desfeitas sem provocar qualquer dano.
         Se uma comunidade basear-se no consenso sobre alguns pontos cardeais,  evidente que as pessoas que abandonaram esse terreno comum deixaro de pertencer 
ao mesmo. Contudo, a secesso de antigos discpulos muitas vezes tem sido trazida  baila contra mim como sinal de minha intolerncia, ou tem sido considerada como 
prova de certa fatalidade especial que paira sobre mim. Constitui resposta suficiente ressaltar que em contraste com aqueles que me abandonaram, como Jung, Adler, 
Stekel e alguns outros, existe grande nmero de pessoas, como Abraham, Eitingon, Ferenczi, Rank, Jones, Brill, Sachs, Pfister, Van Emden, Reik e outros, que trabalham 
comigo h uns quinze anos em leal colaborao e, em sua maior parte, numa amizade sem desfalecimentos. Mencionei apenas os mais antigos dos meus discpulos, que 
j se projetaram por si mesmos na literatura da psicanlise; se omiti outros, isto no deve ser considerado como um descuido, e na realidade entre aqueles que so 
jovens e que se associaram a mim ultimamente encontram-se talentos nos quais se podem depositar grandes esperanas. Mas penso que posso afirmar em minha defesa que 
um homem intolerante, dominado por uma crena arrogante em sua prpria infalibilidade, jamais teria sido capaz de conservar seu domnio sobre um nmero to vasto 
de pessoas intelectualmente eminentes, mormente se tivesse a seu dispor to poucas atraes prticas quanto eu possua.
         A guerra mundial, que dissolveu tantas outras organizaes, nada pde fazer contra a nossa 'Internacional'. A primeira reunio aps o conflito realizou-se 
em 1920, em Haia, em terreno neutro. Era comovedor ver quo hospitaleiramente os holandeses davam as boas-vindas aos sditos famintos e empobrecidos dos Estados 
europeus; e creio que esta foi a primeira ocasio, em um mundo arruinado, que ingleses e alemes se sentaram  mesma mesa para o debate amigvel de interesses cientficos. 
Tanto na Alemanha como nos pases da Europa ocidental a guerra havia, na realidade, provocado interesse pela psicanlise. A observao das neuroses de guerra havia 
finalmente aberto os olhos da profisso mdica para a importncia da psicognese em perturbaes neurticas, e algumas das nossas perturbaes psicolgicas, tais 
como o 'ganho proveniente da doena' e a 'fuga para a doena', rapidamente se tornaram populares. O ltimo congresso antes do colapso alemo, realizado em Budapeste 
em 1918, contou com representantes oficiais dos governos aliados das potncias europias centrais, havendo concordado com a criao de centros psicanalticos para 
o tratamento de neuroses de guerra. Mas esse ponto jamais foi alcanado. De maneira semelhante, tambm os planos abrangentes elaborados por um dos nossos principais 
membros, o Dr. Anton Von Freund para o estabelecimento, em Budapeste, de um centro para estudo analtico e tratamento malograram, como resultado das convulses polticas 
que se seguiram logo depois, e da morte prematura do seu autor insubstituvel. Em data ulterior algumas de suas idias foram postas em execuo por Max Eitingon, 
que em 1920 fundou uma clnica psicanaltica em Berlim. Durante o breve perodo do domnio bolchevique na Hungria,Ferenczi ainda foi capaz de levar a cabo um curso 
bem-sucedido de estudos como representante oficial da psicanlise na Universidade de Budapeste. Aps a guerra nossos adversrios tiveram o prazer de anunciar que 
os fatos haviam produzido um argumento conclusivo contra a validade das teses de anlise. As neuroses de guerra, disseram eles, haviam provado que os fatores sexuais 
eram desnecessrios  etiologia de distrbios neurticos. Mas seu triunfo foi frvolo e prematuro, pois, por um lado, ningum tinha sido capaz de efetuar uma anlise 
completa de um caso de neurose de guerra, de modo que, de fato, no se conhecia ao certo absolutamente nada quanto  motivao deles e nenhuma concluso podia ser 
inferida dessa incerteza: ao passo que, por outro lado, a psicanlise de h muito havia chegado ao conceito do narcisismo e das neuroses narcsicas, nas quais a 
libido do paciente est vinculada ao seu prprio ego, em vez de vinculada a um objeto. Portanto, embora em outras ocasies se tivesse feito a acusao contra a psicanlise 
de haver ela efetuado uma ampliao injustificvel do conceito de sexualidade, esse crime, quando se tornou conveniente para fins controvertidos, foi esquecido e 
ficamos mais uma vez presos ao significado mais estreito do termo.
         Se se deixar de lado o perodo catrtico preliminar, a histria da psicanlise enquadra-se, do meu ponto de vista, em duas fases. Na primeira dessas fiquei 
sozinho e tive de fazer eu mesmo todo trabalho: isso ocorreu de 1895-6 at 1906 ou 1907. Na segunda fase, que durou desde ento at o presente momento, quando uma 
grave doena me adverte do fim que se aproxima, posso pensar com esprito tranqilo na cessao de meus prprios labores.Por esse mesmo motivo, contudo, -me impossvel 
neste Estudo Autobiogrfico tratar to plenamente do progresso da psicanlise durante a segunda fase como o fiz com sua gradativa ascenso durante a primeira, que 
dizia respeito apenas  minha prpria atividade. Julgo que devo apenas ter a justificativa de mencionar aqui essas novas descobertas nas quais ainda desempenhei 
um papel proeminente, em particular, portanto, aquelas feitas na esfera do narcisismo, da teoria dos instintos, e da aplicao da psicanlise s psicoses.
         Devo comear dizendo que a crescente experincia revelava cada vez mais claramente que o complexo edipiano era o ncleo da neurose. Era ao mesmo tempo o 
clmax da vida sexual infantil e o ponto de juno do qual todos os seus desenvolvimentos ulteriores provieram. Mas em caso afirmativo, no era mais possvel esperar 
que a anlise descobrisse um fator que era especfico na etiologia das neuroses. Deve ser verdade, como Jung expressou to bem nos primeiros dias em que ainda era 
analista, que as neuroses no possuem contedo peculiar algum que pertena exclusivamente a elas, mas que os neurticos sucumbem s mesmas dificuldades que so superadas 
com xito por pessoas normais. Essa descoberta estava muito longe de ser um desapontamento. Estava em completa harmonia com outra: que a psicologia profunda revelada 
pela psicanlise era de fato a psicologia da mente normal. Nosso caminho tinha sido como o da qumica: as grandes diferenas qualitativas entre substncias eram 
remetidas a variaes quantitativas nas propores em que os mesmos elementos eram combinados.
         No complexo edipiano viu-se que a libido estava ligada  imagem das figuras dos pais. Antes, porm, houve um perodo no qual no havia tais objetos. Seguiu-se 
a partir desse fato o conceito (de fundamental importncia para a teoria da libido) de um estado no qual a libido do indivduo preenchia seu prprio ego e tinha 
este por seu objeto. Esse estado poderia ser denominado de narcisismo ou amor prprio. A reflexo de um momento demonstrava que esse estado nunca cessa completamente. 
Durante toda a vida do objeto seu ego permanece como o grande reservatrio de sua libido, do qual as catexias objetais so transmitidas e no qual a libido pode refluir 
novamente a partir dos objetos. Assim, a libido narcsica est sendo constantemente transformada em libido objetal, e vice-versa. Um excelente exemplo da extenso 
at a qual essa transformao pode ir  proporcionado pelo estado de estar apaixonado, quer de uma maneira sexual, quer sublimada, que vai ao ponto de envolver um 
sacrifcio do eu (self). Ao passo que at agora, ao considerar-se o processo de represso, somente se dispensou ateno ao que foi reprimido, essas idias tornaram 
possvel formar uma estimativa correta das foras de represso tambm. Fora dito que a represso era posta em ao pelos instintos de autopreservao que atuam no 
ego (os 'instintos do ego') e que fazia com que ela se relacionasse com os instintos libidinais. Mas visto que os instintos de autopreservao foram ento reconhecidos 
como tambm sendo de natureza libidinal, como sendo libido narcsica, o processo de represso foi encarado como um processo que ocorre dentro da prpria libido; 
a libido narcsica opunha-se  libido objetal, o interesse da autopredefendia-se contra as exigncias do amor objetal, e portanto contra as exigncias da sexualidade 
no sentido mais estreito tambm.
         No h necessidade mais premente na psicologia do que de uma teoria dos instintos firmemente alicerada, sobre a qual talvez ento fosse possvel formular 
outros pontos. Contudo, nada disto existe, e a psicanlise  impelida a envidar esforos especulativos no sentido de tal teoria. Ela comeou por traar um contraste 
entre os instintos do ego (os instintos da autopreservao, a fome) e os instintos libidinais (o amor), mas depois o substituiu por um novo contraste entre a libido 
narcsica e a libido objetal. Isto claramente no foi a ltima palavra sobre o assunto; pareceu que consideraes biolgicas tornaram impossvel continuar-se satisfeito 
com a existncia de apenas uma nica classe de instintos.
         Nas obras de meus anos mais recentes (Alm do Princpio do Prazer [1910g], Psicologia de Grupo e a Anlise do Ego [1921c] e O Ego e o Id [1923b]), dei livre 
rdea  inclinao, que reprimi por tanto tempo, para a especulao, e tambm considerei uma nova soluo do problema dos instintos. Combinei os instintos para a 
autopreservao e para a preservao da espcie sob o conceito de Eros e contrastei com ele um instinto de morte ou destruio que atua em silncio. O instinto, 
em geral,  considerado como uma espcie de elasticidade das coisas vivas, um impulso no sentido da restaurao que outrora existiu, mas que foi conduzida a um fim 
por alguma perturbao externa. Esse carter essencialmente conservador dos instintos  exemplificado pelos fenmenos da compulso de repetio. O quadro que a vida 
nos apresenta  o resultado da ao simultnea e mutuamente oposta de Eros e do instinto de morte.
         Resta ver se essa interpretao vir a ser til. Embora surgisse do desejo de fixar algumas idias tericas mais importantes da psicanlise, vai muito alm 
da psicanlise. J ouvi dizer vrias vezes em tom de desprezo que  impossvel aceitar seriamente uma cincia cujos conceitos mais gerais se ressentem de exatido, 
como os da libido e do instinto na psicanlise. Mas essa censura repousa numa concepo totalmente errnea dos fatos. Conceitos bsicos claros e definies vivamente 
traadas somente so possveis nas cincias mentais at o ponto em que as segundas procuram ajustar uma regio de fatos no arcabouo de um sistema lgico. Nas cincias 
naturais, das quais a psicologia  uma delas, tais conceitos gerais ntidos so suprfluos e realidade impossveis. A zoologia e a botnica no partiram de definies 
corretas e suficientes de um animal e de uma planta; at hoje a biologia foi incapaz de dar qualquer significado certo ao conceito da vida. A prpria fsica, realmente, 
jamais teria feito qualquer progresso se tivesse tido de esperar at que os seus conceitos de matria, fora, gravitao, e assim por diante, houvessem alcanado 
o grau conveniente de clareza e preciso. As idias bsicas ou os conceitos mais gerais em qualquer das disciplinas da cincia sempre ficam determinados no incio 
e somente so explicados, para comear, mediante referncia ao domnio dos fenmenos de que se originaram;  somente por meio de uma anlise progressiva do material 
de observao que podem ser tornados claros e podem encontrar um significado significativo e consistente. Sempre julguei grave injustia que as pessoas se tenham 
recusado a tratar a psicanlise como qualquer outra cincia. Essa recusa encontrou expresso no levantamento das mais obstinadas objees. A psicanlise era constantemente 
censurada pela sua falta de completamento e insuficincia; embora seja claro que uma cincia baseada na observao no tem nenhuma outra alternativa seno elaborar 
seus achados de forma fragmentria e solucionar seus problemas passo a passo. Alm disso, quando me esforcei por obter para a funo sexual o reconhecimento que 
por tanto tempo fora negado a ela, a teoria psicanaltica foi tachada de 'pansexualismo'. E quando dei nfase  importncia, at ento desprezada, do papel desempenhado 
pelas impresses acidentais dos primeiros anos da juventude, foi-me dito que a psicanlise negava os fatores constitucionais e hereditrios - coisa que jamais sonhei 
em fazer. Era um caso de contradio a qualquer preo e por quaisquer mtodos.
         Eu j fizera tentativas, em fases mais antigas do meu trabalho, para chegar a alguns pontos de vista mais gerais com base na observao psicanaltica. Em 
um curto ensaio, 'Formulaes sobre os Dois Princpios do Funcionamento Mental'[1911b], chamei a ateno (e no havia, naturalmente, nada de original nisso) para 
o domnio do princpio de prazer-desprazer na vida mental e para o seu deslocamento pelo que  denominado de princpio de realidade. Posteriormente [em 1915] fiz 
uma tentativa para produzir uma 'Metapsicologia'. Com isso eu queria dizer um mtodo de abordagem de acordo com o qual todo processo mental  considerado em relao 
com trs coordenadas, as quais eu descrevi como dinmica, topogrfica e econmica, respectivamente; e isso me pareceu representar a maior meta que a psicologia poderia 
alcanar. A tentativa no passou de uma obra incompleta; aps escrever dois ou trs artigos - 'Os Instintos e suas Vicissitudes' [1915c], 'Represso' [1915d], 'O 
Inconsciente' [1915e], 'Luto e Melancolia' [1917e] etc. - fiz uma interrupo, talvez acertadamente, visto que o tempo para afirmaes dessa espcie ainda no havia 
chegado. Em meus mais recentes trabalhos especulativos entreguei-me  tarefa de dissecar nosso aparelho mental, com base no ponto de vista analtico dos fatos patolgicos, 
e o dividi em um ego, um id e um superego. O superego  o herdeiro do complexo edipiano e representa os padres ticos da humanidade.
         No gostaria de dar a impresso de que durante esse ltimo perodo de meu trabalho voltei as costas  observao de pacientes e me entreguei inteiramente 
 especulao. Ao contrrio, sempre fiquei no mais ntimo contato com o material analtico e jamais deixei de trabalhar em pontos detalhados de importncia clnica 
ou tcnica. Mesmo quando me afastei da observao, evitei cuidadosamente qualquer contato com a filosofia propriamente dita. Essa evitao foi grandemente facilitada 
pela incapacidade constitucional. Sempre me mostrei receptivo s idias de G. T. Fechner e segui esse pensador em muitos pontos importantes. O alto grau em que a 
psicanlise coincide com a filosofia de Schopenhauer - ele no somente afirma o domnio das emoes e a suprema importncia da sexualidade, mas tambm estava at 
mesmo cnscio do mecanismo da represso - no deve ser remetida  minha familiaridade com seus ensinamentos. Li Schopenhauer muito tarde em minha vida. Nietzsche, 
outro filsofo cujas conjecturas e intuies amide concordam, da forma mais surpreendente, com os laboriosos achados da psicanlise, por muito tempo foi evitado 
por mim, justamente por isso mesmo; eu estava menos preocupado com a questo da prioridade do que em manter minha mente desimpedida.
         As neuroses foram o primeiro tema de anlise e por muito tempo constituram o nico ponto. Nenhum analista podia duvidar que a clnica estava errada por 
isolar esses distrbios das psicoses e por vincul-los s doenas orgnicas nervosas. A teoria das neuroses pertence  psiquiatria, sendo necessria uma introduo 
a ela. Parecia, contudo, que o estudo analtico das psicoses  impraticvel devido  sua falta de resultados teraputicos. Os pacientes mentais, em geral, no tm 
a capacidade de formar um transferncia positiva, de modo que o principal instrumento da tcnica analtica  inaplicvel aos mesmos. A transferncia amide no se 
acha to inteiramente ausente, mas pode ser utilizada at certo ponto, havendo a anlise alcanado inegveis xitos com depresses cclicas, ligeiras modificaes 
paranides e esquizofrenias parciais. Pelo menos tem constitudo benefcio para a cincia o fato de que em muitos casos o diagnstico possa oscilar por tempo bastante 
longo entre o assumir a presena de uma psiconeurose ou de uma demncia precoce, pois as tentativas teraputicas iniciadas em tais casos resultaram em valiosas descobertas 
antes que tivessem de ser interrompidas. Mas a principal considerao nesse sentido  que muitas coisas que nas neuroses tiveram de ser buscadas nas profundidades 
so encontradas nas psicoses da superfcie, visveis a todos. Por esse motivo, os melhores temas para a demonstrao de muitas asseres da anlise so proporcionados 
pela clnica psiquitrica. Assim, estava destinado a acontecer, dentro de pouco tempo, que a anlise encontrasse seu caminho at os objetos da observao psiquitrica. 
Muito cedo fui capaz (1896) de estabelecer em um caso de demncia paranide a presena dos mesmos fatores etiolgicos e dos mesmos complexos emocionais que nas neuroses. 
Jung [1907] explicou alguns dos esteretipos mais enigmticos em dementes pondo-os em relao com histricos das vidas de pacientes; Bleuer [1906] demonstrou a existncia 
em vrias psicoses de mecanismos como aqueles que a anlise havia descoberto em neurticos. Desde ento os analistas jamais reduziam seus esforos no sentido de 
chegarem a uma compreenso das psicoses. Especialmente desde que se tornou possvel trabalhar com o conceito de narcisismo, conseguiram, ora aqui, ora ali, ter uma 
viso alm da barreira. O mximo, sem dvida, foi alcanado por Abraham [1912] em sua elucidao das melancolias.  verdade que nesse campo todos os nossos conhecimentos 
ainda no se transformaram em poder teraputico, mas a simples vitria terica no deve ser desprezada, e podemos concentrar-nos em esperar pela sua aplicao prtica. 
Em ltima anlise, mesmo os psiquiatras no podem resistir  fora convincente de seu prprio material clnico. No momento, a psiquiatria alem vem passando por 
uma espcie de 'penetrao pacfica' por pontos de vista analticos. Embora declarem continuamente que jamais sero psicanalistas, que no pertencem  escola 'ortodoxa' 
nem concordam com seus exageros,e em particular que no crem no predomnio do fator sexual, a maioria dos estudiosos mais jovens lana mo de uma pea ou outra 
da teoria analtica e a aplica a seu prprio modo ao material. Todos os indcios apontam para a proximidade de posteriores desenvolvimentos na mesma direo.
         VI 
         Agora contemplo a distncia as reaes sintomticas que esto acompanhando a introduo da psicanlise na Frana, que por tanto tempo se mostrou refratria. 
Assemelha-se  reproduo de algo que j vivi antes, e contudo tem peculiaridades prprias. Objees de incrvel simplicidade so levantadas, como a de que a sensibilidade 
francesa  ofendida pelo pedantismo e crueza da terminologia psicanaltica. (No se pode deixar de recordar o imortal Chevalier Riccaut de la Marlinire de Lessing.) 
Um outro comentrio tem ressonncia mais sria (um professor de psicologia da Sorbonne no a julgava abaixo dele): toda a forma de pensamento da psicanlise, assim 
declarou ele,  incompatvel com o gnie latin. Aqui os aliados anglo-saxes da Frana, que contam como partidrios da anlise, so explicitamente abandonados. Qualquer 
um, ouvindo a observao, suporia que a psicanlise tinha sido a filha predileta do gnie teutonique e havia ficado apegada ao seu seio desde o momento do nascimento.
         Na Frana o interesse pela psicanlise comeou entre os homens de letras. A fim de compreender isso, deve-se ter em mente que, desde a poca em que foi 
escrita A Interpretao de Sonhos a psicanlise deixou de ser um assunto puramente mdico. Entre seu surgimento na Alemanha e na Frana est a histria de suas numerosas 
aplicaes a departamentos de literatura e esttica,  histria das religies e  pr-histria,  mitologia, ao folclore,  educao, e assim por diante. Nenhuma 
dessas coisas tem muito a ver com a medicina; de fato,  somente atravs da psicanlise que esto ligadas a ela. No me cabe, portanto, entrar em grandes detalhes 
quanto a elas nestas pginas. No posso, contudo, silenciar inteiramente sobre elas, pois, por um lado, so essenciais a uma apreciao correta da natureza e do 
valor da psicanlise, e, por outro, comprometi-me, afinal de contas, a fazer um relato da obra principal da minha vida. Os primrdios da maioria dessas aplicaes 
da psicanlise sero encontrados em minhas obras. Aqui e ali segui um pouco a trilha a fim de gratificar meus interesses no mdicos. Posteriormente,outros (no 
somente mdicos, mas tambm especialistas nos vrios campos) seguiram as minhas pegadas e penetraram a fundo nos diferentes temas. Mas visto que meu programa me 
limita a mencionar minha prpria parcela nessas aplicaes da psicanlise, posso apenas apresentar um quadro bem inadequado de sua extenso e importncia.
         Grande nmero de sugestes me ocorreu a partir do complexo de dipo, cuja ubiqidade gradativamente comecei a compreender. A escolha do poeta, ou sua inveno, 
de um assunto to terrvel parecia enigmtica, assim como o efeito esmagador de seu tratamento dramtico, e a natureza geral de tais tragdias do destino. Mas tudo 
isso se tornou inteligvel quando se compreendeu que uma lei universal da vida mental havia sido captada aqui em todo seu significado emocional. O destino e o orculo 
nada mais eram do que materializaes de uma necessidade interna; e o fato de o heri pecar sem seu conhecimento e contra suas intenes era evidentemente uma depresso 
certa da natureza inconsciente de suas tendncias criminosas. A partir da compreenso dessa tragdia do destino s restava um passo para compreender uma tregdia 
de carter - Hamlet, objeto de admirao por trezentos anos, sem que seu significado tivesse sido descoberto ou os motivos de seu autor adivinhados. Mal poderia 
haver a possibilidade de que essa criao neurtica do poeta viesse a malograr, como seus inmeros companheiros da vida real, sobre o complexo de dipo, pois Hamlet 
viu-se defrontado com a tarefa de tirar vingana de outro pelos dois feitos que so o tema dos desejos de dipo; e diante daquela tarefa seu brao ficou paralisado 
pelo seu prprio obscuro sentimento de culpa. Shakespeare escreveu Hamlet logo aps a morte do pai. As sugestes feitas por mim para a anlise dessa tragdia foram 
plenamente elaboradas depois por Ernest Jones [1910]. E o mesmo exemplo foi posteriormente utilizado por Otto Rank como o ponto de partida para sua investigao 
da escolha de material feita por dramaturgos. Em seu grande volume sobre o tema do incesto (Rank, 1912) ele foi capaz de revelar como com tanta freqncia escritores 
tm tomado por assunto os temas de situao de dipo e traado, nas diferentes literaturas do mundo, a maneira pela qual o material tem sido transformado, modificado 
e suavizado.
         Era tentador prosseguir dali uma tentativa de anlise da criao potica e artstica em geral. O domnio da imaginao logo foi visto como uma 'reserva' 
feita durante a penosa transio do princpio de prazer para o princpio de realidade a fim de proporcionar um substituto para as satisfaes instintuais que tinham 
de ser abandonadas na vida real. O artista, como o neurtico, se afastara de uma realidade insatisfatria para esse mundo da imaginao; mas, diferentemente do neurtico, 
sabia encontrar o caminho de volta daquela e mais uma vez conseguir um firme apoio na realidade. Suas criaes, obras de arte, eram as satisfaes imaginrias de 
desejos inconscientes, da mesma forma que os sonhos; e, como estes, eram da natureza de conciliaes, visto que tambm eram forados a evitar qualquer conflito aberto 
com as foras de represso. Mas diferiam dos produtos a-sociais, narcsicos do sonhar, na medida em que eram calculados para despertar interesse compreensivo em 
outras pessoas, e eram capazes de evocar e satisfazer aos mesmos impulsos inconscientes repletos de desejos tambm nelas. Alm disso, faziam uso do prazer percentual 
da beleza formal como o que chamei de um 'abono de incentivo'. O que a psicanlise era capaz de fazer era tomar das inter-relaes entre as impresses da vida do 
artista, suas experincias fortuitas e suas obras, e a partir delas interpretar a constituio [mental] dele e os impulsos instintuais em ao nela - isto , aquela 
parte dele que ele partilhava com todos os homens. Com esse objetivo em vista, por exemplo, fiz de Leonardo da Vinci o tema de um estudo [1910c], que sebaseia numa 
nica lembrana da infncia relacionado por ele e que viso principalmente a explicar seu quadro de 'Sant'Ana com a madona e o menino'. Desde ento meus amigos e 
meus alunos tm empreendido numerosas anlises de artistas e suas obras. No parece que a fruio de uma obra de arte seja estragada pelo conhecimento auferido de 
tal anlise. O leigo talvez possa esperar demais da anlise nesse sentido, pois deve-se admitir que ela no lana luz alguma sobre os dois problemas que provavelmente 
mais lhe interessam. Ela nada pode fazer quanto  elucidao da natureza do dom artstico, nem pode explicar os meios pelos quais o artista trabalha - a tcnica 
artstica.
         Fui capaz de demonstrar por um conto de W. Jensen intitulado Gradiva [1907a], o qual no possui qualquer mrito especfico por si mesmo, que os sonhos inventados 
podem ser interpretados da mesma forma que os reais e que os mecanismos inconscientes familiares a ns na 'elaborao onrica' so assim tambm atuantes nos processos 
dos escritos imaginativos. Meu livro sobre Jokes and their Relation to the Unconscious [1905c] foi um tema secundrio proveniente diretamente de A Interpretao 
de Sonhos. O nico amigo meu interessado naquela poca em meu trabalho observou-me que minhas interpretaes de sonhos muitas vezes o impressionavam como sendo chistes. 
A fim de lanar alguma luz sobre essa impresso, comecei a pesquisar chistes e verifiquei que sua essncia estava nos mtodos tcnicos neles empregados, e que esses 
eram os mesmos que os meios utilizados na 'elaborao onrica' - isto , condensao, deslocamento, a representao de uma coisa pelo seu oposto ou por algo pequeno, 
e assim por diante. Isso conduziu a uma indagao econmica de origem do alto grau de prazer obtido ao ouvir-se um chiste. E a isso a resposta foi que tal se devia 
 suspenso momentnea do dispndio de energia na maturidade da represso, devido  atrao exercida pelo oferecimento de um abono de prazer (prazer preliminar).
         Eu prprio atribu um valor mais elevado a minhas contribuies  psicologia da religio, que comearam com o estabelecimento de marcante similitude entre 
as prticas religiosas ou ritual (1907b). Sem ainda compreender as ligaes mais profundas, descrevi a neurose obsessiva como uma religio particular distorcida 
e a religio como uma espcie de neurose obsessiva universal. Posteriormente, em 1912, a indicao convincente de Jung das analogias de amplas conseqncias entre 
os produtos mentais dos neurticos e dos povos primitivos levou-me a voltar minha ateno para aquele assunto. Em quatro ensaios, enfeixados num livro com o ttulo 
de Totem e tabu [1912-13], mostrei que o horror do incesto era ainda mais acentuado entre as raas primitivas do que entre as civilizadas e dera lugar a medidas 
muito especiais de defesa contra ele. Examinei as relaes entre as proibies tabus (a forma mais antiga na qual as restries morais fazem seu surgimento) e a 
ambivalncia emocional, e descobri sob o esquema primitivo do universo conhecido como 'animismo' o princpio da superestimativa da importncia da realidade psquica 
- a crena 'na onipotncia dos pensamentos' - que est na raiz da magia tambm. Desenvolvi a comparao com a neurose obsessiva em todos os pontos, e mostrei quantos 
dos postulados da vida mental primitiva ainda esto em vigor nessa notvel doena. Antes de tudo, todavia, vi-me atrado pelo totemismo, o primeiro sistema de organizao 
nas tribos primitivas, um sistema no qual os incios da ordem social esto unidos com uma   rudimentar e com o domnio implacvel de um pequeno nmero de proibies 
tabus. O ser reverenciado , em ltima anlise, sempre um animal, do qual o cl tambm pode reivindicar ser descendente. Muito indcios apontavam para a concluso 
de que toda raa, mesmo a mais altamente desenvolvida, havia outrora passado pela fase do totemismo.
         As principais fontes literrias de meus estudos nesse campo foram as conhecidas obras de J. G. Frazer (Totemism and Exogamy e The Golden Bough), um filo 
de valiosos fatos e opinies. Mas Frazer pouco realizou no sentido de elucidar os problemas do totemismo: ele vrias vezes alterara fundamentalmente seus pontos 
de vista sobre o assunto, e os outros etnlogos e pr-historiadores parecem estar em igual incerteza e discordncia. Meu ponto de partida foi a impressionante correspondncia 
entre as duas ordenaes tabus do totemismo (no matar o totem e no ter relaes sexuais com qualquer mulher do mesmo cl do totem) e os dois elementos do complexo 
de dipo (livrar-se do pai e tomar a me como esposa). Vi-me, portanto, tentado a equacionar o animal-totem com o pai; e, de fato, os prprios povos primitivos fazem 
isso explicitamente honrando-o como o ancestral do cl. A seguir vieram em meu auxlio dois fatos da psicanlise, uma feliz observao de uma criana feita por Ferenczi 
[1929a], que me permitiu referir-me a um 'retorno infantil do totemismo', e a anlise de fobias animais iniciais nas crianas, que tantas vezes revelaram que o animal 
era um substituto do pai, um substituto para o qual o medo ao pai, oriundo do complexo de dipo, foradeslocado. No me faltava muito para reconhecer o assassinato 
do pai como o ncleo do totemismo e o ponto de partida na formao da religio.
         Esse elemento que faltava foi suprido quando me familiarizei com a obra de W. Robertson Smith, The Religion of the Semites. Seu autor (um homem de suma 
capacidade intelectual que era tanto mdico como perito em pesquisas bblicas) introduziu a chamada 'refeio totem' como parte essencial da religio totmica. Uma 
vez por ano o animal totem, que em outras pocas era considerado como sagrado, era solenemente abatido na presena de todos os membros do cl, devorado e ento objeto 
de lamentaes. O pesar era seguido de um grande festival. Quando levei ainda mais em conta a conjectura de Darwin de que os homens originalmente viviam em hordas, 
cada um sob o domnio de um nico macho poderoso, violento e ciumento, surgiu diante de mim, de todos esses componentes, a seguinte hiptese ou, melhor dizendo, 
viso. O pai da horda primitiva, visto que era um dspota absoluto, apoderara-se para si mesmo de todas as mulheres; seus filhos, sendo-lhe perigosos como rivais, 
tinham sido mortos ou afugentados. Um dia, contudo, os filhos se reuniram e se aliaram para dominar, matar e devorar o pai, que fora seu inimigo mas tambm seu ideal. 
Aps o feito foram incapazes de assumir sua herana, visto que se atrapalhavam mutuamente. Sob a influncia do fracasso e do remorso aprenderam a chegar a um acordo 
entre si; agruparam-se num cl de irmos, mediante o auxlio dos ditames do totemismo, que visavam impedir a repetio de tal feito, e em conjunto passaram a abrir 
mo da posse das mulheres por cuja causa haviam matado o pai. Foram ento impelidos a encontrar mulheres estranhas, sendo esta a origem da exogamia que se acha to 
estreitamente vinculada ao totemismo. A refeio totem era festival que comemorava o temvel feito que decorria do sentimento de culpa do homem (ou 'pecado original') 
e que foi comeo, ao mesmo tempo, da organizao social, da religio e de restries ticas.
         Ora, se supusermos que tal possibilidade foi um fato histrico ou no, ela traz a formao da religio para o crculo do complexo do pai e a baseia na ambivalncia 
que domina esse complexo. Depois que o animal totem deixou de servir como substituto para ele, o pai primitivo, ao mesmo tempo temido e odiado, reverenciado e invejado, 
tornou-se o prottipo do prprio Deus. A rebeldia do filho e sua afeio pelo pai lutavam uma contra a outra atravs de uma constante sucesso de conciliaes, que 
procuravam, por um lado, reparar o ato do parricdio e, por outro, consolidar as vantagens que ocasionara. Esse ponto de vista da religio lana uma luz particularmente 
clara sobre a base psicolgica do cristianismo, no qual, como sabemos, a cerimnia da refeio totem ainda sobrevive com apenas um pouco dedistoro, sob a forma 
de comunho. Gostaria explicitamente de mencionar que essa ltima observao no foi feita por mim, mas se encontra nas obras de Robertson Smith e Frazer.
         Theodor Reik e G. Rheim, o etnlogo, seguiram a linha do raciocnio que desenvolvi em Totem e Tabu e, numa srie de importantes trabalhos, ampliaram-na, 
aprofundaram-na ou corrigiram-na. Eu prprio voltei a ela mais de uma vez, no curso de minhas investigaes do 'sentimento de culpa inconsciente' (que tambm desempenha 
papel muito importante entre os motivos do sofrimento neurtico) e em minhas tentativas para formar uma vinculao mais estreita entre a psicologia social e a psicologia 
do indivduo. Alm disso, fiz uso da idia de uma herana arcaica proveniente da poca da 'horda primitiva' do desenvolvimento da humanidade ao explicar a suscetibilidade 
 hipnose.
         Tenho tomado pouca parte direta em outras aplicaes da psicanlise, embora sejam de interesse geral.  somente um passo das fantasias dos neurticos individuais 
para as criaes imaginosas de grupos e povos, como as encontramos em mitos, lendas e contos de fadas. A mitologia tornou-se o domnio especial do Otto Rank; a interpretao 
dos mitos, sua ligao com os complexos inconscientes familiares da primeira infncia, a substituio das explanaes astrais por uma descoberta dos motivos humanos, 
tudo isto em grande medida devido aos seus esforas analticos. O tema do simbolismo, tambm, encontrou muitos estudiosos entre meus seguidores. O simbolismo trouxe 
para a psicanlise muitos inimigos; muitos indagadores com mentes indevidamente prosaicas jamais foram capazes de perdoar a esta o reconhecimento do simbolismo, 
que decorreu da interpretao dos sonhos. Mas a anlise no tem culpa da descoberta do simbolismo, pois de h muito fora conhecida em outros domnios do pensamento 
( tais como o folclore, lendas e mitos) e neles desempenha papel ainda maior do que na 'linguagem dos sonhos'.
         Eu prprio em nada contribu para a aplicao da anlise  educao. Era natural, entretanto, que as descobertas analticas devessem atrair ateno de educadores 
e faz-los ver os problemas delas sob uma nova luz. O Dr. Oskar Pfister pastor protestante de Zurique, desbravou o caminho, como incansvel pioneiro, seguindo essa 
trilha, e no achou que a prtica da anlise era incompatvel com o fato de ele conservar sua religio, embora fosse verdade que tal ocorresse de forma sublimada. 
Entre muitos outros que trabalharam ao lado dele posso mencionar Frau Dr. Hug-Hellmuth e o Dr. S. Bernfeld, ambos de Viena. A aplicao da anlise  educao profiltica 
de crianas saudveis e  correo daquelas que, embora na realidade no fossem neurticas, se desviaram do curso normal de desenvolvimento, levou a uma conseqncia 
que  de importncia prtica. No  mais possvel restringir a pratica da psicanlise a mdicos e dela excluir os leigos. De fato, um mdico que no tenha passado 
por uma formao especial , apesar do seu diploma, um leigo em anlise, e algum que no seja mdico mas que tenha sido adequadamente formado pode, com referncia 
ocasional a um mdico, levar a efeito o tratamento analtico no somente de crianas mas tambm de neurticos.
         Por um processo de desenvolvimento contra o qual teria sido intil lutar, o prprio termo 'psicanlise' tornou-se ambguo. Embora fosse originalmente o 
nome de um mtodo teraputico especfico, agora tambm se tornou a denominao de uma cincia - a cincia dos processos mentais inconscientes. Por si s, essa cincia 
 poucas vezes capaz de lidar com um problema de maneira completa, mas parece fadada a prestar valiosa ajuda nos mais variados campos do conhecimento. A esfera de 
aplicao da psicanlise estende-se at a da psicologia, com a qual forma um complemento do maior significado.
         Lanando um olhar retrospectivo, portanto, ao mosaico que so labores da minha vida, posso dizer que comecei muitas vezes e joguei fora muitas sugestes. 
Algo surgir deles no futuro, embora eu mesmo no possa dizer se ser muito ou pouco. Posso, contudo, expressar a esperana de que abri um caminho para importante 
progresso em nossos conhecimentos.

         PS-ESCRITO (1935)
         
         O organizador desta srie de estudos autobiogrficos no considerou, que eu saiba, a possibilidade de que aps certo lapso de tempo uma continuao pudesse 
ser escrita a qualquer um deles, sendo possvel que isso tenha ocorrido somente no caso presente. Estou empreendendo a tarefa visto que meu editor norte-americano 
deseja publicar o pequeno trabalho numa nova edio. Ele veio a lume pela primeira vez nos Estados Unidos em 1927 (editado por Brenato), sob o ttulo de Um Estudo 
Autobiogrfico, mas foi levianamente lanado no mesmo volume como outro ensaio meu que deu seu ttulo, O Problema de Anlises Leigas, a todo o livro, obscurecendo 
assim o presente trabalho.
         Dois temas ocupam essas pginas: a histria da minha vida e a histria da psicanlise. Elas se acham intimamente entrelaadas. Esse Estudo Autobiogrfico 
mostra como a psicanlise veio a ser todo o contedo de minha vida e com razo presume que minhas experincias pessoais no so de qualquer interesse ao se traar 
um paralelo de minhas relaes com aquela cincia.
         Pouco antes de haver escrito esse estudo, parecia que minha vida logo chegaria ao fim pelo retorno de uma doena maligna; mas a percia cirrgica salvou-me 
em 1923 e fui capaz de continuar com minha vida e meu trabalho, embora no ficasse mais imune  dor. No perodo de mais de dez anos que ento transcorreu, jamais 
abandonei meu trabalho analtico e meus escritos - como se prova pela concluso do dcimo-segundo volume da edio alem de minhas obras completas. Mas eu prprio 
acho que se verificou importante mudana. Fios que no curso do meu desenvolvimento se haviam enredado comeavam ento a separar-se; interesses que eu adquirira num 
estdio mais avanado da minha vida ficaram para trs, enquanto os mais antigos e originais se tornaram proeminentes mais uma vez.  verdade que nessa ltima dcada 
levei a cabo partes importantes de meu trabalho analtico, tais como a reviso do problema da ansiedade em meu livro Inibies, Sintomas e Ansiedade (1926d) ou a 
simples explicao do 'fetichismo' sexual que fui capaz de fazer um ano depois (1927e). No obstante, seria verdade dizer que, desde que formulei minha hiptese 
de existncia de duas classes de instintos (Eros e o instinto da morte) e desde que propus uma diviso da personalidademental em um ego, um superego e um id (1923b), 
no prestei outras contribuies decisivas  psicanlise: o que tenho escrito sobre o assunto desde ento tem sido ou dispensvel ou logo teria sido proporcionado 
por outrem. Essa circunstncia est ligada com uma alterao em mim mesmo, com o que poderia ser descrito como uma fase de desenvolvimento regressivo. Meu interesse, 
aps fazer um dtour de uma vida inteira pelas cincias naturais, pela medicina e pela psicoterapia, voltou-se para os problemas culturais que h muito me haviam 
fascinado, quando eu era um jovem quase sem idade suficiente para pensar. No prprio clmax do meu trabalho psicanaltico, em 1912, j tentara, em Totem e Tabu, 
fazer uso dos achados recm-descobertos da anlise a fim de investigar as origens da religio e da moralidade. Levei ento esse trabalho mais um passo  frente em 
dois ensaios ulteriores, O futuro de uma Iluso (1927c) e O Mal-Estar na Civilizao (1930a).Percebi ainda mais claramente que os fatos da histria, as interaes 
entre a natureza humana, o desenvolvimento cultural e os precipitados das experincias primitivas (cujo exemplo mais proeminente  a religio) no passam de um reflexo 
dos conflitos dinmicos entre o ego, o id e o superego que a psicanlise estuda no indivduo - so os mesmssimos processos repetidos numa fase mais ampla. Em O 
Futuro de uma Iluso exprimi uma avaliao essencialmente negativa da religio. Depois, encontrei uma frmula que lhe fazia melhor justia: embora admitindo que 
sua fora reside na verdade que ela contm, mostrei que a verdade no era uma verdade material mas histrica. [1939a, Ensaio III, Parte II (G).]
         Esses estudos, os quais, embora tendo origem na psicanlise, se estendem muito alm dela, talvez tenham despertado maior simpatia por parte do pblico do 
que a prpria psicanlise. Podem ter desempenhado certo papel na criao da iluso efmera de que eu me encontrava entre os escritores aos quais uma grande nao 
como a Alemanha estava pronta a ouvir. Thomas Mann, um dos reconhecidos porta-vozes do povo alemo, encontrou um lugar para mim na histria do pensamento moderno. 
Pouco depois minha filha Anna, atuando como minha procuradora, recebeu uma homenagem cvica na Rathaus de Frankfurt-am-Main, ocasio em que me foi conferido o Prmio 
Goethe de 1930. Isso foi o clmax de minha vida como cidado. Pouco depois as fronteiras do nosso pas se estreitaram e a nao no quis mais saber deE neste ponto 
seja-me permitido interromper estas notas autobiogrficas. O pblico no tem o direito de saber mais sobre meus assuntos pessoais - minhas lutas, meus desapontamentos 
e meus xitos. Seja como for, tenho sido mais acessvel e franco em alguns dos meus escritos (tais como A Interpretao de Sonhos e The Psychopathology of Everyday 
Life) do que as pessoas que descrevem suas vidas em geral o so para seus contemporneos ou para a posteridade. Poucos agradecimentos recebi nesse sentido e no 
posso recomendar a ningum que siga meu exemplo.
         Devo acrescentar mais algumas palavras  histria da psicanlise durante a ltima dcada. No pode haver mais dvida alguma de que ela continuar; comprovou 
sua capacidade de sobreviver e de desenvolver-se tanto como um ramo do conhecimento quanto como um mtodo teraputico. O nmero de seus partidrios (organizadores 
na Associao Psicanaltica Internacional) aumentou de maneira considervel. Alm de grupos locais mais antigos (em Viena, Berlim, Budapeste, Londres, Holanda, Sua 
e Rssia) a partir de ento se constituram sociedades em Paris e Calcut, duas no Japo, vrias nos Estados Unidos e, em data bem recente, uma em Jerusalm, outra 
na frica do Sul e duas na Escandinvia. Com seus prprios recursos essas sociedades locais apiam (ou esto em vias de formar) institutos de formao, nos quais 
se ministra instruo na prtica da psicanlise de conformidade com um plano uniforme, e clnicas para pacientes externos, nas quais experimentados analistas, bem 
como alunos, do tratamento gratuito a pacientes de recursos limitados. De dois em dois anos os membros da Associao Psicanaltica Internacional realizam um congresso 
no qual se apresentam trabalhos cientficos e se solucionam questes de administrao. O dcimo-terceiro desses congressos (aos quais no posso mais comparecer) 
foi realizado em Lucerna, em 1934. De um ncleo de interesses comuns a todos os membros da Associao, seus trabalhos se irradiam em muitas direes diferentes. 
alguns do grande nfase ao esclarecimento e aprofundamento dos nossos conhecimentos de psicologia, ao passo que outros se interessam por manter-se em contato com 
a medicina e a psiquiatria. Do ponto de vista prtico, alguns analistas atriburam-se a tarefa de fazer com que a psicanlise seja reconhecida nas universidades 
e includa no currculo mdico, ao passo que outros se contentam em permanecer fora dessas instituies, no permitindo que a psicanlise seja menos importante no 
campo da educao do que no da medicina. Ocorre de quando em quando que um profissional da anliseverifique estar isolado em uma tentativa de enfatizar algum ponto 
nico dos achados ou pontos de vista da psicanlise,  custa de todos os demais. No obstante, a impresso total  satisfatria - de trabalho cientfico srio executado 
em alto nvel.
         
         
         























INIBIES, SINTOMAS E ANSIEDADE(1926 [1925])
         
         
         INTRODUO DO EDITOR INGLS
         
         HEMMUNG, SYMPTON UND ANGST 
         
         (a) EDIES ALEMS:
         1926 Leipzig, Viena e Zurique: Internationaler Psychoanalytischer Verlag. 136 Pp.
         1928 G.S., 11, 23-115.
         1931 Neurosenlehre und Technik, 205-99.
         1948 G.W., 14, 113-205.
         
         (b) TRADUES INGLESAS:
         
         Inhibition, Symptom and Anxiety
         1927 Stamford, Conn.: Instituto Psicanaltico. vi + 103 Pp. (Trad. supervisionada por L. Pierce Clark; pref. de S. Ferenczi.)
         
         Inhibitions, Symptoms and Anxiety
         1935-6 Psychoanal. Quart., 4 (4), 616-25; 5 (1), 1-28; (2) 261-79; (3) 415-43. (Trad. de H. A. Bunker.)
         
         The Problem of Anxiety
         1936 Nova Iorque: Psychoanalytic Quartely Press and W. W. Norton. vii + 165 Pp. (Reimpresso da anterior sob a forma de volume.)
         
         Inhibitions, Symptoms and Anxiety
         1936 Londres: Hogarth Press e Instituto de Psicanlise. 179 Pp. (Trad. de Alix Strachey.)
         
         Um resumo do captulo I do original apareceu na Neue Freie Presse de Viena, a 21 de fevereiro de 1926. Parte da primeira traduo norte-americana foi reimpressa 
nos Archives of Psychoanalysis, 1 (1927), 461-521. Todas as trs tradues foram autorizadas por Freud e, como ressalta Ernest Jones (1957, 139-40), os tradutores 
das duas ltimas prepararam seus trabalhos simultaneamente e ignorando inteiramente as atividades um do outro.
         A presente traduo  uma verso consideravelmente modificada da publicada em Londres em 1936.Sabemos por Ernest Jones que este livro foi escrito em julho 
de 1925 e revisto em dezembro do mesmo ano, tendo vindo a lume na terceira semana de fevereiro do ano seguinte.
         Os tpicos por ele tratados abrangem vasto campo, havendo indcios de Freud ter encontrado inusitada dificuldade em unificar o trabalho. Isto  revelado, 
por exemplo, na forma como o mesmo assunto surge para exame em mais de um ponto em termos muito semelhantes, na necessidade em que Freud se viu de ordenar grande 
nmero de questes isoladas em seus 'Adendos', e mesmo no prprio ttulo do livro. No obstante,  verdade que - apesar de tais importantes problemas secundrios, 
como as diferentes classes de resistncia, a distino entre represso e defesa, e as relaes entre ansiedade, dor e luto - o problema da ansiedade constitui seu 
principal tema. Um exame da relao apresentada no Apndice B ([1]) ser suficiente para demonstrar como com tanta freqncia ele estava presente na mente de Freud 
do comeo ao fim de seus estudos psicolgicos. Embora sobre certos aspectos do assunto suas opinies sofressem pequena modificao, sobre outros, conforme ele nos 
relata nestas pginas, elas foram consideravelmente modificadas. Talvez seja de interesse delinear, pelo menos toscamente, a histria dessas alteraes em dois ou 
trs dos mais importantes temas em jogo.
         
         (a) A ANSIEDADE COMO LIBIDO TRANSFORMADA
         
         Foi no curso da investigao das neuroses 'atuais' que Freud pela primeira vez se defrontou com o problema da ansiedade, sendo que suas primeiras apreciaes 
sobre ela sero encontradas em seu primeiro artigo sobre a neurose de angstia (1895b) e no memorando acerca do assunto que enviou a Fliess pouco depois, provavelmente 
no vero de 1894 (Freud, 1950a, Rascunho E). Naquela poca ele ainda se encontrava em grande parte sob a influncia de seus estudos neurolgicos e imerso em sua 
tentativa de expressar os dados da psicologia em termos fisiolgicos. Em particular, seguindo Fechner, aceitara como postulado fundamental o 'princpio de constncia', 
de acordo com o qual havia uma tendncia inerente ao sistema nervoso de reduzir, ou pelo menos de manter constante, o grau de excitao nele presente. Quando, portanto, 
fez a descoberta clnica de que em casos de neurose de angstia sempre era possvel descobrir certa interferncia com a descarga de tenso sexual, foi-lhe natural 
concluir que a excitao acumuladaescapava sob a forma transformada de ansiedade. Ele considerou isso como um processo puramente fsico sem quaisquer determinantes 
psicolgicos.
         Desde o incio a ansiedade que ocorria em fobias ou em neuroses obsessivas levantava uma complicao, pois aqui a presena dos fatos psicolgicos no podia 
ser excluda. Mas, no tocante ao surgimento da ansiedade, a explicao continuava a mesma. Nesses casos - nas psiconeuroses - a razo do acmulo de excitao no 
descarregada era psicolgica: represso. Mas o que se seguiu foi o mesmo que nas neuroses 'atuais': a excitao acumulada (ou libido) foi transformada diretamente 
em ansiedade.
         Algumas citaes indicaro com que lealdade Freud manteve esse ponto de vista. No 'Rascunho E' (c. 1894), mencionado acima, escreveu ele: 'A ansiedade surge 
por uma transformao da tenso acumulada'. Em A Interpretao de Sonhos (1900a): 'A ansiedade  um impulso libidinal que tem sua origem no inconsciente e  inibido 
pelo pr-consciente'. (Edio Standard Brasileira, Vol. IV, Pp. 358-60, IMAGO Editora, 1972.) Em Gradiva (1907a): 'A Ansiedade em sonhos de ansiedade, como a ansiedade 
neurtica em geral,... decorre da libido pelo processo de represso'. (Standard Ed., 9, 60-1.) No artigo metapsicolgico sobre 'Represso' (1915d): Aps a represso 
'a parcela quantitativa [do impulso instintual - isto , sua energia] no desapareceu, mas foi transformada em ansiedade'. (Edio Standard Brasileira, Vol. VIV, 
p. 179, IMAGO Editora, 1974.) Finalmente, j em 1920, Freud acrescentou numa nota de rodap  quarta edio dos Trs Ensaios: 'Um dos resultados mais importantes 
da pesquisa psicanaltica  essa descoberta de que a ansiedade neurtica se origina da libido, que  produto de uma transformao desta e que, assim, se relaciona 
com ela da mesma forma que o vinagre com o vinho'. (Edio Standard Brasileira, Vol. VIII, p. 231, IMAGO Editora, 1972.)  curioso observar, contudo, que numa fase 
bem inicial Freud parece haver sido assaltado por dvidas sobre o assunto. Numa carta a Fliess de 14 de novembro de 1897 (Freud, 1950a, carta 75), ele observa, sem 
qualquer conexo aparente com o restante do que vem escrevendo: 'Resolvi, ento, de agora por diante considerar como fatores separados o que causa a libido e o que 
causa ansiedade'. No se encontra em parte alguma qualquer outra prova dessa retratao isolada. Na obra que temos diante de ns Freud desiste da teoria que sustentara 
por tanto tempo. Ele no considerava mais a ansiedade como libido transformada, mas como uma reao sobre um modelo especfico a situaes de perigo. Mas mesmo aqui 
ainda sustentava [1] que era bem possvel que no caso da neurose de angstia 'o que encontra descarga na gerao da ansiedade  precisamente o excedente da libido 
no utilizada'. Essa ltima relquia da antiga teoria iria ser abadonada poucos anos depois.Num trecho perto dofinal de seu exame sobre ansiedade, na Conferncia 
XXXII de suas New Introductory Lectures (1933a), escreveu que tambm na neurose de angstia o surgimento de ansiedade era uma reao a uma situao traumtica: 'no 
sustentaremos mais que  a prpria libido que se transformou em ansiedade em tais casos.'
         
         (b) ANSIEDADE REALSTICA E NEURTICA
         
         Apesar de sua teoria de que a ansiedade neurtica era simplesmente libido transformada, Freud desde o incio se deu ao trabalho de insistir na estreita 
relao entre a ansiedade devida a perigos externos e a perigos instintuais. Em seu primeiro artigo sobre a neurose de angstia (1895b) escreveu: 'A psique  dominada 
pelo afeto de ansiedade se sentir que  incapaz de lidar por meio de uma reao apropriada com uma tarefa (um perigo) que se aproxima de fora. Nas neuroses  dominada 
pela ansiedade se notar que  incapaz de atenuar uma excitao (sexual) que tenha surgido de dentro. Assim se comporta, como se estivesse projetando essa excitao 
para fora. O fato [ansiedade normal] e a neurose correspondente se acham em firme relao um com a outra: o primeiro  a reao a uma excitao exgena e a segunda 
a uma reao endgena anloga.'
         Essa posio, especialmente em relao com fobias, foi aprimorada depois dos escritos de Freud - por exemplo, nos artigos metapsicolgicos sobre 'Represso' 
(1915d) e 'O Inconsciente' (1915e), Edio Standard Brasileira, Vol. XIV, Pp. 178-81, 182-4 e 209-11, IMAGO Editora, 1974, e na conferncia XXV das Conferncias 
Introdutrias. Mas foi difcil conservar a uniformidade da ansiedade nos dois tipos de caso enquanto se insistia na derivao direta da ansiedade a partir da libido 
quanto s neuroses 'atuais'. Com o abandono desse ponto de vista a nova distino entre ansiedade automtica e ansiedade como um sinal toda a situao foi esclarecida 
e deixou de haver qualquer motivo para se ver uma diferena genrica entre ansiedade neurtica e realstica.
         
         (c) A SITUAO TRAUMTICA E AS SITUAES DE PERIGO
         
         As dificuldades deste livro aumentam quando se observa que a distino entre a ansiedade como um sinal do perigo de abordagem desse trauma, embora j aflorada 
em vrios pontos anteriores, s  confirmadano ltimo captulo. (Um relato ulterior e mais breve, apresentado na Conferncia XXXII de New Introductory Lectures, 
talvez seja mais fcil de ser apreendido.)
         O determinante fundamental da ansiedade automtica  a ocorrncia de uma situao traumtica; e a essncia disto  uma experincia de desamparo por parte 
do ego face de um acmulo de excitao, quer de origem externa quer interna, com que no se pode lidar ([1],[2]e [3]). A ansiedade 'como um sinal'  a resposta do 
ego  ameaa da ocorrncia de uma situao traumtica. Tal ameaa constitui uma situao de perigo. Os perigos internos modificam-se com o perodo de vida,ver em 
([1]e [2]), mas possuem uma caracterstica comum, a saber, envolver a separao ou perda de um objeto amado, ou uma perda de seu amor,ver em ([1]) - uma perda ou 
separao que poder de vrias maneiras conduzir a um acmulo de desejos insatisfatrios e dessa maneira a uma situao de desamparo. Embora Freud no houvesse reunido 
antes todos esses fatores, cada um deles tem uma longa histria prvia.
         A prpria situao traumtica  claramente o descendente direto do estado de tenso acumulada e no descarregada dos primeiros escritos de Freud sobre a 
ansiedade. Alguns dos relatos da mesma, aqui apresentados, podem ser citaes de 1894 a 1895. Por exemplo, 'sofrendo de uma dor que no pra ou experimentando um 
acmulo de necessidades instintuais que no podem conter satisfao', na [1], pode ser comparado com 'um acmulo psquico de excitao... devido  descarga ficar 
retida', segundo o 'Rascunho E' (Freud, 1950a). Nesse perodo inicial as excitaes acumuladas,  verdade, eram julgadas quase invariavelmente libidinais, mas no 
de todo invariavelmente. Depois no mesmo 'Rascunho E' encontra-se uma frase que ressalta que a ansiedade pode ser 'uma sensao de um acmulo de outro estmulo endgeno 
- o estmulo no sentido de respirar...; a ansiedade pode, portanto, ser capaz de ser utilizada em relao com a tenso fsica acumulada em geral'. Alm disso, no 
'Project' de 1895 (Freud, 1950a, Parte I, Seo 1) Freud enumera as principais necessidades que do lugar a estmulos endgenos que exigem descarga - 'fome, respirao 
e sexualidade', e em trecho posterior (Parte I, Seo 11) observa que em algumas condies essa descarga 'exige uma alterao no mundo externo (por exemplo, o suprimento 
de nutrio ou a proximidade do objeto sexual)' que 'em fases iniciais o organismo humano  incapaz de alcanar'. A fim de ocasionar isto necessita-se de 'ajuda 
estranha', que a criana atrai pelos seus gritos. E aqui Freud expende comentrios sobre o 'desamparo original dos seres humanos'. Existe uma referncia semelhante 
na Parte III, Seo 1, da mesma obra,  necessidade de 'atrair a ateno de alguma personagem til (que , em geral, oprprio objeto desejado) para o anseio e aflio 
da criana'. Esses trechos parecem ser uma indicao prematura da situao de desamparo aqui descrita, ver em ([1] e [2]), em que a criana sente falta da me - 
situao que fora claramente mencionada na nota de rodap aos Trs Ensaios (1950d) na qual Freud explicava a ansiedade de uma criana no escuro como sendo devida 
 'ausncia de algum que amava' (Edio Standard Brasileira, Vol. VII, p. 231, IMAGO Editora, 1972).
         Mas isso nos levou  questo dos vrios perigos especficos que so capazes de precipitar uma situao traumtica em diferentes pocas da vida. Estes, em 
breves linhas so os seguintes: o nascimento, a perda da me como um objeto, a perda do pnis, a perda do amor do objeto, a perda do amor do superego. A questo 
do nascimento  tratada na seo seguinte e acabamos de mencionar algumas primeiras referncias  importncia da separao da me. O perigo da castrao com seus 
efeitos devastadores constitui sem dvida o mais familiar de todos esses perigos. Mas vale a pena lembrar uma nota de rodap acrescentada em 1923 ao caso clnico 
de 'Little Hans' (1909b), no qual Freud reprova a aplicao da expresso 'complexo de castrao' s outras espcies de separao que a criana deve inevitavelmente 
experimentar (Standard Ed., 10, 8 n.) possivelmente podemos ver nessa passagem um primeiro indcio do conceito de ansiedade devido  separao que aqui se torna 
proeminente. A nfase dada ao perigo de perder o amor ao objeto amado  explicitamente relacionada ([1]) com as caracteristicas da sexualidade feminina, que s recentemente 
comearam a ocupar a mente de Freud. Finalmente, o perigo de perder o amor do superego nos leva de volta aos problemas, j h muito debatidos, do sentimento de culpa, 
que haviam sido reenunciados h pouco em O Ego e o Id (1923b).
         
         (d) A ANSIEDADE COMO UM SINAL
         
         Conforme aplicada ao desprazer em geral, esta era uma noo muito antiga de Freud. Na Seo 6 da Parte II do "Project" pstumo de 1895 (Freud, 1950a) existe 
um relato de um mecanismo pelo qual o ego restringe a geraode experincias dolorosas: 'Dessa maneira, a liberao do desprazer fica restringida em quantidade, 
e seu incio atua como um sinal ao ego a fim de fixar uma defesa normal em funcionamento.' De maneira semelhante, em A Interpretao de Sonhos (1900a), Edio Standard 
Brasileira, Vol. V, p. 641, IMAGO Editora, 1972, fundamenta-se que o pensar deve visar 'restringir o desenvolvimento do afeto na atividade do pensamento ao mnimo 
exigido para agir como sinal'. Em 'O Inconsciente' (1915e), Edio Standard Brasileira, Vol. XIV, p. 210, IMAGO, 1974, a idia j  aplicada  ansiedade. Examinando 
o surgimento de 'idias substitutivas' na fobia, escreve Freud: 'A excitao de qualquer ponto dessa estrutura externa, dada sua ligao com a idia substitutiva, 
deve inevitavelmente dar lugar a um ligeiro desenvolvimento da ansiedade; isto passa a ser utilizado como um sinal para inibir... o progresso posterior do desenvolvimento 
da ansiedade.' De maneira semelhante na Conferncia XXV das Conferncias Introdutrias, o estado de 'ansiosa expectativa'  descrito em um ou dois pontos como oferecendo 
um 'sinal' para impedir o irromper de grave ansiedade. A partir da no se estava longe da iluminadora exposio destas pginas. Pode-se observar que no presente 
trabalho tambm o conceito  introduzido pela primeira vez como um sinal de 'desprazer',ver em ([1]) e s subseqentemente como de 'ansiedade'.
         
         (e) A ANSIEDADE E O NASCIMENTO
         
         Resta a questo do que  que determina a forma pela qual a ansiedade se manifesta. Isto tambm foi examinado por Freud em seus primeiros escritos. Para 
comear (sistematicamente com seu ponto de vista da ansiedade como libido transformada) ele considerava o mais impressionante de seus sintomas - a dispnia e as 
palpitaes - como elementos do ato da cpula, os quais, na ausncia dos meios normais de descarga da excitao, surgiam de forma isolada e exagerada. Esse relato 
ser encontrado no Rascunho E dos artigos de Fliess, mencionados acima, e que provavelmente datam de junho de 1894, e no final da Seo III do primeiro artigo sobre 
neurose de angstia (1895b), sendo repetido no caso clnico de 'Dora' (1950e) [1901], onde Freud escreveu: Afirmei, anos atrs, que a dispnia e as palpitaes que 
ocorrem na histeria e na neurose da angstia so apenas fragmentos soltos do ato de copulao.' (Edio Standard Brasileira, Vol. VIII, p. 77, IMAGO Editora, 1972.) 
No est claro como tudo isto se ajustou aos pontos de vista de Freud quanto  expresso da emoes em geral. Certamente parecem ter em ltima anlise provindo de 
Darwin. Nos Estudos sobre a Histeria (1895d) ele citouduas vezes o volume de Darwin sobre o assunto (Darwin, 1872), e na segunda ocasio recordou que Darwin ensinara 
que a expresso das emoes 'consiste em aes que originalmente possuam um significado e serviam a uma finalidade' (Edio Standard Brasileira, Vol. II, p. 231, 
IMAGO Editora, 1974). Num debate perante a Sociedade Psicanaltica de Viena em 1909, Freud, segundo Jones (1955, 494), havia afirmado que 'todo afeto...  apenas 
uma reminiscncia de um fato'. Muito depois da Conferncia XXV das Conferncias Introdutrias (1916-17), ele abordou esse ponto novamente e expressou a crena de 
que o 'ncleo' de um fato  'a repetio de alguma experincia significativa especfica'. Recordou tambm a explicao que havia dado anteriormente sobre ataques 
histricos (1909a, Standard Ed., 9, 232) como revivescncias de fatos da infncia, e acrescentou sua concluso de que 'um ataque histrico pode ser parecido com 
um afeto individual recm-construdo, e um afeto normal com a expresso de uma histeria geral que se tornou uma herana'. Ele repete essa teoria, quase nos mesmos 
termos, na presente obra,ver em ([1],[2],[3] e [4]).
         Qualquer que seja o papel que essa teoria dos afetos tenha desempenhado na explicao anterior de Freud quanto  forma assumida pela ansiedade, ela o desempenhou 
de maneira essencial em sua nova explicao, a qual surgiu, aparentemente sem aviso, em uma nota de rodap acrescentada  segunda edio de A Interpretao de Sonhos 
(Edio Standard Brasileira, Vol. V, p. 428, IMAGO Editora, 1972). No final de certa apreciao das fantasias sobre a vida no ventre, prosseguiu ele (e imprimiu 
a frase em tipo espaado): 'Alm disso, o ato de nascer  a primeira experincia de ansiedade, sendo assim a fonte e o prottipo da sensao de ansiedade.' A edio 
veio a lume em 1909, mas o prefcio traz a data 'Vero de 1908'. Uma possvel pista para o sbito surgimento, naquela ocasio, dessa idia revolucionria encontra-se 
no fato de que Freud, no havia muito tempo, contribura com um prefcio (datado de 'Maro de 1908') para o livro de Stekel sobre estados de ansiedade (Freud, 1908f). 
O prefcio,  verdade, no contm a mais leve idia sobre a nova teoria, ao passo que o prprio livro de Stekel parece explicitamente aceitar a teoria anterior de 
Freud sobre a vinculao entre a ansiedade e a copulao. No obstante, o interesse de Freud deve ter sido sem dvida focalizado mais uma vez sobre o problema, e 
pode ser que nesse ponto uma antiga lembranapossa ter sido revivida em relao a um fato descrito por ele posteriormente, no curso de sua apreciao da ansiedade 
nas Conferncias Introdutrias. Essa lembrana dizia respeito ao que se pretendia ser uma anedota cmica - que lhe fora contada, quando era mdico interno, por outro 
jovem colega - sobre como uma parteira havia declarado existir uma ligao entre o nascimento e o estar assustado. A lembrana deve ter remontado a mais ou menos 
1884, embora Freud no parea t-la mencionado at essa conferncia em 1917. Parece possvel que a lembrana tivesse sido de fato evocada pela sua leitura do livro 
de Stekel e que tenha provocado o surgimento de nova teoria em 1908. A partir da, essa teoria jamais foi abandonada. Ele lhe atribuiu especial proeminncia no primeiro 
dos seus artigos sobre a psicologia do amor (1910h), Edio Standard Brasileira, Vol. XI, p. 156, IMAGO Editora, 1970. Embora no fosse publicado seno em 1910, 
sabemos que seus pontos principais foram apresentados  Sociedade Psicanaltica de Viena em maio de 1909; enquanto em novembro do mesmo ano as atas da sociedade 
(citadas por Jones, 1955, 494) informam ter ele observado que as crianas comeam sua experincia de ansiedade no prprio ato do nascimento.
         Aps a conferncia de 1917, o assunto permaneceu inexplorado durante vrios anos, at reaparecer subitamente no fim do antepenltimo pargrafo de O Ego 
e o Id (1923b), onde Freud se referia ao nascimento como 'o primeiro grande estado de ansiedade'. Isto nos leva  poca da publicao do livro de Rank, The Trauma 
of Birth. A relao cronolgica entre essa frase de Freud e a obra de Rank no  inteiramente clara. O Ego e o Id veio a lume em abril de 1923. A pgina de rosto 
do livro de Rank traz a data '1924', mas em sua ltima pgina encontram-se as palavras 'escrito em abril de 1923'; e a dedicatria declara que o livro foi 'presenteado' 
a Freud em 6 de maio de 1923 (aniversrio de Freud). Embora Ernest Jones (1957, 60) afirme especificamente que Freud no o lera antes de sua publicao em dezembro 
de 1923, ele estava cnscio dos delineamentos gerais das idias de Rank j em setembro de 1922 (ibid., 61), e isso sem dvida  bastante para explicar a referncia 
ao nascimento em O Ego e o Id.
         O livro de Rank representou muito mais do que uma adoo da explicao de Freud da forma assumida pela ansiedade. Argumentou ele que os ataques ulteriores 
de ansiedade eram tentativas de 'ab-reagir' o trauma do nascimento. Ele explicou todas as neuroses em moldes semelhantes, destronando incidentalmente o complexo 
de dipo, e props uma tcnica teraputica reformada, baseada na superao do trauma do nascimento. As referncias publicadas de Freud ao livro pareciam a princpio 
favorveis. Mas a presente obra revela uma inverso completa e final dessa opinio. Sua rejeio dos pontos de vista de Rank, contudo, estimulou-o a uma reconsiderao 
prpria, e Inibies, Sintomas e Ansiedade foi o resultado.
         Trechos da primeira (1936) traduo londrina dessa obra foram includos em A General Selection from the Works of Sigmund Freud (1937, 275-291), de Rickman.
         
         
         
         
         
         
         INIBIES, SINTOMAS E ANSIEDADE
         
         
         I 
         Na descrio das manifestaes patolgicas, o uso lingstico permite-nos distinguir sintomas de inibies, sem, contudo, atribuir-se grande importncia 
 distino. Na realidade, dificilmente poderamos pensar que valeria a pena diferenciar exatamente entre os dois, no fosse o fato de encontrarmos molstias nas 
quais observamos a presena de inibies mas no de sintomas, e ficamos curiosos para saber a razo disso.
         Os dois conceitos no se encontram no mesmo plano. A inibio tem uma relao especial com a funo, no tendo necessariamente uma implicao patolgica. 
Podemos muito bem denominar de inibio a uma restrio normal de uma funo. Um sintoma, por outro lado, realmente denota a presena de algum processo patolgico. 
Assim, uma inibio pode ser tambm um sintoma. O uso lingstico, portanto, emprega a palavra inibio quando h uma simples reduo de funo, e sintoma quando 
uma funo passou por alguma modificao inusitada ou quando uma nova manifestao surgiu desta. Muito amide parece ser assunto bem arbitrrio, quer ressaltemos 
o lado positivo de um processo patolgico e chamemos o seu resultado de sintoma, quer ressaltemos seu lado negativo e intitulemos seu resultado de inibio. Mas 
tudo isso  realmente de pouco interesse e o problema, conforme o enunciamos, no nos leva muito longe.
         Visto que o conceito da inibio se acha to intimamente associado com o da funo, talvez fosse valioso examinar as vrias funes do ego com vistas a 
descobrir as formas que qualquer perturbao dessas funes assume em cada uma das diferentes afeces neurticas. Tomemos para um estudo comparativo dessa natureza 
a funo sexual e as do comer, da locomoo e do trabalho profissional.
         (a) A funo sexual est sujeita a grande nmero de perturbaes, a maioria das quais exibe as caractersticas de inibies simples. Estas so classificadas 
em conjunto como impotncia psquica. O desempenho normal da funo sexual s pode ocorrer como resultado de um processo muito complicado, podendo surgir distrbios 
em qualquer ponto do mesmo. Nos homens as principais fases nas quais a inibio ocorre so reveladas por: um afastamento da libido no prprio incio do processo 
(desprazer psquico); ausncia do preparo fsico para ela (falta de ereo); abreviao do ato sexual(ejaculatio praecox), ocorrncia que pode igualmente ser considerada 
como um sintoma; uma suspenso do ato antes de haver chegado  sua concluso natural (ausncia de ejaculao); ou o no surgimento do resultado psquico (falta da 
sensao de prazer no orgasmo). A partir da funo sexual, surgem outras perturbaes que se tornam dependentes de condies especiais de natureza pervertida ou 
fetichista.
         Que existe uma relao entre a inibio e a ansiedade  algo evidente. Algumas inibies obviamente representam o abandono de uma funo porque sua prtica 
produziria ansiedade. Muitas mulheres manifestamente temem a funo sexual. Classificamos essa ansiedade sob a histeria, do mesmo modo como fazemos em relao ao 
sintoma defensivo da repulsa que, surgindo originalmente como uma reao preterida  experincia de um ato sexual passivo, aparece depois, sempre que a idia de 
tal ato  apresentada. Alm disso, muitos atos obsessivos vm a ser medidas de precauo e de segurana contra experincias sexuais, sendo assim de natureza fbica.
         Isto no  muito ilustrativo. Podemos apenas observar que as perturbaes da funo sexual so acarretadas por grande variedade de meios. (1) A libido pode 
simplesmente ser afastada (isto parece produzir, com a maior rapidez, o que consideramos uma inibio pura e simples); (2) a funo pode ser executada de forma menos 
perfeita; (3) pode ser prejudicada por ter condies ligadas a ela, ou modificada pelo desvio para outras finalidades; (4) pode ser impedida por medidas de segurana; 
(5) se no puder ser impedida desde o incio, pode ser imediatamente interrompida pelo aparecimento da ansiedade; e (6) se for, no obstante, levada a efeito, poder 
haver uma subseqente reao de protesto contra ela e uma tentativa de desfazer o que foi feito.
         (b) A funo da nutrio , com a maior freqncia, perturbada por uma falta de inclinao para comer, acarretada por uma retirada da libido. Um aumento 
do desejo de comer tambm no constitui coisa incomum. A compulso para comer  atribuda ao medo de morrer de fome, mas isto  um assunto pouco estudado. O sintoma 
de vmitos  conhecido por ns como uma defesa histrica contra o comer. A recusa de comer devido  ansiedade  concomitante de estados psicticos (delrios de ser 
envenenado).
         (c) Em algumas condies neurticas a locomoo  inibida por uma indisposio para andar ou por uma fraqueza no caminhar. Na histeria haver uma paralisia 
do aparelho motor, ou essa funo especial do aparelho ser abolida (abasia). Especialmente caractersticas so as dificuldades maiores que surgem na locomoo devido 
 introduo de certas estipulaes cuja inobservncia resulta em ansiedade (fobia).(d) Na inibio no trabalho - fato com o qual tantas vezes temos de lidar como 
um sintoma isolado em nosso trabalho teraputico - o indivduo sente uma diminuio do seu prazer nele, ou se torna menos capaz de realiz-lo bem, ou ento experimenta 
certas reaes no tocante ao mesmo, como a fadiga, a tontura ou o enjo, se for obrigado a prosseguir com o mesmo. Se for histrico, ter que desistir do trabalho 
devido ao aparecimento de paralisias orgnicas e funcionais que lhe tornam impossvel continuar. Se for um neurtico obsessivo, ser perpetuamente distrado de seu 
trabalho ou perder tempo com o mesmo pela intromisso de delongas e repeties.
         Nosso estudo pode ser estendido tambm a outras funes; mas no haveria nada mais a aprender agindo-se dessa forma, pois no devemos penetrar abaixo da 
superfcie das manifestaes a ns apresentadas. Passemos ento a descrever a inibio de forma a deixar muito pouca dvida sobre o que se quer dizer com ela, e 
digamos que a inibio  a expresso de uma restrio de uma funo do ego. Uma restrio dessa espcie pode ter causas muito diferentes. Alguns dos mecanismos em 
jogo nessa renncia  funo so bem conhecidos por ns, como o  certa finalidade geral que a rege.
         Essa finalidade  mais facilmente reconhecvel nas inibies especficas. A anlise revela que quando atividades como tocar piano, escrever ou mesmo andar 
ficam sujeitas a inibies neurticas, isso ocorre porque os rgos fsicos postos em ao - os dedos ou as pernas - se tornaram erotizados de forma muito acentuada. 
Descobriu-se como ato geral que a funo do ego de um rgo fica prejudicada se a sua erotogeneidade - sua significao sexual - for aumentada. Comporta-se, se me 
permitem uma analogia um tanto absurda, como uma empregada domstica que se recusa a continuar cozinhando porque o patro iniciou um caso amoroso com ela. Logo que 
o escrever, que faz com que um lquido flua de um tubo para um pedao de papel branco, assume o significado da copulao, ou logo que o andar se torna um substituto 
simblico do pisotear o corpo da me terra, tanto o escrever como o andar so paralisados porque representam a realizao de um ato sexual proibido. O ego renuncia 
a essas funes, que se acham dentro de sua esfera, a fim de no ter de adotar novas medidas de represso - a fim de evitar entrar em conflito com o id.
         Existem tambm claramente inibies que servem  finalidade de autopunio. Este  amide o caso em inibies de atividades profissionais. No se permite 
ao ego levar a efeito essas atividades, porque trariam xito e lucro, e isso so coisas que o severo superego proibiu. Assim o ego desiste tambm delas, a fim de 
evitar entrar em conflito com o superego.As inibies mais generalizadas do ego obedecem a um mecanismo diferente de natureza simples. Quando o ego se v envolvido 
em uma tarefa psquica particularmente difcil, como ocorre no luto, ou quando se verifica uma tremenda supresso de afeto, ou quando um fluxo contnuo de fantasias 
sexuais tem de ser mantido sob controle, ele perde uma quantidade to grande de energia  sua disposio que tem de reduzir o dispndio da mesma em muitos pontos 
ao mesmo tempo. Fica na posio de um especulador cujo dinheiro ficou retido em suas vrias empresas. Deparou-se-me por acaso um exemplo instrutivo dessa espcie 
de inibio geral intensa, embora efmera. O paciente, um neurtico obsessivo, era dominado por uma fadiga paralisante que durava um ou mais dias, sempre que acontecia 
algo que evidentemente devia t-lo enfurecido. Temos aqui um ponto a partir do qual deve ser possvel chegar a uma compreenso da condio geral que caracteriza 
estados de depresso, inclusive a mais grave de suas formas, a melancolia.
         No tocante s inibies, podemos ento dizer, em concluso, que so restries da funes do ego que foram ou impostas como medida de precauo ou acarretadas 
como resultado de um empobrecimento de energia; e podemos ver sem dificuldade em que sentido uma inibio difere de um sintoma, porquanto um sintoma no pode mais 
ser descrito como um processo que ocorre dentro do ego ou que atua sobre ele.
         II
         As principais caractersticas dos sintomas j foram estudadas h muito e, espero, estabelecidas sem discusso. Um sintoma  um sinal e um substituto de 
uma satisfao instintual que permaneceu em estado jacente;  uma conseqncia do processo de represso. A represso se processa a partir do ego quando este - pode 
ser por ordem do superego - se recusa a associar-se com uma catexia instintual que foi provocada no id. O ego  capaz, por meio de represso, de conservar a idia 
que  o veculo do impulso repreensvel a partir do tornar-se consciente. A anlise revela que a idia amide persiste como uma formao inconsciente.
         At agora tudo se afigura claro, mas logo nos defrontaremos com dificuldades que at o momento no foram superadas. At este momento nosso relato do que 
ocorre na represso deu grande nfase a esse ponto de excluso a partir da conscincia. Mas deixou outros pontos passveis de incerteza. Uma questo que surgiu: 
o que aconteceu ao impulso instintual que fora ativado no id e que procurou satisfao? A reposta foi indireta. Devido ao processo de represso, o prazer que se 
teria esperado da satisfao fora transformado em desprazer. Mas vimo-nos ento em face do problema de como a satisfao de um instinto poderia produzir desprazer. 
Todo o assunto pode ser esclarecido, penso, se nos ativermos ao enunciado definitivo de que, como resultado da represso, o pretendido curso do processo excitatrio 
no id no ocorre de modo algum; o ego consegue inibi-lo ou defleti-lo. Se este for o caso, o problema de 'transformao de afeto' sob a represso desaparece. Ao 
mesmo tempo, esse ponto de vista implica uma concesso ao ego para que ele possa exercer uma influncia muito ampla sobre os processos no id, e teremos de descobrir 
de que forma ele  capaz de desenvolver tais poderes surpreendentes.Parece-me que o ego obtm essa influncia em virtude de suas vinculaes ntimas com o sistema 
perceptual - vinculaes que, como sabemos, constituem sua essncia e proporcionam a base de sua diferenciao do id. A funo desse sistema, o qual denominamos 
de Pcpt-Cs., est ligada  manifestao da conscincia. Ela recebe excitaes no somente de fora, mas tambm de dentro, e se esfora, por meio das sensaes de 
prazer e desprazer que a alcanam a partir desses pontos, para orientar o curso dos fatos mentais de conformidade com o princpio de prazer. Estamos muito inclinados 
a pensar no ego como impotente contra o id; mas, quando se ope a um processo instintual no id, ele tem apenas de dar um 'sinal de desprazer' a fim de alcanar seu 
objetivo com a ajuda daquela instituio quase onipotente, o princpio de prazer. Para considerarmos essa situao em si por um momento, podemos ilustr-la mediante 
um exemplo de outro campo. Imaginemos um pas no qual uma pequena faco  contrria a uma medida proposta, cuja aprovao contaria com o apoio das massas. Essa 
minoria obtm o controle da imprensa e com o auxlio desta manipula o rbitro supremo, a 'opinio pblica', conseguindo assim que a medida no seja aprovada.
         Mas essa explicao provoca novos problemas. De onde provm a energia empregada para transmitir o sinal de desprazer? Aqui podemos ser auxiliados pela idia 
de que uma defesa contra um processo interno importuno ser plasmada sobre a defesa adotada contra um estmulo externo, e de que o ego debela os perigos internos 
e externos, de igual modo, ao longo de linhas idnticas. No caso de perigo externo, o organismo recorre a tentativas de fuga. A primeira coisa que ele faz  retirar 
a catexia de percepo do objeto perigoso; posteriormente, descobre que constitui um plano melhor realizar movimentos musculares de tal natureza que tornem a percepo 
do objeto perigoso impossvel, mesmo na ausncia de qualquer recusa para perceb-lo - que  um plano melhor afastar-se da esfera de perigo. A represso  um equivalente 
a essa tentativa de fuga. O caso retira sua catexia (pr-consciente) do representante instintual que deve ser reprimido e utiliza essa catexia para a finalidade 
de liberar o desprazer (ansiedade). O problema de como surge a ansiedade em relao com a represso pode no ser simples, mas podemoslegitimamente apegar-nos com 
firmeza  idia de que o ego  a sede real da ansiedade, e abandonar nosso ponto de vista anterior de que a energia catexial do impulso reprimido  automaticamente 
transformada em ansiedade. Se eu me expressasse antes no segundo sentido, estaria dando uma descrio fenomenolgica e no um relato metapsicolgico do que ocorria.
         Isto nos leva a outra questo: como  possvel, de um ponto de vista econmico, que um mero processo de retirada e descarga, como a retirada de uma catexia 
do ego pr-consciente, produza desprazer ou ansiedade, visto que, de acordo com nossas suposies, o desprazer e a ansiedade podem surgir somente como resultado 
de um aumento de catexia? A resposta  que essa seqncia causal no deve ser explicada de um ponto de vista econmico. A ansiedade no  criada novamente na represso; 
 reproduzida como um estado afetivo de conformidade com uma imagem mnmica j existente. Se formos adiante e indagarmos da origem dessa ansiedade - e dos afetos 
em geral - estaremos deixando o domnio da psicologia pura e penetrando na fronteira da fisiologia. Os estados afetivos tm-se incorporado na mente como precipitados 
de experincias traumticas primevas, e quando ocorre uma situao semelhante so revividos como smbolos mnmicos. No penso haver laborado em erro ao aproxim-los 
do ataque histrico mais recente e individualmente adquirido, e em consider-los como seus prottipos normais. No homem e nos animais superiores pareceria que o 
ato do nascimento, como a primeira experincia de ansiedade do indivduo, imprimiu ao afeto de ansiedade certas formas caractersticas de expresso. Mas, embora 
reconhecendo essa vinculao, no devemos dar-lhe nfase indevida nem desprezar o fato de que a necessidade biolgica exige que uma situao de perigo deva ter um 
smbolo afetivo, de modo que um smbolo dessa espcie teria em qualquer caso de ser criado. Alm disso, no penso que estejamos justificados ao presumir que, sempre 
que haja uma irrupo de ansiedade, algo como uma reproduo da situao de nascimento se passe na mente. Nem mesmo  certo que os ataques histricos, embora originalmente 
fossem reprodues traumticas dessa natureza, conservem esse carter de modo permanente.
         Como revelei em outra parte, a maioria da represses com as quais temos de lidar em nosso trabalho teraputico so casos de presso posterior.Pressupem 
a atuao de represses primitivas mais antigas que exercem atrao sobre a situao mais recente. Muitssimo pouco se sabe at agora sobre os antecedentes e as 
fases preliminares da represso. H o perigo de superestimar o papel desempenhado na represso pelo superego. No podemos no momento dizer se seria o surgimento 
do superego que proporciona a linha de demarcao entre a represso primitiva e a presso posterior. Seja como for, as primeiras irrupes de ansiedade, que so 
de natureza muito intensa, ocorrem antes de o superego tornar-se diferenciado.  altamente provvel que as causas precipitantes imediatas das represses primitivas 
sejam fatores quantitativos, tais como uma fora excessiva e o rompimento do escudo protetor contra os estmulos.
         Essa meno do escudo protetor provoca algo que nos relembra o fato de que a represso ocorre em duas situaes diferentes - a saber, quando um impulso 
instintual indesejvel  provocado por certa percepo externa e quando surge internamente sem qualquer provocao. Voltaremos a essa divergncia mais adiante. Mas 
o escudo protetor existe apenas no tocante a estmulos externos, no quanto a exigncias instintuais internas.
         Enquanto dirigirmos nossa ateno para a tentativa de fuga do ego, no chegaremos mais perto do tema da formao de sintomas. Um sistema surge de um impulso 
instintual que foi prejudicialmente afetado pela represso. Se o ego, fazendo uso do sinal de desprazer, atingiu seu objetivo de suprimir inteiramente o impulso 
instintual, nada saberemos sobre como isso aconteceu. Podemos apenas descobrir algo a esse respeito pelos casos nos quais a represso deve ser descrita como tendo, 
em maior ou menor grau, falhado. Nesse caso a posio, falando em geral,  que o impulso instintual encontrou um substituto apesar da represso, mas um substituto 
muito mais reduzido, descolado e inibido, e que no  mais reconhecvel como uma satisfao. E, quando o impulso substitutivo  levado a efeito, no h qualquer 
sensao de prazer; sua realizao apresenta, ao contrrio, a qualidade de uma compulso.
         Ao rebaixar assim um processo de satisfao a um sintoma, a represso exibe sua fora sob outro aspecto. O processo substitutivo  impedido, se possvel, 
de encontrar descarga pela motilidade; e mesmo se isso no puder ser feito, o processo  forado a gastar-se ao efetuar alteraes no prprio corpo do indivduo, 
no lhe sendo permitido girar em torno do mundo externo. Ele no deve ser transformado em ao, pois, como sabemos, na represso o ego est atuando sob a influncia 
da realidade externa e, portanto, impede o processo substitutivo de exercer qualquer efeito sobre aquela realidade.
         Do mesmo modo que o ego controla o caminho para a ao, controla o acesso  conscincia. Na represso exerce sua fora em ambas as direes,atuando de uma 
maneira sobre o prprio impulso instintual e de outra sobre o representante [psquico] desse impulso. A essa altura, cabe perguntar como posso conciliar esse reconhecimento 
do poderio do ego com a descrio de sua posio que apresentei em O Ego e o Id. Nesse livro esbocei um quadro de sua relao dependente com o id e o superego, e 
revelei quo impotente e apreensivo ele era no tocante a ambos e com que esforo manteve sua exibio de superioridade sobre eles. Esse ponto de vista repercutiu 
amplamente na literatura psicanaltica. Muitos autores tm dado grande nfase  fraqueza do ego em relao ao id e aos nossos elementos racionais em face das foras 
demonacas dentro de ns, e exibem forte tendncia para transformarem o que eu disse em pedra angular de uma Weltanschauung psicanaltica. Contudo, por certo o psicanalista, 
com seus conhecimentos da forma como a represso atua, deve, justamente ele, ser impedido de adotar um ponto de vista to extremo e unilateral.
         Devo confessar que no sou de modo algum parcial quanto  construo de Weltanschauungen. Tais atividades podem ser deixadas aos filsofos, que confessadamente 
acham impossvel empreender sua viagem pela vida sem um Baedeker* dessa espcie para proporcionar-lhes informaes sobre todos os assuntos. Aceitemos humildemente 
o desprezo com que nos olham, sobranceiros, do ponto de observao de suas necessidades superiores. Mas visto que ns no podemos tambm abrir mo de nosso orgulho 
narcsico, ficaremos reconfortados com o pensamento de que tais 'Manuais para a Vida' ficam logo desatualizados, de que  precisamente nosso trabalho mope, tacanho 
e insignificante que os obriga a aparecer em novas edies, e de que at mesmo os mais atualizados deles nada mais so do que tentativas para encontrar um substituto 
para o antigo, til e todo-suficiente catecismo da Igreja. Somente uma pesquisa paciente e perseverante, na qual tudo esteja subordinado  nica exigncia da certeza, 
poder gradativamente ocasionar uma transformao. O viajante surpreendido pela noite pode cantar alto no escuro para negar seus prprios temores; mas, apesar de 
tudo isto, no enxergar mais que um palmo adiante do nariz.
         III 
         Voltando ao problema do ego. A contradio aparente deve-se ao fato de termos considerado as abstraes de maneira por demais rgida e de termos atendido 
exclusivamente ora a um lado, ora a outro daquilo que  de fato um complicado estado de coisas. Estvamos justificados, penso eu, em separar o ego do id, pois h 
certas consideraes que necessitam dessa medida. Por outro lado, o ego  idntico ao id, sendo apenas uma parte especialmente diferenciada do mesmo. Se considerarmos 
essa parte em si mesma em contraposio ao todo, ou se houver ocorrido uma verdadeira diviso entre os dois, a fragilidade do ego se torna evidente. Mas se o ego 
permanecer vinculado ao id e indistinguvel dele, ento ele exibe a sua fora. O mesmo se aplica  relao entre o ego e o superego. Em muitas situaes os dois 
se acham fundidos; e em geral s podemos distinguir um do outro quando h uma tenso ou conflito entre eles. Na represso, o fato decisivo  que o ego  uma organizao 
e o id no. O ego , na realidade, a parte organizada do id. Estaramos inteiramente errados se figurssemos o ego e o id como dois campos opostos e se supusssemos 
que, quando o ego tenta suprimir uma parte do id por meio de represso, o restante do id vai em socorro da parte que se acha em perigo e mede sua fora com o ego. 
Isto poder amide ser o que acontece, mas por certo no  a situao inicial na represso. Em geral, o impulso inicial que ir ser reprimido permanece isolado. 
Embora o ato de represso demonstre a fora do ego, em um ponto especfico ele revela a impotncia do ego e quo impenetrveis  influncia so os impulsos instintuais 
do id, pois o processo mental que se transformou em um sintoma devido  represso mantm agora sua existncia fora da organizao do ego e independentemente dele. 
Na realidade, no  somente aquele processo, mas todos os seus derivados que usufruem, por assim dizer; desse mesmo privilgio de extraterritorialidade; e sempre 
que entram em contato associativo com uma parte da organizao do ego, no  de modo algum certo que no atraiam essa parte para si prprio e assim se ampliem s 
expensas do ego. Uma analogia com a qual de h muito estamos familiarizados comparou um sintoma com um corpo estranho que vinha mantendo uma sucesso constante de 
estmulos e reaes no tecido no qual estava encravado. De fato ocorrealgumas vezes que a luta defensiva contra um impulso instintual desagradvel  eliminada com 
a formao de um sintoma. At onde se pode verificar, isto  freqentemente possvel na converso histrica. Mas em geral o resultado  diferente. O ato inicial 
da represso  acompanhado por uma seqncia tediosa ou interminvel na qual a luta contra o impulso instintual se prolonga at uma luta contra o sintoma.
         Nessa luta defensiva secundria o ego apresenta duas faces com expresses contraditrias. A nica linha de comportamento que ele adota decorre do fato de 
que sua prpria natureza o obriga a fazer o que deve ser considerado como uma tentativa de restaurao ou de reconciliao. O ego  uma organizao. Baseia-se na 
manuteno do livre intercmbio e da possibilidade de influncia recpocra entre todas as suas partes. Sua energia dessexualizada ainda revela traos de sua origem 
em seu impulso para agregar-se e unificar-se, e essa necessidade de sntese torna-se mais acentuada  proporo que a fora do ego aumenta. Portanto,  natural que 
o ego deva tentar impedir que os sintomas permaneam isolados e alheios utilizando todos os mtodos possveis para agreg-los a si de uma maneira ou de outra, e 
para incorpor-los em sua organizao por meios desses vnculos. Como sabemos, uma tendncia dessa natureza j se acha atuante na prprio ato da formao de um sintoma. 
Um exemplo clssico disto so aqueles sintomas histricos que revelamos ser um meio termo entre a necessidade de satisfao e a necessidade de punio. Tais sintomas 
participam do ego desde o incio, visto que atendem a uma exigncia do superego, enquanto por outro lado representam posies ocupadas pelo reprimido e pontos nos 
quais uma irrupo foi feita por ele at a organizao do ego. Constituem uma espcie de posto de fronteira com uma guarnio mista. (Se todos os sintomas histricos 
primrios so estruturados nesses moldes, valeria a pena examin-los muito cuidadosamente.) O ego passa agora a comportar-se como se reconhecesse que o sintoma chegara 
para ficar e que a nica coisa a fazer era aceitar a situao de bom grado, e tirar dela o mximo proveito possvel. Ele faz uma adaptao ao sintoma - a essa pea 
do mundo interno que  estranha a ele - assim como normalmente faz em relao ao mundo externo real. Ele sempre pode encontrar grande nmero de oportunidades para 
fazer isto. A presena de um sintoma pode impor uma certa diminuio de capacidade, e isto pode serexplorado para apaziguar alguma exigncia da parte do superego 
ou para recusar alguma reivindicao proveniente do mundo externo. Dessa forma, o sintoma gradativamente vem a ser representante de interesses importantes; verifica-se 
til na afirmao da posio do eu (self) e se funde cada vez mais estreitamente com o ego, tornando-se cada vez mais indispensvel a ele. S muito raramente  que 
o processo fsico de 'cura' em torno de um corpo estranho segue um curso como este. H tambm o perigo de exagerar a importncia de uma adaptao secundria dessa 
espcie a um sintoma, e de afirmar que o ego criou o sintoma simplesmente a fim de fruir suas vantagens. Seria igualmente verdadeiro dizer que um homem que perdera 
a perna na guerra fizera com que ela fosse arrancada a tiros, de modo que ele pudesse da por diante viver de sua penso, sem ter de executar mais nenhum trabalho.
         Nas neuroses obsessivas e na parania, as formas que os sintomas assumem tornam-se muito valiosas para o ego porque obtm para este, no certas vantagens, 
mas uma satisfao narcsica sem a qual, de outra forma poderia passar. Os sistemas que o neurtico obsessivo constri lisonjeiam seu amor prprio, fazendo-o sentir 
que ele  melhor que outras pessoas, porque  especialmente limpo ou especialmente consciencioso. As construes delirantes do paranico oferecem aos seus agudos 
poderes perceptivos e imaginativos um campo de atividade que ele no poderia encontrar facilmente em outra parte.
         Tudo isto resulta no que nos  familiar como o 'ganho (secundrio) proveniente da doena' que se segue a uma neurose. Essa recuperao vem em ajuda do ego 
no seu esforo para incorporar o sintoma, e aumenta a fixao deste ltimo. Quando o analista tenta subseqentemente ajudar o ego em sua luta contra o sintoma, verifica 
que esses laos conciliatrios entre o ego e o sintoma atuam do lado das resistncias e que no so fceis de afrouxar.
         As duas linhas de comportamento que o ego adota em relao ao sintoma esto, de fato, diretamente opostas uma  outra, pois a outra linha  de natureza 
menos amistosa, visto que continua na direo da represso. No obstante o ego, assim parece, no pode ser acusado de incoerncia. Sendo de disposio pacfica, 
gostaria de incorporar o sintoma e torn-lo parte dele mesmo.  do prprio sintoma que provm o mal, pois o sintoma, sendo o verdadeiro substituto e derivativo do 
impulso reprimido, executa o papel do segundo; ele continuamente renova suas exigncias de satisfao e assimobriga o ego, por sua vez, a dar o sinal de desprazer 
e a colocar-se em uma posio de defesa.
         A luta defensiva secundria contra o sintoma assume muitas formas. Trava-se em diferentes campos e faz uso de uma variedade de mtodos. No estaremos em 
condies de dizer muito sobre ela at que tenhamos feito uma indagao dos vrios exemplos diferentes da formao de sintomas. Ao procedermos dessa forma teremos 
oportunidade de penetrar no problema da ansiedade - problema que de h muito avulta no segundo plano. O projeto mais sensato ser comear pelos sintomas produzidos 
pela neurose histrica, visto no estarmos ainda em posio de considerar as condies nas quais os sintomas da neurose obsessiva, da parania e de outras neuroses 
so formados.
         IV 
         Comecemos com uma fobia histrica infantil de animais - por exemplo, o caso do 'Little Hans' [1909b], cuja fobia por cavalos era indubitavelmente tpica 
em todas as suas principais caractersticas. A primeira coisa que se torna evidente  que em um caso concreto de doena neurtica o estado de coisas  muito mais 
complexo do que se suporia enquanto se estivesse lidando com abstraes. Leva-se algum tempo para encontrar-se orientao e para resolver qual  o impulso reprimido, 
que sintoma substitutivo foi encontrado e onde est o motivo de represso.
         'Little Hans' recusava-se a sair  rua porque tinha medo de cavalos. Isto era a matria-prima do caso. Que parte disto constitua o sintoma? Era ele ter 
medo? Era sua escolha de um objeto para seu temor? Era ter ele abandonado sua liberdade de movimento? Ou era mais de um desses fatores combinados? Qual foi a satisfao 
a que ele renunciou? E por que teve de renunciar a ela?
         A um primeiro vislumbre, somos tentados a responder que o caso no  assim to obscuro. O inexplicvel medo de 'Little Hans' por cavalos era o sintoma e 
sua incapacidade de sair  rua era uma inibio, uma restrio que o ego do menino impusera a si mesmo a fim de no despertar o sintoma de ansiedade. O segundo ponto 
 claramente correto e no exame que se segue no me preocuparei mais com essa inibio. Mas no tocante ao sintoma alegado, um conhecimento superficial do caso nem 
sequer revela sua verdadeira formulao, pois uma investigao posterior indica que aquilo de que o menino sofria no era um medo vago de cavalos, mas apreenso 
bem definida de que um cavalo ia mord-lo. Essa idia, na realidade, esforava-se por retirar-se da conscincia e ser substituda por uma fobia indefinida, na qual 
somente a ansiedade e seu objeto ainda apareciam. Talvez tenha sido essa idia que tenha constitudo o ncleo do sintoma do 'Little Hans'?
         No faremos qualquer progresso enquanto no tivermos passado em revista a situao psquica do menino como um todo, quando ela veio  luz no curso do tratamento 
analtico. Ele se encontrava,  poca, na atitude edipiana ciumenta e hostil em relao ao pai, a quem, no obstante - salvo at onde a me dele era a causa de desavena 
-, amava ternamente. Aqui, ento, temos um conflito devido  ambivalncia: um amor bem fundamentado e um dio no menos justificvel dirigidos para a mesmssima 
pessoa. A fobia de 'Little Hans' deve ter sido uma tentativa de solucionar esse conflito. Conflitos dessa natureza devidos  ambivalncia so muito freqentes epodem 
ter outro resultado tpico, no qual um dos dois sentimentos conflitantes (em geral o da afeio) se torna imensamente intensificado e o outro desaparece. O grau 
exagerado e o carter compulsivo da afeio, por si ss, traem o fato de que no  a nica presente, mas est continuamente alerta para manter o sentimento oposto 
sob supresso, permitindo-nos postular a atuao de um processo que denominamos de represso por meio da formao reativa (no ego). Casos como o do 'Little Hans' 
no revelam quaisquer vestgios de uma formao reativa dessa natureza. H formas claramente diferentes de sada de um conflito devido  ambivalncia.
         Entrementes, fomos capazes de estabelecer outro ponto com certeza. O impulso instintual que sofreu represso em 'Little Hans' foi um impulso hostil contra 
o pai. A prova disto foi obtida na anlise do menino enquanto a idia do cavalo que mordia estava sendo acompanhada. Ele vira um cavalo cair e tambm vira um companheiro 
de brinquedo, com quem brincava de cavalo, cair e ferir-se. A anlise justificou a interferncia de que ele tivera um impulso pleno de desejo de que o pai devia 
cair e ferir-se como seu companheiro e o cavalo haviam feito. Alm disso, sua atitude em relao  partida de algum em certa ocasio torna provvel que o desejo 
de que o pai no atrapalhasse tambm encontrou expresso menos hesitantes. Mas um desejo dessa espcie equivale a uma inteno de algum desvencilhar-se do pai - 
equivale ao impulso assassino do complexo de dipo
         At agora no parece haver quaisquer elos de ligao entre o impulso instintual reprimido de 'Little Hans' e o substituto dele que suspeitamos devesse ser 
visto em sua fobia por cavalos. Simplifiquemos sua situao psquica, pondo de lado o fator infantil e a ambivalncia. Imaginemos que ele  um jovem criado que est 
apaixonado pela dona da casa e que recebeu certas provas de simpatia desta. Ele odeia seu patro, que  mais poderoso que ele, e gostaria de desembaraar-se dele. 
Ser-lhe-ia ento evidentemente natural temer a vingana daquele e criar medo dele - da mesma forma 'Little Hans' criou uma fobia por cavalos. No podemos, portanto, 
descrever o medo que faz parte dessa fobia como um sintoma. Se 'Little Hans', estando apaixonado pela me, mostrara medo do pai, no devemos ter direito algum de 
dizer que ele tinha uma neurose ou fobia. Sua reao emocional teria sido inteiramente compreensvel. O que a transformou em uma neurose foi apenas uma coisa: a 
substituio do pai por um cavalo.  esse deslocamento, portanto, que tem o direito de ser denominado de sintoma, e que, incidentalmente, constitui o mecanismo alternativo 
que permite um conflito devido  ambivalncia ser solucionado sem o auxlio da formao reativa. [Cf.[1].] Tal deslocamento  tornado possvel ou facilitado na tenra 
idade de 'Little Hans' porque os traos inatos do pensamento totmico podem ainda ser facilmente revividos. As crianas ainda no reconhecem nem, seja como for, 
do exagerada nfase ao abismo que separa os seres humanos do mundo animal. A seus olhos o homem adulto, o objeto de seu medo e de sua admirao, ainda pertence 
 mesma categoria que o grande animal que possui tantos atributos invejveis, mas contra a qual elas foram advertidas porque ele pode tornar-se perigoso. Como vemos, 
o conflito devido  ambivalncia no  tratado em relao  nica e mesma pessoa:  contornado, por assim dizer, por um do par de impulsos conflitantes que so dirigidos 
para outra pessoa como um objeto substitutivo.
         At agora tudo est claro. Mas a anlise da fobia de 'Hans', tem sido um desapontamento completo sob um aspecto. A distoro que constitui a formao de 
sintomas no foi aplicada ao representante [psquico] (o contedo ideativo) do impulso instintual que devia ser reprimido; foi aplicada a um representante bem diferente 
e que s correspondia a uma reao ao instinto desagradvel. Estaria mais de acordo com nossas expectativas se 'Little Hans' tivesse desenvolvido, em vez de medo 
de cavalos, uma inclinao para maltrat-los e espanc-los, ou se ele tivesse expressado em termos claros o desejo de v-los cair ou de serem feridos, ou mesmo de 
morrerem em convulses ('fazerem barulho com os ps'). Algo dessa espcie de fato surgiu em sua anlise, mas de forma alguma ocupava lugar de relevo em sua neurose. 
E, o que  bastante curioso, se ele houvesse realmente produzido uma hostilidade dessa natureza, no contra o pai, mas contra cavalos, como seu principal sintoma, 
no devamos ter dito que ele estava sofrendo de uma neurose. Deve haver algo de errado quer com nosso ponto de vista da represso, quer com nossa definio de um 
sintoma. Uma coisa, naturalmente, nos impressiona de imediato; se 'Little Hans' realmente se houvesse comportado assim em relao aos cavalos, isto significaria 
que a represso no havia de forma alguma alterado o carter de seu prprio impulso instintual objetvel e agressivo, mas somente o objeto para o qual estava dirigido.Sem 
dvida, existem casos nos quais isto  tudo o que faz a represso. Contudo, mais do que isto aconteceu no desenvolvimento da fobia de 'Little Hans' - o que pode 
ser percebido a partir de uma parte de outra anlise.
         Como sabemos, 'Little Hans' alegava que aquilo que temia era que um cavalo o mordesse. Algum tempo depois fui capaz de saber algo a respeito da origem de 
outra fobia a animais. Nesse caso o animal temido era um lobo; ele tambm tinha o significado de um substituto do pai. Quando menino o paciente em questo - um russo 
que eu s analisei quando ele contava vinte e tantos anos - tivera um sonho (cujo significado foi revelado na anlise) e, logo aps isto, criara o temor de ser devorado 
por um lobo, como os sete cabritos do conto de fadas. No caso de 'Little Hans' o fato comprovado de que o pai costumava brincar de cavalo com ele sem dvida determinou 
sua escolha de um cavalo como um animal causador de ansiedade. Da mesma forma, parecia pelo menos muito provvel que o pai do meu paciente russo costumava, quando 
brincava com ele, fingir ser lobo e de brincadeira ameaava devor-lo. Desde ento deparou-se-me um terceiro exemplo. O paciente foi um jovem norte-americano que 
me procurou para ser analisado.  bem verdade que ele no desenvolveu uma fobia a animais, mas  precisamente por causa dessa omisso que seu caso ajuda a lanar 
luz sobre os outros dois. Quando criana ele fora sexualmente excitado por uma fantstica histria infantil, que lhe fora lida em voz alta, sobre um chefe rabe 
que perseguia um 'homem feito de especiarias' a fim de com-lo. O menino identificou-se com essa pessoa comestvel, tendo o chefe rabe sido facilmente reconhecvel 
como um substituto do pai. Essa fantasia formou o primeiro substrato de suas fantasias auto-erticas.
         A idia de ser devorado pelo pai  tpica do material infantil consagrado pelo tempo. Ela possui paralelos familiares na mitologia (por exemplo, o mito 
de Cronos) e no reino animal. Contudo, apesar dessa confirmao, a idia nos  to estranha que mal podemos dar crdito a sua existncia em uma criana. Tampouco 
sabemos se realmente significa o que parece dizer, e no podemos compreender como pode ter-se tornado o tema de uma fobia. A observao analtica proporciona a informao 
necessria. Revela que a idia de ser devorado pelo pai d expresso, em uma forma que sofreu degradao regressiva, a um termo impulso passivo de ser armado por 
ele num sentido ertico genital. Uma investigao ulterior do caso clnico no deixa nenhuma dvida quanto  exatido dessa explanao. O impulso genital,  verdade, 
no trai dvida alguma da sua terna finalidade, quando expresso na linguagem que pertence  fase transicional superada entre as organizaes oral e sdica da libido. 
Alm disso, trata-se simplesmente da questo da substituio do representante [psquico] por uma forma regressiva do impulso genitalmente orientado no id? De forma 
alguma  fcil ter-se certeza disto. O caso clnico do 'Wolf Man' russo oferece um apoio bem definido ao segundo ponto de vista mais srio: pois a partir da poca 
do sonho decisivo, o menino tornou-se travesso, atormentador e sdico, havendo logo depois desenvolvido uma neurose obsessiva regular. Seja como for, podemos ver 
que a represso no  o nico meio que o ego pode empregar com a finalidade de defesa contra um impulso instintual desagradvel. Se ele conseguir fazer um instinto 
regredir, na realidade lhe ter causado mais dano do que se o fizesse progredir. Por vezes, realmente, depois de forar um instinto a regredir dessa forma, passa 
a reprimi-lo.
         O caso 'Wolf Man' e o caso um pouco menos complicado de 'Little Hans' levantam grande nmero de outras consideraes. Mas j fizemos duas descobertas inesperadas. 
No pode haver dvida alguma de que o impulso instintual que foi reprimido em ambas as fobias era hostil contra o pai. Podemos dizer que o impulso fora reprimido 
pelo processo de ser transformado em seu oposto.Em vez da agressividade por parte do paciente para com o pai, surgiu agressividade (sob a forma de vingana) por 
parte do pai para com o paciente. Visto que essa agressividade se acha, em qualquer caso, enraizada na fase sdica da libido, somente uma certa dose de degradao 
se faz necessria para reduzi-la  fase oral. Essa fase, enquanto apenas insinuada ao medo de 'Little Hans' de ser mordido foi ruidosamente exibida no terror do 
'Wolf Man' de ser devorado. Mas, alm disso, a anlise demonstrou, sem qualquer sombra de dvida, a presena de outro impulso instintual de natureza oposta que sucumbira 
 represso. Este foi um suave impulso passivo dirigido ao pai; que j havia alcanado o nvel genital (flico) da organizao libidinal. No tocante ao resultado 
do processo de represso, esse impulso parece, realmente, ter sido o mais importante dos dois, havendo passado por uma regresso de alcance bem maior e tendo exercido 
influncia decisiva sobre o contedo da fobia. Ao acompanharmos uma represso instintual nica, tivemos assim de reconhecer uma convergncia de dois de tais processos. 
Os dois impulsos instintuais que foram dominados pela represso - a agressividade sdica em relao ao pai e uma atitude passiva suave para com ele - formam um par 
de opostos. Alm disso, uma apreciao completa do caso de 'Little Hans' revela que a formao de sua fobia tivera o efeito de abolir sua catexia objetal afetuosa 
tambm de sua me, embora o contedo real de sua fobia no trasse qualquer sinal disto. O processo de represso tinha atacado quase todos os componentes do seu 
complexo edipiano - tanto seus impulsos hostis quanto seus impulsos ternos para com a me. Em meu paciente russo esse estado de coisas era muito menos bvio.
         Essas so complicaes desagradveis, considerando-se que somente passamos a estudar casos simples de formao de sintomas devidos  represso, e com esse 
intento escolhemos as neuroses mais antigas e, ao que tudo indica, as mais manifestas da infncia. Em vez de uma nica represso encontramos uma coleo delas e 
ainda por cima ficamos envolvidos com a regresso. Talvez tenhamos aumentado a confuso tratando os dois casos de fobia animal  nossa disposio - 'Little Hans' 
e o 'Wolf Man' - como se fossem fundidos no mesmo molde. Em verdade, ressaltam certas diferenas entre eles. Somente no tocante a 'Little Hans'  que podemos dizer 
com certeza que aquilo que sua fobia eliminou foram os dois principais impulsos do complexo edipiano - sua agressiv idade para com o pai e seu excesso de afeio 
pela me. Um terno sentimento pelo pai tambm se encontrava presente e desempenhou certo papel na represso do sentimento oposto; mas no podemos nem provar que 
era bastante forte para atrair a represso sobre si mesmo, nem que desapareceu depois. 'Hans' parece, de fato, ter sido um menino normal quanto quilo que se denomina 
um complexo edipiano 'positivo'.  possvel que os fatores que no encontramos estivessem, na realidade, em ao nele, mas no podemos demonstrar sua existncia. 
Mesmo a anlise mais exaustiva apresenta lacunas em seus dados e  insuficientemente documentada. No caso do russo, a deficincia encontra-se em outra parte. Sua 
atitude para com objetos femininos foi perturbada por uma seduo antiga, e seu lado passivo feminino foi acentuadamente desenvolvido. A anlise de seu sonho com 
o lobo revelou pouqussima agressividade intencional para com o pai, mas apresentou prova inegvel de que aquilo de que a represso se apoderou foi sua terna atitude 
passiva para com o pai. Em seu caso, tambm,  possvel que os outros fatores fossem igualmente atuantes; mas no estavam em evidncia. Como se explica que, apesar 
dessas diferenas nos dois casos que quase chegam a uma anttese, o resultado final - uma fobia - seja aproximadamente o mesmo? Deve-se procurar a resposta em outro 
setor. Penso que ser encontrada no segundo fato que surge de nosso breve exame comparativo. Parece-me que em ambos os casos podemos detectar qual foi a fora motriz 
da represso e podemos consubstanciar nosso ponto de vista sobre sua natureza a partir da linha de desenvolvimento que as duas crianas subseqentemente seguiram. 
Essa fora motriz era a mesma em ambas. Era o temor de castrao iminente. 'Little Hans' desistiu de sua agressividade para com o pai temendo ser castrado. O medo 
de que um cavalo o mordesse pode, sem nenhuma fora de expresso, receber o pleno sentido do temor de que um cavalo arrancasse fora com os dentes seus rgos genitais 
- o rgo que o distinguia de uma fmea. Como vemos, ambas as formas do complexo edipiano, a forma normal, ativa, e a invertida fracassaram atravs do complexo de 
castrao. A idia de ansiedade do menino russo de ser devorado por um lobo no encerrava,  verdade, qualquer sugesto de castrao, pois a regresso oral pela 
qual passara a afastara para muito longe da fase flica. Mas a anlise de seu sonho torna suprflua uma prova ulterior. Constituiu um triunfo da represso que a 
forma pela qual sua fobia foi expressa no devesse mais encerrar qualquer aluso  castrao.
         Aqui, ento, est o nosso inesperado achado: em ambos os pacientes a fora motriz da represso era o medo da castrao. As idias contidas na ansiedade 
deles - a de ser mordido por um cavalo e a de ser devorado por um lobo - eram substitutos, por distoro, da idia de serem castrados pelo pai. Esta foi a idia 
que sofreu represso. No menino russo a idia era a expresso de um desejo que no foi capaz de subsistir em face de sua revolta masculina; em 'Little Hans' foi 
a expresso de uma reao nele que transformara sua agressividade em seu oposto. Mas o afeto de ansiedade, que era a essncia da fobia, proveio, no do processo 
de represso, no das catexias libidinais dos impulsos reprimidos, mas do prprio agente repressor. A ansiedade pertencente s fobias a animais era um medo no transformado 
de castrao. Era portanto um medo realstico o medo de um perigo que era realmente iminente ou que era julgado real. Foi a ansiedade que produziu a represso e 
no, como eu anteriormente acreditava, a represso que produziu a ansiedade.
         No vale a pena negar o fato, embora no seja agradvel relembr-lo, de que em muitas ocasies afirmei que na represso o representante instintual  distorcido, 
deslocado, e assim por diante, enquanto a libido que pertence ao impulso sexual  transformada em ansiedade. Mas agora um exame das fobias, que deve ser o mais capaz 
de oferecer provas confirmatrias, deixa de sustentar minha assero; parece, antes, contradiz-la diretamente. A ansiedade sentida em fobias a animais  o medo 
de castrao do ego; enquanto a ansiedade sentida na agorafobia (um assunto que tem sido estudado menos completamente) parece ser seu medo de tentao sexual - um 
medo que, afinal de contas, deve estar vinculado em suas origens ao medo de castrao. At onde se pode observar no momento, a maioria das fobias remonta a uma ansiedade 
dessa espcie sentida pelo ego no tocante s exigncias da libido.  sempre a atitude de ansiedade do ego que  a coisa primria e que pe em movimento a represso. 
A ansiedade jamais surge da libido reprimida. Se eu me tivesse contentado antes em afirmar que, aps a ocorrncia da represso, certa dose de ansiedade apareceu 
em lugar da manifestao da libido que era de se esperar, nada teria hoje a retratar. A descrio seria correta, existindo, indubitavelmente, uma correspondncia 
da espcie afirmada entre a fora do impulso que tem de ser reprimido e a intensidade da ansiedade resultante. Mas devo admitir que pensei que estava apresentando 
mais que uma mera descrio. Acreditei que mexera em um processo metapsicolgico de transformao direta da libido em ansiedade. Agora no posso mais manter esse 
ponto de vista. E, realmente, verifiquei ser impossvel na poca explicar como uma transformao dessa natureza foi levada a efeito.
         Talvez se pergunte como cheguei a essa idia de transformao no primeiro exemplo. Foi enquanto estudava as 'neuroses atuais' numa poca em que a anlise 
ainda estava muito longe de distinguir entre processos no ego e processos no id. Constatei que irrupes de ansiedade e um estado geral de preparo para a ansiedade 
eram produzidos por certas prticas sexuais tais como o coitus interruptus, a excitao sexual no descarregada ou a abstinncia forada - isto , sempre que a excitao 
sexual era inibida, presa ou defletida em seu rumo  satisfao. Visto que a excitao sexual era uma expresso de impulsos sexuais libidinais, no parecia ser muito 
precipitado presumir que a libido era transformada em ansiedade por intermdio dessas perturbaes. As observaes que fiz na ocasio ainda so vlidas. Alm disso, 
no se pode negar que a libido que pertence aos processos do id est sujeita a perturbao por instigao da represso. Talvez ainda seja verdade, portanto, que 
na represso a ansiedade  produzida a partir da catexia libidinal dos impulsos instintuais. Mas como podemos reconciliar essa concluso com nossa outra concluso 
de que a ansiedade sentida em fobias  uma ansiedade do ego e que surge neste, e de que no parte da represso mas, ao contrrio, pe a represso em movimento? Parece 
haver aqui uma contradio que de modo algum constitui um assunto simples de solucionar. No ser fcil reduzir as duas fontes de ansiedade a uma nica. Podemos 
tentar faz-lo supondo que, quando o coito  perturbado ou a excitao sexual interrompida ou a abstinncia forada, o ego fareja certos perigos aos quais reage 
com ansiedade. Mas isto no nos leva a parte alguma. Por outro lado, nossa anlise das fobias parece no admitir qualquer correo. Non liquet.
         V 
         Comeamos por estudar a formao de sintomas e a luta secundria travada pelo ego contra os sintomas. Mas ao selecionarmos as fobias para essa finalidade 
fizemos claramente uma escolha. A ansiedade que predomina no quadro dessas desordens  agora vista como uma complicao que obscurece a situao. Existem muitas 
neuroses que no apresentam qualquer ansiedade. A verdadeira histeria de converso  uma delas. Mesmo nos seus sintomas mais graves no se encontra qualquer mescla 
de ansiedade. S esse fato j deve advertir-nos para no estabelecermos uma ligao muito estreita entre a ansiedade e a formao de sintomas. As fobias acham-se 
to intimamente apresentadas com a histeria de converso em todos os outros aspectos que me senti justificado em classific-las juntamente com a segunda sob a denominao 
de 'histeria de angstia'. Mas ningum at agora foi capaz de dizer o que  que determina se qualquer caso determinado assumir a forma de uma histeria de converso 
ou de uma fobia - foi capaz, vale dizer, de estabelecer o que determina a gerao da ansiedade na histeria.
         Os sintomas mais comuns da histeria de converso - paralisias motoras, contraturas, aes ou descargas involuntrias, dores e alucinaes - constituem processos 
catexiais que so permanentemente mantidos. Mas isto acarreta novas dificuldades. Na realidade no se sabe muita coisa acerca desses sintomas. A anlise pode revelar 
qual o processo excitatrio perturbado que os sintomas substituem. Em geral ocorre que eles tm seu quinho nesse processo.  como se toda a energia do processo 
tivesse sido concentrada nessa nica parte do mesmo. Por exemplo, verificar-se- que as dores de que sofria um paciente estavam presentes na situao em que ocorreu 
a represso; ou que a alucinao do paciente era, na poca, uma percepo; ou que sua paralisia motora  uma defesa contra uma ao que devia ser levada a efeito 
naquela situao, mas que estava inibida; ou que sua contratura , em geral, um deslocamento de uma pretendida inervao dos msculos em alguma outra parte do corpo; 
ou que suas convulses so a expresso de uma exploso de afeto que foi retirada do controle normal do ego. A sensao de desprazer que acompanha o aparecimento 
dos sintomas varia em grau impressionante. Nos sintomas crnicos que foram deslocados para a motilidade, como paralisias e contraturas, ela se acha quase inteiramente 
ausente; o ego comporta-se em relao aos sintomas como se nada tivesse a ver com estes. Nos sintomas intermitentes e naqueles que dizem respeito  espera sensorial, 
as sensaes de desprazer so, em geral, distintamente sentidas; e nos sintomas de dor podem atingir um grau extremo. O quadro apresentado  to multiforme que  
difcil descobrir o fator que permite todas essas variaes e ainda uma explicao uniforme das mesmas. H, alm disso, pouco a ser verificado na histeria de converso 
da luta do ego contra o sintoma aps a sua formao.  somente quando a sensibilidade  dor em alguma parte do corpo constitui o sintoma, que este est em condies 
de desempenhar duplo papel. O sintoma da dor surgir com no menor regularidade, sempre que a parte do corpo em causa seja tocada de fora, do que quando a situao 
patognica que representa seja associativamente ativada de dentro, e o ego tomar precauo a fim de impedir que o sintoma seja despertado atravs de percepes 
externas. No posso dizer por que a formao de sintomas em histeria de converso deve ser uma coisa to obscura, mas o fato nos oferece bom motivo para abandonarmos 
sem mais delongas um campo de indagao to improdutivo.
         Passemos s neuroses obsessivas na esperana de aprendermos mais alguma coisa sobre a formao de sintomas. Os sintomas que fazem parte dessa neurose se 
enquadram, em geral, em dois grupos, cada um tendo uma tendncia oposta. So ou proibies, precaues e expiao - isto , negativos quanto  natureza - ou so, 
ao contrrio, satisfaes substitutivas que amide aparecem em disfarce simblico. O grupo defensivo, negativo dos sintomas  o mais antigo dos dois, mas  medida 
que a doena se prolonga, as satisfaes, que zombam de todas as medidas defensivas, levam vantagem. A formao de sintomas assinala um triunfo se consegue combinar 
a proibio com a satisfao, de modo que o que era originalmente uma ordem defensiva ou proibio adquire tambm a significncia de uma satisfao; a fim de alcanar 
essa finalidade muitas vezes faz uso das trilhas associativas mais engenhosas. Tal realizao demonstra a tendncia do ego de sintetizar, a qual j observamos,ver 
em [[1]]. Em casos extremos o paciente consegue fazer com que a maioria de seus sintomas adquira, alm do seu significado original, um significado diretamente contrrio. 
Isto  um tributo do poder de ambivalncia, o qual, por alguma razo desconhecida, desempenha papel to relevante nas neuroses obsessivas. No exemplo mais tosco 
o sintoma  bifsico uma ao que executa uma certa injuno  imediatamente sucedida por outra ao que pra ou desfaz a primeira, mesmo que no v at o ponto 
de levar a cabo seu oposto.De imediato surgem duas impresses desse breve exame dos sintomas obsessivos. A primeira  que uma luta incessante est sendo travada 
contra o reprimido, no qual as foras repressoras constantemente perdem terreno; a segunda  que o ego e o superego tm uma parcela especialmente grande na formao 
dos sintomas.
         A neurose obsessiva , indubitavelmente, o tema mais interessante e compensador da pesquisa analtica. Deve-se confessar que, se nos esforarmos por penetrar 
mais profundamente em sua natureza, teremos de confiar em admisses duvidosas e suposies no confirmadas. A neurose obsessiva tem origem, sem dvida, na mesma 
situao que a histeria, a saber, a necessidade de desviar as exigncias libidinais do complexo edipiano. Na realidade, toda neurose obsessiva parece ter um substrato 
de sintomas histricos que se formaram em uma fase bem antiga. Mas subseqentemente ela  plasmada em moldes bem diferentes devido a um fator constitucional. A organizao 
genital da libido vem a ser dbil e insuficientemente resistente, de modo que, quando o ego comea seus esforos defensivos, a primeira coisa que ele consegue fazer 
 lanar de volta a organizao genital (da fase flica), no todo ou em parte, ao nvel anal-sdico mais antigo. Esse fato de regresso  decisivo para tudo o que 
se segue.
         Outra possibilidade tem de ser considerada. Talvez a regresso seja o resultado no de um fator constitucional mas de um fator tempo. Pode ser que a regresso 
possa ser tornada possvel, no porque a organizao genital da libido seja fraca demais, mas porque a oposio do ego comea cedo demais, enquanto a fase sdica 
se acha no seu apogeu. No estou preparado para expressar uma opinio definitiva sobre esse ponto, mas posso dizer que a observao analtica no fala em favor de 
tal suposio. Antes revela que, na ocasio em que se entra em uma neurose obsessiva, a fase flica j foi alcanada. Alm disso, o incio dessa neurose pertence 
a uma poca da vida mais posterior do que a da histeria - ao segundo perodo da infncia, aps o perodo de latncia ter-se estabelecido. Em uma paciente cujo caso 
fui capaz de estudar e que foi dominada por esse distrbio em uma data muito tardia, tornou-se claro que a causa determinante de sua regresso e do surgimento de 
sua neurose obsessiva foi uma ocorrncia real atravs da qual sua vida genital, que at ento se mantivera intacta, perdeu todo seu valor.No tocante  explicao 
metapsicolgica da regresso, estou inclinado a encontr-la em uma 'desfuso do instinto', em um desligamento dos componentes erticos que, com o incio da fase 
genital, se juntaram s catexias destrutivas que pertenciam  fase sdica.
         Ao forar a regresso, o ego lavra seu primeiro tento em sua luta defensiva contra as exigncias da libido. (Nesse sentido  vantajoso estabelecer uma distino 
entre a idia mais geral de 'defesa' e 'represso'. A represso  apenas um dos mecanismos de que a defesa faz uso.) Talvez seja nos casos obsessivos, mais do que 
nos normais ou nos histricos, que podemos mais claramente reconhecer que a fora motora da defesa  o complexo de castrao, e que o que est sendo desviado so 
as tendncias do complexo edipiano. No momento estamos tratando do incio do perodo de latncia, um perodo que se caracteriza pela dissoluo do complexo de dipo, 
pela criao ou consolidao do superego e pela edificao de barreiras ticas e estticas no ego. Nas neuroses obsessivas esses processos so levados mais longe 
do que o normal. Alm da destruio do complexo de dipo verifica-se uma degradao regressiva da libido, o superego torna-se excepcionalmente severo e rude, e o 
ego, em obedincia ao superego, produz fortes formaes reativas de conscincia, piedade e asseio. Implacvel, embora nem sempre por isso bem-sucedida, a severidade 
se revela na condenao da tentao de continuar com a masturbao infantil inicial, que agora se liga a idias (anal-sdicas) regressivas mas que, no obstante, 
representa a parte no subjugada da organizao flica. H uma contradio inerente quanto a esse estado de coisas, no qual, precisamente no interesse da masculinidade 
(isto , pelo medo da castrao), toda atividade que pertence  masculinidade  paralisada. Mas tambm aqui a neurose obsessiva est apenas levando a efeito, de 
forma excessiva, o mtodo normal de livrar-se do complexo de dipo. Mais uma vez encontramos aqui a ilustrao da verdade de que todo exagero contm a semente de 
sua prpria perdio. Pois,  guisa de atos obsessivos, a masturbao que foi suprimida se aproxima cada vez mais da satisfao.
         As formaes reativas no ego do neurtico obsessivo, que reconheo como exageros da formao normal do carter, devem ser consideradas, penso eu, como ainda 
outro mecanismo de defesa e situadas as lado da regresso e da represso. Elas parecem estar ausentes ou muito mais fracas na histeria. Lanando um olhar retrospectivo, 
podemos agora ter uma idia do que  peculiar ao processo defensivo da histeria. Parece que nela o processo se limita somente  represso. O ego afasta-se do impulso 
instintual desagradvel, deixa-o seguir seu curso no inconsciente, e no toma mais qualquer parte em sua sorte. Esse ponto de vista no pode ser absolutamente correto, 
pois estamos familiarizados com o caso no qual um sintoma histrico  ao mesmo tempo a realizao de uma penalidade imposta pelo superego, mas ele pode descrever 
uma caracterstica geral do comportamento do ego na histeria.
         Podemos ou simplesmente aceitar como um fato que na neurose obsessiva surge um superego severo dessa espcie, ou considerar a regresso da libido como a 
caracterstica fundamental da afeco e tentar relacionar a severidade do superego com isto. E realmente o superego, originando-se do id, no pode dissociar-se da 
regresso e desfuso do instinto que ali se verificaram. No podemos surpreender-nos se ele se tornar mais spero, mais rude e mais atormentador do que onde o desenvolvimento 
tem sido normal.
         A principal tarefa durante o perodo de latncia parece ser o desvio da tentao  masturbao. Essa luta produz uma srie de sintomas que aparecem de maneira 
tpica nos indivduos mais diferentes e que, em geral, tm a natureza de um cerimonial. Muito  de lamentar que algum ainda no os tenha reunido e analisado de 
maneira sistemtica. Sendo os primeiros produtos da neurose, eles deviam ser aqueles mais capazes de lanar luz sobre os mecanismos empregados em sua formao de 
sintomas. J exibem as caractersticas que surgiro de forma to desastrosa se sobrevier uma doena grave. Tendem a tornar-se ligados a atividades (que depois seriam 
levadas a efeito quase automaticamente) como ir dormir, lavar-se, vestir-se e andar de um lado para o outro; e tambm tendem  repetio e ao desperdcio de tempo. 
No momento no est de modo algum claro por que isto ocorre dessa maneira, mas a sublimao dos componentes ertico-anais desempenha nele papel inegvel.
         O advento da puberdade abre um captulo decisivo na histria de uma neurose obsessiva. A organizao genital interrompida na infncia comea novamente com 
grande vigor. Mas, como sabemos, o desenvolvimento sexual na infncia determina qual a direo que tomar esse novo incio na puberdade. No s os impulsos agressivos 
iniciais sero despertados de novo, mas tambm uma proporo maior ou menor dos novos impulsos libidinais - nos casos maus todos eles - ter de seguir o curso prescrito 
para eles pela regresso e surgir como tendncias agressivas e destrutivas. Em conseqncia de as tendncias erticas serem disfaradas dessa forma e devido s 
poderosas formaes reativas no ego, a luta contra a sexualidade doravante ser levada adiante sob o estandarte de princpios ticos. O ego recuar com assombro 
das instigaes  crueldade e  violncia que entram na conscincia a partir do id, no tendo qualquer idia de que nelas ele est combatendo desejos erticos, inclusive 
alguns em relao aos quais no teria aberto exceo alguma. O superego por demais rigoroso insiste ainda mais fortemente na supresso da sexualidade, visto esta 
ter assumido formas to repelentes. Assim, na neurose obsessiva o conflito  agravado em duas direes: as foras defensivas se tornam mais intolerantes e as foras 
que devem ser desviadas se tornam mais intolerveis. Ambos os efeitos se devem a um nico fator, a saber, a regresso da libido.
         Muito do que se afirmou pode ser contestado com base no fundamento de que as idias obsessivas desagradveis so bem conscientes. Mas no resta dvida de 
que, antes de se tornarem conscientes, passaram pelo processo de represso. Na maioria delas a verdadeira enunciao do impulso instintual agressivo  totalmente 
desconhecida do ego, exigindo boa dose de trabalho analtico para torn-la consciente. O que de fato penetra na conscincia , em geral, somente um substituto distorcido 
que  ou de natureza vaga, semelhante aos sonhos e indeterminada, ou de tal forma caricaturado que se torna irreconhecvel. Mesmo onde a represso no usurpou o 
contedo do impulso agressivo, ela por certo livrou-se de seu carter afetivo concomitante. Como resultado, a agressividade parece ao ego no uma impulso mas, como 
os prprios pacientes dizem, apenas um 'pensamento' que no desperta qualquer sentimento. Mas o fato  que este no  o caso. O que acontece  que o afeto deixado 
de fora quando a idia obsessiva  percebida aparece em um ponto diferente. O superego comporta-se como se a represso no tivesse ocorrido e como se conhecesse 
a verdadeira enunciao e o pleno carter afetivo do impulso agressivo, e trata o ego em conformidade com isso. O ego que, por um lado, sabe ser inocente,  obrigado, 
por outro lado, a ficar cnscio de um sentimento de culpa e a arcar com uma responsabilidade pela qual no pode responder. Esse estado de coisas no , contudo, 
to desorientador como pareceria  primeira vista.O comportamento do superego simplesmente revela que ele impediu a entrada ao id por meio da represso, enquanto 
permaneceu plenamente acessvel  influncia do superego. Se se pergunta por que o ego no tenta tambm afastar-se da crtica atormentadora do superego, a resposta 
 que ele de fato consegue faz-lo em grande nmero de casos. Existem neuroses obsessivas nas quais nenhum sentimento de culpa se acha presente. Neles, at onde 
se possa observar, o ego evitou tornar-se cnscio desse sentimento instituindo um novo conjunto de sintomas, penitncias ou restries de natureza autopunitiva. 
Esses sintomas, contudo, representam ao mesmo tempo uma satisfao de impulsos masoquistas que, por sua vez, foram reforados pela regresso.
         A neurose obsessiva apresenta uma multiplicidade to vasta de fenmenos que, apesar de todos os esforos envidados at agora, no se conseguiu fazer uma 
sntese coerente de todas as suas variaes. Tudo que podemos fazer  colher certas correlaes tpicas, mas h sempre o risco de que tenhamos desprezado outras 
uniformidades de natureza no menos importantes.
         J escrevi a tendncia geral da formao de sintomas na neurose obsessiva. Ela ir dar lugar cada vez mais amplo  satisfao substitutiva s expensas da 
frustrao. Os sintomas que outrora representavam uma restrio do ego vm depois a representar tambm satisfaes, graas  inclinao do ego para a sntese, sendo 
bem claro que esse segundo significado gradativamente se torne o mais importante dos dois. O resultado desse processo, que se aproxima cada vez mais de um fracasso 
completo da finalidade original de defesa,  um ego extremamente restringido, que fica reduzido a procurar satisfao nos sintomas. O deslocamento da distribuio 
das foras em favor da satisfao pode ter o temido resultado final de paralisar a vontade do ego, que em toda deciso que tem de fazer  quase to fortemente impelido 
de um lado como do outro. O conflito superagudo entre o id e o superego, que tem dominado a doena bem desde o comeo, pode assumir propores to amplas que o ego, 
incapaz de executar sua ao de mediador, nada poder empreender que no seja atrado para a esfera daquele conflito.
         VI 
         No curso dessas lutas defrontamo-nos com duas atividades do ego que formam sintomas e que merecem especial ateno porque so obviamente substitutas e, 
portanto, bem calculadas para ilustrarem sua finalidade e tcnica. O fato de surgirem tais tcnicas auxiliares e substitutivas pode servir como argumento de que 
a verdadeira represso se deparou com dificuldades em seu funcionamento. Se se considerar o quanto que o ego  mais cenrio de ao da formao de sintomas na neurose 
obsessiva do que na histeria e se considerar com que tenacidade o ego se apega a suas relaes com a realidade e com a conscincia, empregando todas as suas faculdades 
intelectuais para essa finalidade - e realmente como o prprio processo de pensar se torna hipercatexizado e erotizado -, ento talvez se possa chegar a uma melhor 
compreenso dessas variaes da represso.
         As duas tcnicas s quais me refiro esto desfazendo o que foi feito e isolado. A primeira delas tem ampla gama de aplicao e remonta a um ponto muito 
distante. , por assim dizer, mgica negativa, e se esfora, por meio do simbolismo motor, por 'dissipar com um sopro' no meramente as conseqncias de algum evento 
(ou experincia ou impresso), mas o prprio evento. Escolhi a expresso 'dissipar com um sopro' de caso pensado, a fim de lembrar ao leitor o papel desempenhado 
por essa tcnica no somente nas neuroses mas tambm nos atos mgicos, nos costumes e nas cerimnias religiosas. Na neurose obsessiva a tcnica de desfazer o que 
foi feito  encontrada pela primeira vez nos sintomas 'bifsicos',ver em [[1]], nos quais uma ao  cancelada por uma segunda, do modo que  como se nenhuma ao 
tivesse ocorrido, ao passo que, na realidade, ambas ocorreram. A finalidade de desfazer  o segundo motivo subjacente dos cerimoniais obsessivos, sendo o primeiro 
tomar precaues a fim de impedir a ocorrncia ou recorrncia de algum evento especfico. A diferena entre os dois  facilmente observada: as medidas precautrias 
so racionais, enquanto tentar livrar-se de algo 'fazendo-o como se no tivesse acontecido'  irracional e da natureza da magia. Naturalmente deve-se suspeitar que 
o segundo  o motivo mais antigo dos dois e decorre da atitude animista para com a vida. Esse esforo em desfazer dilui-se em comportamento normal no caso em que 
uma pessoa resolve considerar umevento como no tendo acontecido. Mas ao passo que ela no adotar quaisquer medidas diretas contra o evento e simplesmente no prestar 
mais ateno alguma a ele ou a suas conseqncias, a pessoa neurtica tentar tornar o prprio passado no existente. Tentar reprimi-lo por meios motores. A mesma 
finalidade talvez possa explicar a obsesso de repetir, com tanta freqncia encontrada nessa neurose e cuja execuo serve a grande nmero de intenes contraditrias 
ao mesmo tempo. Quando no aconteceu na forma desejada,  desfeita, sendo repetida de uma maneira diferente; e logo todos os motivos que existem para que se demore 
em tais repeties entram tambm em ao.  medida que a neurose continua, amide verificamos que o esforo em desfazer uma experincia traumtica constitui um motivo 
de primeirssima importncia na formao de sintomas. Assim, inesperadamente descobrimos uma nova tcnica motora de defesa, ou (como podemos dizer nesse caso com 
menos exatido) de represso.
         A segunda dessas tcnicas que estamos comeando a descrever pela primeira vez, a do isolamento,  peculiar  neurose obsessiva. Ela tambm se verifica na 
esfera motora. Quando algo desagradvel aconteceu ao paciente ou quando ele prprio fez algo que tem um significado para sua neurose, ele interpola um intervalo 
durante o qual nada mais deve acontecer - durante o qual no deve perceber nem fazer nada. Esse comportamento, que parece estranho  primeira vista, logo se observa 
como tendo relao com a represso. Sabemos que na histeria  possvel provocar uma experincia traumtica a ser dominada pela amnsia. Na neurose obsessiva isto 
pode muitas vezes no ser alcanado: a experincia no  esquecida, mas em vez disso,  destituda de seu afeto, e suas conexes associativas so suprimidas ou interrompidas, 
de modo que permanece como isolada, no sendo reproduzida nos processos comuns do pensamento. O efeito desse isolamento  o mesmo que o efeito da represso com amnsia. 
Essa tcnica, ento,  reproduzida nos isolamentos da neurose obsessiva, recebendo ao mesmo tempo reforo motor para finalidades mgicas. Os elementos que so mantidos 
 parte dessa forma so precisamente aqueles que so da mesma classe de forma associativa. O isolamento motor destina-se a assegurar uma interrupo da ligao no 
pensamento. O fenmeno normal de concentrao proporciona um pretexto para essa espcie de procedimento neurtico: o que nos parece importante  guisa de uma impresso 
ou de um trabalho no deve sofrer ainterferncia das reivindicaes simultneas de quaisquer outros processos ou atividades mentais. Mas at mesmo uma pessoa normal 
utiliza a concentrao a fim de afastar no somente o que  irrelevante ou destitudo de importncia, mas tambm, antes de tudo, o que  inadequado porque  contraditrio. 
Ela fica muito perturbada por aqueles elementos que em certa ocasio eram da mesma classe, mas que foram desintegrados no curso do desenvolvimento dessa pessoa - 
como, por exemplo, por manifestaes da ambivalncia do seu complexo paterno em sua relao com Deus, ou por impulsos vinculados a seus rgos excretores em suas 
emoes de amor. Assim, no curso normal da coisas, o ego tem grande dose de trabalho de isolamento a executar em sua funo de orientar a corrente de pensamento. 
E, como sabemos, somos obrigados, ao executar nossa tcnica analtica, a trein-lo para abandonar por enquanto essa funo, eminentemente justificada como em geral 
ela .
         Todos verificamos por experincia que  especialmente difcil para um neurtico obsessivo levar a efeito a regra fundamental da psicanlise. Seu ego  mais 
atento e faz isolamentos mais acentuados, provavelmente por causa do alto grau de tenso devido ao conflito que existe entre seu superego e seu id. Enquanto o neurtico 
est empenhado em pensar, seu ego tem de manter muita coisa afastada - a intruso de fantasias inconscientes e a manifestao de tendncias ambivalentes. Ele no 
deve relaxar, mas est constantemente preparado para uma luta. Ele fortifica essa compulso a concentrar e a isolar mediante a ajuda dos atos mgicos de isolamento 
que, sob a forma de sintomas, se desenvolvem, passando a ser to dignos de nota e a ter tanta importncia prtica para o paciente, mas que so, naturalmente, inteis 
em si e que tm a natureza de cerimoniais.
         Mas nesse esforo para impedir associaes e ligaes de pensamento, o ego est obedecendo a uma das ordens mais antigas e fundamentais da neurose obsessiva, 
o tabu de tocar. Se perguntarmos a ns mesmos por que a evitao do tocar, do contato ou do contgio deve desempenhar papel relevante nessa neurose e deve tornar-se 
o tema de complicados sistemas, a resposta  que o toque e o contato fsico so a finalidade imediata da catexias objetais agressivas e amorosas. Eros deseja o contato 
porque se esfora por tornar o ego e o objeto amado um s, por abrir todas as barreiras espaciais entre eles. Mas tambm a destrutividade, que (antes da inveno 
de armas de longo alcance) s poderia efetivar-se de perto, deve pressupor contato fsico,em engalfinhamento. 'Tocar' uma mulher tornou-se um eufemismo para utiliz-la 
como um objeto sexual. No 'tocar' os rgos genitais  a expresso empregada para proibir a satisfao auto-ertica. Visto que a neurose obsessiva comea por perseguir 
o toque ertico e depois, aps ter-se verificado a regresso, passa a perseguir o toque ertico  guisa de agressividade, depreende-se que nada  to fortemente 
proscrito nessa doena como o tocar, nem to bem adequado para tornar-se o ponto central de um sistema de proibies. Mas isolar  remover a possibilidade de contato; 
 um mtodo de evitar que uma coisa seja tocada de qualquer maneira. E quando um neurtico isola uma impresso ou uma atividade interpolando um intervalo, ele est 
deixando que se compreenda simbolicamente que ele no permitir que seus pensamentos sobre aquela impresso ou atividade entrem em contato associativo com outros 
pensamentos.
         Isto  at onde nos levam nossas investigaes sobre a formao de sintomas. Quase no vale a pena resumi-las, pois os resultados que proporcionaram so 
escassos e incompletos, e quase nada nos revelam que j no saibamos. Seria infrutfero voltar nossa ateno para a formao de sintomas em outras perturbaes alm 
das fobias, histeria de converso e neurose obsessiva, porquanto muito pouco se sabe a respeito das mesmas. Mas ao passarmos em revista essas trs neuroses em conjunto 
somos levados a um problema muito srio, cuja considerao no pode ser mais postergada. Todas as trs tm como resultado a destruio do complexo de dipo; e em 
todas as trs a fora motora da oposio do ego , acreditamos, o medo da castrao. Contudo,  somente nas fobias que esse medo aflora e  reconhecido. O que lhe 
aconteceu nas outras duas neuroses? Como o ego poupou a si mesmo esse medo? O problema se agrava quando recordamos a possibilidade, j mencionada, de que a ansiedade 
surja diretamente, por uma espcie de fermentao, de uma catexia libidinal, cujos processos foram perturbados. Alm disso,  absolutamente certo que o medo da castrao 
 a nica fora motora da represso (ou defesa)? Se pensarmos nas neuroses em mulheres estamos destinados a duvidar disso, pois embora possamos certamente estabelecer 
nelas a presena de um complexo de castrao, dificilmente podemos falar com propriedade em ansiedade de castrao onde a castrao j se verificou.
         VII 
         Voltemos novamente a fobias infantis de animais, pois, quando tudo tiver sido dito e feito, ns as compreenderemos melhor do que quaisquer outros casos. 
Nas fobias animais, ento, o ego tem de opor uma catexia de objeto libidinal que provm do id - uma catexia que pertence ou ao complexo de dipo positivo ou ao negativo 
- porque acredita que lhe ceder lugar acarretaria o perigo da castrao. Essa questo j foi examinada, mas ainda permanece um ponto duvidoso a esclarecer. No caso 
de 'Little Hans' - isto , no caso de um complexo de dipo positivo - foi sua ternura pela me ou foi sua agressividade para com o pai que convocou a defesa pelo 
ego? Na prtica no parece fazer diferena alguma, mormente quando cada conjunto de sentimentos implica o outro; mas a pergunta tem um interesse terico, visto ser 
somente o sentimento de afeio pela Me que pode contar como um sentimento puramente ertico. O impulso agressivo flui principalmente do instinto destrutivo; sempre 
acreditamos que em uma neurose  contra as exigncias da libido e no contra as de qualquer outro instinto que o ego se est defendendo. De fato, sabemos que depois 
de a fobia de 'Hans' ter sido formada, sua terna ligao com sua me pareceu desaparecer, havendo sido totalmente eliminada pela represso, enquanto a formao do 
sintoma (a formao substitutiva) ocorreu em relao aos seus impulsos agressivos. No 'Wolf Man' a situao foi mais simples. O impulso que foi reprimido - sua atitude 
feminina em relao ao pai - foi genuinamente ertica; e foi em relao a esse impulso que a formao de seus sintomas se verificou.
          quase humilhante que, aps trabalharmos por tanto tempo, ainda estejamos tendo dificuldade para compreender os fatos mais fundamentais. Mas decidimos 
nada simplificar e nada ocultar. Se no conseguirmos ver as coisas claramente, pelo menos veremos claramente quais so as obscuridades. O que nos est prejudicando 
aqui  evidentemente algum obstculo no desenvolvimento da nossa teoria dos instintos. Comeamos por traar a organizao da libido atravs de suas fases sucessivas 
- desde a fase oral, atravs da anal-sdica, at a genital - e, ao faz-lo, colocamos todos os componentes do instinto sexual no mesmo p de igualdade. Depois pareceu 
que o sadismo era o representante de outro instinto, que estava oposto a Eros. Esse novo ponto de vista, de que os instintos se enquadram em dois grupos, parece 
explodir a construo mais antiga das fases sucessivas da organizao libidinal. Mas no temos de explorar um novo terreno a fim de encontrarmos uma sada da dificuldade. 
A soluo tem estado  mo por muito tempo e estno fato de que aquilo com que nos preocupamos praticamente no so impulsos instintuais puros, mas misturas em vrias 
propores dos dois grupos de instintos. Se isto for assim, no h necessidade de rever nossa opinio quanto s organizaes da libido. Uma catexia sdica de um 
objeto tambm pode legitimamente reivindicar tratamento como uma catexia libidinal; e um impulso agressivo contra o pai pode do mesmo modo ficar sujeito a represso 
como um impulso terno para com a me. No obstante, teremos em mente, para considerao futura, a possibilidade de que a represso seja um processo que possui uma 
relao especial com a organizao genital da libido e que o ego recorra a outros mtodos de defesa quando tem de proteger-se contra a libido em outros nveis de 
organizao. Continuando: um caso como o de 'Little Hans' no nos permite chegar a qualquer concluso clara.  verdade que nele um impulso agressivo foi eliminado 
pela represso, mas isto aconteceu aps ter sido alcanada a organizao genital.
         Dessa vez no perderemos de vista o papel desempenhado pela ansiedade. Dissemos que logo que o ego reconhece o perigo de castrao d o sinal de ansiedade 
e inibe atravs da instncia do prazer-desprazer (de uma maneira que ainda no podemos compreender) o iminente processo catexial no id. Ao mesmo tempo forma-se a 
fobia. E agora a ansiedade de castrao  dirigida para um objeto diferente e expressa de forma distorcida, de modo que o paciente teme, no ser castrado pelo pai, 
mas ser mordido por um cavalo ou devorado por um lobo. Essa formao substitutiva apresenta duas vantagens bvias. Em primeiro lugar, evita um conflito devido  
ambivalncia (pois o pai foi um objeto amado, tambm) e, em segundo, permite ao ego deixar de gerar ansiedade, pois a ansiedade que pertence a uma fobia  condicional: 
ela s surge quando o objeto dela  percebido -  com razo, visto que  somente ento que a situao de perigo se acha presente. No  preciso ter medo de ser castrado 
por um pai que no se encontra ali. Por outro lado, uma pessoa no pode livrar-se de um pai; ele pode aparecer sempre que deseja. Mas se for substitudo por um animal, 
tudo o que se tem de fazer  evitar a vista do mesmo - isto , sua presena - a fim de ficar livre do perigo e da ansiedade. 'Little Hans', portanto, imps uma restrio 
a seu ego. Ele produziu a inibio de no sair de casa, de modo a no encontrar qualquer cavalo. Para o jovem russo foi ainda mais fcil, pois quase no lhe era 
uma privao deixar de olhar mais para um livro de gravuras. Se sua travessa irm no tivesse continuado a mostra-lhe o livro com a fotografia do lobo de p, ele 
teria sido capaz de sentir-se livre do seu medo.Em ocasio anterior declarei que as fobias tm a natureza de uma projeo devido ao fato de que substituem um perigo 
interno instintual por outro externo e perceptual. A vantagem disto  que o indivduo pode proteger-se contra um perigo externo, dele fugindo e evitando a percepo 
do mesmo, ao passo que  intil fugir de perigos que surgem de dentro. Essa minha afirmao no foi incorreta, mas no penetrou a superfcie das coisas, pois uma 
exigncia instintual no , afinal de contas, perigosa em si; somente vem a ser assim, visto que acarreta um perigo externo real, o perigo de castrao. Dessa forma, 
o que acontece numa fobia, em ltimo recurso,  substitudo por outro. O ponto de vista que numa fobia o ego  capaz de fugir  ansiedade por meio de evitao ou 
de sintomas inibitrios ajusta-se muito bem  teoria de que a ansiedade  apenas um sinal afetivo e de que no ocorreu nenhuma alterao na situao econmica.
         A ansiedade sentida nas fobias de animais , portanto, uma reao afetiva por parte do ego ao perigo; e o perigo que est sendo assinalado dessa forma  
o perigo de castrao. Essa ansiedade no difere em aspecto algum da ansiedade realstica que o ego normalmente sente em situaes de perigo, salvo que seu contedo 
permanece inconsciente e apenas se forma consciente sob a forma de uma distoro.
         O mesmo demonstrar ser verdade, penso eu, quanto a fobia de adultos, embora o material sobre o qual trabalham suas neuroses seja muito mais abundante e 
haja alguns adicionais na formao dos sintomas. Fundamentalmente, a posio  idntica. O paciente agorafbico impe uma restrio a seu ego a fim de escapar a 
um certo perigo instintual - a saber, o perigo de ceder a seus desejos erticos, pois se o fizesse, o perigo de ser castrado, ou algum perigo semelhante, mais uma 
vez seria evocado como se fosse em sua infncia. Posso citar,  guisa de exemplo, o caso de um jovem que se tornou agorafbico porque temia ceder s solicitaes 
de prostitutas e delas contrair uma infeco sifiltica como castigo.
         Estou bem cnscio de que grande nmero de casos apresenta uma estrutura mais complicada e de que muitos outros impulsos instintuais reprimidos podem entrar 
numa fobia. Mas eles so apenas correntes tributrias que em sua maior parte se ajustaram  corrente principal da neurose numa fase ulterior. A sintomalogia da agorafobia 
torna-se complicada pelo fato deque o ego no se limita a fazer uma renncia. A fim de furtar-se  situao de perigo faz mais: em geral efetua uma regresso temporal 
 infncia (em casos extremos, a uma poca em que o indivduo se encontrava no ventre da me e se protegia contra os perigos que o ameaam no presente). Tal regresso 
torna-se agora uma condio cuja realizao isenta o ego de fazer uma renncia. Por exemplo, um paciente agorafbico pode ser capaz de caminhar na rua contanto que 
esteja acompanhado, como uma criancinha, por algum que ele conhece e em quem confia; ou, pelo mesmo motivo, poder ser capaz de sair sozinho, contanto que permanea 
a uma certa distncia de sua prpria casa e no v a lugares que no lhe sejam familiares ou onde as pessoas no o conheam. O que essas estipulaes so, isto depender, 
em cada caso, dos fatores infantis que o dominam atravs de sua neurose. A fobia de estar sozinho no  ambgua em seu significado, independentemente de qualquer 
regresso infantil: ela , em ltima anlise, um esforo para evitar a tentao de entregar-se  masturbao solitria. A regresso infantil naturalmente s pode 
ocorrer quando o indivduo no  mais uma criana.
         Uma fobia geralmente se estabelece aps um primeiro ataque de ansiedade ter sido experimentado em circunstncias especficas, tais como na rua, em um trem 
ou em solido. A partir desse ponto a ansiedade  mantida em interdio pela fobia, mas ressurge sempre que a condio no pode ser realizada. O mecanismo da fobia 
presta bons servios como meio de defesa e tende a ser muito estvel. Uma continuao da luta defensiva, sob a forma de uma luta contra o sintoma, ocorre com freqncia 
mas no invariavelmente.
         O que aprendemos sobre a ansiedade nas fobias  tambm aplicvel a neuroses obsessivas. Nesse sentido no nos  difcil colocar as neuroses obsessivas em 
p de igualdade com as fobias. Nas primeiras, a mola de toda a formao de sintomas ulteriores  claramente o medo que o ego tem de seu superego. A situao de perigo 
da qual o ego deve fugir  a hostilidade do superego. No h aqui qualquer vestgio de projeo; o perigo est inteiramente internalizado. Mas se perguntarmos a 
ns mesmos o que  que o ego teme do superego, no podemos deixar de pensar que o castigo ameaado pelo segundo deve ser uma extenso do castigo de castrao. Da 
mesmaforma que o pai se tornou despersonalizado sob a forma do superego, o medo da castrao, a qual se encontra nas mos dele, se transformou numa ansiedade social 
ou moral indefinida. Mas essa ansiedade est oculta. O ego foge dela obedientemente, executando as ordens, precaues e penitncias que lhe foram inculcadas. Se 
ele foi impedido de assim agir,  imediatamente dominado por um sentimento extremamente aflitivo de mal-estar, que pode ser considerado como um equivalente de ansiedade 
e que os prprios pacientes comparam com essa ltima.
         A concluso a que chegamos, portanto,  esta. A ansiedade  uma reao a uma situao de perigo. Ela  remediada pelo ego que faz algo a fim de evitar essa 
situao ou para afastar-se dela. Pode-se dizer que se criam sintomas de modo a evitar a gerao de ansiedade. Mas isto no atinge uma profundidade suficiente. Seria 
mais verdadeiro dizer que se criam sintomas a fim de evitar uma situao de perigo cuja presena foi assinalada pela gerao de ansiedade. Nos casos que examinamos, 
o perigo em causa foi o de castrao ou de algo remontvel  castrao.
         Se a ansiedade for uma reao do ego ao perigo, seremos tentados a considerar as neuroses traumticas, as quais to amide se seguem a uma fuga iminente 
da morte, como um resultado direto de um medo da morte (ou medo pela vida) e a afastar de nossas mentes a questo da castrao e as relaes dependentes do ego,ver 
em [[1] e [2]]. A maior parte daqueles que observaram as neuroses traumticas que se verificaram durante a ltima guerra assumiram essa posio e triunfalmente anunciaram 
que estava prestes a chegar a prova de que uma ameaa ao instinto de autopreservao poderia por si s produzir uma neurose, sem qualquer mescla de fatores sexuais 
e sem exigir qualquer das complicadas hipteses da psicanlise. De fato, deve-se lamentar muito que no haja uma nica anlise de valor de uma neurose traumtica. 
E  de lamentar-se, no porque tal anlise fosse contradizer a importncia etiolgica da sexualidade - pois qualquer contradio dessa natureza de h muito foi eliminada 
pela introduo do conceito de narcisismo,que pe a catexia libidinal do ego em harmonia com as catexias objetais e ressalta o carter libidinal do instinto de autopreservao 
-, mas porque, na ausncia de quaisquer anlises dessa espcie, perdemos uma oportunidade preciosssima de tirar concluses decisivas sobre as relaes entre a ansiedade 
e a formao de sintomas. Em vista de tudo o que sabemos acerca da estrutura das neuroses relativamente simples da vida cotidiana, parecia altamente improvvel que 
uma neurose chegasse  existncia apenas por causa da presena objetiva do perigo, sem qualquer participao dos nveis mais profundos do aparelho mental. Mas o 
inconsciente parece nada conter que pudesse dar qualquer contedo ao nosso conceito da aniquilamento da vida. A castrao pode ser retratada com base na experincia 
diria das fezes que esto sendo separadas do corpo ou com base na perda do seio da me no desmame. Mas nada que se assemelhe  morte jamais pode ter sido experimentado; 
ou se tiver, como no desmaio, no deixou quaisquer vestgios observveis atrs de si. Estou inclinado, portanto, a aderir ao ponto de vista de que o medo da morte 
deve ser considerado como anlogo ao medo da castrao e que a situao  qual o ego est reagindo  de ser abandonado pelo superego protetor - os poderes do destino 
-, de modo que ele no dispe mais de qualquer salvaguarda contra todos os perigos que o cercam. Alm disso, deve-se recordar que nas experincias que conduzem a 
uma neurose traumtica o escudo protetor contra os estmulos externos  desfeito e quantidades excessivas de excitao incidem sobre o aparelho mental,ver em [[1]]; 
de forma que temos aqui uma segunda possibilidade - a de que a ansiedade est no apenas emitindo sinais como um afeto, mas tambm sendo recriada a partir das condies 
econmicas da situao.
         A afirmao que acabo de fazer, no sentido de que o ego foi preparado para esperar a castrao, tendo sofrido perdas de objeto constantemente repetidas, 
coloca a questo da ansiedade sob nova luz. At aqui consideramo-la como um final afetivo de perigo; mas agora, visto que o perigo  to amide o de castrao, ele 
nos parece uma reao a uma perda, uma separao. Mesmo se surgir grande nmero de consideraes que vo contra esse ponto de vista, no podemos seno ficar surpreendidos 
por uma correlao muito notvel. A primeira experincia de ansiedade pela qual passa um indivduo (no caso de seres humanos, seja como for)  o nascimento, e, objetivamente 
falando, o nascimento  uma separao da me. Poderia sercomparado a uma castrao da me (equiparando a criana a um pnis). Ora, seria muito satisfatrio se a 
ansiedade, como smbolo de uma separao, devesse ser repetida em toda ocasio subseqente na qual uma separao ocorresse. Mas infelizmente estamos impedidos de 
fazer uso dessa correlao pelo fato de que o nascimento no  experimentado subjetivamente como uma separao da me, visto que o feto, sendo uma criatura completamente 
narcsica, est totalmente alheio  sua existncia como um objeto. Outro 
         argumento adverso  que sabemos quais so as reaes afetivas a uma separao: so a dor e o luto, e no a ansiedade. Incidentalmente, pode-se recordar 
que ao examinarmos a questo do luto tambm deixamos de descobrir por que deve ser uma coisa to dolorosa.
         VIII 
          chegada a ocasio de fazer uma pausa e meditar. O que claramente desejamos  encontrar algo que nos diga o que  realmente a ansiedade, algum critrio 
que nos permita distinguir dos falsos os verdadeiros enunciados a respeito dela. Mas isto no  fcil conseguir. A ansiedade no  assim um assunto to simples. 
At agora a nada chegamos, a no ser a pontos de vista contraditrias sobre ela, nenhum dos quais pode, diante de uma opinio destituda de preconceito, ter preferncia 
sobre os outros. Proponho, portanto, adotar um procedimento diferente. Sugiro que se renam, de maneira bem imparcial, todos os fatos que sabemos sobre a ansiedade, 
sem esperar chegar a uma nova sntese.
         A ansiedade ento , em primeiro lugar, algo que se sente. Denominamo-la de estado afetivo, embora tambm ignoremos o que seja um afeto. Como um sentimento, 
a ansiedade tem um carter muito acentuado de desprazer. Mas isto no  o todo de sua qualidade. Nem todo desprazer pode ser chamado de ansiedade, pois h outros 
sentimentos, tais como a tenso, a dor ou o luto, que tm o carter de desprazer. Assim, a ansiedade deve ter outros traos distintivos alm dessa qualidade de desprazer. 
Podemos conseguir compreender as diferenas entre esses vrios afetos desagradveis?
         Seja como for, podemos observar uma ou duas coisas sobre o sentimento de ansiedade. Seu carter de desprazer parece ter um aspecto prprio - algo no muito 
bvio, cuja presena  difcil de provar e que, contudo, ali se encontra com toda probabilidade. Mas alm de ter essa caracterstica especial difcil de isolar, 
observamos que a ansiedade se faz acompanhar de sensaes fsicas mais ou menos definidas que podem ser referidas a rgos especficos do corpo. Como no estamos 
interessados aqui na filosofia da ansiedade, contentar-nos-emos em mencionar alguns representantes dessas sensaes. Os mais claros e mais freqentes so os ligados 
aos rgos respiratrios e ao corao. Eles proporcionam provas de que as inervaes motoras - isto , processos de descarga - desempenham seu papel no fenmeno 
geral da ansiedade.
         A anlise dos estados de ansiedade, portanto, revela a existncia de (1) um carter especfico de desprazer, (2) atos de descarga e (3) percepes desses 
atos. Os dois ltimos pontos indicam ao mesmo tempo uma diferena entre estados de ansiedade e outros estados semelhantes, como os de luto edor. Os ltimos no tm 
qualquer manifestao motora; ou se tm, a manifestao no constitui parte integrante de todo o estado, mas se distingue dela como sendo ou o resultado da mesma 
ou uma reao a ela. A ansiedade, portanto,  um estado especial de desprazer com atos de descarga ao longo de trilhas especficas. De conformidade com nossos pontos 
de vista gerais devemos estar inclinados a pensar que a ansiedade se acha baseada em um aumento de excitao que, por um lado, produz o carter de desprazer e, por 
outro, encontra alvio atravs dos atos de descarga j mencionados. Mas um relato puramente fisiolgico dessa natureza quase no nos satisfar. Somos tentados a 
presumir a presena de um fator histrico que une firmemente as sensaes de ansiedade e suas inervaes. Presumimos, em outras palavras, que um estado de ansiedade 
 a reproduo de alguma experincia que encerrava as condies necessrias para tal aumento de excitao e uma descarga por trilhas especficas, e que a partir 
dessa circunstncia o desprazer da ansiedade recebe seu carter especfico. No homem, o nascimento proporciona uma experincia prototpica desse tipo, e ficamos 
inclinados, portanto, a considerar os estados de ansiedade como uma reproduo do trauma do nascimento. [Ver em [1]]
         Isto no implica que a ansiedade ocupa uma posio excepcional entre os estados afetivos. Na minha opinio, os outros afetos so tambm reprodues de experincias 
muito antigas, talvez mesmo pr-individuais, de importncia vital; e devo estar inclinado e consider-las como ataques histricos universais, tpicos e inatos, comparados 
com os ataques recentes e individualmente adquiridos que ocorrem em neuroses histricas e cuja origem e significado como smbolos mnmicos foram revelados pela anlise. 
Seria muito conveniente, como  natural, sermos capazes de demonstrar a verdade desse ponto de vista em um grande nmero desses afetos - uma coisa que ainda est 
muito longe de ser o caso.
         A opinio de que a ansiedade remonta ao fato do nascimento levanta objees imediatas que tm de ser atendidas. Pode-se argumentar que a ansiedade  uma 
reao que, com toda probabilidade,  comum a todoorganismo, certamente todo organismo de ordem superior, ao passo que o nascimento  experimentado apenas pelos 
mamferos, sendo de duvidar se at mesmo em todos eles o nascimento tem o significado de um trauma. Portanto, pode haver ansiedade sem o prottipo de nascimento. 
Mas essa objeo leva-nos alm da barreira que divide a psicologia da biologia. Pode ser que, precisamente porque a ansiedade tem uma funo biolgica indispensvel 
a cumprir como reao a um estado de perigo, seja diferentemente engendrada em diferentes organismos. No sabemos, alm disso, se a ansiedade envolve as mesmas sensaes 
e inervaes nos organismos muito afastados do homem, como faz na prprio homem. Assim, no h aqui qualquer bom argumento contra o ponto de vista de que, no homem, 
a ansiedade seja moldada no processo do nascimento.
         Se a estrutura e a origem da ansiedade forem conforme o descrito, a pergunta que se segue : qual a funo da ansiedade e em que ocasies se reproduz? A 
resposta parece ser bvia e convincente: a ansiedade surgiu originalmente como uma reao a um estado de perigo e  reproduzida sempre que um estado dessa espcie 
se repete.
         Essa resposta, contudo, levanta outras consideraes. As inervaes envolvidas no estado original de ansiedade provavelmente tinham um significado e finalidade, 
da mesma forma que os movimentos musculares que acompanham um primeiro ataque histrico. A fim de compreender um ataque dessa natureza, tudo o que se tem a fazer 
 procurar a situao na qual os movimentos em questo formavam parte de uma ao apropriada e aconselhvel. Dessa forma, no nascimento  provvel que a inervao, 
ao ser dirigida para os rgos respiratrios, esteja preparando o caminho para a atividade dos pulmes, e, ao acelerar as pulsaes do corao, esteja ajudando a 
manter o sangue isento de substncias txicas. Naturalmente, quando o estado de ansiedade  reproduzido depois como um afeto, faltar-lhe- tal oportunidade, da mesma 
forma como s repeties de um ataque histrico. Quando o indivduo  colocado numa nova posio de perigo, talvez lhe seja bem desaconselhvel reagir com um estado 
de ansiedade (que  uma reao a um perigo anterior) em vez de iniciar uma reao apropriada ao perigo atual. Mas seu comportamento pode tornar-se adequado mais 
uma vez, se a situao de perigo for reconhecida  medida que se aproximar e se for assinalada por uma irrupo de ansiedade. Nesse caso ele pode imediatamente livrar-se 
da ansiedade, recorrendo a medidas mais adequadas. Assim, podemos ver que h duas formas como a ansiedade pode surgir: de uma maneira inadequada, quando tenha uma 
nova situao de perigo, ou de uma maneira conveniente, a fim de dar um sinal e impedir que tal situao ocorra.Mas o que  um 'perigo'? No ato do mecanismo h um 
verdadeiro perigo para a vida. Sabemos o que isso significa objetivamente; mas num sentido psicolgico nada nos diz absolutamente. O perigo do nascimento no tem 
ainda qualquer contedo psquico. No podemos possivelmente supor que o feto tenha qualquer espcie de conhecimento de que existe a possibilidade de sua vida ser 
destruda. Ele somente pode estar cnscio de alguma grande perturbao na economia de sua libido narcsica. Grandes somas de excitao nele se acumulam, dando margem 
a novas espcies de sentimentos de desprazer, e alguns rgos adquirem maior catexia, prenunciando assim a catexia objetal que logo se estabelecer. Que elementos 
em tudo isso so utilizados como sinal de uma 'situao de perigo'?
         Infelizmente pouqussimo se conhece acerca da composio mental de um recm-nascido para tornar possvel uma resposta direta. No posso sequer garantir 
a validade da descrio que acabo de apresentar.  fcil dizer que o beb repetir sua emoo de ansiedade em toda situao que recorde o evento do nascimento. O 
importante  saber o que recorda o evento e o que  recordado.
         Tudo o que podemos fazer  examinar as ocasies nas quais crianas de colo ou um pouco mais velhas revelam disposio de produzir ansiedade. Em seu livro 
sobre o trauma do nascimento, Rank (1924) fez uma tentativa firme de estabelecer uma relao entre as primeiras fobias das crianas e as impresses nelas causadas 
pelo evento do nascimento. Mas no penso que ele tenha sido bem-sucedido. Sua teoria est sujeita a duas objees. Em primeiro lugar, ele presume que a criana recebeu 
na ocasio do nascimento certas impresses sensoriais, em particular de natureza visual, cuja renovao pode lembrar  sua memria o trauma do nascimento e assim 
evocar uma reao de ansiedade. Essa suposio  bem infundada e extremamente improvvel. No  crvel que uma criana retenha coisas alm de sensaes tcteis e 
gerais relacionadas com o processo de nascimento. Se, posteriormente, as crianas revelam medo de animaizinhos que desaparecem em buracos ou deles saem, essa reao, 
de acordo com Rank, se deve ao fato de elas perceberem uma analogia. Mas  uma analogia da qual no podem estar cnscias. Em segundo lugar, ao considerar essas situaes 
de ansiedade posteriores, Rank repisa, conforme melhor lhe convm, ora a lembrana que a criana tem de sua feliz existncia intra-uterina, ora sua lembrana de 
perturbao traumtica que interrompeu aquela existncia - o que deixa a porta aberta para a interpretao arbitrria. Existem, alm disso, certos exemplos de ansiedade 
infantil que contrariam diretamente sua teoria. Quando, por exemplo, uma criana  deixada sozinha no escuro, seria de esperar-seque ela, de conformidade com seu 
ponto de vista, recebesse de bom grado o restabelecimento da situao intra-uterina: contudo  precisamente em tais ocasies que a criana reage com ansiedade. E 
se isto for explicado afirmando-se que a criana est sendo lembrada da interrupo que o evento do nascimento causou em sua felicidade intra-uterina, torna-se impossvel 
fechar os olhos por mais tempo ao carter exagerado de tais explicaes.
         Sou impelido  concluso de que as primeiras fobias da infncia no podem ser diretamente rastreadas em impresses do nascimento e que at agora no foram 
explicadas. Um certo preparo para a ansiedade se acha sem dvida presente na criana de colo. Mas esse preparo para a ansiedade, em vez de estar em seu ponto mximo 
logo aps o nascimento e ento lentamente decrescer, no surge seno depois,  medida que se processa o desenvolvimento mental, e permanece durante um certo perodo 
da infncia. Se essas primeiras fobias persistirem alm de um certo perodo da infncia, estamos inclinados a suspeitar da presena de uma perturbao neurtica, 
embora no seja absolutamente claro qual seja sua relao com as indubitveis neuroses que surgem posteriormente na infncia.
         S algumas das manifestaes de ansiedade nas crianas nos so compreensveis, e devemos limitar nossa ateno s mesmas, Ocorrem, por exemplo, quando uma 
criana est sozinha, ou no escuro, ou quando se encontra com uma pessoa desconhecida em vez de uma com a qual ela est habituada - como a me dela. Esses trs exemplos 
podem ser reduzidos a uma condio nica - a saber, a de sentir falta de algum que  amado e de quem se sente saudade. Mas aqui, penso eu, temos a chave de uma 
compreenso da ansiedade e de uma reconciliao das contradies que parecem assedi-la.
         A imagem mnmica que a criana tem da pessoa pela qual ela sente anseio  sem dvida intensamente catexizada, provavelmente de forma alucinatria inicialmente. 
Mas isto no tem qualquer efeito, parecendo agora que o anseio se transforma em ansiedade. Essa ansiedade tem toda a aparncia de ser uma expresso do sentimento 
da criana em sua desorientao, como se em seu estado ainda muito pouco desenvolvido ela no soubesse como melhor lidar com sua catexia de anseio. Aqui a ansiedade 
aparece como una reao  perda sentida do objeto e lembramo-nos de imediato do fato de que tambm a ansiedade de castrao constitui o medo de sermos separados 
deum objeto altamente valioso, e de que a mais antiga ansiedade - a 'ansiedade primeva' do nascimento - ocorre por ocasio de uma separao da me.
         Mas a reflexo de um momento nos leva alm dessa questo da perda de objeto. A razo por que a criana de colo deseja perceber a presena de sua me  somente 
porque ela j sabe por experincia que esta satisfaz todas as suas necessidades sem delongas. A situao, portanto, que ela considera como um 'perigo' e contra a 
qual deseja ser protegida  a de no satisfao, de uma crescente tenso devida  necessidade, contra a qual ela  inerme. Penso que se adotarmos esse ponto de vista 
todos os fatos se enquadraro nos seus lugares. A situao de no satisfao na qual as quantidades de estmulo se elevam a um grau desagradvel sem que lhes seja 
possvel ser dominadas psiquicamente ou descarregadas deve, para a criana, ser anloga  experincia de nascer - deve ser uma repetio da situao de perigo. O 
que ambas as situaes tm em comum  a perturbao econmica provocada por um acmulo de quantidades de estmulos que precisam ser eliminadas. Em ambos os casos 
a reao de ansiedade se estabelece. (Essa reao  ainda conveniente na criana de colo, pois a descarga, sendo dirigida para o aparelho respiratrio e os msculos 
vocais, agora convoca a me para ela, logo que ativou os pulmes do recm-nascido para livrar-se dos estmulos internos.)  desnecessrio supor que a criana traz 
mais alguma coisa com ela da poca do seu nascimento do que essa maneira de indicar a presena do perigo.
         Quando a criana houver descoberto pela experincia que um objeto externo perceptvel pode pr termo  situao perigosa que lembra o nascimento, o contedo 
do perigo que ela teme  deslocado da situao econmica para a condio que determinou essa situao, a saber, a perda de objeto.  a ausncia da me que agora 
constitui o perigo, e logo que surge esse perigo a criana d o sinal de ansiedade, antes que a temida situao econmica se estabelea. Essa mudana constitui o 
primeiro grande passo  frente na providncia adotada pela criana para a sua autopreservao, representando ao mesmo tempo uma transio do novo aparecimento automtico 
e involuntrio da ansiedade para a reproduo intencional da ansiedade como um sinal de perigo.
         Nesses dois aspectos, como um fenmeno automtico  um sinal de salvao, verifica-se que a ansiedade  um produto do desamparo mental da criana, o qual 
 um smile natural de seu desamparo biolgico. A impressionante coincidncia como a ansiedade do beb recm-nascido e a ansiedade da criana de colo so condicionadas 
pela separao da me no precisa ser explicada em moldes psicolgicos. Essas explicao podeser apresentada simples e suficientemente de forma biolgica, porquanto, 
da mesma maneira que a me originalmente satisfez todas as necessidades do feto atravs do aparelho do prprio corpo dela, assim agora, aps o nascimento daquele, 
ela continua a faz-lo, embora parcialmente por outros meios. H muito mais continuidade entre a vida intra-uterina e a primeira infncia do que a impressionante 
censura do ato do nascimento nos teria feito acreditar. O que acontece  que a situao biolgica da criana como feto  substituda para ela por uma relao de 
objeto psquica quanto a sua me. Mas no nos devemos esquecer de que durante sua vida intra-uterina a me era um objeto para o feto, e que naquela ocasio no havia 
absolutamente objetos.  bvio que nesse esquema de coisas no h lugar para a ab-reao do trauma do nascimento. No podemos achar que a ansiedade tenha qualquer 
outra funo, afora a de ser um sinal para a evitao de uma situao de perigo.
         O significado da perda de objeto como um determinante da ausncia se estende consideravelmente alm desse ponto, pois a transformao seguinte da ansiedade, 
a saber, a ansiedade de castrao, que pertence  fase flica, constitui tambm medo da separao e est assim ligada ao mesmo determinante. Nesse caso, o perigo 
de se separar dos seus rgos genitais. Ferenczi [1925] traou, de maneira bem correta, penso eu, uma ntida linha de ligao entre esse medo e os medos contidos 
nas situaes mais antigas de perigo. O alto grau de valor narcsico que o pnis possui pode valer-se do fato de que o rgo  uma garantia para seu possuidor de 
que este pode ficar mais uma vez unido  me - isto , a um substituto dela - no ato da copulao. O ficar privado disto equivale a uma renovada separao dela, 
e isto por sua vez significa ficar desamparadamente exposto a uma tenso desagradvel, devido  necessidade instintual, como foi o caso no nascimento. Mas a necessidade 
cujo aumento se teme  agora uma necessidade especfica que pertence  libido genital, e que no  mais indeterminada, como o foi no perodo da infncia. Pode-se 
acrescentar que para um homem que seja impotente (isto , que seja inibido pela ameaa de castrao) o substituto da copulao  uma fantasia de retorno ao ventre 
da me. Seguindo a linha de pensamento de Ferenczi, podemos dizer que o homem em causa, havendo tentado provocar seu retorno ao ventre da me, utilizando o rgo 
genital dele para represent-lo, est agora [em sua fantasia] substituindo regressivamente aquele rgo por toda a sua pessoa.
         O progresso que a criana alcana em seu desenvolvimento - sua crescente independncia, a diviso mais acentuada do seu aparelho mental em vrias instncias, 
o advento de novas necessidades - no pode deixar de exercer influncia sobre o contedo da situao de perigo. J traamos a mudana desse contedo a partir da 
perda da me como objeto at a castrao. A mudana seguinte  causada pelo poder do superego. Com a despersonalizao do agente parental a partir do qual se temia 
a castrao, o perigo se torna menos definido. A ansiedade de castrao se desenvolve em ansiedade moral - ansiedade social -, no sendo agora to fcil saber o 
que  a ansiedade. A frmula 'separao e expulso da horda' s se aplica quela poro ulterior do superego que se formou com base em prottipos sociais, no s 
ao ncleo do superego, que corresponde  instncia parental introjetada. Expressando-o de modo mais geral, o que o ego considera como sendo o perigo e ao qual reage 
com um sinal de ansiedade consiste em o superego dever estar com raiva dele ou puni-lo ou deixar de am-lo. A transformao final pela qual passa o medo do superego 
, segundo me parece, o medo da morte (ou medo pela vida), que  um medo do superego projetado nos poderes do destino.
         poca houve em que atribu certa importncia ao ponto de vista de que aquilo que era utilizado como uma descarga de ansiedade era a catexia que fora retirada 
no processo de represso. Hoje isto me parece quase de nenhuma importncia. O motivo disto  que, embora antigamente acreditasse que a ansiedade, de maneira invarivel, 
surgisse automaticamente por um processo econmico, minha presente concepo de ansiedade como um sinal emitido pelo ego a fim de tornar afetiva a instncia do prazer-desprazer 
elimina a necessidade de considerar o fator econmico. Naturalmente nada h a dizer contra a idia de que  precisamente a energia que foi liberada por haver sido 
retirada atravs da represso que  utilizada pelo ego para provocar o afeto; porm no  mais de importncia alguma qual a parcela de energia que  empregada para 
essa finalidade.Ver em [[1].]
         Essa nova viso das coisas exige o exame de outra assero minha - a saber, que o ego  a sede real da ansiedade. Penso que essa proposio ainda vlida. 
No existe razo alguma para atribuir qualquer manifestao de ansiedade ao superego; embora a expresso 'ansiedade do id' necessitasse de correo, isto seria antes 
quanto  forma do que quanto ao fundo. A ansiedade  um estado afetivo e como tal, naturalmente, s pode ser sentida pelo ego. O id pode ter ansiedade como o ego, 
pois no  uma organizao e no pode fazer um julgamento sobre situaes de perigo. Por outro lado, muitas vezes acontece ocorrer ou comear a ocorrer processos 
no id que fazem com que o ego produza ansiedade. Na realidade,  provvel que as primeira represses, bem como a maioria das ulteriores, sejam motivadas por uma 
ansiedade do ego dessa classe, no tocante a processos especficos do id. Aqui estamos mais uma vez fazendo uma distino correta entre dois casos: o caso no qual 
ocorre algo no id que ativa uma das situaes de perigo para o ego e que o induz a emitir o sinal de ansiedade para que a inibio se processe, e o caso no qual 
uma situao anloga ao trauma do nascimento se estabelece no id, seguindo-se uma reao automtica de ansiedade. Os dois casos podem ser mais aproximados, se se 
ressaltar que o segundo corresponde  situao de perigo mais antiga e original, ao passo que o primeiro corresponde a qualquer um dos determinantes ulteriores de 
ansiedade que dela se tenha originado; ou, conforme aplicado a perturbao com que de fato nos defrontamos, que o segundo caso  atuante na etiologia das neuroses 
'atuais', ao passo que o primeiro permanece tpico para o das psiconeuroses.
         Vemos, ento, que no se trata tanto de remontarmos aos nossos primeiros achados, mas de p-los em harmonia com descobertas mais recentes. Constitui ainda 
um fato inegvel que na abstinncia sexual, na interferncia imprpria no curso da excitao sexual, ou se esta for desviada de ser elaborada psiquicamente, a ansiedade 
surge diretamente da libido; em outras palavras, que o ego fica reduzido a um estado de desamparo em face de uma tenso excessiva devida  necessidade, como ocorreu 
na situao do nascimento, e que a ansiedade  ento gerada. Mais uma vez aqui, embora o assunto seja de somenos importncia  bem possvel que o que encontra descarga 
na gerao da ansiedade  precisamente o excedente da libido no utilizada. Como sabemos, uma psiconeurose est especialmente sujeita a desenvolver-se com base em 
uma neurose 'atual'. Isto se afigura como se o ego tivesse tentando poupar-se  ansiedade, que ele aprendeu a manter em suspenso por algum tempo, e lig-la pela 
formao de sintomas. A anlise das neuroses de guerra traumticas - expresso que,incidentalmente, abrange grande variedade de perturbaes - provavelmente teria 
revelado que grande nmero delas possui algumas caractersticas das neuroses 'atuais', ver em [[1]]
         Ao descrever a evoluo das vrias situaes de perigo a partir do seu prottipo, o ato do nascimento, no tive qualquer inteno de afirmar que cada determinante 
invalida completamente o precedente.  verdade que,  medida que continua o desenvolvimento do ego, as situaes de perigo mais antigas tendem a perder sua fora 
e a ser postas de lado, de modo que podemos dizer que cada perodo da vida do indivduo tem seu determinante apropriado de ansiedade. Assim o perigo de desamparo 
psquico  apropriado ao perigo de vida quando o ego do indivduo  imaturo; o perigo da perda de objeto, at a primeira infncia, quando ele ainda se acha na dependncia 
de outros; o perigo de castrao, at a fase flica; e o medo do seu superego, at o perodo de latncia. No obstante, todas essas situaes de perigo e determinantes 
de ansiedade podem resistir lado a lado e fazer com que o ego a elas reaja com ansiedade num perodo ulterior ao apropriado; ou, alm disso, vrias delas podem entrar 
em ao ao mesmo tempo.  possvel, alm disto, que haja uma relao razoavelmente estreita entre a situao de perigo que seja operativa e a forma assumida pela 
neurose resultante.Quando, numa parte anterior desta apreciao, verificamos que o perigo da castrao era de importncia em mais de uma doena, ficamos alerta contra 
uma superestimativa desse fator, visto que ele poderia no ser decisivo para o sexo feminino, que indubitavelmente est mais sujeito a neuroses do que os homens. 
[Ver [1].] Vemos agora que no h perigo algum em considerarmos a ansiedade de castrao como a nica fora motora dos processos defensivos que conduzem  neurose. 
Indiquei alhures como meninazinhas, no curso do seu desenvolvimento, so levadas a fazer uma terna catexia objetal pelo seu complexo de castrao.  precisamente 
nas mulheres que a situao de perigo da perda de objeto parece ter permanecido mais efetiva. Tudo que precisamos fazer  proceder a uma ligeira modificao em nossa 
descrio do seu determinante de ansiedade, no sentido de que no se trata mais de sentir a necessidade do prprio objeto ou de perd-lo, mas de perder o amor do 
objeto. Visto no haver qualquer dvida de que a histeria tem forte afinidade com a feminilidade, da mesma forma que a neurose obsessiva com a masculinidade, afigura-se 
provvel que, como um determinante da ansiedade, a perda do amor desempenha o mesmssimo papel na histeria que a ameaa da castrao nas fobias e o medo do superego 
na neurose obsessiva.
         IX 
         O que nos resta agora  considerar a relao entre a formao de sintomas e a gerao de ansiedade.
         Parece haver duas opinies amplamente sustentadas sobre esse assunto. Uma  que a ansiedade  um sintoma de neurose. A outra  que existe uma relao muito 
mais ampla entre as duas.De acordo com a segunda opinio, os sintomas s se formam a fim de evitar a ansiedade: renem a energia psquica que de outra forma seria 
descarregada como ansiedade. Assim este seria o fenmeno fundamental e o principal problema da neurose.
         Que essa segunda opinio  pelo menos em parte verdadeira  demonstrado por alguns exemplos marcantes. Se um paciente agorafbico que tenha sido acompanhado 
at a rua for ali deixado sozinho, ele produzir um ataque de ansiedade. Ou se um neurtico obsessivo for impedido de lavar as mos aps haver tocado algo, ele se 
tornar preso de uma ansiedade quase insuportvel.  claro, portanto, que a finalidade e o resultado da condio imposta de ser acompanhado na rua e que o ato obsessivo 
de lavar as mos consistiam em prevenir irrupes de ansiedade dessa espcie. Nesse sentido, toda inibio que o ego impe a si prprio pode ser denominada de sintoma.
         Visto que remetemos a gerao da ansiedade a uma situao de perigo, preferiremos dizer que os sintomas so criados a fim de remover o ego de uma situao 
de perigo. Se se impedir que os sintomas sejam formados, o perigo de fato se concretiza; isto , uma situao anloga ao nascimento se estabelece, na qual o ego 
fica desamparado em face de uma exigncia instintual constantemente crescente - o determinante mais antigo e original da ansiedade. Assim, em nossa opinio, a relao 
entre a ansiedade e o sintoma  menos estreita do que se supunha, pois inserimos o fator da situao de perigo entre eles. Podemos tambm acrescentar que a gerao 
de ansiedade pe a gerao de sintomas em movimento e , na realidade, um requisito prvio dela, pois se o ego no despertasse a instncia de prazer-desprazer gerando 
ansiedade, no conseguiria a fora para paralisar o processo que se est preparando no id e que ameaa com perigo. H em tudo isso evidente inclinao para limitar 
ao mnimo a quantidade de ansiedade gerada e para empreg-la somente como sinal, porquanto agir de outra forma somente resultaria em sentir em outro lugar o desprazer 
que o processo instintual estava ameaando produzir e que no constituiria um xito do ponto de vista do princpio de prazer, embora seja um sucesso que ocorre bastante 
amide nas neuroses.
         A formao de sintomas, portanto, de fato pe termo  situao de perigo. Ela tem dois aspectos; um, oculto da viso, acarreta a alterao no id em virtude 
da qual o ego  afastado de perigo; o outro, apresentado abertamente, revela o que foi criado em lugar do processo instintual que foi afetado - a saber, a formao 
substitutiva.
         Seria, contudo, mais correto atribuir ao processo defensivo o que acabamos de dizer sobre a formao de sintomas e empregar a segunda expresso como sinnimo 
de formao de substitutos. Tornar-se- ento claro que o processo defensivo  anlogo  fuga por meio da qual o ego se afasta de um perigo que o ameaa de fora. 
O processo defensivo  uma tentativa de fuga de um perigo instintual. Um exame dos pontos fracos dessa comparao tornar as coisas mais claras.
         Uma objeo a ela  que a perda de um objeto (ou perda do amor da parte do objeto) e a ameaa de castrao so do mesmo modo perigos que provm de fora 
como, digamos, seria um animal feroz; no so perigos instintuais. No obstante, os dois casos no so os mesmos. Um lobo provavelmente nos atacaria independentemente 
do nosso comportamento em relao a ele; mas a pessoa amada no deixaria de nos amar nem seramos ameaados de castrao se no alimentssemos certos sentimentos 
e intenes dentro de ns. Assim, tais impulsos instintuais so determinantes de perigos externos e dessa maneira se tornam perigosos em si; e podemos agora prosseguir 
contra o perigo externo adotando medidas contra os internos. Nas fobias de animais, o perigo parece ser ainda sentido inteiramente como externo, justamente como 
sofreu um deslocamento externo no sintoma. Nas neuroses obsessivas o perigo  muito mais internalizado. Aquela parcela de ansiedade referente ao superego que constitui 
a ansiedade social ainda representa um substituto interno de um perigo externo, enquanto a outra parcela - a ansiedade moral - j  inteiramente endopsquica.
         Outra objeo  que, numa tentativa de fuga de um perigo externo iminente, tudo o que o indivduo est fazendo  aumentar a distncia entre ele prprio 
e o que o est ameaando. Ele no se est preparando para defender-se contra ele ou tentando alterar algo a respeito dele, como seria o caso se ele atacasse o lobo 
com um cajado ou nele atirasse com uma arma. Mas o processo defensivo parece fazer algo mais do que corresponderia a uma tentativa de fuga. Trava debate com o problema 
do processo instintual ameaador e de alguma forma suprime-o ou desvia-o de seus objetivos, e assim o torna incuo. Essa objeo parece inatacvel e deve receber 
a devida importncia. Julgo provvel que deve haver certos processos defensivos que podem verdadeiramente ser comparados com uma tentativa de fuga, embora em outros 
o ego assuma uma linha muito mais ativa de autoproteo e inicie vigorosas contramedidas. Mas talvez toda a analogia entre a defesa e a fuga seja invlida pelo fato 
de que tanto o ego como o instinto no id sejam partes da mesma organizao, no entidades isoladas como o lobo e a criana, de modo que qualquer espcie de comportamento 
por parte do ego resultar tambm numa alterao do processo instintual.
         Esse estudo dos determinantes da ansiedade tem, por assim dizer, revelado o comportamento defensivo do ego transfigurado numa luz racional. Cada situao 
de perigo corresponde a um perodo particular de vida ou a uma fase particular de desenvolvimento do aparelho mental e parece ser justificvel quanto a ele. Na primeira 
infncia o indivduo realmente no est preparado para dominar psiquicamente as grandes somas de excitao que o alcanam quer de fora, quer de dentro. Alm disso, 
num certo perodo de vida seu interesse mais importante realmente  que as pessoas das quais ele depende no devem retirar seu carinho dele. Posteriormente, em sua 
meninice, quando sente que o pai  um poderoso rival no tocante  sua me, e se torna cnscio de suas prprias inclinaes agressivas para com ele e de suas intenes 
sexuais em relao  me, realmente tem justificativa de ter medo do pai; e seu medo de ser punido por este pode encontrar expresso atravs de reforo filogentico 
no medo de ser castrado. Finalmente, quando trava relaes sociais, realmente lhe  necessrio temer seu superego, ter uma conscincia; e a ausncia desse fator 
daria margem a conflitos, perigos e assim por diante.
         Mas esse ltimo ponto levanta um novo problema. Em vez do afeto da ansiedade tomemos, por um momento, outro - o do pesar, por exemplo. Parece perfeitamente 
normal que aos quatro anos de idade uma menina chore penosamente se a sua boneca quebrar-se; ou aos seis, se a governanta reprov-la; ou aos dezesseis, se for desprezada 
pelo namorado; ou aos vinte e cinco, talvez, se um filho dela morrer. Cada um desses determinantes de dor tem a sua prpria poca e cada um desaparece quando essa 
poca terminar. Somente os determinantes finais e definitivos permanecem por toda a vida. Devemos julgar estranho se essa menina, depois de ter crescido, se tornado 
esposa e me, fosse chorar por algum objeto sem valor que tivesse sido danificado. Contudo,  assim que se comporta o neurtico. Embora todas as instncias para 
a dominao dos estmulos de h muito se tenham desenvolvido dentro de amplos limites em seu aparelho mental, e embora esteja suficientemente crescido para satisfazer 
 maior parte de suas necessidades por si mesmo e h muito tenha aprendido que a castrao no  mais praticada como castigo, ele no obstante se comporta como se 
as antigas situaes de perigo ainda existissem e se apega a todos os antigos determinantes de ansiedade.
         Por que isto  assim exige uma resposta em tanto longa. Antes de tudo, devemos peneirar os fatos. Num grande nmero de casos os antigos determinantes da 
ansiedade realmente declinam, aps terem produzido reaes neurticas. As fobias de crianas muito tenras, temores de ficarem ss ou no escuro ou com estranhos - 
fobias que podem quase ser chamadas de normais -, em geral desaparecem depois; a criana 'sai delas crescendo', como dizemos sobre algumas outras perturbaes da 
infncia. As fobias de animais, de ocorrncia to freqente, sofrem o mesmo destino e muitas histerias de converso dos primeiros anos no tm continuidade em anos 
posteriores da vida. Aes cerimoniais surgem com extrema freqncia no perodo de latncia, mas somente uma percentagem muito pequena delas se desenvolve posteriormente 
numa neurose obsessiva completa. Em geral, at onde possamos dizer pelas nossas observaes sobre crianas citadinas que pertencem a raas brancas e que vivem de 
acordo com padres culturais razoavelmente elevados, as neuroses da infncia tm a natureza de episdios regulares no desenvolvimento de uma criana, embora muito 
pouca ateno se dispense s mesmas. Sinais de neuroses infantis podem ser detectados em todos os neurticos adultos sem exceo; mas de modo algum todas as crianas 
que revelam esses sinais se tornam neurticas depois. Deve acontecer, portanto, que certos determinantes da ansiedade sejam abandonados e certas situaes de perigo 
percam seu significado  medida que o indivduo se torna mais maduro. Alm disso, algumas dessas situaes de perigo conseguem sobreviver, alcanando pocas posteriores, 
e modificam seus determinantes de ansiedade a fim de atualiz-los. Dessa forma, por exemplo, um homem pode reter seu medo de castrao  guisa de uma sifilidofobia, 
aps ter vindo a saber que no  mais habitual castrar as pessoas por se entregarem a seus desejos sexuais, mas que, por outro lado, graves doenas podem sobrevir 
a qualquer um que se entrega assim a seus instintos. Outros determinantes de ansiedade, como o medo do superego, esto destinados a no desaparecer absolutamente, 
mas a acompanhar as pessoas por toda sua vida. Nesse caso, o neurtico diferir da pessoa normal devido ao fato de que suas reaes aos perigos em questo sero 
indevidamente acentuadas. Finalmente, o ser adulto no oferece qualquer proteo absoluta contra um retorno da situao de ansiedade traumtica original. Todo indivduo 
tem, com toda probabilidade, um limite alm do qual seu aparelho mental falha em sua funo de dominar as quantidades de excitao que precisam ser eliminadas.
         Essas retificaes secundrias no podem de forma alguma alterar o fato aqui em exame de que numerosssimas pessoas continuam infantis em seu comportamento 
referente ao perigo, e no superam determinantes de ansiedade que ficaram ultrapassados. Negar isto seria negar a existncia da neurose, pois so precisamente tais 
pessoas que denominamos de neurticas. Mas como isto  possvel? Por que nem todas as neuroses so episdios no desenvolvimento do indivduo que terminam quando 
a fase seguinte  alcanada? De onde provm o elemento de persistncia a essas reaes ao perigo? Por que s o afeto de ansiedade parece desfrutar da vantagem sobre 
todos as outros afetos de evocao de reaes que se distinguem das restantes por serem anormais e que, atravs de sua falta de propriedade, vo de encontro ao movimento 
da vida? Em outras palavras, mais uma vez chegamos desprevenidos ao enigma com o qual tantas vezes nos defrontamos: de onde provm a neurose - qual  a sua ltima, 
sua prpria raison d'tre peculiar? Aps dez anos de labores psicanalticos, continuamos exatamente no escuro quanto a esse problema, como estvamos no incio.
         X 
         A ansiedade  a reao ao perigo. No se pode, afinal de contas, deixar de suspeitar que o motivo pelo qual o afeto de ansiedade ocupa uma posio sul generis 
na economia da mente tem algo a ver com a natureza essencial do perigo. Contudo, os perigos so o destino comum da humanidade; so os mesmos para todos. O que necessitamos 
e com o que no podemos mexer  algum fator que explicar por que algumas pessoas so capazes de sujeitar o afeto de ansiedade, apesar da sua qualidade peculiar, 
s elaboraes normais da mente, ou que decide quem est condenado a fracassar naquela tarefa. Duas tentativas para encontrar um fator dessa espcie foram feitas, 
sendo natural que tais esforos encontrassem uma recepo acolhedora, visto que prometem ajudar a atender uma necessidade atormentadora. As duas tentativas em questo 
so mutuamente complementares; abordam o problema em extremidades opostas. A primeira foi feita por Alfred Adler h mais de dez anos. Sua assero, reduzida a sua 
essncia, era a de que as pessoas que fracassavam na tarefa a elas atribuda pelo perigo eram aquelas muito impedidas por alguma inferioridade orgnica. Se fosse 
verdade que simplex sigillum veri, devamos acolher tal soluo [Lsung] como uma libertao [Erlsung]. Mas ao contrrio, nossos estudos crticos dos ltimos dez 
anos efetivamente demonstraram a total impropriedade de tal explicao - explicao, alm disso, que pe de lado toda a riqueza do material descoberto pela psicanlise.
         A segunda tentativa foi feita por Otto Rank em 1923 em seu livro The Trauma of Birth. [Ver Pp. 89 e 136 e seg.] Seria injusto pr sua tentativa no mesmo 
nvel que a de Adler, salvo nesse nico ponto, o qual nos diz respeito aqui, pois permanece no terreno da psicanlise e persegue uma linha de pensamento psicanaltica, 
de modo que pode ser aceita como um esforo autntico para solucionar os problemas da anlise. Nesse assunto da relao do indivduo com o perigo Rank afasta-se 
da questo do defeito orgnico do indivduo e se concentra no grau varivel de intensidade do perigo. O processo de nascimento  a primeira situao de perigo, e 
a convulso econmica que ele produz torna-se o prottipo da reao de ansiedade. J,ver em [[1]] traamos a linha de desenvolvimento que liga essa primeira situao 
de perigo e determinante da ansiedade com todas as ulteriores, e vimos que todas conservam uma qualidade comum at onde significam, em certo sentido, uma separao 
da me - de incio somente num sentido biolgico, a seguir como uma perda direta do objeto e depois como uma perda do objeto incorrida indiretamente. A descoberta 
dessa extensa concatenao constitui indubitvel mrito da construo de Rank. Agora, o trauma do nascimento se apodera de cada indivduo com um grau diferente de 
intensidade e a violncia da reao de ansiedade varia com a fora do trauma, sendo a quantidade inicial da ansiedade gerada nele que, de acordo com Rank, decide 
se ele chegar a control-lo - se ele se tornar neurtico ou normal.
         No nos cabe criticar aqui com riqueza de detalhes a hiptese de Rank. Temos apenas a considerar se ela ajuda a resolver nosso problema particular. A frmula 
dele - de que se tornam neurticas as pessoas nas quais o trauma do nascimento foi to forte que jamais foram capazes inteiramente de ab-reagi-la -  altamente discutvel 
de um ponto de vista terico. No sabemos ao certo o que se quer dizer por ab-reao do trauma. Tomada literalmente, implica que quanto mais freqente e intensamente 
uma pessoa neurtica reproduzir o afeto de ansiedade, mais de perto ela se aproximar da sade mental - uma concluso insustentvel. Foi por no ter coincidido com 
os fatos que abandonei a teoria da ab-reao, que desempenhara papel to importante no mtodo catrtico. Dar tanta nfase, tambm,  variabilidade com base no trauma 
do nascimento  no deixar lugar algum para as legtimas reivindicaes da constituio hereditria como fator etiolgico, pois essa variabilidade  um fator orgnico 
que atua de maneira acidental em relao com a constituio, dependendo ela prpria de muitas influncias que podem ser denominadas acidentais - como, por exemplo, 
na assistncia oportuna por ocasio do parto. A teoria de Rank despreza inteiramente os fatores constitucionais bem como os filogenticos. Se, contudo, tivssemos 
de tentar encontrar um lugar para o fator constitucional restringindo o enunciado dele com a clusula, digamos, de que aquilo que  realmente importante  a extenso 
na qual o indivduo reage  intensidade varivel do trauma do nascimento, estaramos privando sua teoria de sua significao e estaramos relegando o novo fator 
introduzido por ele a uma posio de importncia secundria: o fator que decidiu se uma neurose devia sobrevir ou no estaria num campo diferente e, mais uma vez, 
desconhecido.
         Alm disso, o fato de que, enquanto o homem partilha o processo de nascimento com os outros mamferos, somente ele tem o privilgio em relao a eles de 
possuir uma disposio especial para a neurose dificilmente  favorvel  teoria de Rank. Mas a principal objeo a ela  que flutua no ar em vez de estar baseada 
em observaes confirmadas. Nenhum conjunto de prova foi coligido para indicar que o nascimento difcil e retardado coincide de fato com o desenvolvimento de uma 
neurose, ou mesmo que as crianas assim nascidas exibem os fenmenos da primeira apreenso infantil de forma mais acentuada e por um perodo mais longo do que outras 
crianas. Poder-se-ia retrucar que as dores do parto e os nascimentos induzidos, fceis para a me, possivelmente podem envolver grave trauma para a criana. Mas 
podemos ainda ressaltar que os nascimentos que levam  asfixia estariam destinados a proporcionar claras provas dos resultados que supostamente devem seguir-se. 
Deve ser uma das vantagens da teoria etiolgica de Rank o fato de que ela postula um fator cuja existncia pode ser verificada pela observao. E enquanto tal tentativa 
de verificao no for feita,  impossvel verificar o valor da teoria.
         Por outro lado, no posso identificar-me com o ponto de vista de que a teoria de Rank contradiz a importncia etiolgica dos instintos sexuais tal como 
at agora reconhecidos pela psicanlise, pois sua teoria s tem referncia  relao do indivduo com a situao de perigo, de modo que deixa perfeitamente aberto 
para ns a suposio de que, se uma pessoa no foi capaz de dominar seus primeiros perigos, ela est destinada a fracassar tambm em situaes ulteriores envolvendo 
perigo sexual, e assim a ser impelida a uma neurose.
         No acredito, portanto, que a tentativa de Rank tenha solucionado o problema da causao da neurose, nem creio que possamos at agora dizer o quanto ela, 
no obstante, tenha contribudo para tal soluo. Se uma investigao dos efeitos do parto difcil sobre a disposio  neurose deve proporcionar resultados negativos, 
classificaremos de inferior o valor da contribuio dele. Deve-se temer que nossa necessidade de encontrar uma 'causa ltima' simples e tangvel da doena neurtica 
permanea insatisfeita. A soluo ideal, pela qual os mdicos ainda anseiam, seria descobrir certo bacilo que pudesse ser isolado e cultivado numa cultura pura e 
que, quando injetado em algum, invariavelmente produzisse a mesma doena; ou, expressando-o de forma um tanto menos extravagante, demonstrar a existncia de certas 
substncias qumicas cuja administrao provocasse ou curasse neuroses especficas. Mas a probabilidade de uma soluo dessa espcie parece pequena.
         A psicanlise leva a concluses menos simples e satisfatrias. O que tenho a dizer nesse sentido de h muito  familiar e nada tenho de novo a acrescentar. 
Se o ego consegue proteger-se de um impulso instintual perigoso, atravs, por exemplo, do processo de represso, ele por certo inibiu e prejudicou a parte especfica 
do id em causa; mas ao mesmo tempo lhe deu certa independncia e renunciou a um pouco de sua prpria soberania. Isto  inevitvel pela natureza da represso, que 
, fundamentalmente, uma tentativa de fuga. O reprimido  agora, por assim dizer, um fora-da-lei; fica excludo da grande organizao do ego e est sujeito somente 
s leis que regem o domnio do inconsciente. Se, agora, a situao de perigo modificar-se de modo que o ego no tenha razo alguma de desviar-se de um novo impulso 
instintual anlogo ao reprimido, a conseqncia da restrio do ego que ocorreu se tornar manifesta. O novo impulso prosseguir seu curso sob uma influncia automtica 
- ou, como eu preferiria dizer, sob a influncia da compulso  repetio. Ele seguir a mesma trilha que o impulso mais antigo reprimido, como se a situao de 
perigo que tivesse sido superada ainda existisse. O fator de fixao na represso, portanto,  a compulso  repetio do id inconsciente - uma compulso que em 
circunstncias normais s  eliminada pela funo livremente mvel do ego. O ego poder ocasionalmente conseguir romper as barreiras da represso que ele prprio 
erigiu e recuperar sua influncia sobre o impulso instintual, e dirigir o curso do novo impulso de conformidade com a situao de perigo modificada. Mas de fato 
o ego muito raramente consegue fazer isto: ele no pode desfazer suas represses.  possvel que a maneira pela qual a luta v ser travada dependa de relaes quantitativas. 
Em alguns casos tem-se a impresso de que o resultado seja imposto: a atrao regressiva exercida pelo impulso reprimido e a fora da represso no tem outra opo 
seno obedecer  compulso  repetio. Em outros casos percebemos uma contribuio de outra atuao de foras: a atrao exercida pelo prottipo reprimido  reforada 
por uma repulso proveniente da direo de dificuldades na vida real que atrapalham qualquer curso diferente que poderia ser seguido pelo novo impulso instintual.
         Que esse  um relato correto da fixao na represso e da reteno das situaes de perigo que no so mais situaes dos dias atuais  confirmado pelo 
fato da terapia analtica - fato que  bastante modesto em si, mas que dificilmente pode ser superestimado de um ponto de vista terico. Quando, na anlise, demos 
ao ego assistncia capaz de situ-lo em posio de levantar suas represses, ele recupera seu poder sobre o id reprimido e pode permitir aos impulsos instintuais 
que sigam seu curso como se as antigas situaes de perigo no existissem mais. O que podemos fazer dessa maneira coincide com o que pode ser alcanado em outros 
campos da medicina, pois em geral nossa terapia deve contentar-se em provocar mais rapidamente, de forma mais confivel e com menos dispndio de energia do que seria 
o caso de outra forma, o bom resultado que em circunstncias favorveis teriam ocorrido por si. Vemos pelo que acaba de ser dito que as relaes quantitativas - 
relaes que no so diretamente observveis mas que s podem ser inferidas - so o que determina se situaes de perigo antigas sero preservadas, se represses 
por parte do ego sero mantidas e se neuroses da infncia encontraro continuidade. Entre os fatores que desempenham seu papel na causao das neuroses e que criam 
as condies sob as quais as foras da mente so lanadas umas contra as outras, surgem trs de forma proeminente: um fator biolgico, um filogentico e um puramente 
psicolgico.
         O fator biolgico  o longo perodo de tempo durante o qual o jovem da espcie humana est em condies de desamparo e dependncia. Sua existncia intra-uterina 
parece ser curta em comparao com a da maior parte dos animais, sendo lanado ao mundo num estado menos acabado. Como resultado, a influncia do mundo externo real 
sobre ele  intensificada e uma diferenciao inicial entre o ego e o id  promovida. Alm disso, os perigos do mundo externo tm maior importncia para ele, de 
modo que o valor do objeto que pode somente proteg-lo contra eles e tomar o lugar da sua antiga vida intra-uterina  enormemente aumentado. O fator biolgico, ento, 
estabelece as primeiras situaes de perigo e cria a necessidade de ser amado que acompanhar a criana durante o resto de sua vida.
         A existncia do segundo fator, o filogentico, baseia-se apenas em inferncia. Fomos levados a presumir sua existncia por uma marcante caracterstica no 
desenvolvimento da libido. Verificamos que a vida sexual do homem, diferentemente da vida sexual da maioria dos animais de perto relacionada com ele, no realiza 
um progresso firme desde o nascimento  maturidade, mas, aps uma eflorescncia inicial at o quinto ano, sofre uma interrupo bem ntida, e ento segue seu curso 
mais uma vez na puberdade, reatando os incios interrompidos na primeira infncia. Isto levou-nos a supor que algo momentoso deve ter ocorrido nas vicissitudes da 
espcie humana que deixou para trs essa interrupo no desenvolvimento sexual do indivduo como um precipitado histrico. Esse fator deve seu significado patognico 
ao fato de que a maioria das exigncias instintuais dessa sexualidade infantil so tratadas pelo ego como perigos e desviados como tais, de modo que os impulsos 
sexuais ulteriores da puberdade, que no curso natural das coisas seriam egossintnicos, correm o risco de sucumbir  atrao de seus prottipos infantis e de segui-los 
at a represso.  aqui que nos defrontamos com a etiologia mais direta das neuroses.  fato curioso que o contato inicial com as exigncias da sexualidade deve 
ter efeito sobre o ego semelhante ao produzido pelo contato prematuro com o mundo externo.
         O terceiro fator, o psicolgico, reside em um defeito do nosso aparelho mental que tem a ver precisamente com sua diferenciao em um id e um ego, e que 
 portanto tambm atribuvel, em ltima anlise,  influncia do mundo externo. Em vista dos perigos da realidade [externa], o ego  obrigado a resguardar-se contra 
certos impulsos instintuais no id e a trat-los como perigos. Mas no pode proteger-se dos perigos instintuais internos to eficazmente quanto pode de alguma realidade 
que no  parte de si mesmo. Intimamente vinculado ao id como est, s pode desviar um perigo instintual restringindo sua prpria organizao e aquiescendo na formao 
de sintomas em troca de ter prejudicado o instinto. Se o instinto rejeitado renovar seu ataque, o ego  dominado por todas aquelas dificuldades que nos so conhecidas 
como males neurticos.
         Alm disso, creio, nosso conhecimento da natureza e da causas da neurose ainda no pode ir adiante.
         XI
         ADENDOS 
         No curso deste exame vrios temas tiveram que ser postos de lado antes que houvessem sido plenamente tratados. Reuni-os neste captulo de modo que possam 
receber a ateno que merecem.
         
         A - MODIFICAES DE PONTOS DE VISTA ANTERIORES 
         
         (a) Resistncia e Anticatexia
         
         Importante elemento da teoria da represso  a opinio de que a represso no  um fato que ocorre uma vez, mas que exige um dispndio permanente [de energia]. 
Se esse dispndio viesse a cessar, o impulso reprimido, que est sendo alimentado todo o tempo a partir de suas fontes, na ocasio seguinte fluiria pelos canais 
dos quais havia sido expulso, e a represso ou falharia em sua finalidade ou teria de ser repetida um nmero indefinido de vezes. Assim,  porque os instintos so 
contnuos em sua natureza que o ego tem de tornar segura sua ao defensiva por um dispndio permanente [de energia]. Essa ao empreendida para proteger a represso 
 observvel no tratamento analtico como resistncia. A resistncia pressupe a existncia do que eu denominei de anticatexia. Uma anticatexia dessa espcie  claramente 
observada na neurose obsessiva. Ela aparece ali sob a forma de uma alterao do ego, como uma formao reativa no ego, e  efetuada pelo reforo da atitude que  
o oposto da tendncia instintual que tem de ser reprimida - como, por exemplo, na piedade, na conscincia e no asseio. Essas formaes reativas de neurose obsessiva 
so essencialmente exageros dos traos normais do carter que se desenvolvem durante o perodo de latncia. A presena de uma anticatexia na histeria  muito mais 
difcil de detectar, embora teoricamente seja igualmente indispensvel. Na histeria, tambm, uma quantidade de alterao do ego atravs da formao reativa  inegvel 
e em algumas circunstncias se torna to acentuada que se fora  nossa ateno como o principal sintoma.O conflito devido  ambivalncia, por exemplo,  transformado 
em histeria por esse meio. O dio do paciente por uma pessoa a quem ele ama  mantido em baixo nvel por uma quantidade reduzida de ternura e apreenso da parte 
dela. Mas a diferena entre as formaes reativas na neurose obsessiva e na histeria  que na segunda no tm a universidade de um trao de carter, mas esto confinadas 
a relaes especficas. Uma histrica, por exemplo, pode ser especialmente afetuosa com seus prprios filhos, os quais no fundo ela odeia; mas por causa disso ela 
no ser mais amorosa, em geral, do que outras mulheres ou mais afetuosa para com outras crianas. A formao reativa da histeria apega-se tenazmente a um objeto 
especfico e jamais se difunde por uma disposio geral do ego, ao passo que o que  caracterstico da neurose obsessiva  precisamente uma difuso dessa espcie 
- um afrouxamento de relaes na escolha de objeto.
         H outra espcie de anticatexia, contudo, que parece mais adequada ao carter peculiar da histeria. Um impulso instintual reprimido pode ser ativado (novamente 
catexizado) a partir de duas direes: de dentro, atravs de reforo de suas fontes internas de excitao, e de fora, atravs da percepo de um objeto que ele deseja. 
A anticatexia histrica  principalmente dirigida para fora, contra percepes perigosas. Assume a forma de uma espcie especial de vigilncia que, por meio de restries 
do ego, causa situaes a serem evitadas que ocasionariam tais percepes, ou, se de fato ocorrerem, consegue afastar delas a ateno do paciente. Alguns analistas 
franceses, em particular Laforgue [1926], recentemente deram a essa ao da histeria o nome especial de 'escotomizao'. Essa tcnica de anticatexia  ainda mais 
perceptvel nas fobias, cujo interesse se acha concentrado na remoo do paciente cada vez mais para longe da possibilidade da ocorrncia da percepo temida. O 
fato de que a anticatexia tem uma direo oposta na histeria e nas fobias  que tem na neurose obsessiva - embora a distino no seja absoluta - parece ser significativo. 
Sugere existir estreita relao entre a represso e a anticatexia externa, por um lado, e entre a regresso e a anticatexia interna (isto , alterao do ego atravs 
da formao reativa), por outro. A tarefa de defesa contra uma percepo perigosa , incidentalmente, comum a todas as neuroses. Vrias ordens e proibies na neurose 
obsessiva tm em vista o mesmo fim.
         Mostramos em ocasio anterior que a resistncia que tem de ser superada na anlise provm do ego, que se apega a suas anticatexias.  difcil para o ego 
dirigir sua ateno para percepes e idias que ele ento estabeleceu como norma evitar, ou reconhecer como pertencendo a si prprio impulsos que so o oposto completo 
daqueles que ele conhece como seus prprios. Nossa luta contra a resistncia na anlise baseia-se nesse ponto de vista dos fatos. Se a resistncia for ela mesma 
inconsciente, como to amide acontece devido  sua ligao com o material reprimido, ns a tornamos consciente. Se for consciente, ou quando se tiver tornado consciente, 
apresentamos argumentos lgicos contra ela; prometemos ao ego recompensas e vantagens se ele abandonar sua resistncia. No pode haver nenhuma dvida ou erro sobre 
a existncia dessa resistncia por parte do ego. Mas temos de perguntar a ns mesmos se ela abrange todo o estado de coisas na anlise, pois verificamos que mesmo 
aps o ego haver resolvido abandonar suas resistncias ele ainda tem dificuldades em desfazer as represses; e denominamos o perodo de ardoroso esforo que se segue, 
depois de sua louvvel deciso, de fase de 'elaborao'. O fator dinmico que torna uma elaborao desse tipo necessria e abrangente no est longe para se procurar. 
Pode ser que depois de a resistncia do ego ter sido removida, o poder da compulso  repetio - a atrao exercida pelos prottipos inconscientes sobre o processo 
instintual reprimido - ainda tenha de ser superado. Nada h a dizer contra descrever esse fator como a resistncia do inconsciente. No h qualquer necessidade de 
se ficar desestimulado por causa dessas correes. Devem ser bem escolhidas se acrescentarem algo ao nosso conhecimento, e no constituem vergonha alguma para ns, 
na medida em que antes enriquecem do que invalidam nossos pontos de vista anteriores - limitando algum enunciado, talvez, que era por demais geral ou ampliando alguma 
idia que foi muito estreitamente formulada.
         No se deve supor que essas correes nos proporcionem um levantamento completo de todas as espcies de resistncia encontradas na anlise. A investigao 
ulterior do assunto revela que o analista tem de combater nada menos que cinco espcies de resistncia, que emanam de trs direes - o ego, o id e o superego. O 
ego  a fonte de trs, cada uma diferindo em sua natureza dinmica. A primeira dessas trs resistncias do ego  a resistncia da represso, que j examinamos acima 
[[1]] e sobre as quais h o mnimo a ser acrescentado. A seguir vem a resistncia da transferncia, que  da mesma natureza mas que tem efeitos diferentes e muito 
mais claros na anlise, visto que consegue estabelecer uma relao com a situao analtica ou com o prprio analista, reanimando assim uma represso que deve somente 
ser relembrada. A terceira resistncia, embora tambm uma resistncia do ego,  de natureza inteiramente diferente. Ela advm do ganho proveniente da doena e se 
baseia numa assimilao do sintoma no ego. [Ver em [1]] Representa uma no disposio de renunciar a qualquer satisfao ou alvio que tenha sido obtido. A quarta 
variedade, que decorre do id,  a resistncia que, como acabamos de ver, necessita de 'elaborao'. A quinta, proveniente do superego e a ltima a ser descoberta, 
 tambm a mais obscura, embora nem sempre a menos poderosa. Parece originar-se do sentimento de culpa ou da necessidade de punio, opondo-se a todo movimento no 
sentido do xito, inclusive, portanto,  recuperao do prprio paciente pela anlise.
         
         (b) Ansiedade a Partir da Transformao da Libido
         
         A opinio sobre a ansiedade que formulei nestas pginas diverge um tanto da que at agora julguei correta. Anteriormente considerei a ansiedade como uma 
reao geral do ego sob condies de desprazer. Sempre procurei justificar seu aparecimento com base em fundamentos econmicos e presumi, alicerado em minhas investigaes 
das neuroses 'atuais', que a libido (excitao sexual) que era rejeitada ou no utilizada pelo ego encontrava descarga direta sob a forma de ansiedade. No se pode 
negar que essas vrias asseres no se ajustavam muito bem, ou, seja como for, no decorriam necessariamente umas das outras. Alm disso, davam a impresso de haver 
uma vinculao especialmente estreita entre a ansiedade e a libido e isto no estava conforme ao carter geral da ansiedade como uma reao ao desprazer. A objeo 
a esse ponto de vista surgiu por termos considerado o ego como a sede nica da ansiedade. Foi um dos resultados da tentativa de uma diviso estrutural do aparelho 
mental que fiz em O Ego e o Id. Ao passo que o antigo ponto de vista tornava natural supor que a ansiedade decorria da libido pertencente aos impulsos instintuais 
reprimidos, o novo, pelo contrrio, tornava o ego a fonte da ansiedade. Trata-se assim da ansiedade (do id) ou da ansiedade do ego. Visto que a energia que o ego 
emprega  dessexualizada, o novo ponto de vista tambm tendia a enfraquecer a estreita ligao entre a ansiedade e a libido. Espero haver pelo menos conseguido tornar 
clara a contradio e ter apresentado uma idia ntida do ponto em dvida.
         A assero de Rank - que foi originalmente minha - de que a emoo da ansiedade  uma conseqncia do fato do nascimento e uma repetio da situao ento 
experimentada, obrigou-me a rever mais uma vez o problema da ansiedade. Mas no pude fazer qualquer progresso com a idia dele de que o nascimento  um trauma, estados 
de ansiedade, uma reao de descarga ao mesmo e todos os afetos de ansiedade subseqentes uma tentativa de 'ab-reagi-lo' cada vez mais completamente. Fui obrigado 
a partir de volta da relao de ansiedade at a situao de perigo que estava por trs dele. A introduo desse elemento abriu novos aspectos da questo. O nascimento 
foi encarado como sendo o prottipo de todas as situaes ulteriores de perigo que se apoderavam do indivduo sob as novas condies decorrentes de um modo de vida 
modificado e um crescente desenvolvimento mental. Por outro lado, seu prprio significado foi reduzido a essa relao prototpica como perigo. A ansiedade sentida 
ao nascer tornou-se o prottipo de um estado afetivo que teve de sofrer as mesmas vicissitudes que os outros afetos. Ou o estado de ansiedade se reproduzia automaticamente 
em situaes anlogas  situao original e era assim uma forma inadequada de reao em vez de apropriada, como o fora na primeira situao de perigo, ou o ego adquiria 
poder sobre essa emoo, reproduzia-a por sua prpria iniciativa e a empregava como uma advertncia de perigo e como um meio de pr o mecanismo de prazer-desprazer 
em movimento. Demos assim ao aspecto biolgico do afeto de ansiedade sua devida importncia, reconhecendo a ansiedade como a reao geral a situaes de perigo, 
enquanto endossvamos o papel desempenhado pelo ego como a sede da ansiedade, atribuindo-lhe a funo de produzir afeto de ansiedade de acordo com suas necessidades. 
Assim atribumos duas modalidades de origem  ansiedade na vida posterior. Uma era involuntria, automtica e sempre justificada sob fundamentos econmicos, e ocorria 
sempre que uma situao de perigo anloga ao nascimento se havia estabelecido. A outra era produzida pelo ego logo que uma situao dessa espcie simplesmente ameaava 
ocorrer, a fim de exigir sua evitao. No segundo caso o ego sujeita-se  ansiedade como uma espcie de inoculao, submetendo-se a um ligeiro ataque da doena a 
fim de escapar a toda sua fora. Ele vividamente imagina a situao de perigo, por assim dizer, com a finalidade inegvel de restringir aquela experincia aflitiva 
a uma mera indicao, a um sinal. J vimos com pormenores,ver em [[1] e [2]] como as vrias situaes de perigo surgem uma aps a outra, conservando ao mesmo tempo 
uma vinculao gentica.
         Talvez sejamos capazes de continuar um pouco alm em nossa compreenso da ansiedade quando voltarmos para o problema da relao entre a ansiedade neurtica 
e a ansiedade realstica,ver em [[1]]
         Nossa hiptese anterior de uma transformao direta da libido em ansiedade possui menos interesse para ns agora do que antes. Mas se a considerarmos, teremos 
de distinguir diferentes casos. No tocante  ansiedade evocada pelo ego como um sinal, ela no entra em considerao, nem, portanto, em qualquer daquelas situaes 
de perigo que suscitam o ego a provocar represso. A catexia libidinal do impulso sexual reprimido  empregada de outra forma que no a de ser transformada e descarregada 
como tal - como se verifica de maneira bem clara na histeria de converso. Por outro lado, uma indagao ulterior da questo da situao de perigo trar  nossa 
ateno um exemplo da produo de ansiedade que, penso eu, tem de ser explicado de forma diferente,ver em [[1]].
         
         (c) Represso e Defesa
         
         No curso da apreciao do problema da ansiedade revivi um conceito ou, dizendo de maneira mais modesta, uma expresso, da qual fiz uso exclusivo trinta 
anos atrs quando comecei pela primeira vez a estudar o assunto, mas depois o abandonei. Refiro-me  expresso 'processo defensivo'. Substitu-a depois pela palavra 
'represso', mas a relao entre as duas continuou incerta. Constituir uma vantagem indubitvel, penso eu, reverter ao antigo conceito de 'defesa', contanto que 
o empreguemos explicitamente como uma designao geral para todas as tcnicas das quais o ego faz uso em conflitos que possam conduzir a uma neurose, ao passo que 
conservamos a palavra 'represso' para o mtodo especial de defesa com o qual a linha de abordagem adotada por nossas investigaes nos tornou mais bem familiarizados 
no primeiro exemplo.
         Mesmo uma inovao puramente terminolgica deve justificar sua adoo; ela deve refletir algum novo ponto de vista ou certa extenso de conhecimento. A 
revivescncia do conceito da defesa e a restrio do de represso levam em conta um fato de h muito conhecido, mas que recebeu importncia adicional devido a algumas 
novas descobertas. Nossas primeiras observaes de represso e da formao de sintomas foram feitas em relao com a histeria. Verificamos que o contedo perceptual 
de experincias excitantes e o contedo ideativo de estruturas patognicas de pensamento foram esquecidos e impedidos de ser reproduzidos na lembrana, e conclumos 
portanto que o manter-se afastado da conscincia constitui uma caracterstica principal da represso histrica. Posteriormente, quando passamos a estudar as neuroses 
obsessivas, constatamos que naquela doena as ocorrncias patognicas no so esquecidas. Permanecem conscientes, mas so 'isoladas' de uma forma que at podemos 
apreender, de modo que se obtm o mesmo resultado que na amnsia histrica. No obstante, a diferena  bastante grande para justificar a crena de que o processo 
pelo qual as exigncias instintuais so postas de lado na neurose obsessiva no pode ser o mesmo que na histeria. Investigaes ulteriores tm revelado que na neurose 
obsessiva uma regresso dos impulsos instintuais a uma fase libidinal mais antiga  provocada mediante a oposio do ego, e que essa regresso, embora no torne 
a represso desnecessria, funciona claramente no mesmo sentido que a represso. Tambm vimos que na neurose obsessiva a anticatexia, que tambm presumivelmente 
se acha na histeria, desempenha papel especialmente relevante na proteo do ego, efetuando nele uma alterao reativa. Nossa ateno, alm disso, foi despertada 
para um processo de 'isolamento' (cuja tcnica ainda no pode ser elucidada) que encontra manifestao sintomtica direta e para um procedimento, que pode ser denominado 
mgico, de 'desfazer' o que foi feito - procedimento sobre cuja finalidade defensiva no pode haver qualquer dvida, mas que no apresenta mais qualquer semelhana 
com o processo de 'represso'. Essas observaes oferecem fundamentos bastante slidos para a reintroduo do antigo conceito de defesa, que pode abranger todos 
os processos que tenham a mesma finalidade - a saber, a proteo do ego contra as exigncias instintuais -, e para nele classificar a represso como um caso especial. 
A importncia dessa nomenclatura  realada se considerarmos a possibilidade de que investigaes ulteriores podero revelar haver estreita ligao entre formas 
especiais de defesa e doenas especficas, como, por exemplo, entre represso e histeria. Alm disso, podemos antecipar a possvel descoberta de ainda outra importante 
correlao. Pode muito bem acontecer que antes da sua acentuada clivagem em um ego e um id, e antes da formao de um superego, o aparelho mental faa uso de diferentes 
mtodos de defesa dos quais ele se utilize aps haver alcanado essas fases de organizao.
         
         B - OBSERVAES SUPLEMENTARES SOBRE A ANSIEDADE 
         
         O afeto da ansiedade apresenta uma ou duas caractersticas cujo estudo promete lanar mais luz sobre o assunto. A ansiedade [Angst] tem inegvel relao 
com a expectativa:  ansiedade por algo. Tem uma qualidade de indefinio e falta de objeto. Em linguagem precisa empregamos a palavra 'medo' [Furcht] de preferncia 
a 'ansiedade' [Angst] se tiver encontrado um objeto. Ademais, alm de sua relao com o perigo, a ansiedade tem uma relao com a neurose que h muito estamos tentando 
elucidar. Surge a questo: por que todas as reaes no so neurticas - por que aceitamos tantas delas como normais? E finalmente o problema da diferena entre 
ansiedade realstica e ansiedade neurtica aguarda um exame completo.
         Para comearmos com o ltimo problema. O progresso que alcanamos  que fomos atrs de reaes de ansiedade at situaes de perigo. Se fizermos a mesma 
coisa com a ansiedade realstica no teremos qualquer dificuldade para solucionar a questo. O verdadeiro perigo  um perigo que  conhecido, sendo a ansiedade realstica 
a ansiedade por um perigo conhecido dessa espcie. A ansiedade neurtica  a ansiedade por um perigo desconhecido. O perigo neurtico  assim um perigo que tem ainda 
de ser descoberto. A anlise tem revelado que se trata de um perigo instintual. Levando esse perigo que no  conhecido do ego at a conscincia, o analista faz 
com que a ansiedade neurtica no seja diferente da ansiedade realstica, de modo que com ela se pode lidar da mesma maneira.
         Existem duas reaes ao perigo real. Uma reao afetiva, uma irrupo de ansiedade. A outra  uma ao protetora. O mesmo presumivelmente se aplicar ao 
perigo instintual. Sabemos como as duas reaes podem cooperar de forma apropriada, uma dando o sinal para que a outra surja. Mas tambm sabemos que elas podem comportar-se 
de modo imprprio: a paralisia proveniente da ansiedade pode sobrevir, difundindo-se uma reao  custa da outra.
         Em alguns casos as caractersticas da ansiedade realstica e da ansiedade neurtica se acham mescladas. O perigo  conhecido e real, mas a ansiedade referente 
a ele  supergrande, maior do que nos parece apropriado.  esse excedente de ansiedade que trai a presena de um elemento neurtico. Tais casos, contudo, no introduzem 
qualquer princpio novo, pois a anlise revela que ao perigo real conhecido se acha ligado um perigo instintual desconhecido.
         Podemos descobrir ainda mais sobre isso se, no contentes em rastrearmos a ansiedade no perigo, prosseguirmos indagando qual  a essncia e o significado 
de uma situao de perigo. Claramente, ela consiste na estimativa do paciente quanto  sua prpria fora em comparao com a magnitude do perigo e no seu relacionamento 
de desamparo em face desse perigo - desamparo fsico se o perigo for real e desamparo psquico se for instintual. Ao proceder assim o indivduo ser orientado pelas 
experincias reais que tiver tido. (Quer ele esteja certo ou errado em sua estimativa no importa quanto ao resultado.) Denominemos uma situao de desamparo dessa 
espcie, que ele realmente tenha experimentado, de situao traumtica. Teremos ento bons motivos para distinguir uma situao traumtica de uma situao de perigo.
         O indivduo ter alcanado importante progresso em sua capacidade de autopreservao se puder prever e esperar uma situao traumtica dessa espcie que 
acarrete desamparo, em vez de simplesmente esperar que ela acontea. Intitulemos uma situao que contenha o determinante de tal expectativa de uma situao de perigo. 
 nessa situao que o sinal de ansiedade  emitido. O sinal anuncia: 'Estou esperando que uma situao de desamparo sobrevenha' ou 'A presente situao me faz lembrar 
uma das experincias traumticas que tive antes. Portanto, preverei o trauma e me comportarei como se ele j tivesse chegado, enquanto ainda houver tempo para p-lo 
de lado.' A ansiedade, por conseguinte, , por um lado, uma expectativa de um trauma e, por outro, uma repetio dele em forma atenuada. Assim os dois traos de 
ansiedade que notamos tm uma origem diferente. Sua vinculao com a expectativa pertence  situao de perigo, ao passo que sua indefinio e falta de objeto pertencem 
 situao traumtica de desamparo - a situao que  prevista na situao de perigo.
         Seguindo essa seqncia, ansiedade-perigo-desamparo (trauma), podemos agora resumir o que se disse. Uma situao de perigo  uma situao reconhecida, lembrada 
e esperada de desamparo. A ansiedade  a reao original ao desamparo no trauma, sendo reproduzida depois da situao de perigo como um sinal em busca de ajuda. 
O ego, que experimentou o trauma passivamente, agora o repete ativamente, em verso enfraquecida, na esperana de ser ele prprio capaz de dirigir seu curso.  certo 
que as crianas se comportam dessa maneira em relao a toda impresso aflitiva que recebem, reproduzindo-a em suas brincadeiras. Ao passarem assim da passividade 
para a atividade tentam dominar suas experincias psiquicamente. Se isto  o que se quer dizer por 'ab-reao de um trauma' no podemos ter mais nada a incitar contra 
a expresso. [Ver [1].] Mas o que  de importncia decisiva  o primeiro deslocamento da reao de ansiedade de sua origem na situao de desamparo para uma expectativa 
dessa situao - isto , para a situao de perigo. Depois disso vm os deslocamentos ulteriores, do perigo para o determinante do perigo - perda do objeto e das 
modificaes dessa perda com as quais j nos familiarizamos.
         O resultado indesejvel de 'estragar' uma criancinha  ampliar a importncia do perigo de perder o objeto (sendo o objeto uma proteo contra toda situao 
de desamparo) em comparao com qualquer outro perigo. Ele portanto estimula o indivduo a permanecer no estado de infncia, cujo perodo de vida se caracteriza 
pelo desamparo motor e psquico.
         At agora no tivemos oportunidade alguma de considerar a ansiedade realstica sob qualquer luz diferente da ansiedade neurtica. Sabemos qual a distino. 
Um perigo real  aquele que ameaa uma pessoa a partir de um objeto externo, e um perigo neurtico  aquele que a ameaa a partir de uma exigncia instintual. At 
onde a exigncia instintual  algo, tambm se pode admitir que a ansiedade neurtica da pessoa tenha uma base realstica. Vimos que a razo pela qual parece haver 
uma vinculao especialmente estreita entre a ansiedade e a neurose  que o ego se defende contra um perigo instintual com a ajuda da reao de ansiedade, do mesmo 
modo que o faz contra um perigo real externo, mas que essa linha de atividade defensiva resulta numa neurose devido a uma imperfeio do aparelho mental. Chegamos 
tambm  concluso de que uma exigncia instintual freqentemente s se torna um perigo (interno) porque sua satisfao provocaria um perigo externo - isto , porque 
o perigo interno representa um perigo externo.
         Por outro lado, o perigo externo (real) deve tambm ter conseguido tornar-se internalizado, se se quiser que seja significativo para o ego. Ele deve ter 
sido reconhecido como relacionado com certa situao de desamparo que foi experimentada. O homem no parece ter sido dotado, ou ter sido dotado num grau muito pequeno, 
de reconhecimento instintual dos perigos que o ameaam de fora. Criancinhas esto constantemente fazendo coisas que pem em perigo suas vidas, e eis precisamente 
por que no podem passar sem um objeto protetor. Em relao  situao traumtica, na qual o paciente est desamparado, convergem perigos externos e internos, perigos 
reais e exigncias instintuais. Quer o ego esteja sofrendo de uma dor que no pra ou experimentando um acmulo de necessidades instintuais que no podem obter satisfao, 
a situao econmica  a mesma, e o desamparo motor do ego encontra expresso no desamparo psquico.
         Nesse sentido as fobias desorientadoras da primeira infncia merecem ser mencionadas mais uma vez. [Ver [1].] Fomos capazes de explicar algumas delas, tais 
como o medo de ficar sozinho ou no escuro ou com estranhos, como reaes ao perigo de perder o objeto. Outras, como o medo de animaizinhos, trovoadas etc., talvez 
pudessem ser explicadas como traos vestigiais do preparo congnito para fazer face a perigos reais to acentuadamente desenvolvidos em outros animais. No homem, 
s  apropriada aquela parte dessa herana arcaica que tem referncia  perda do objeto. Se as fobias de infncia se tornarem fixadas e ficarem mais fortes e persistirem 
at anos depois, a anlise revela que o contedo delas se associou s exigncias instintuais e veio tambm representar perigos internos. 
         
         C - ANSIEDADE, DOR E LUTO 
         
         Sabe-se to pouco acerca da psicologia dos processos emocionais que as observaes experimentais que estou prestes a fazer sobre o assunto podem reivindicar 
um julgamento muito suave. O problema diante de ns decorre da concluso  qual chegamos de que ansiedade vem a ser uma reao ao perigo de uma perda de objeto. 
Agora j conhecemos uma reao  perda de um objeto, que  o luto. A questo portanto : quando essa perda conduz  ansiedade e quando ao luto? Ao examinar o assunto 
do luto em ocasio anterior constatei que havia uma caracterstica dele que continuava absolutamente sem explicao. Isto era seu estado de dor peculiar. [Cf. p. 
132.] E contudo parece evidente por si mesmo que a separao de um objeto deve ser dolorosa. Assim o problema torna-se mais complicado: quando a separao de um 
objeto produz ansiedade, quando produz luto e quando produz, pode ser, somente dor?
         Digamos de imediato que no h qualquer perspectiva  vista para responder a essas perguntas. Devemos contentar-nos em traar certas distines e esboar 
certas possibilidades.
         Nosso ponto de partida ser novamente a nica situao que acreditamos compreender - a situao da criancinha quando se lhe apresenta um estranho em vez 
de sua me. A primeira exibir a ansiedade que atribumos ao perigo de perda de objeto. Mas sua ansiedade  indubitavelmente mais complicada do que isto e merece 
um exame mais completo. Que ela tem ansiedade no resta a menor dvida, mas a expresso de seu rosto e sua reao de chorar indicam que ela est tambm sentindo 
dor. Nela parecem estar reunidas certas coisas que depois sero separadas. Ela no pode ainda distinguir entre a ausncia temporria e a perda permanente. Logo que 
perde a me de vista comporta-se como se nunca mais fosse v-la novamente; e repetidas experincias consoladoras, ao contrrio, so necessrias antes que ela aprenda 
que o desaparecimento da me , em geral, seguido pelo seu reaparecimento. A me encoraja esse conhecimento, que  to vital para a criana, fazendo aquela brincadeira 
to conhecida de esconder dela o rosto com as mos e depois, para sua alegria, de descobri-lo de novo. Nessas circunstncias a criana pode, por assim dizer, sentir 
anseio desacompanhado de desespero.
         Em conseqncia da incompreenso dos fatos pela criana, a situao de sentir falta da me no  uma situao de perigo mais uma situao traumtica. Ou, 
para diz-lo mais corretamente,  uma situao traumtica se acontecer que a criana na poca esteja sentindo uma necessidade que sua me seja a pessoa a satisfazer. 
Transforma-se numa situao de perigo se essa necessidade no estiver presente no momento. Assim, o primeiro determinante da ansiedade, que o prprio ego introduz, 
 perda de percepo do objeto (que  equacionada com a perda do prprio objeto). Ainda no se trata de perda de amor. Posteriormente, a experincia ensina  criana 
que o objeto pode estar presente mas aborrecido com ela; e ento a perda de amor a partir do objeto se torna um novo perigo e muito mais duradouro e determinante 
de ansiedade.
         A situao traumtica de sentir falta da me difere num aspecto importante da situao traumtica de nascimento. No nascimento no existia qualquer objeto 
e dessa forma no se podia sentir falta alguma deste. A ansiedade era a nica reao que ocorria. Desde ento, repetidas situaes de satisfao criaram um objeto 
da me e esse objeto, sempre que a criana sente uma necessidade, recebe uma intensa catexia que pode ser descrita como de 'anseio'. A dor  assim a reao real 
 perda de objeto, enquanto a ansiedade  a reao ao perigo que essa perda acarreta e, por um deslocamento ulterior, uma reao ao perigo da perda do prprio objeto.
         Sabemos tambm muito pouco sobre a dor. O nico fato do qual temos certeza  que a dor ocorre em primeiro lugar e como uma coisa regular sempre que um estmulo 
que incide na periferia irrompe atravs dos dispositivos do escudo protetor contra estmulos e passa a atuar como um estmulo instintual contnuo, contra o qual 
a ao muscular, que  em geral efetiva porque afasta do estmulo o ponto que est sendo estimulado,  impotente. Se a dor provier no de uma parte da pele mas de 
um rgo interno, a situao  ainda a mesma. Tudo que aconteceu  que uma parte da periferia interna ocupou o lugar da periferia externa. A criana obviamente tem 
ocasio de sofrer experincias de dor dessa classe, que so independentes das necessidades de experincia da criana. Esse determinante da gerao de dor parece, 
contudo, ter muito pouca semelhana com a perda de um objeto. E alm disso, o elemento que  essencial  dor, o estmulo perifrico, est de todo ausente da situao 
de anseio da criana. Contudo, no pode ser para nada que o uso comum da palavra tenha criado a idia de dor interna mental e tenha tratado o sentimento de perda 
de objeto como equivalente  dor fsica.
         Quando h dor fsica, ocorre um alto grau do que pode ser denominado de catexia narcsica do ponto doloroso. Essa catexia continua a aumentar e tende, por 
assim dizer, a esvaziar o ego.Sabe-se que quando os rgos internos nos transmitem dor recebemos representaes espaciais e outras representaes de partes do corpo 
que de maneira comum no so absolutamente representadas em ideao consciente. Ademais, o fato marcante de que, quando h um desvio psquico ocasionado por algum 
outro interesse, mesmo as dores fsicas mais intensas deixam de seguir (no devo dizer 'permanecem inconscientes' nesse caso) pode ser explicado por haver uma concentrao 
de catexia no representante psquico da parte do corpo que est emitindo dor. Penso ser aqui que encontraremos o ponto de analogia que tornou possvel levar sensaes 
de dor at a esfera mental, pois a intensa catexia de anseio que est concentrada no objeto do qual se sente falta ou que est perdido (uma catexia que aumenta com 
firmeza porque no pode ser apaziguada) cria as mesmas condies econmicas que so criadas pela catexia da dor que se acha concentrada na parte danificada do corpo. 
Assim, o fato da acusao perifrica da dor fsica pode ser deixado de lado. A transio da dor fsica para a mental corresponde a uma mudana da catexia narcsica 
para a catexia de objeto. Uma representao de objeto que esteja altamente catexizada pela necessidade instintual desempenha o mesmo papel que uma parte do corpo 
catexizada por um aumento de estmulo. A natureza contnua do processo catexial e a impossibilidade de inibi-lo produzem o mesmo estado de desamparo mental. Se o 
sentimento de desprazer que ento surge tem o carter especfico de dor (um carter que no pode ser descrito mais exatamente) em vez de manifestar-se na forma reativa 
de ansiedade, plausivelmente podemos atribuir isso a um fator do qual ainda no fizemos suficientemente uso em nossas explicaes - o alto nvel de catexia e 'ligao' 
que predomina enquanto ocorrem esses processos queconduzem a um sentimento de desprazer. Conhecemos ainda outra reao emocional  perda de um objeto, que  o luto. 
Mas no temos mais qualquer dificuldade em explic-la. O luto ocorre sob a influncia do teste de realidade, pois a segunda funo exige categoricamente da pessoa 
desolada que ela prpria deva separar-se do objeto, visto que ele no mais existe. Ao luto  confiada a tarefa de efetuar essa retirada do objeto em todas aquelas 
situaes nas quais ele foi o recipiente de elevado grau de catexia. Que essa situao deva ser dolorosa ajusta-se ao que acabamos de dizer, em vista da catexia 
de anseio, elevada e no passvel de satisfao, que est concentrada no objeto pela pessoa desolada durante a reproduo das situaes nas quais ela deve desfazer 
os laos que a ligam a ele. 
         
         APNDICE A: REPRESSO E DEFESA
         
         O relato que Freud faz na [1] e [2] da histria de seu uso dos dois termos talvez seja um pouco confusa, e seja como for merece ser ampliada. Ambos ocorreram 
muito livremente durante o perodo de Breuer. O primeiro aparecimento de 'represso (Verdrngung)' foi na 'Comunicao Preliminar' (1893a), Edio Standard Brasileira, 
Vol, II, p. 51 IMAGO Editora, 1974, e o de 'defesa (Abwehr)' foi no primeiro artigo sobre 'The Neuro-Psychoses of Defense (1894a). Nos Estudos sobre a Histeria (1895d), 
'represso' apareceu cerca de doze vezes e 'defesa' um pouco mais que isso. Parece ter havido certa discriminao, contudo, entre o emprego dos termos: 'represso' 
parece ter descrito o processo real, e 'defesa' o motivo dele. No obstante, no prefcio  primeira edio dos estudos (Edio Standard Brasileira, Vol. II, p. 37, 
IMAGO Editora, 1974) os autores parecem haver equacionado os dois conceitos, porquanto mencionaram sua opinio de que a 'sexualidade parece desempenhar um papel 
principal... como motivo para "defesa" - isto , para reprimir idias da conscincia'. E, ainda mais explicitamente, Freud, no primeiro pargrafo de seu segundo 
artigo sobre 'The Neuro-Psychoses of Defense' (1896b) aludiu ao 'processo psquico de "defesa" ou "represso"'.
         Aps o perodo de Breuer - isto , mais ou menos a partir de 1897 - houve uma reduo na freqncia do uso de 'defesa'. No foi abandonada inteiramente, 
contudo, e ser encontrada vrias vezes, por exemplo, no Captulo VII da primeira edio de The Psychopathology of Everyday Life (1910b) e na Seo 7 do Captulo 
VII do livro de chistes (1950c). Mas 'represso' j estava comeando a predominar, tendo sido quase exclusivamente empregada no caso clnico de 'Dora' (1950e) e 
nos Trs Ensaios (1905d). E logo depois disto, chamou-se explicitamente a ateno para a mudana, num artigo sobre sexualidade das neuroses (1906a), datado de junho 
de 1905. No curso de um levantamento histrico de seus pontos de vista, e ao tratar do perodo ps-Breuer imediato, Freud teve ocasio de mencionar o conceito e 
escreveu: '... "represso" (como eu comeara a dizer, em vez de "defesa")...' (Edio Standard Brasileira, Vol. VII, p. 288, IMAGO Editora, 1972).A ligeira inexatido 
que tinha comeado a aparecer nessa frase tornou-se mais acentuada numa frase paralela em 'A Histria do Movimento Psicanaltico' (1914d), Edio Standard Brasileira, 
Vol. XIV, p. 20, IMAGO Editora, 1974. Aqui Freud, mais uma vez escrevendo sobre o trmino do perodo de Breuer, observou: 'encarava a prpria diviso psquica como 
o efeito de um processo de repulso que naquela ocasio denominei de "defesa", e depois, de "represso".'
         Aps 1905 a predominncia de 'represso' aumentou ainda mais, at que, por exemplo, na anlise do 'Rat Man' (1909d), vamos encontrar (Standard Ed., 10, 
196) Freud falando de 'duas espcies de represso', utilizadas respectivamente em histeria e neurose obsessiva. Este  um exemplo especialmente simples onde, no 
esquema revisto sugerido no presente trabalho, ele teria falado de 'duas espcies de defesa'.
         Mas no foi muito antes da utilidade de 'defesa' como um termo mais abrangente que 'represso' comeou discretamente a surgir - particularmente nos artigos 
metapsicolgicos. Assim, as 'vicissitudes' dos instintos, um dos quais somente  'represso', foram consideradas como 'modalidades de defesa' contra eles (Edio 
Standard Brasileira, Vol. XIV, Pp. 147, 153 e 170, IMAGO Editora, 1974), e, mais uma vez, 'projeo' foi mencionada como um 'mecanismo' ou 'meio de defesa' (ibid., 
211 e 255). Somente dez anos depois, contudo, no presente trabalho,  que se reconheceu explicitamente a convenincia de distinguir entre o emprego dos dois termos. 
         
         APNDICE B: LISTA DE ESCRITOS DE FREUD QUE TRATAM PREDOMINANTEMENTE OU EM GRANDE PARTE DA ANSIEDADE
         
         [O tpico da ansiedade ocorre em um nmero muito grande (talvez na maioria) dos escritos de Freud. A relao seguinte poder, no obstante, ser de algum 
uso prtico. A data no incio de cada registro  a do ano no qual o trabalho em questo provavelmente foi escrito. A data no final  a de publicao, e sob essa 
data maiores pormenores da obra sero encontrados na Bibliografia e ndice de Autores. Os itens entre colchetes foram publicados postumamente.]
         
         [1893 Rascunho B. 'The Aetiology of the Neuroses', Seo II. (1950a)]
         [1894 Rascunho E. 'How Anxiety Originates'. (1950a)]
         [1894 Rascunho F. 'Collection III', N 1. (1950 a)]
         [1895 (?) Rascunho J. (1950a)]
         1894 'Obsessions and Phobias', Seo II. (1895c)
         1895 'On the grounds for Detaching a Particular Syndrome from Neurasthenia under the description "Anxiety Neurosis".' (1895b)
         1895 'A Reply to Criticisms of my Paper on Anxiety Neurosis'. (1895f)
         1909 'Analysis of a Phobia in a Five-Year-Old Boy'. (1909b)
         1910 'Psicanlise "Silvestre".' (1910k)
         1914 'From the History of an Infantile neurosis'. (1918b)
         1917 Conferncias Introdutrias sobre Psicanlise, Conferncia XXV. (1916-17)
         1925 Inibies, Sintomas e Ansiedade. (1926d)
         1932 New Introductory Lectures on Psycho-Analysis, Conferncia XXXII (Primeira Parte). (1933a)
         



A QUESTO DA ANLISE LEIGA: CONVERSAES COM UMA
 PESSOA IMPARCIAL (1926)
         
         NOTA DO EDITOR INGLS
         
         
         DIE FRAGE DER LAIENANALYSE
         
         Unterredungen mit einem Unparteiischen
         (a) EDIES ALEMS:
         1926 Leipzig, Viena e Zurique: Internationaler Psychoanalytischer Verlag, 123 Pp.
         1928 G.S., 11, 307-84.
         1948 G.W., 14, 209-86.
         1927 'Nachwort zur Frage der Laienanalyse', Int. Z. Psychoanal., 13 (3), 326-32
         1928 G.S., 11, 385-94.
         1948 G.W., 14, 287-96.
         
         (b) TRADUES INGLESAS:
         
         The Problem of Lay-Analyses
         1927 Em The Problem of Lay-Analyses, Nova Iorque: Brentano. Pp. 25-186. (Trad. de A. P. Maerker-Branden; pref. de S. Ferenczi.) O volume abrange tambm 
An Autobiographical Study (ver acima, p. 14).
         
         The Question of Lay-Analysis: an Introduction to Psycho-Analysis
         1947 Londres: Imago Publishing Co. vi + 81 Pp. (Trad. de N. Procter-Gregg; pref.de Ernest Jones.)
         1950 Nova Iorque: Norton. 125 Pp. (Reimpresso da anterior.)
         1927 'Concluding Remarks on the Question of Lay Analysis' Int. J. Psycho-Anal., 8 (3), 392-8. (Trad. no especificada.)
         1950 'Postcript to a Discussion on Lay Analysis', C.P., 5, 205-14. (Trad. de James Strachey.)
         
         Um resumo do original alemo, sob o ttulo 'Psychoanalyse und Kurpfuscherei' ('Psicanlise e Charlatanismo'), foi includo em Almanach 1927, 47-59, publicado 
em setembro de 1926 mais ou menos na mesma poca que o prprio volume. A presente traduo inglesa da obra principal (com um subttulo diferente)  um trabalho inteiramente 
novo de James Strachey; a traduo do 'Ps-Escrito'  uma reimpresso revista da publicada em 1950.Em fins da primavera de 1926 foi dado incio a um processo, em 
Viena, contra Theodor Reik, proeminente membro no-mdico da Sociedade Psicanaltica de Viena. Foi acusado, segundo informaes prestadas por algum que ele viera 
tratando analiticamente, de violao de uma antiga lei austraca contra 'charlatanismo' - lei que tornava ilegal que uma pessoa sem um grau mdico tratasse de pacientes. 
Freud de imediato interveio energicamente. Ele discutiu o caso privadamente com um funcionrio de alta categoria, e passou a preparar o presente trabalho para publicao 
imediata. Comeou a escrev-lo no fim de junho, e antes do fim de julho ele estava em impresso, vindo a lume em setembro. Em parte, talvez, como resultado de sua 
interveno, mas em parte porque as provas foram insatisfatrias, o promotor pblico encerrou o processo aps uma investigao preliminar. (Ver o 'Ps-Escrito', 
[1].)
         O assunto, contudo, no parou a. A publicao do trabalho de Freud situou em primeiro plano as acentuadas diferenas de opinio sobre a permissibilidade 
da psicanlise no-mdica que existiam no mbito das prprias sociedades psicanalticas. Considerou-se aconselhvel, portanto, ventilar a questo, e uma longa srie 
de opinies abalizadas (28 ao todo) de analistas de vrios pases foi publicada em 1927 nos dois peridicos oficiais - em alemo no Internationale Zeischrift (Partes 
1, 2 e 3 do volume XIII) e em ingls no International Journal (Partes 2 e 3 do Volume VIII). A srie foi concluda pelo prprio Freud num ps-escrito (impresso adiante, 
[1])no qual ele responde aos argumentos dos seus opositores e enunciou novamente seu prprio caso.
         Um relato bem completo dos pontos de vista de Freud sobre o assunto ser encontrado no Captulo IX ('Lay-Analysis') do terceiro volume da biografia de Freud 
por Ernest Jones (1957, 309 e segs.). Desde os primeiros tempos ele se apegou vigorosamente  opinio de que a psicanlise no devia ser considerada puramente como 
uma preocupao da profisso mdica. Sua primeira expresso em letra de forma sobre o assunto parece ter sido em seu prefcio, de 1913, a um livro de Pfister (Freud 
19143b); e em carta (citada por Jones, ibid., 323), escrita bem no fim de sua vida, em 1938, ele declarou que 'Jamais repudiei esses pontos de vista e insisto neles 
ainda mais intensamente do que antes'. Mas foi no trabalho que se segue que discutiu o assunto mais de perto e plenamente.
         Independente, contudo, do exame da questo da anlise leiga, Freud apresentou nas pginas seguintes o que foi talvez seu relato no tcnico mais bem-sucedido 
da teoria e prtica da psicanlise, escrito no seu estilo mais vivo e leve. A parte terica, em particular, possui a vantagem sobre suas obras expositrias mais 
antigas de haver sido elaborada aps a grande elucidao de seus pontos de vista sobre a estrutura da mente em O Ego e o Id (1923b). 
         
         
         
         
         A QUESTO DA ANLISE LEIGA: CONVERSAES COM UMA PESSOA IMPARCIAL
         
         INTRODUO
         O ttulo deste pequeno trabalho no  de pronto inteligvel. Portanto, eu o explicarei. 'Leigo' = 'No-mdico'; e a questo  se os no-mdicos bem como 
os mdicos devem ter permisso para praticar a anlise. Essa questo tem suas limitaes tanto no tempo como no espao. No tempo, porque at agora ningum se preocupou 
com quem pratica a anlise. Na realidade, as pessoas se tm preocupado pouqussimo com isto - a nica coisa com a qual estavam concordes era o desejo de que ningum 
devia pratic-la. Vrias razes foram dadas para isto, mas se basearam na mesma falta de gosto fundamental. Assim, a exigncia de que somente mdicos devem analisar 
corresponde a uma atitude nova e aparentemente mais amistosa em relao  anlise - se, isto , ela puder escapar  desconfiana de ser, afinal de contas, apenas 
um derivado ligeiramente modificado da atitude mais antiga. Admite-se que em certas circunstncias um tratamento analtico seja empreendido; mas, se for assim, somente 
os mdicos devem empreend-lo. O motivo dessa restrio torna-se assim um assunto de indagao.
         A questo est limitada no espao porque no surge em todos os pases com igual significado. Na Alemanha e nos Estados Unidos isto no passaria de uma discusso 
acadmica, pois naqueles pases qualquer paciente pode submeter-se a tratamento e por quem ele escolher, e qualquer um que ele escolha pode, como um 'charlato', 
lidar com quaisquer pacientes, contanto somente que ele assuma a responsabilidade de suas aes. A lei no intervm at que seja chamada a sanar algum dano causado 
ao paciente. Mas na ustria, na qual e para a qual escrevo, existe uma lei preventiva, que probe aos no-mdicos empreenderem o tratamento de pacientes, sem aguardar 
o seu resultado. Dessa forma, aqui a questo de se leigos ( = no-mdicos) podem tratar pacientes pela psicanlise tem um sentido prtico. Logo que  levantada, 
contudo, parece ser solucionada pela letra da lei. Os neurticos so pacientes, os leigos so no-mdicos, a psicanlise  um mtodo paramtodo para curar ou melhorar 
as perturbaes nervosas, e todos esses tratamentos ficam reservados a mdicos. Depreende-se que no se permite aos leigos praticar a anlise em neurticos, sendo 
punveis se no obstante agirem dessa maneira. Sendo a posio to simples, dificilmente algum se aventura a chamar a si a questo da anlise leiga. Ainda assim, 
h certas complicaes, com as quais a lei no se preocupa, mas que no obstante exigem considerao. Talvez venha a acontecer que nesse caso os pacientes no sejam 
como outros, que os leigos no sejam realmente leigos, e que os mdicos no tenham exatamente as mesmas qualidades que se teria o direito de esperar deles e nos 
quais suas alegaes devem basear-se. Se isto puder ser provado, haver fundamentos justificveis para exigir que a lei no seja aplicada sem modificao ao caso 
perante ns. 
         I 
         Isto acontecer depender das pessoas que no so obrigadas a estar familiarizadas com as peculiaridades de um tratamento analtico. Constitui nossa tarefa 
dar informaes sobre o assunto a essas pessoas imparciais, que presumimos estejam, no momento, ainda em ignorncia.  de lamentar-se que no possamos permitir-lhes 
a presena como auditrio, em um tratamento dessa espcie. Mas a 'situao analtica' no permite a presena de terceiros. Alm disso, as diferentes sesses so 
de valor muito desigual. Um ouvinte no autorizado que por acaso presenciasse uma delas em geral no formaria qualquer impresso til; ele correria o perigo de no 
compreender o que se estava passando entre o analista e o paciente, ou ficaria enfadado. Por bem ou por mal, portanto, ele deve contentar-se com nossas informaes, 
que tentaremos tornar to dignas de confiana quanto possvel.
         Um paciente, ento, pode estar sofrendo de flutuaes em seus estados de nimo que ele pode controlar, ou de um sentimento de desalento pelo qual sua energia 
se sente paralisada porque pensa ser incapaz de fazer algo adequadamente, ou de um constrangimento entre estranhos. Poder perceber, sem compreender a razo disso, 
que tem dificuldades em executar seu trabalho profissional, ou na realidade qualquer deciso relativamente importante ou qualquer empreendimento. Ele poder um dia 
ter sofrido de um ataque aflitivo - desconhecido em sua origem - de sentimentos de ansiedade, e desde ento tornou-se incapaz, sem luta, de caminhar sozinho pela 
rua, ou de viajar de trem; talvez tenha tido de desistir de ambos inteiramente. Ou, coisa bem marcante, seus pensamentos podero seguir seu prprio curso e se recusarem 
a ser dirigidos pela vontade do paciente. Eles perseguem problemas que lhes so inteiramente indiferentes, mas dos quais no pode livrar-se. Tarefas bem ridculas 
lhe so tambm impostas, tais como contar as janelas das frentes das casas. E quando tiver realizado aes simples como pr uma carta no correio ou desligar um bico 
de gs, ele se encontra, um momento depois, a duvidar se realmente agiu assim. Isto poder no ser mais do que aborrecimento e uma amolao. Mas seu estado se torna 
intolervel se sbito verificar ser incapaz de desviar a idia de que empurrou uma criana para debaixo das rodas de um carro ou de que lanou um estranho da ponte 
dentro d'gua, ou se tem de perguntar a si mesmo se no  o assassino que a polcia est  procura em relao a um crime que foi descoberto naquele dia. Isto  pura 
tolice, como ele prprio sabe; jamais cometeu dano algum contra algum, mas se fosse realmente o assassino que est sendo procurado, seu sentimento - seu sentimento 
de culpa - no poderia ser mais forte.Ou ainda nosso paciente - e dessa vez vamos consider-lo como mulher - pode sofrer de outra forma e em campo diferente. Ela 
 pianista, mas os dedos esto dominados pela cibra e se recusam a servi-la. Ou quando pensa em ir a uma recepo ela de pronto se torna cnscia de um apelo da 
natureza cuja satisfao seria incompatvel com uma reunio social. Ela desistiu, portanto, de freqentar festas, bailes, teatros ou concertos. Ela se acha dominada 
por violentas dores de cabea ou outras sensaes dolorosas em ocasies que so as mais inconvenientes. Poder at ser incapaz de sustentar no estmago qualquer 
refeio que venha a ingerir - o que pode, em ltima anlise, tornar-se perigoso. E, finalmente, constitui um fato lamentvel que no possa tolerar quaisquer agitaes, 
que afinal de contas so inevitveis na vida. Em tais ocasies ela sofre um desmaio, muitas vezes acompanhado por espasmos musculares que recordam estados patolgicos 
sinistros.
         Outros pacientes, alm disso, sofrem de perturbaes num campo especfico no qual a vida emocional converge com exigncias de natureza corprea. Se so 
homens, verificam ser incapazes de dar expresso fsica aos seus sentimentos mais ternos para com o sexo oposto, enquanto em relao aos objetos menos amados talvez 
possam ter todas as reaes sob seu domnio. Ou seus sentimentos sensuais ligam-nos a pessoas que desprezam e das quais gostariam de livrar-se; ou esses mesmos sentimentos 
impem exigncias a eles cuja realizao eles prprios acham repulsiva. Se so mulheres, sentem-se impedidas pela ansiedade ou repulsa ou por obstrues desconhecidas 
quanto ao atendimento das exigncias da vida sexual; ou, se se entregaram ao amor, constatam ter-lhes sido negada a fruio que a natureza proporcionou como recompensa 
por tal atendimento.
         Todas essas pessoas reconhecem estar doentes e recorrem a mdicos, por meio dos quais as pessoas esperam que perturbaes nervosas como essas sejam eliminadas. 
Os mdicos tambm formulam as categorias nas quais se acham divididos esses males. Eles os diagnosticam, cada um de acordo com seu prprio ponto de vista, sob nomes 
diferentes: neurastenia, psicastenia, fobias, neurose obsessiva, histeria. Examinam os rgos que produzem os sintomas, o corao, o estmago, os intestinos, a genitlia, 
e concluem que esto sos. Recomendam interrupes no modo de vida habitual do paciente, exerccios de fortalecimento, tnicos, e por esses meios ocasionam melhorias 
habituais - ou absolutamente nenhum resultado. Eventualmente, os pacientes vm a saber que h pessoas interessadas de modo bem especial no tratamento de tais males 
e iniciam com elas uma anlise.
         Durante essa indagao sobre os sintomas dos neurticos, a Pessoa Imparcial, que imagino estar presente, vem mostrando sinais de impacincia.Nesse ponto, 
contudo, ela se torna atenta e interessada. 'Ento agora', diz ela 'saberemos o que o analista faz com o paciente a quem o mdico foi incapaz de ajudar'.
         Nada acontece entre eles, salvo que conversam entre si. O analista no faz uso de qualquer instrumento - nem mesmo para examinar o paciente - nem receita 
quaisquer remdios. Se mesmo for possvel, deixa at o paciente em seu ambiente e no seu modo de vida habitual durante o tratamento. Essa no  uma condio necessria, 
naturalmente, e talvez nem sempre seja praticvel. O analista concorda em fixar um horrio com o paciente, faz com que ele fale, ouve o que ele diz, por sua vez 
conversa com ele e faz com que ele oua.
         As feies da Pessoa Imparcial agora revelam sinais de alvio e relaxamento inegveis, mas tambm traem claramente certo desprezo.  como se ela estivesse 
pensando: 'Nada mais do que isto? Palavras, palavras, palavras, como diz o prncipe Hamlet.' E sem dvida ela tambm est pensando na fala zombeteira de Mefistfeles 
sobre com que conforto se pode ir passando com palavras - versos que nenhum alemo jamais esquecer.
         'Assim  uma espcie de mgica', comenta ela: 'O senhor fala e dissipa seus males.'
         Isto mesmo. Seria mgica se surtisse efeito um pouco mais rapidamente. Um atributo essencial de um mgico  a rapidez - poder-se-ia dizer a subitaneidade 
- do sucesso. Mas os tratamentos analticos levam meses e mesmo anos: mgica to lenta perde seu carter miraculoso. E incidentalmente no desprezemos a palavra. 
Afinal de contas, ela  um instrumento poderoso;  o meio pelo qual transmitimos nossos sentimentos a outros, nosso mtodo de influenciar outras pessoas. As palavras 
podem fazer um bem indizvel e causar terrveis feridas. Sem dvida 'no comeo foi a ao' e a palavra veio depois; em certas circunstncias ela significou um progresso 
da civilizao quando os atos foram amaciados em palavras. Mas originalmente a palavra foi magia - um ato mgico; e conservou muito de seu antigo poder.
         A Pessoa Imparcial continua: 'Suponhamos que o paciente no esteja mais bem preparado para compreender o tratamento analtico do que eu; ento como o senhor 
vai faz-lo acreditar na magia da palavra ou da fala que deve libert-lo de seus sofrimentos?'Algum preparo deve naturalmente ser-lhe proporcionado, havendo uma 
maneira simples de faz-lo. Convid-lo a ser inteiramente sincero com o seu analista, nada refrear intencionalmente que lhe venha  cabea, e portanto pr de lado 
toda reserva que o possa impedir de informar sobre certos pensamentos ou lembranas. Cada um est cnscio de que existem certas coisas em si que no estaria absolutamente 
disposto a contar a outras pessoas ou que consideraria inteiramente fora de cogitao revelar. So elas suas 'intimidades'. Essa pessoa tambm no tem qualquer idia 
- e isto representa um grande progresso no autoconhecimento psicolgico - de que h outras coisas que algum no se importaria de admitir para consigo: coisas que 
algum gosta de ocultar de si prprio e que por esse motivo interrompe e expulsa de seus pensamentos se, apesar de tudo, vierem  tona. Talvez ela prpria observe 
que um problema psicolgico muito marcante comea a aparecer nessa situao - um pensamento seu sendo mantido em segredo para seu prprio eu (self).  como se seu 
prprio eu (self) no fosse mais a unidade que ela sempre considerou que fosse, como se houvesse algo mais tambm nela que pudesse enfrentar esse eu (self). Ela 
pode tornar-se obscuramente cnscia de um contraste entre um eu (self) e uma vida mental no sentido mais lato. Se agora ela aceita a exigncia feita pela anlise 
de que dir tudo, facilmente se tornar acessvel a uma expectativa de que ter relaes e trocas de pensamento com algum sob condies inusitadas talvez possa tambm 
levar a resultados inusitados.
         'Compreendo', diz nossa Pessoa Imparcial. 'O senhor presume que todo neurtico tem algo que o oprime, algum segredo. E fazendo-o contar-lhe a respeito disto 
o senhor alivia sua opresso e lhe faz bem. Isto, naturalmente,  o princpio da confuso, que a Igreja Catlica utiliza desde tempos imemoriais a fim de assegurar 
seu domnio sobre as mentes das pessoas.'
         Devemos responder: 'Sim e no!' A confisso sem dvida desempenha seu papel na anlise como uma introduo a ela, poderamos dizer. Mas est muito longe 
de constituir a essncia da anlise ou de explicar-lhe os efeitos. Na confisso o pecador conta o que sabe; na anlise o neurtico tem mais a dizer. Nem ouvimos 
falar que confisso tenha desenvolvido fora suficiente para eliminar sintomas patolgicos reais.
         'Ento, afinal de contas, eu no compreendo', retruca nosso interlocutor. 'O que possivelmente o senhor quer dizer por "dizendo mais do que ele sabe"? Mas 
posso muito bem acreditar que como analista o senhor consegue uma influncia mais acentuada sobre seus pacientes do que um padre confessor sobre seus penitentes, 
visto que os contatos do senhor com ele so muito mais longos, mais intensos e tambm mais individuais, e visto que osenhor emprega essa maior influncia para desvi-lo 
de seus pensamentos doentios, para que, pela conversa, ele se livre de seus temores, e assim por diante. Por certo seria estranho se fosse possvel por tais meios 
controlar tambm fenmenos puramente mecnicos, tais como vmitos, diarria e convulses; mas sei que uma influncia como esta  de fato bem possvel se uma pessoa 
for levada a um estado de hipnose. Pelo trabalho que o senhor tem com o paciente provavelmente consegue provocar uma relao hipntica dessa natureza com ele - uma 
ligao sugestiva com o senhor mesmo - muito embora o senhor talvez tenha essa inteno; e nesse caso os resultados miraculosos do seu tratamento so o efeito de 
sugesto hipntica. Mas, que eu saiba, o tratamento hipntico atua com muito maior rapidez do que a sua anlise, a qual, conforme me diz, dura meses e anos.'
         Nossa Pessoa Imparcial no pode nem ser to ignorante nem to perplexa como de incio pensamos. H sinais inegveis de que ela est tentando compreender 
a psicanlise com a ajuda do seu conhecimento anterior, de que est tentando lig-la com algo que j conhece. Encontra-se agora diante de ns a difcil tarefa de 
tornar-lhe claro que ela no ser bem-sucedida nisto: que a anlise  um procedimento sui generis, algo novo e especial, que s pode ser compreendida com o auxlio 
de novas compreenses internas (insights) - ou hipteses, se isto soar melhor. Mas ela ainda est aguardando nossas respostas a suas ltimas observaes.
         O que se diz sobre a influncia pessoal do analista certamente merece grande ateno. Uma influncia existe e desempenha relevante papel na anlise - mas 
no o mesmo papel que no hipnotismo. Deve ser possvel convenc-lo de que as situaes nos dois casos so bem diferentes. Talvez seja bastante ressaltar que no 
devemos utilizar essa influncia pessoal, o fator de 'sugesto', para suprimir os sintomas da doena, como ocorre com a sugesto hipntica. Ademais, seria um erro 
crer que esse fator  o veculo e promotor do tratamento em toda sua extenso. No seu incio, sem dvida. Mas depois ele se ope s nossas intenes analticas e 
nos fora a adotar as contramedidas mais exageradas. E eu gostaria de mostrar por um exemplo quo longe esto da tcnica da anlise o desviar os pensamentos de um 
paciente e pela conversa afast-lo dos problemas. Se um paciente nosso estiver sofrendo de um sentimento de culpa, como se ele houvesse perpetrado um crime grave, 
no recomendamos que ele despreze seus escrpulos de conscincia e no frise sua reconhecida inocncia; ele prprio muitas vezes tentou faz-lo sem xito. O que 
fazemos  recordar-lhe que um sentimento to forte e persistente deve, afinal de contas, estar baseado em algo real, que talvez possa ser possvel descobrir.{#V20_P186} 
'Surpreender-me-ia', comenta a Pessoa Imparcial, 'se o senhor fosse capaz de aliviar seus pacientes concordando com o sentimento de culpa deles dessa maneira. Mas 
quais so suas intenes analticas? e que faz o senhor com seus pacientes?'
         II 
         Se devo dizer algo de inteligvel ao leitor, sem dvida terei de dizer-lhe alguma coisa sobre uma teoria psicolgica que no  conhecida ou que no  apreciada 
fora dos crculos analticos. Ser fcil deduzir dessa teoria o que desejamos de nossos pacientes e como obt-lo. Eu lhe exporei isto dogmaticamente, como se fosse 
uma estrutura terica completa. Mas no suponha ele que ela surgiu como essa estrutura, como um sistema filosfico. Ns a desenvolvemos lentamente, lutando com todos 
os pequenos detalhes da mesma, temo-la modificado sem cessar, mantendo um contato contnuo com a observao, at que ela finalmente adquiriu uma forma na qual parece 
ser suficiente para nossas finalidades. Apenas h poucos anos tive de revestir essa teoria em outros termos. Nem, naturalmente, posso garantir-lhe que a forma como 
ela  expressa hoje continue a ser defendida. A cincia, como se sabe, no  uma revelao; muito depois dos seus primrdios ainda lhe faltam os atributos de determinao, 
imutabilidade e infalibilidade pelos quais o pensamento humano to profundamente anseia. Mas tal como ela ,  tudo que podemos ter. Se quiser ainda ter em mente 
que a nossa cincia  muito jovem, no chegando quase a ser to velha quanto o sculo, e que ela se interessa pelo que seja talvez o material mais difcil que possa 
ser o assunto de pesquisa humana, facilmente ser capaz de adotar a atitude correta no tocante  minha exposio. Mas interrompa-me sempre que se sentir inclinado, 
se no puder seguir-me ou se desejar outras explicaes.
         'Eu o interrompi antes mesmo de haver comeado. O senhor diz que pretende expor-me uma nova psicologia: mas devo ter pensado que a psicologia no era nenhuma 
nova cincia. Tem havido bastantes psicologias e psiclogos, e ouvi falar em grandes realizaes nesse campo quando estava na faculdade.'
         No devo nem sonhar em discuti-las. Mas se o senhor examinar o assunto mais detidamente ter de classificar essas grandes realizaes como pertencendo antes 
 fisiologia dos rgos dos sentidos. A teoria da vida mental no poderia ser desenvolvida, porque estava inibida por uma nica incompreenso essencial. O que ela 
abrange hoje, como  ensinada na faculdade? Independente dessas valiosas descobertas na fisiologia dos sentidos, grande nmero de classificaes e definies de 
nossos processos mentais que, graas ao uso lingstico, se tornou o patrimnio comum de toda pessoa educada. Isto no era suficiente para dar uma viso de nossa 
vida mental. O senhor no observou que todo filsofo, todo escritor de imaginao, todo historiador e todo bigrafo compem sua prpria psicologia para si, formulam 
suas prprias hipteses especficas concernentes s interligaes e finalidades dos atos mentais - tudo mais ou menos plausvel e tudo igualmente indigno de confiana? 
Existe evidente falta de qualquer fundamento comum. E  por esse motivo tambm que no campo da psicologia no h, por assim dizer, qualquer respeito e qualquer autoridade, 
Nesse campo cada um pode 'correr sem governo' conforme lhe aprouver. Se o senhor levantar uma questo de fsica ou de qumica, qualquer pessoa sabedora de que no 
possui 'conhecimento tcnico' algum calar a boca. Mas se o senhor aventurar-se numa assero psicolgica, deve estar preparado para fazer face a julgamento e contradio 
de todos os setores. Nesse campo, aparentemente, no existe 'conhecimento tcnico' algum. Mas isto me surpreende como um ttulo legal inadequado. Conta-se a histria 
de uma pessoa a quem, ao candidatar-se a um emprego como ama de crianas, foi feita a pergunta se sabia cuidar de bebs. 'Naturalmente', retrucou ela, 'ora, afinal 
de contas, eu prpria j fui beb.'
         'E o senhor alega que descobriu esse "fundamento comum" da vida mental, que foi desprezado por todo psiclogo, a partir de observaes de pessoas doentes?'
         A fonte dos nossos achados no me parece priv-los do seu valor. A embriologia, para citar um exemplo, no mereceria ser digna de f se no pudesse dar 
uma explicao clara da origem das deformaes inatas. J lhe falei de pessoas cujos pensamentos seguem seu prprio curso de modo que elas so obrigadas a preocupar-se 
com problemas aos quais so inteiramente indiferentes. Voc pensa que a psicologia acadmica jamais poderia prestar a menor contribuio no sentido de explicar uma 
anormalidade como essa? E, afinal de contas, todos temos a experincia,  noite, de os nossos pensamentos seguirem o seu prprio curso e criarem coisas que no compreendemos, 
que nos intrigam e que so suspeitamente rememorativas de produtos patolgicos. Nossos sonhos, quero dizer. As pessoas comuns sempre tm firmemente acreditado que 
os sonhos tm um sentido e um valor - que significam alguma coisa. A psicologia acadmica jamais foi capaz de nos informar qual  esse significado. Ela nada pode 
inferir dos sonhos. Se tentasse produzir explicaes, estas seriam no-psicolgicas - como remont-las a estmulos sensoriais ou a uma profundidade desigual de sono 
em diferentes partes do crebro, e assim por diante. Mas  justo dizer que uma psicologia que no pode explicar os sonhos  tambm intil para a compreenso da vida 
mental normal, e que ela no pode reivindicar a denominao de cincia.
         'O senhor est-se tornando agressivo; dessa forma evidentemente atingiu um ponto sensvel. Ouvi dizer,  verdade, que na anlise grande valor atribudo 
aos sonhos, que eles so interpretados etc. Mas tambm soube que a interpretao dos sonhos  deixada ao capricho dos analistas, e que eles prprios jamais deixariam 
de discutir a maneira de interpretar os sonhos e a justificativa para tirar concluses dos mesmos. Se isto for assim, o senhor no deve sublinhar de maneira to 
acentuada a vantagem que a anlise conquistou sobre a psicologia acadmica.'
         Existe realmente grande dose de verdade no que o senhor diz.  certo que a interpretao dos sonhos chegou a ter importncia incomparvel tanto para a teoria 
como para a prtica da anlise. Se pareo ser agressivo, isto  apenas uma maneira de defender-me. E ao pensar em todo o mal que alguns analistas tm causado com 
a interpretao de sonhos, quase perco a coragem e repito o pronunciamento pessimista do nosso grande satirista Nestroy, quando este diz que cada grande passo  
frente  apenas a metade do que parece ser de incio. Mas o senhor j verificou que os homens fazem tudo para confundir e distorcer aquilo de que lanam mo? Com 
a ajuda de um pouco de previso e autodisciplina a maior parte dos perigos da interpretao de sonhos pode ser evitada com certeza. Mas o senhor h de concordar 
que nunca chegarei  minha exposio se nos deixarmos desviar dessa maneira.
         'Sim. Se bem compreendi, o senhor quis falar-me sobre o postulado fundamental da nova psicologia.'
         No foi com isso que eu desejava comear. Minha finalidade era deix-lo ouvir falar sobre os quadros que formamos da estrutura do aparelho mental no curso 
dos nossos estudos analticos.
         'O que o senhor quer dizer pelo "aparelho mental"? e de que, pergunto eu,  ele construdo?'
         Logo tornar-se- claro o que  o aparelho mental; mas peo-lhe que no me pergunte de que material  ele construdo. Isto no  assunto de interesse psicolgico. 
A psicologia pode ser to indiferente a ele como, por exemplo, a ptica pode ser para a questo de se as paredes de um telescpio so feitas de metal ou de papelo. 
Deixaremos inteiramente de lado a linha material de abordagem, mas no a espacial, pois imaginamos o aparelho desconhecido que serve s atividades da mente como 
sendo realmente um instrumento de vrias partes (que denominamos de 'instncias'), cada uma das quais desempenha uma funo particular e tem uma relao espacial 
fixa umas com asoutras: ficando compreendido que por relao espacial - 'em frente de' e 'atrs', 'superficial' e 'profundo' - simplesmente queremos dizer em primeiro 
lugar uma representao da sucesso regular das funes. Ser que me fiz claro?
         'Quase que no. Talvez eu compreenda isto depois. Mas, em qualquer caso, eis aqui uma estranha anatomia de alma - uma coisa que, afinal de contas, absolutamente 
no existe mais para os cientistas.'
         O que o senhor espera?  uma hiptese como tantas outras nas cincias: as mais antigas sempre foram um tanto toscas. 'Aberta  reviso', podemos dizer em 
tais casos. Parece-me aqui desnecessrio recorrer ao 'como se' que se tornou to popular. O valor de uma 'fico' dessa espcie (como o filsofo Vaihinger a denominaria) 
depende de quanto se pode alcanar com sua ajuda.
         Mas prosseguindo. Pondo-nos a par dos conhecimentos cotidianos, reconhecemos nos seres humanos uma organizao mental interpolada entre seus estmulos sensoriais 
e a percepo das suas necessidades somticas, por um lado, e seus atos motores, por outro, e que serve de mediador entre eles com vistas a uma finalidade particular. 
Chamamos essa organizao de seu 'Ich' ['ego'; literalmente, 'eu']. Ora, no h novidade alguma quanto a isso. Cada um de ns faz essa suposio sem ser filsofo, 
e alguns at mesmo apesar de serem filsofos. Mas isto, em nossa opinio, no esgota a descrio do aparelho mental. Alm desse 'eu', reconhecemos outra regio mental, 
mais impositiva e mais obscura que o 'eu', e a isto denominamos de 'Es' ['id'; literalmente, 'it'*]. A relao entre os dois deve ser nossa preocupao imediata.
         Provavelmente o senhor protestar por termos escolhido pronomes para descrevermos nossas duas instncias ou provncias, em vez de dar-lhes nomes gregos 
bombsticos. Na psicanlise, contudo, gostamos de nos manter em contato com o modo popular de pensar e preferimos tornar seus conceitos cientificamente teis de 
preferncia a rejeit-los. No existe mrito algum nisto. Somos obrigados a assumir essa linha, pois nossas teorias devem ser compreendidas por nossos pacientes, 
que amide so muito inteligentes,mas nem sempre eruditos. O impessoal 'it' est imediatamente ligado com certas formas de expresses empregadas pelas pessoas normais. 
'Isto (it) me trespassou', dizem as pessoas; 'havia alguma coisa em mim naquele momento mais forte do que eu.' 'C'tait plus fort que moi.'
         Em psicologia s podemos descrever as coisas com a ajuda de analogias. Nada existe de peculiar nisto;  tambm o caso alhures. Mas temos que estar constantemente 
a modificar essas analogias, pois nenhuma delas nos dura bastante. Em conseqncia, ao tentar tornar clara a relao entre o ego e o id, devo pedir-lhe que imagine 
o ego como uma espcie de fachada do id, como uma frontaria, como uma camada externa e cortical deste. Podemos apegar-nos a essa ltima analogia. Sabemos que as 
camadas corticais devem suas caractersticas peculiares  influncia modificadora do meio externo com que confinam. Assim, supomos que o ego  a camada do aparelho 
mental (do id) que foi modificada pela influncia do mundo externo (da realidade). Isto mostrar como na psicanlise adotamos maneiras especiais de contemplar as 
coisas seriamente. Para ns o ego  realmente algo superficial e o id algo mais profundo - contemplados de fora, naturalmente. O ego est entre a realidade e o id, 
que  aquilo verdadeiramente mental.
         'Ainda no farei pergunta alguma quanto a como tudo isto pode ser conhecido. Mas diga-me em primeiro lugar: o que o senhor ganha com a distino entre um 
ego e um id? O que o leva a proceder assim?'
         Sua pergunta indica-me o caminho certo a trilhar, pois a coisa importante e valiosa  saber que o ego e o id diferem grandemente um do outro em vrios aspectos. 
As normas que regem o curso dos atos mentais so diferentes no ego e no id; o ego persegue diferentes finalidades e por outros mtodos. Muito se poderia dizer sobre 
isto; mas talvez o senhor se contentar com uma nova analogia e com um exemplo. Pense na diferena entre o 'front' e 'atrs das linhas', como eram as coisas durante 
a guerra. No nos surpreendamos ento que algumas coisas no front fossem diferentes do que eram atrs das linhas, e que muitas coisas que eram permitidas atrs 
das linhas tinham de ser proibidas no front. A influncia determinante era, naturalmente, a proximidade do inimigo; no caso da vida mental  a proximidade do mundo 
externo. poca houve em que 'fora', 'estranho' e 'hostil' eram conceitos idnticos. E agora chegamos ao exemplo. No id no h conflitos; as contradies e antteses 
persistem nele lado a lado indiferentemente, sendo freqentemente ajustados pela formao de conciliaes. Em circunstncias semelhantes, o ego sente um conflito 
que deve ser resolvido; e a deciso est em um anseio de ser abandonado em favor do outro. O ego  uma organizao caracterizada por uma tendncia muito marcante 
no sentido da unificao, da sntese. Essa caracterstica falta ao id; est, como poderamos dizer, 'toda em pedaos'; seus diferentes anseios perseguem suas prprias 
finalidades independentemente e sem levar em conta uns aos outros.
         'E se uma regio mental to importante "atrs das linhas" existe, como pode o senhor explicar ter sido ela desprezada at a ocasio da anlise?'
         Isto nos leva de volta a uma de suas perguntas anteriores,ver em [[1]]. A psicologia barrara seu prprio acesso  regio do id, insistindo num postulado 
que  bastante plausvel mas insustentvel: a saber, que todos os atos mentais so conscientes para ns - que ser consciente  o critrio do que  normal, e que, 
se h processos em nosso crebro que no so conscientes, no merecem ser chamados de atos mentais e no so de qualquer interesse para a psicologia.
         'Mas eu devia ter pensado que isto era bvio.'
         Sim, e isto  que os psiclogos pensam. No obstante, facilmente se pode mostrar ser falso - isto , ser uma distino inteiramente inapropriada. A auto-observao 
mais superficial revela que nos podem ocorrer idias que no podem ter-se verificado sem preparao. Mas o senhor no experimenta nada dessas preliminares do seu 
pensamento, embora elas tambm devam, por certo, ter sido de natureza mental; tudo que lhe entra na conscincia  o resultado pronto para usar. Ocasionalmente o 
senhor pode tornar consciente essas estruturas de pensamento preparatrias em retrospectiva, como uma reconstruo.
         'Provavelmente nossa ateno foi distrada, de modo que deixamos de notar os preparativos.'
         Evases! O senhor no pode dessa maneira chegar ao fato de que em sua pessoa podem ocorrer atos de natureza mental, e amide muito complicados, dos quais 
sua conscincia nada sabe e o senhor tambm no. Ou o senhor est preparado para supor que uma dose maior ou menor de sua 'ateno'  bastante para transformar um 
ato no mental num mental? Mas de que vale discutir? Existem experimentos hipnticos nos quais a existncia da tais pensamentos no conscientes  irrefutavelmente 
demonstrada a qualquer um que deseja saber.
         'No me retratarei, mas creio que finalmente o compreendo. O que o senhor chama de "ego"  conscincia; e o seu "id"  o denominado subconsciente, sobre 
o qual as pessoas tanto falam hoje em dia. Mas por que o disfarce com os novos nomes?'
         No  disfarce. Os outros nomes no so de valia alguma. E no tente dar-me literatura em vez de cincia. Se algum fala de subconscincia, no sei dizer 
se ele tem em mente o termo topograficamente - para indicar algo que est na mente abaixo da conscincia - ou qualitativamente - para indicar outra conscincia, 
uma substncia, por assim dizer. Essa pessoa provavelmente no est esclarecida sobre nada disso. A nica anttese digna de confiana  entre o consciente e o inconsciente. 
Mas seria grave erro julgar que essa anttese coincide com a distino entre o ego e id. Naturalmente seria magnfico se fosse to simples assim: nossa teoria teria 
trnsito fcil. Mas as coisas no so to simples. O verdadeiro  que tudo que acontece no id  e permanece inconsciente, e que os processos no id, e somente eles, 
podem tornar-se conscientes. Mas nem todos eles so, nem sempre, nem necessariamente; e grandes partes do ego podem continuar permanentemente inconscientes.
         O tornar-se consciente de um processo mental constitiu um caso complicado. No posso deixar de dizer-lhe - mais uma vez, dogmaticamente - nossas hipteses 
a respeito disto. O ego, como o senhor se recordar,  a camada externa, perifrica do id. Ora, cremos que na superfcie mais externa desse ego h uma instncia 
dirigida imediatamente para o mundo externo, um sistema, um rgo, atravs de cuja excitao somente ocorre o fenmeno que denominamos de conscincia. Esse rgo 
pode ser igualmente bem excitado de fora - recebendo assim ( com a ajuda dos rgos do sentido) os estmulos do mundo exterior - e de dentro - tornando-se assim 
cnscio, em primeiro lugar, das sensaes no id, e ento tambm dos processos no ego.
         'Isto est ficando cada vez pior e eu o compreendo cada vez menos. Afinal de contas, aquilo para o que o senhor me convidou foi um debate da questo sobre 
se leigos (= no-mdicos) devem empreender tratamentos analticos. Qual  o ponto principal, ento, de todas esses exames de teorias ousadas e obscuras que o senhor 
no me pode convencer que sejam justificadas?'
         Sei que no posso convenc-lo. Isto est alm de qualquer possibilidade e por esse motivo alm de minha finalidade. Quando ministramos aos nossos alunos 
instruo terica em psicanlise, podemos ver quo pouca impresso lhes estamos causando, para comear. Eles absorvem as teorias da anlise to friamente quanto 
outras abstraes com as quais so alimentados. Poucos deles talvez desejam ficar convencidos, mas no h qualquer vestgio de que estejam. Mas tambm exigimos que 
todo aquele que quiser praticar a anlise em outras pessoas se submeta ele prprio a uma anlise.  somente no curso dessa 'auto-anlise' (como  confusamente denominada), 
quando eles realmente tm a experincia de que sua prpria pessoa  afetada - ou antes, sua prpria mente - pelos processos afirmados pela anlise, que adquirem 
as convices pelas quais so ulteriormente orientados como analistas.Como ento poderia esperar convenc-lo, a Pessoa Imparcial, da correo das nossas teorias, 
quando s posso pr diante do senhor um relato abreviado e portanto ininteligvel das mesmas, sem confirm-las pelas prprias experincias do senhor? 
         Estou agindo com uma finalidade diferente. A questo em debate entre ns no , no mnimo, se a anlise  sensata ou insensata, se ela est certa em suas 
hipteses ou se incidiu em erros grosseiros. Estou formulando nossas teorias perante o senhor visto que essa  a melhor maneira de tornar-lhe claro qual o mbito 
de idias abrangido pela anlise, com base em quais hipteses ela aborda um paciente e o que faz com ele. Dessa forma uma luz bem definida ser lanada sobre a questo 
da anlise leiga. E no fique alarmado. Se o senhor me acompanhou at este ponto j passou pelo pior. Tudo que se segue lhe ser mais fcil. - Mas agora, com sua 
licena, farei uma pausa para tomar alento. 
         III
         'Espero que o senhor queira dizer-me como, com base nas teorias da psicanlise, a origem de uma doena neurtica pode ser imaginada.'
         Tentarei faz-lo. Mas para esse fim devemos estudar nosso ego e nosso id de um novo ngulo, do ngulo dinmico - vale dizer, levando em conta as foras 
em ao neles e entre eles. At agora nos contentamos com uma descrio do aparelho mental.
         'Meu nico temor  que ela possa tornar-se ininteligvel novamente!'
         Espero que no. Logo o senhor se orientar nela. Pois bem, presumimos que as foras que impulsionam o aparelho mental em atividade so produzidas nos rgos 
corporais como uma expresso das necessidades somticas principais. O senhor deve recordar-se das palavras do nosso poeta-filsofo: 'A fome e o amor [so o que move 
o mundo].' Incidentalmente, um par de foras formidveis! Damos a essas necessidades corporais, at onde representam uma instigao  atividade mental, o nome de 
'Triebe' [instintos], uma palavra por cuja causa somos invejados por muitas lnguas modernas. Bem, esses instintos enchem o id: toda a energia do id, expressando-o 
em breves palavras, se origina deles. Nem as foras do ego tm qualquer outra origem; provm daquelas do id. O que, ento, desejam esses instintos? Satisfao - 
isto , o estabelecimento de situaes nas quais as necessidades corporais possam ser extintas. Uma diminuio da tenso da necessidade  sentido pelo nosso rgo 
da conscincia como agradvel; um aumento dela logo  sentido como desprazer. Dessas oscilaes surge a srie de sentimentos de prazer-desprazer, de acordo com a 
qual todo o aparelho mental regula sua atividade. Nesse sentido falamos de uma 'dominncia do princpio de prazer'.
         Se as exigncias instintuais do id no encontrarem satisfao alguma, surgem condies intolerveis. A experincia logo revela que essas situaes s podem 
ser estabelecidas mediante a ajuda do mundo externo. Nesse ponto a parte do id que est dirigida para o mundo externo - o ego - comea a funcionar. Se toda a fora 
impulsora que pe o veculo em movimento for derivada do id, o ego, por assim dizer, se encarrega da direo, sem a qual meta alguma pode ser alcanada. Os instintos 
no id pressionam por satisfao imediata a todo custo, e dessa forma nada alcanam nem chegam mesmo a acarretar dano aprecivel. Constitui tarefa do ego resguardar-se 
contra tais contratempos, para servir de medianeiro entre as reivindicaes do id e as objees do mundo externo. Ele leva a efeito sua atividade em duas direes. 
Por um lado, observa o mundo externo com o auxlio do seu rgo de sentido, o sistema de conscincia, a fim de apanhar o momento favorvel para satisfao sem dano; 
e , por outro, influencia o id, refreia suas 'paixes', induz seus instintos a adiar sua satisfao, e na realidade, se for reconhecida a necessidade, a modificar 
seus objetivos ou, em troca de alguma compreenso, a desistir deles. At onde ele domestica os impulsos do id dessa forma, ele substitui o princpio de prazer, que 
anteriormente era o nico decisivo, pelo que se conhece como o 'princpio de realidade', que, embora persiga os mesmos objetos finais, leva em conta as condies 
impostas pelo mundo externo real. Posteriormente, o ego aprende que existe ainda outra maneira de obter satisfao alm da adaptao ao mundo externo que descrevi. 
 tambm possvel intervir no mundo externo modificando-o, e nele estabelecer intencionalmente as condies que tornam possvel a satisfao. Essa atividade ento 
se torna a funo mais elevada do ego; decises quanto a quando  mais conveniente controlar as paixes e curvar-se diante da realidade, e quando  mais apropriado 
ficar ao lado delas e lutar contra o mundo externo - tais decises compem toda a essncia da sabedoria mundial.
         'E o id atura ser dominado assim pelo ego, apesar de ser, se  que eu o compreendo bem, a parte mais forte?'
         Sim, tudo correr bem se o ego estiver de posse de toda a sua organizao e eficincia, se tiver acesso a todas as partes do id e puder exercer sua influncia 
sobre elas, pois no existe qualquer oposio natural entre o ego e o id; eles se pertencem, e em condies saudveis no podem na prtica ser distinguidos um do 
outro.
         'Isto parece muito bem, mas no posso ver como em tal relao ideal possa haver o menor lugar para uma perturbao patolgica.'
         O senhor tem razo. Enquanto o ego e suas relaes com o id atenderem essas condies ideais, no haver qualquer distrbio neurtico. O ponto no qual a 
doena faz sua irrupo  inesperado, embora quem no esteja familiarizado com patologia geral fique surpreendido em encontrar uma confirmao do princpio de que 
so os desenvolvimentos e diferenciaes mais importantes que trazem em si as sementes da doena, da falha de funo.
         'O senhor est-se tornando erudito demais. No posso acompanh-lo.'
         Devo retroagir um pouco mais. Um pequeno organismo vivo  uma coisa verdadeiramente infeliz e impotente, no  assim? comparado com o mundo externo intensamente 
poderoso, repleto como est de influncias destrutivas. Um organismo primitivo, que no tenha desenvolvido uma organizao apropriada do ego, encontra-se  merc 
de todos esses 'traumas'. Ele vive pela 'cega' satisfao de seus desejos instintuais e muitas vezes perece por causa disto. A diferenciao de um ego , acima de 
tudo, um passo no sentido da autopreservao. Nada,  verdade, pode ser aprendido da sua destruio, mas se algum sobreviveu com sorte a um trauma poder observar 
a abordagem de situaes semelhantes e dar sinal do perigo por uma repetio abreviada das impresses que experimentou em relao com o trauma - por um afeto de 
ansiedade. Essa reao  percepo do perigo introduz agora uma tentativa de fuga, que pode ter o efeito de poupar a vida at que se tenha tornado bastante forte 
para fazer face aos perigos do mundo externo de maneira mais ativa - mesmo agressivamente, talvez.
         'Tudo isto est muito longe do que o senhor prometeu relatar-me.'
         O senhor no tem idia alguma de como eu estou perto de cumprir minha promessa. Mesmo em organismos que depois se desenvolvem numa eficiente organizao 
do ego, o ego deles  dbil e pouco se diferencia, para comear, de seu id, durante seus primeiros anos de infncia. Imagine agora o que acontecer se esse ego impotente 
experimentar uma exigncia instintual do id ao qual ele gostaria de opor resistncia (porque sente que satisfaz-lo  perigoso e provocaria uma situao traumtica, 
um choque com o mundo externo), mas que ele no pode controlar, porque ainda no possui bastante fora para faz-lo. Em tal caso o ego trata do perigo instintual 
como se ele fosse externo; faz uma tentativa de fuga, afasta-se dessa parte do id e o deixa entregue ao seu destino, depois de retirar dele todas as contribuies 
que em geral presta aos impulsos instintuais. O ego, como costumamos dizer, institui uma represso desses impulsos instintuais. Por enquanto isto tem o efeito de 
desviar o perigo, mas no se pode confundir o interno e o externo impunemente. No se pode fugir de si mesmo. Na represso o ego est acompanhando o princpio de 
prazer, que em geral ele tem o hbito de corrigir, estando destinado a sofrer dano como vingana. Isto est no fato de o ego haver permanentemente estreitado sua 
esfera de influncia. O impulso instintual reprimido agora est isolado, abandonado a si mesmo, inacessvel, mas tambm no influencivel. Ele segue seu prprio 
caminho. Mesmo depois, em geral, quando o ego se tornou mais forte, ainda no pode suspender a represso; sua sntese fica prejudicada, uma parte do id permanece 
terreno proibido ao ego. Nem o impulso instintual isolado permanece ocioso; ele compreende como ser compensado por lhe ser negada satisfao normal; produz derivados 
psquicos que lhe tomam o lugar; vincula-se a outros processos que por influncia dele tambm arranca do ego; e finalmente irrompe no ego e na conscincia sob a 
forma de um substituto irreconhecivelmente distorcido, criando o que denominamos de um sintoma. De imediato a natureza de uma perturbao neurtica se torna clara 
para ns: por um lado, um ego que  inibido em sua sntese, que no tem qualquer influncia sobre partes do id, que deve renunciar a algumas de suas atividades a 
fim de evitar novo choque com o que foi reprimido, e que se exaure no que, na maior parte, so atos vos de defesa contra sintomas, os derivados dos impulsos reprimidos; 
por outro lado, um id no qual os instintos individuais se tornaram independentes, perseguem seus objetivos independentemente dos interesses da pessoa como um todo 
e doravante obedecem s leis somente da psicologia que domina nas profundezas do id. Se observarmos toda a situao chegaremos a uma frmula simples quanto  origem 
de uma neurose: o ego faz uma tentativa de suprimir certas partes do id de maneira inapropriada; essa tentativa falhou e o id tirou sua vingana. Uma neurose  assim 
o resultado de um conflito entre o ego e o id, no qual o ego se envolveu porque, como revela uma investigao cuidadosa, ele deseja a todo custo reter sua adaptabilidade 
em relao com o mundo externo real. A divergncia verifica-se entre o mundo externo e o id; e  porque o ego, leal a sua natureza mais ntima, toma o partido do 
mundo externo que ele se torna envolvido num conflito com seu id. Mas observe que o que cria o determinante da doena no  o fato desse conflito - pois discordncias 
dessa natureza entre a realidade e o id so inevitveis, sendo uma das principais tarefas do ego servir de mediador nelas -, mas a circunstncia de o ego haver feito 
uso do instrumento ineficiente de represso para lidar com o conflito. Mas isto por sua vez se deve ao fato de que o ego, na ocasio em que se incumbiu da tarefa, 
era no desenvolvido e impotente. Todas as represses decisivas se verificam na primeira infncia.
         'Que assunto notvel! Seguirei seu conselho e no farei crticas, visto que o senhor deseja apenas mostrar-me aquilo em que a psicanlise cr a propsito 
da origem da neurose, de modo que o senhor venha a dizer como ela se dispe a combat-la. Eu teria vrias perguntas a fazer-lhe e depois as formularei. Mas no momento 
sinto-me tentado, dessa vez, a levar adiante a sua seqncia de pensamento e a aventurar-me numa teoria prpria. O senhor exps a relao entre o mundo externo, 
o ego e o id, e formulou como sendo determinante de uma neurose que o ego em sua dependncia do mundo externo luta contra o id. No  concebvel o caso oposto de 
o ego, num conflito dessa espcie, permitir a si mesmo ser arrastado para fora pelo id e renunciar  sua considerao pelo mundo externo? O que acontece num caso 
como este? pelas minhas idias leigas de natureza da insanidade diria que tal deciso por parte do ego poderia ser o determinante da insanidade. Afinal de contas, 
uma fuga da realidade dessa espcie parece ser a essncia da'insanidade.Sim. Eu prprio pensei nessa possibilidade, e na realidade creio que ela atende aos fatos 
- embora para provar a verdadeira suspeita exigisse o exame de algumas consideraes altamente complicadas. As neuroses e psicoses esto, como  evidente, intimamente 
relacionadas, mas devem, no obstante, diferir em algum aspecto decisivo. Isto bem poderia ser o partido tomado pelo ego num conflito dessa espcie. Em ambos os 
casos o id conservaria sua caracterstica de cega inflexibilidade.
         'Muito bem, prossiga! Quais os indcios dados pela sua teoria sobre o tratamento das doenas?'
          fcil agora descrever nossa finalidade teraputica. Tentamos restaurar o ego, livr-lo de suas restries, e dar-lhe de volta o domnio sobre o ego que 
ele perdeu devido s suas primeiras represses.  para esse nico fim que efetuamos a anlise, toda nossa tcnica est dirigida para essa finalidade. Temos de procurar 
as represses que foram estabelecidas e instigar o ego a corrigi-las com nossa ajuda e a lidar com os conflitos melhor do que mediante uma tentativa de fuga. Visto 
que essas represses pertencem bem aos primeiros anos da infncia, o trabalho de anlise nos leva tambm de volta quele perodo. Nosso caminho a essas situaes 
de conflito, que na maior parte foram esquecidas e que tentamos reviver na lembrana do paciente, nos  mostrado pelos seus sintomas, sonhos e associaes livres. 
Estes devem, contudo, ser em primeiro lugar interpretados - traduzidos -, pois, sob a influncia da psicologia do id, assumiram formas de expresso estranhas  nossa 
compreenso. Podemos presumir que quaisquer associaes, pensamentos e lembranas que o paciente seja incapaz de comunicar-nos sem lutas internas esto de alguma 
maneira vinculados ao material reprimido ou so seus derivados. Ao estimular o paciente a desprezar suas resistncias relatando essas coisas, estamos educando seu 
ego a superar sua inclinao no sentido de tentativas de fuga e a tolerar uma abordagem ao que  reprimido. No fim, se a situao da represso puder ser reproduzida 
com xito em sua memria, sua obedincia ser brilhantemente recompensada. Toda a diferena entre sua idade ento e agora atua a seu favor, e a coisa da qual seu 
ego infantil fugiu aterrorizado muitas vezes parecer ao seu ego adulto e fortalecido nada mais que uma brincadeira de criana. 
         IV
         'Tudo o que o senhor me relatou at agora foi psicologia. Muitas vezes soou estranho, difcil ou obscuro; mas sempre foi - se  que posso diz-lo assim 
- "puro". At agora muito pouco tenho sabido, sem dvida, sobre psicanlise; mas no obstante chegou aos meus ouvidos o rumor de que o senhor se ocupa principalmente 
com coisas que no tm qualquer direito a esse predicado. O fato de o senhor no haver ainda aflorado nada dessa espcie faz-me sentir que est deliberadamente ocultando 
algo. E h outra dvida que no posso reprimir. Afinal de contas, como o senhor mesmo diz, as neuroses so perturbaes da vida mental.  possvel, ento, que coisas 
to importantes no desempenhem absolutamente qualquer papel nessas perturbaes profundas?"
         Ento o senhor julga que uma considerao tanto do que  mais baixo quanto do que  mais alto tenha faltado s nossas apreciaes at este momento? O motivo 
disto  que no consideramos absolutamente at agora, por esta vez, desempenhar eu prprio o papel de um interruptor que retm a marcha da conversa. Falei-lhe tanto 
de psicologia porque desejava que o senhor ficasse com a impresso aplicada - e, alm disso, de uma psicologia que  desconhecida fora da anlise. Um analista deve, 
portanto, antes de tudo, ter aprendido essa psicologia, essa psicologia profunda ou psicologia do inconsciente, ou pelo menos tanto dela quanto se conhece nos dias 
que correm. Necessitaremos disto como uma base para nossas concluses ulteriores. Mas agora, que foi o senhor quis dizer com sua aluso a 'pureza'?
         'Bem, geralmente se informa que nas anlises os fatos mais ntimos - e os mais srdidos - da vida sexual so trazidos  tona para apreciao em todos os 
seus detalhes. Se for assim - no fui capaz de depreender dos seus debates psicolgicos que seja necessariamente assim - isto seria um forte argumento para que se 
restringisse esses tratamentos a mdicos. Como se poderia sonhar em permitir tais perigosas liberdades a pessoa de cujo carter no se tivesse qualquer garantia?'
          verdade que o mdicos desfrutam de certos privilgios na esfera do sexo: -lhes at mesmo permitido examinar os rgos genitais das pessoas - embora isto 
no lhes fosse permitido no Oriente e embora alguns reformadores idealistas (o senhor sabe quem eu tenho em mente) tenham disputado esse privilgio. Mas o senhor 
quer saber em primeiro lugar se  assim em anlise e por que deve ser assim. - Sim,  assim.
         E deve ser assim, em primeiro lugar porque a anlise est inteiramente fundamentada em completa franqueza. As circunstncias financeiras, por exemplo, so 
discutidas com igual detalhe e imparcialidade: dizem-se coisas que so ocultadas de qualquer cidado, mesmo se ele no for concorrente ou um coletor de impostos. 
No discutirei - na realidade, eu prprio insistirei com energia - que essa obrigao  imparcialidade tambm impe grave responsabilidade moral ao analista. E deve 
ser assim, em segundo lugar, porque os fatores da vida sexual desempenham um papel extremamente importante, dominante e talvez mesmo especfico entre as causas e 
fatores precipitantes das doenas neurticas. Que mais pode a anlise fazer se no manter-se perto do seu tema, do material apresentado pelo paciente? O analista 
jamais induz o paciente at o terreno do sexo. Ele no lhe diz antecipadamente: 'Estaremos lidando com as intimidades de sua vida sexual!' Ele lhe permite que comece 
o que tem a dizer onde lhe aprouver, e tranqilamente aguarda at que o prprio paciente aborde fatos sexuais. Sempre costumava advertir meus alunos: 'Nossos antagonistas 
nos disseram que nos defrontaremos com casos nos quais o fator do sexo no desempenha papel algum. Tenhamos o cuidado de no introduzi-lo em nossas anlises e de 
assim estragar nossa oportunidade de encontrar tal caso.' Mas at agora nenhum de ns teve essa boa sorte.
         Estou cnscio, naturalmente, de que nosso reconhecimento da sexualidade se tornou - quer confessadamente, quer no - o motivo mais forte da hostilidade 
de outras pessoas em relao  anlise. Poder isto abalar nossa confiana? Isto simplesmente nos revela como  neurtica toda nossa vida civilizada, visto que pessoas 
manifestamente normais no se comportam de forma muito diferente das neurticas. Numa poca em que a psicanlise foi solenemente levada a julgamento perante as sociedades 
cultas da Alemanha - hoje as coisas se tornaram inteiramente mais tranqilas -, um dos oradores alegou possuir autoridade peculiar porque, assim disse ele, chegou 
mesmo a permitir que seus pacientes falassem: para finalidades de diagnsticos, claramente e para pr  prova as asseres dos analistas. 'Mas', acrescentou ele, 
'se comearem a falar sobre assuntos sexuais fecho-lhes as bocas.' Que pensa disto como um mtodo de demonstrao? A sociedade erudita aplaudiu o orador calorosamente 
em vez de sentir-se, com razo, envergonhada do seu relato. S a triunfante certeza proporcionada pela conscincia de preconceitos sustentados em comum pode explicar 
a falta de pensamento lgico do orador. Anos depois alguns daqueles que na pocatinham sido meus partidrios cederam  necessidade de libertar a sociedade humana 
do julgo da sexualidade que a psicanlise estava procurando impor-lhe. Um deles explicou que o que  sexual no significa absolutamente sexualidade, mas algo mais, 
algo abstrato e mstico. E outro chegou a declarar que a vida sexual  meramente uma das esferas na qual os seres humanos procuram por uma ao sua necessidade imperiosa 
de poder e dominao. Eles tm sido acolhidos com grandes aplausos, pelo menos no momento.
         'Aventurar-me-ei de certa maneira, dessa vez, a tomar partido neste ponto. Surpreendi-me como sendo extremamente ousado afirmar que a sexualidade no  
necessidade natural e primitiva dos seres vivos, mas uma expresso de algo mais. S se precisa considerar o exemplo dos animais.'
         Isto no faz diferena alguma. No h qualquer mistura, por mais absurda, que a sociedade de bom grado no esteja disposta a engolir se for anunciada como 
um antdoto  temida predominncia da sexualidade.
         Confesso, alm disso, que a averso que o senhor mesmo tem trado de atribuir ao fator da sexualidade um papel to relevante na causao da neurose - confesso 
que isto quase no me parece compatvel com a sua tarefa como uma Pessoa Imparcial. O senhor no teme que essa antipatia possa interferir em fazer um julgamento 
justo?
         'Lamento ouvi-lo dizer isto. Sua confiana em mim parece estar abalada. Mas nesse caso por que no escolheu outro como sua Pessoa Imparcial?'
         Porque essa outra pessoa no teria pensado em nada diferente do senhor. Mas se ela tivesse sido preparada desde o comeo para reconhecer a importncia da 
vida sexual, todos teriam exclamado: 'Ora, essa no  nenhuma Pessoa Imparcial,  um dos seus partidrios!' No, estou longe de abandonar a expectativa de ser capaz 
de influenciar suas opinies. Devo admitir, contudo, que do meu ponto de vista essa situao  diferente daquela com a qual lidamos antes. No tocante aos nossos 
debates psicolgicos, trata-se para mim de uma questo de indiferena se o senhor acredita ou no em mim, contanto somente que tenha a impresso de que aquilo que 
nos preocupa so problemas puramente psicolgicos. Mas aqui, quanto  questo da sexualidade, deveria no obstante contentar-me se o senhor fosse acessvel  compreenso 
de que seu motivo mais forte de contradio  precisamente a arraigada hostilidade de que partilha com tantas outras pessoas.
         'Mas afinal de contas no possuo a experincia que lhe deu inabalvel certeza.'
         Muito bem. Posso agora continuar com minha exposio. A vida sexual no  simplesmente algo apimentado; constitui tambm srio problema cientfico. Muito 
havia de novo a ser aprendido sobre ela, muitas coisas estranhas a serem explicadas. Acabo de dizer-lhe que a anlise tem de remontar aos primeiros anos da infncia 
do paciente, porque foi ento que ocorreram as represses decisivas, enquanto seu ego era dbil. Mas certamente na infncia no existe qualquer vida sexual? Com 
certeza ela s comea na puberdade? Pelo contrrio. Temos de aprender que os impulsos instintuais sexuais acompanham a vida a partir do nascimento, sendo precisamente 
a fim de desviar esses instintos que o ego infantil institui represses. Uma coincidncia notvel, no ? que as criancinhas j devem estar lutando contra a fora 
da sexualidade, do mesmo modo como o orador da sociedade erudita iria fazer depois, e posteriormente ainda meus seguidores que estabeleceram suas prprias teorias. 
Como isto acorre? A explicao geral seria que nossa civilizao se acha inteiramente estruturada s expensas da sexualidade; mas h muito mais a ser dito sobre 
o assunto.
         A descoberta da sexualidade infantil  uma daquelas da quais temos motivo de nos sentirmos envergonhados [por causa de sua evidncia]. Alguns pediatras, 
assim parece, sempre tiveram conhecimento disto, e algumas enfermeiras de crianas. Homens hbeis, que se denominam a si prprios psiclogos de crianas, logo falaram 
em tons de censura de uma 'profanao da inocncia da infncia'. Mais uma vez, o sentimento em vez do argumento! Fatos dessa espcie so de ocorrncia cotidiana 
em entidades polticas. Um membro da oposio ergue-se e denuncia certo desacerto administrativo no servio pblico, no exrcito, no judicirio e assim por diante. 
Diante disto outro membro, preferivelmente do governo, declara que tais afirmaes constituem uma afronta ao sentimento de honra do organismo poltico, do exrcito, 
da dinastia, ou mesmo da nao. No passam assim de inverdades. Sentimentos como estes no podem tolerar quaisquer afrontas.
         A vida sexual das crianas naturalmente  diferente da dos adultos. A funo sexual, desde seus primrdios at a forma definitiva na qual nos  to familiar, 
passa por um complicado processo de desenvolvimento. Desenvolve-se juntamente, a partir de numerosos instintos componentes, com diferentes finalidades e passa por 
vrias fases de organizao at que finalmente entra a servio da reproduo. Nem todos os instintos componentes so igualmente teis para o resultado final; devem 
ser desviados, remodelados e em parte suprimidos. Tal curso de desenvolvimento de grande alcance nem sempre  percorrido sem uma lacuna; ocorrem inibies no seu 
desenvolvimento, fixaes parciais nas primeiras fases de desenvolvimento. Se depoissurgirem obstculos ao exerccio da funo sexual, o anseio sexual - a libido, 
como o denominamos -  capaz de retornar a esses pontos mais antigos de fixao. O estado da sexualidade das crianas e de suas transformaes at a maturidade tambm 
nos deu a chave de uma compreenso do que se conhece como as perverses sexuais, que as pessoas sempre costumavam descrever com todos os sinais indispensveis de 
repulsa, mas cuja origem jamais foram capazes de explicar. Todo o tpico  de interesse incomum, mas para as finalidades de nossa conversa no faz muito sentido 
dizer-lhe mais a respeito do mesmo. A fim de nos orientarmos nele, carecemos de conhecimentos anatmicos e fisiolgicos, no podendo todos eles, infelizmente, ser 
adquiridos em escolas de medicina. Mas uma familiaridade com a histria da civilizao e com a mitologia  igualmente indispensvel.
         'Depois de tudo isto, ainda no posso formar um quadro da vida sexual das crianas.'
         Ento abordarei ainda mais o assunto; seja como for, no me  fcil afastar-me dele. Dir-lhe-ei, ento, que o fato mais notvel sobre a vida sexual da crianas, 
segundo me parece, passa por todo seu desenvolvimento mais amplo nos cinco primeiros anos de vida. A partir desse ponto at a puberdade estende-se o que se conhece 
como perodo de latncia. Durante ele a sexualidade normalmente no avana mais; pelo contrrio, os anseios sexuais diminuem de vigor e so abandonadas e esquecidas 
muitas coisas que a criana fazia e conhecia. Nesse perodo da vida, depois que a primeira eflorescncia da sexualidade feneceu, surgem atitudes do ego como a vergonha, 
a repulsa e a moralidade, que esto destinadas a fazer frente  tempestade ulterior da puberdade e a alicerar o caminho dos desejos sexuais que se vo despertando. 
Esse 'desencadeamento bifsico', como  denominado, da vida sexual muito tem a ver com a gnese das doenas neurticas. Parece ocorrer somente nos seres humanos, 
e talvez seja um dos determinantes do privilgio humano de tornar-se neurtico. A pr-histria da vida sexual foi to desprezada antes da psicanlise como, em outro 
setor, os antecedentes da vida mental consciente. O senhor com razo suspeitar de que os dois esto intimamente ligados.
         H muito a dizer, com relao ao que nossas expectativas no nos prepararam, sobre o contedo, manifestaes e realizaes desse perodo inicial da sexualidade. 
Por exemplo, o senhor sem dvida ficar surpreendido em saber como amide meninos de pouca idade tm medo de ser devoradospelo pai. (E talvez tambm se surpreenda 
por eu incluir esse medo entre os fenmenos da vida sexual.) Mas gostaria de lembrar-lhe o conto mitolgico, do qual  possvel que ainda se recorde dos seus dias 
de escola, de como o deus Cronos engoliu os filhos. Como isto lhe deve ter soado estranho quando o ouviu pela primeira vez! Mas suponho que nenhum de ns pensou 
nisto naquela poca. Hoje podemos tambm recordar grande nmero de contos de fadas nos quais aparece algum animal voraz como um lobo, e o reconheceremos como um 
disfarce do pai. Esta  a oportunidade de assegurar-lhe que foi somente atravs do conhecimento da sexualidade infantil que se tornou possvel compreender a mitologia 
e o mundo dos contos de fadas. Aqui ento algo foi alcanado como um subproduto de estudos analticos.
         O senhor ficar no menos surpreendido em saber que as crianas do sexo masculino sofrem do medo de ser roubadas do seu rgo sexual pelo pai, de modo que 
esse medo de ser castrado exerce poderosssima influncia sobre o desenvolvimento do seu carter e na deciso do rumo a ser seguido por sua sexualidade. E mais uma 
vez aqui a mitologia poder dar-lhe a coragem de crer na psicanlise. O mesmo Cronos que devorou os filhos tambm emasculou seu pai Uranos, e depois ele prprio 
foi emasculado como vingana por seu filho Zeus, que fora salvo pela astcia de sua me. Se o senhor se tiver sentido inclinado a supor que tudo o que a psicanlise 
informa sobre a sexualidade inicial das crianas provm da imaginao perturbada dos analistas, deve pelo menos admitir que sua imaginao criou o mesmo produto 
que as atividades imaginativas do homem primitivo, cujos mitos e contos de fadas so o precipitado. A alternativa mais amvel, e provavelmente tambm o ponto de 
vista mais pertinente, seria que na vida mental das crianas, hoje em dia, podemos ainda detectar os mesmos fatores arcaicos que em geral outrora dominavam nos dias 
primevos da civilizao humana. Em seu desenvolvimento mental, a criana estaria repetindo a histria de sua raa de uma forma abreviada, do mesmo modo como a embriologia 
de h muito reconheceu ser este o caso do desenvolvimento somtico.
         Outra caracterstica da sexualidade infantil inicial  que o rgo sexual feminino propriamente dito ainda no desempenha nela qualquer papel: a criana 
ainda no o descobriu. A nfase recai inteiramente no rgo masculino, todo o interesse da criana est dirigido para a questo de se ele se acha presente ou no. 
Sabemos menos acerca da vida sexual de meninas do que de meninos. Mas no  preciso envergonharmo-nos dessa distino; afinal de contas, a vida sexual das mulheres 
adultas  um 'continente negro' paraa psicologia. Mas aprendemos que as meninas sentem profundamente falta de um rgo sexual que seja igual em valor ao masculino; 
elas se consideram por causa disso inferiores, e essa 'inveja do pnis'  a origem de todo um grande nmero de reaes femininas caractersticas.
         Tambm  caracterstico das crianas que suas duas necessidades excretrias sejam catexizadas [carregadas] de interesse sexual, que  mais uma vez obliterada 
na prtica de fazer chistes. Para ns pode parecer um fato desagradvel, mas leva muito tempo para que as crianas desenvolvam sentimentos de repugnncia. Isto no 
 discutido nem mesmo por pessoas que de outra forma insistem sobre a pureza serfica da mente da criana.
         Nada, contudo, merece mais ateno do que o fato de as crianas regularmente dirigirem seus desejos sexuais para os seus parentes mais prximos - em primeiro 
lugar, portanto, para o pai e a me, e depois para seus irmos e irms. O primeiro objeto do amor de um menino  sua me, e de uma menina seu pai (exceto at onde 
uma disposio bissexual inata favorece a presena simultnea da atitude contrria). Sente-se o outro genitor como um rival perturbador, e no infreqentemente  
encarado com forte hostilidade. O senhor deve compreender-me bem. O que quero dizer no  que a criana deseja ser tratada por seu genitor predileto simplesmente 
com a espcie de afeio que ns adultos gostamos de considerar como a essncia da relao pai-filho. No, a anlise no nos deixa dvida alguma de que os desejos 
da criana se estendem, alm de tal afeio, a tudo que compreendemos por satisfao sensual - at onde, vale dizer, o permitem os poderes de imaginao da criana. 
 fcil ver que a criana jamais adivinha os fatos reais das relaes sexuais; ela os substitui por outras idias oriundas de sua prpria experincia e sentimentos. 
Em geral seus desejos culminam na inteno de dar  luz ou, de alguma maneira indefinvel, de procriar um beb. Tambm os meninos, em sua ignorncia, no se excluem 
do desejo de dar  luz uma criana. Damos a toda essa estrutura mental a denominao de 'complexo de dipo', segundo a conhecida lenda grega. Com o trmino do perodo 
sexual inicial ele deve normalmente ser abandonado, deve desintegrar-se radicalmente e ser transformado, estando os resultados dessa transformao destinados a importantes 
funes na vida mental ulterior. Mas em geral isso no se efetua de maneira bastante radical, caso em que a puberdade acarreta uma revivescncia do complexo, que 
pode ter graves conseqncias.
         Estou surpreendido por o senhor ainda estar calado. Isto dificilmente quer dizer que consente. - Ao afirmar que a primeira escolha de uma criana , para 
empregar o termo tcnico, uma escolha incestuosa, a anlise sem dvida mais uma vez fere os sentimentos mais sagrados da humanidade, epode muito bem estar preparada 
para uma quantidade correspondente de descrena, contradio e ataque. E estes ela tem recebido com abundncia. Nada a tem danificado mais na abalizada opinio dos 
seus contemporneos do que sua hiptese do complexo de dipo como uma estrutura universalmente vinculada ao destino humano. O mito grego, incidentalmente, deve ter 
tido o mesmo significado; mas a maioria dos homens hoje em dia, eruditos igualmente, prefere crer que a Natureza estabeleceu em ns uma averso inata como salvaguarda 
contra a possibilidade de incesto.
         Mas vamos em primeiro lugar convocar a histria em nosso auxlio. Quando Caio Jlio Csar aportou no Egito, encontrou a jovem rainha Clepatra (que logo 
iria tornar-se to importante para ele) casada com o irmo dela ainda mais jovem, Ptolomeu. Numa dinastia egpcia nada havia de peculiar nisso; os Ptolomeus, que 
eram de origem grega, haviam simplesmente continuado com o costume que fora praticado por seus antecessores, os antigos faras, por alguns milhares de anos. Isto, 
todavia, era meramente um incesto entre irmo e irm, que mesmo na poca atual no  julgado to rigorosamente. Voltemos assim  nossa principal testemunha em assuntos 
concernentes aos tempos primevos - a mitologia. Ela nos informa que os mitos de cada povo, e no somente dos gregos, esto repletos de casos amorosos entre pais 
e filhas e mesmo entre mes e filhos. A cosmologia, no menos que a genealogia de raas reais, est fundamentada no incesto. Para que finalidade o senhor supe que 
essas lendas foram criadas? Para estigmatizar deuses e reis como criminosos? para imputar-lhes a repulsa da raa humana? De preferncia, por certo, porque os desejos 
incestuosos constituem um legado humano primordial e jamais foram plenamente superados, de modo que sua realizao ainda era concedida aos deuses e aos seus descendentes 
quando a maioria dos seres humanos comuns j era obrigada a renunciar a tais desejos. Est em completa harmonia com essas lies da histria e da mitologia o fato 
de encontrarmos desejos ainda presentes a atuantes na infncia do indivduo.
         'Eu poderia considerar erroneamente que o senhor tivesse tentado ocultar de mim tudo isso sobre a sexualidade infantil. Parece-me muitssimo interessante, 
particularmente por causa de sua ligao com a pr-histria humana.'
         Temia que pudesse afastar-nos para muito longe de nossa finalidade. Mas talvez, afinal de contas, seja til.
         'Agora me diga, ento, que certeza pode o senhor oferecer para os seus achados analticos sobre a vida sexual das crianas? Sua convico baseia-se unicamente 
em pontos de concordncia com a mitologia e a histria?'Oh, de modo algum. Ela tem como base a observao direta. O que aconteceu foi isto. Tnhamos comeado por 
inferir o contedo da infncia sexual a partir da anlise de adultos - isto , cerca de vinte a quarenta anos depois. Posteriormente, procedemos a anlises sobre 
as prprias crianas, e no deixou de ser uma grande vitria quando assim fomos capazes de confirmar nelas tudo que tnhamos podido adivinhar, apesar da quantidade 
do que havia ficado encoberto e distorcido no intervalo.
         'O qu? O senhor submeteu criancinhas  anlise? crianas com menos de seis anos? isso pode ser feito? E no  muito arriscado para as crianas?
         Pode muito bem ser feito. Quase no se pode acreditar no que se passa numa criana de quatro ou cinco anos de idade. As crianas tm uma mente muito ativa 
nessa idade; seu perodo sexual prematuro  tambm um perodo de florescimento intelectual. Tenho a impresso de que com o incio do perodo de latncia elas se 
tornam mentalmente inibidas tambm, mais estpidas. Tambm a partir dessa poca muitas crianas perdem seu encanto fsico. E, no tocante ao dano causado pela anlise 
prematura, posso informar-lhe que a primeira criana na qual se aventurou o primeiro experimento, h quase vinte anos, desde ento se desenvolveu num jovem saudvel 
e capaz, que atravessou a puberdade de maneira irrepreensvel, apesar de alguns graves traumas psquicos. Talvez seja de se esperar que as coisas no sejam piores 
para as outras 'vtimas' da anlise prematura. Muito daquilo que  de interesse est ligado a essas anlises infantis;  possvel que no futuro elas se tornem ainda 
mais importantes. Do ponto de vista da teoria, seu valor  indubitvel, proporcionando informaes destitudas de ambigidade sobre problemas que permanecem insolveis 
nas anlises de adultos; e dessa forma protegem o analista de erros que poderiam ter para ele conseqncias graves. Surpreendemos os fatores que levam  formao 
de uma neurose enquanto se acham realmente em ao e no podemos ento confundi-los. No interesse da criana,  verdade, a influncia analtica deve ser combinada 
com medidas educacionais. A tcnica ainda tem de receber sua confirmao. Mas o interesse prtico  despertado pela observao de que grande nmero de nossas crianas 
passa por uma fase claramente neurtica no curso de seu desenvolvimento. Visto termos aprendido a observar com maior agudeza, somos tentados a afirmar que a neurose 
nas crianas no  a exceo mas a regra, como se ela quase no pudesse ser evitada na trilha desde a disposio inata da infncia at a sociedade civilizada. Na 
maioria dos casos essa fase neurtica da infncia  superada espontaneamente. Mas ser que ela no pode tambm regularmente deixar seus vestgios no adulto saudvel 
comum? Por outro lado, naqueles que se tornam neurticos depois, nunca deixamos deencontrar elos com a doena na infncia, embora na poca no tenha sido necessrio 
ser muito observvel. De forma precisamente anloga os mdicos hoje, creio, sustentam a opinio de que cada um de ns passou por uma investida de tuberculose em 
sua infncia.  verdade que no caso das neuroses o fator de imunizao no atua, mas somente o fator de predisposio.
         Voltemos a sua pergunta sobre a certeza. Ficamos de maneira geral bem convictos, pelo exame direto das crianas, de que tnhamos razo em nossa interpretao 
daquilo que os adultos nos relataram sobre sua infncia. Em grande nmero de casos, contudo, outra espcie de confirmao tornou-se possvel. O material da anlise 
de alguns pacientes permitiu-nos reconstruir certos acontecimentos externos, certos eventos impressionantes de seus anos de infncia, dos quais no conservaram qualquer 
lembrana consciente. Acidentes felizes, informaes de pais ou de amas ofereceram depois provas irrefutveis de que essas ocorrncias realmente se verificaram. 
Isto, naturalmente, no aconteceu com freqncia, mas quando se verificou, foi com esmagadora impresso. A reconstruo correta, o senhor precisa saber, de tais 
experincias esquecidas da infncia tem sempre grande efeito teraputico, permitam ou no confirmao objetiva. Esses eventos devem sua importncia, naturalmente, 
ao fato de terem ocorrido numa idade to prematura, numa poca em que podiam ainda produzir um efeito traumtico sobre o ego frgil.
         'E que espcie de eventos podem ser esses, que tm de ser descobertos pela anlise?'
         De vrias espcies. Primeiramente, impresses capazes de influenciar permanentemente a vida sexual que desabrocha da criana - tais como observaes de 
atividades sexuais entre adultos, ou experincias sexuais suas com um adulto ou outra criana (fatos que no so raros); ou, ainda, o ouvir por acaso conversas, 
compreendidas na poca ou retrospectivamente, das quais a criana pensou poder tirar concluses sobre assuntos misteriosos ou fantsticos; ou, ainda, observaes 
ou aes da prpria criana que do prova de atitudes significativas de efeito ou inimizade para com outras pessoas.  de especial importncia numa anlise induzir 
uma lembrana da atividade sexual esquecida do prprio paciente como criana e tambm da interveno dos adultos que acabaram com a mesma.
         'Isso me d a oportunidade de trazer  baila uma pergunta que h muito desejava formular. Qual , ento, a natureza dessa "atividade sexual" das crianas 
numa tenra idade, que, como o senhor diz, foi desprezada antes dos dias da anlise?'
         Constitui um fato estranho que a parte regular e essencial dessa atividade sexual no tenha sido desprezada. Ou antes, ela no  de forma alguma estranha, 
pois foi impossvel desprez-la. Os impulsos sexuais das crianas encontram suas principais expresses na autogratificao pela frico de seus prprio rgos genitais, 
ou, mais precisamente, da poro masculina deles. A distribuio extraordinariamente ampla dessa forma de 'travessura' infantil sempre foi conhecida dos adultos, 
e foi considerada como grave pecado e severamente punida. Mas por favor no me pergunte como as pessoas podiam reconciliar essas observaes das inclinaes imorais 
das crianas - porque as crianas o fazem, como elas prprias dizem, porque lhes d prazer - com a teoria de sua pureza e no-sensualidade inatas. O senhor tem de 
fazer com que nossos adversrios solucionem esse enigma. Ns temos um problema mais importante diante de ns. Que atitude devemos adotar em relao  atividade sexual 
da primeira infncia? Sabemos a responsabilidade na qual estamos incorrendo se a suprimirmos; mas no nos aventuramos a deix-la seguir seu curso sem restrio. 
Entre as raas num baixo nvel de civilizao, e entre as camadas inferiores das raas civilizadas, a sexualidade das crianas parece ter recebido livre rdea. Isso 
provavelmente oferece poderosa proteo contra o subseqente desenvolvimento de neuroses no indivduo. Mas isso ao mesmo tempo no envolve uma extraordinria perda 
de aptido para realizaes culturais? Muito h para sugerir que aqui estamos diante de uma nova Sila e Carbdis.
         Mas se os interesses que so estimulados pelo estudo da vida sexual dos neurticos criam uma atmosfera favorvel ao estmulo da lascvia - isso  uma questo 
que eu me aventuro a deixar ao seu prprio julgamento.
         V
         'Creio que compreendo sua finalidade. O senhor deseja demonstrar-me que espcie de conhecimento se faz necessrio a fim de praticar a anlise, de modo que 
eu possa ser capaz de julgar se somente os mdicos devem ter o direito de pratic-la. Bem, at agora surgiu muito pouco que tem a ver com a medicina: muito de psicologia 
e um pouco de biologia ou de cincia sexual. Mas talvez no tenhamos chegado ao fim?'
         Certamente no. Ainda existem lacunas a ser preenchidas. Posso fazer um pedido? Quer descrever-me como o senhor imagina um tratamento analtico? - da mesma 
forma como se o senhor mesmo tivesse de proceder a um.
         'Uma bela idia, sem dvida! No, no tenho a menor inteno de resolver nossa controvrsia por uma experincia dessa espcie. Mas apenas para ser agradvel, 
farei o que o senhor pede - a responsabilidade ser sua. Muito bem. Suporei que o paciente me procura e se queixa dos seus males. Prometo-lhe recuperao ou melhoria 
se ele seguir minhas instrues. Estimulo-o a dizer-me com toda franqueza tudo que ele sabe e que lhe ocorre, e que no se desvie dessa inteno mesmo se algumas 
coisas lhe sejam desagradveis de dizer. Assimilei a regra de maneira apropriada?'
         Assimilou. O senhor deve acrescentar: 'mesmo se o que lhe ocorrer lhe parecer destitudo de importncia ou de sentido.'
         'Acrescentarei isso. Logo ele comea a falar e eu a ouvir. E ento? Infiro do que ele me diz a espcie de impresses, experincias e desejos que reprimiu 
porque se defrontou com eles numa poca em que seu ego ainda estava fraco e tinha medo deles em vez de enfrent-los. Quando ele tiver aprendido isso de mim, voltar 
s antigas situaes e com minha ajuda ele se sai melhor. As limitaes s quais seu ego estava vinculado ento desaparecem, e ele fica curado. Est certo?'
         Bravo! bravo! vejo mais uma vez que as pessoas sero capazes de acusar-me de eu haver transformado num analista algum que no  mdico. O senhor apreendeu 
tudo de maneira admirvel.
         'Nada mais fiz seno repetir o que ouvi do senhor - como se fosse algo que eu tivesse aprendido de cor. Seja como for, no posso formar quadro algum de 
como deva faz-lo e estou inteiramente desorientado para compreender por que uma tarefa como essa deva levar uma hora por dia durante tantos meses. Afinal de contas, 
uma pessoa comum em geral no teve tantas experincias assim, o que foi reprimido na infncia  provavelmente o mesmo em cada caso.'Quando realmente se pratica a 
anlise aprendem-se as espcies de coisas alm disso. Por exemplo: o senhor no acharia absolutamente que fosse um assunto simples deduzir do que o paciente lhe 
conta as experincias que ele esqueceu e os impulsos instituais que reprimiu. Ele diz algo que no comeo significa to pouco para o senhor como para ele. O senhor 
ter de resolver contemplar o material que ele lhe entrega em obedincia  regra de uma maneira bem especial: como se fosse minrio, talvez, do qual seu teor de 
metal precioso tem de ser extrado por um processo especfico. Estar-se- tambm preparado para trabalhar muitas toneladas de minrio que podem conter o pouco material 
valioso que se procura. Aqui devemos ter um primeiro motivo do prolongado carter do tratamento.
         'Mas como se trabalha com essa matria-prima - para manter seu smile?'
         Presumindo-se que as observaes e associaes do paciente so apenas distores do que se procura - aluses, por assim dizer, das quais se tem de adivinhar 
o que se acha oculto detrs delas. Numa palavra, esse material, quer consista em lembranas, associaes ou sonhos, tem primeiramente de ser interpretado. O senhor 
far isso, naturalmente, observando as expectativas que formou quando ouvia, graas ao seu conhecimento especial.
         "'Interpretar!" Que palavra srdida! No gosto do seu som; ele me rouba toda a certeza. Se tudo depender de minha interpretao, quem pode garantir que 
eu interpreto certo? Assim, afinal de contas, tudo  deixado ao meu capricho?'
         Um momento! As coisas no so assim to ms. Por que o senhor escolhe excluir seus prprios processos mentais da norma da lei que reconhece nos de outras 
pessoas? Quando o senhor atingiu certo grau de autodisciplina e possui certo conhecimento  sua disposio, suas interpretaes sero independentes de suas caractersticas 
pessoais e atingiro o alvo. No estou afirmando que a personalidade do analista seja uma questo de indiferena para essa parte da tarefa dele. Uma espcie de agudeza 
em ouvir o que est inconsciente e reprimido, que no est na posse igualmente de todos, tem seu papel a desempenhar. E aqui, antes de tudo, somos levados  obrigao 
do analista de tornar-se capaz, por uma profunda anlise dele prprio, da recepo sem preconceitos do material analtico. Algo,  verdade, ainda permanece de fora: 
alguma coisa comparvel  'equao pessoal' nas observaes astronmicas. Esse fator individual sempre desempenhar um papel mais significativo na psicanlise do 
que alhures. Uma pessoa anormal pode tornar-se um mdico cuidadoso; como analista ele ser prejudicado pela sua prpria anormalidade de ver os quadros da vida mental 
no distorcidos. Vistoser impossvel demonstrar a qualquer um sua prpria anormalidade, o consenso geral em questo de psicologia profunda ser particularmente difcil 
de ser alcanado. Alguns psiclogos, na verdade, julgam que ele  inteiramente impossvel e que todo tolo tem o igual direito de externar sua estultcie como sabedoria. 
Confesso que sou mais otimista a respeito disso. Afinal de contas, nossas experincias revelam que acordos razoavelmente satisfatrios podem ser alcanados mesmo 
na psicologia. Todo campo de pesquisa tem sua dificuldade particular que devemos tentar eliminar. E, alm disso, mesmo na arte interpretativa da anlise muito existe 
que pode ser aprendido como qualquer outro material de estudo: por exemplo, em relao com o mtodo peculiar de representao indireta atravs de smbolos.
         'Bem, no tenho mais qualquer desejo de empreender um tratamento analtico mesmo na minha imaginao. Quem pode dizer quais as outras surpresas que eu poderia 
encontrar?'
         O senhor tem toda a razo em abandonar a idia. Est vendo como se fariam necessrias muito mais formao e prtica. Quando tiver achado uma interpretao 
certa, encontra-se  frente outra tarefa. O senhor tem de esperar o momento exato no qual pode comunicar sua interpretao ao paciente com alguma perspectiva de 
xito.
         'Como se pode sempre reconhecer o momento certo?'
         Isto  uma questo de tato, que pode tornar-se mais requintada com a experincia. O senhor estar cometendo grave erro se, num esforo talvez de encurtar 
a anlise, lanar suas interpretaes na cabea do paciente logo que as houver encontrado. Dessa maneira o senhor obter dele expresses de resistncia, rejeio 
e indignao, mas no permitir que seu ego domine seu material reprimido. A frmula : esperar at que o paciente tenha chegado to perto do material reprimido 
que ele tenha apenas mais alguns passos na dianteira da interpretao que o senhor propuser.
         'Creio que nunca aprenderia a fazer isso. E se adotar essas precaues ao fazer minha interpretao, o que vem depois?'
         Ser ento seu destino fazer uma descoberta para a qual no estava preparado.
         'E o que pode ser isso?'
         Que o senhor se enganou com seu paciente; que no pode contar no mnimo com a colaborao e a condescendncia dele; que ele est pronto a colocar toda dificuldade 
possvel em seu trabalho comum - numa palavra, que ele no tem absolutamente qualquer desejo de ficar curado.
         'Ora veja s! Isso  a coisa mais louca que o senhor j me contou. E tambm no acredito nela. O paciente que est sofrendo tanto, que se queixato comovedoramente 
de seu males, que est fazendo um sacrifcio to grande para o tratamento - o senhor diz que ele no tem qualquer desejo de ficar curado! Mas naturalmente o senhor 
no est dando um significado exato s suas palavras.'
         Acalme-se! Realmente confirmo o que digo. O que falei foi a verdade - no toda a verdade, sem dvida, mas uma parte muito digna de nota dela. O paciente 
deseja ser curado - mas ele tambm deseja no ser. Seu ego perdeu sua unidade, e por esse motivo sua vontade tambm no tem qualquer unidade. Se isto no fosse assim, 
ele no seria nenhum neurtico.
         "'Fosse eu sagaz, e no seria o Tell!"
         Os derivados do que  reprimido irromperam em seu ego e ali se estabeleceram; e o ego tem to pouco controle sobre as tendncias daquela fonte quanto sobre 
o que  realmente reprimido, e em geral nada sabe a respeito delas. Esses pacientes, na realidade, so de uma natureza peculiar e criam dificuldades com as quais 
no estamos habituados a lidar. Todas as nossas instituies sociais so estruturadas para pessoas com um ego unido e normal, que se pode classificar de bom ou mau, 
que ou cumpre sua funo ou  inteiramente eliminado por uma influncia esmagadora. Da a alternativa jurdica: responsvel ou irresponsvel. Nenhuma dessas distines 
se aplica a neurticos. Deve-se admitir que h dificuldade em adaptar as exigncias sociais a sua condio psicolgica. Isto foi experimentado em larga escala durante 
a ltima guerra. Os neurticos que burlavam o servio militar eram simuladores ou no? Eram e no eram. Se eram tratados como simuladores e sua doena era tornada 
altamente incmoda, eles se recuperavam; se depois de serem ostensivamente restabelecidos eram enviados de volta s foras armadas, imediatamente se refugiavam mais 
uma vez na doena. Nada podia ser feito com eles. E o mesmo se aplica aos neurticos na vida civil. Eles se queixam da doena mas a exploram com todas as suas foras; 
e se algum tenta afast-la deles, defendem-na como a proverbial leoa com seus filhotes. Contudo, no faria sentido algum recrimin-los por essa contradio.
         'O melhor plano, porm, no seria deixar de administrar a esses doentes tratamento, qualquer que fosse ele, mas deix-los entregues  sua sorte? No penso 
que valha a pena despender esforos to grandes com cada um deles como o senhor me leva a supor que faz.'
         No posso aprovar sua sugesto. Indubitavelmente constitui uma atitude mais adequada aceitar as complicaes da vida de preferncia a lutar contra elas. 
Talvez seja verdade que nem todo neurtico que tratamos valha o sacrifcio de uma anlise, mas existem alguns indivduos muito valiosostambm entre eles. Devemos 
fixar ns mesmos a meta de que o menor nmero possvel de seres humanos ingresse na vida civilizada com tal aparelho mental defeituoso. E para essa finalidade devemos 
reunir muita experincia e aprender a compreender muitas coisas. Toda anlise pode ser instrutiva e proporcionar-nos um acervo de nova compreenso inteiramente  
parte do valor pessoal do paciente individual.
         'Mas se um impulso volitivo formou-se no paciente que deseja reter a doena, o primeiro deve ter suas razes e motivos e ser capaz, de alguma forma, de 
justificar-se. Mas  impossvel compreender por que algum deseja estar doente ou o que poder obter disso.'
         Oh, isso no  to difcil de compreender. Penso nos neurticos de guerra, que no tm de servir precisamente porque so doentes. Na vida civil a doena 
pode ser utilizada como uma tela para encobrir a incompetncia na profisso de algum ou na concorrncia com outras pessoas, enquanto na famlia pode servir de meio 
para sacrificar os outros membros e extorquir provas do amor destes, ou para impor a vontade sobre eles. Tudo isso se acha razoavelmente perto da superfcie; ns 
o resumimos na expresso 'ganho proveniente da doena'.  curioso, contudo, que o paciente - isto , seu ego - nada saiba de toda a concatenao desses motivos e 
das aes que eles envolvem. Combate-se a influncia dessas tendncias compelindo-se o ego a tomar conhecimento delas. Mas h outros motivos, que se acham situados 
ainda mais profundamente, para que algum se apegue  doena, com os quais no  to fcil lidar. Mas esses no podem ser compreendidos sem uma nova viagem pela 
teoria psicolgica.
         'Queira continuar. Um pouco mais de teoria no far diferena alguma agora.'
         Quando lhe descrevi a relao entre o ego e o id, suprimi uma parte importante da teoria do aparelho mental, pois fomos obrigados a presumir que dentro 
do prprio ego uma instncia especfica tornou-se diferenciada, sendo ela designada como superego. Esse superego ocupa uma posio especial entre o ego e o id. Ele 
pertence ao ego e partilha do seu alto grau de organizao psicolgica; mas tem uma vinculao particularmente ntima com o id.  de fato um precipitado das primeiras 
catexias do objeto do id e  o herdeiro do complexo de dipo aps o seu falecimento. Esse superego pode confrontar-se com o ego e trat-lo como um objeto; e ele 
muitas vezes o trata com grande aspereza.  to importante para o ego continuar em boas relaes com o superego como com o id. Desavenas entre o ego e o superego 
so de grande importncia na vida mental. O senhor j ter adivinhado que o superego  o veculo do fenmeno que chamamos de conscincia. A sademental muito depende 
de o superego ser normalmente desenvolvido - isto , de haver-se tornado suficientemente impessoal. E  isso precisamente o que no ocorre nos neurticos cujo complexo 
de dipo no passou pelo processo correto de transformao. O superego deles ainda se confronta com seu ego como um pai rigoroso se defronta com um filho: e sua 
moralidade atua de maneira primitiva devido ao ego ser punido pelo superego. A doena  empregada como um instrumento para essa 'autopunio', e os neurticos tm 
de comportar-se como se fossem governados por um sentimento de culpa que, a fim de ser satisfeito, precisa ser punido pela doena.
         'Isso realmente parece muito misterioso. A coisa mais estranha a respeito disso  que aparentemente mesmo essa poderosa fora da conscincia do paciente 
no alcana sua conscincia.'
         Sim, estamos apenas comeando a apreciar a significao de todas essas circunstncias importantes. Eis por que minha descrio estava destinada a ser to 
obscura. Mas agora posso continuar. Descrevemos todas as foras que se opem ao trabalho de recuperao como sendo as 'resistncias' do paciente. O ganho proveniente 
da doena  uma dessas resistncias. O 'sentimento de culpa inconsciente' representa a resistncia do superego;  o fator mais poderoso, e o mais temido por ns. 
Encontramos ainda outras resistncias durante o tratamento. Se o ego durante o perodo inicial estabeleceu uma represso por medo, ento este persiste e se manifesta 
como uma resistncia se o ego se aproxima do material reprimido. E finalmente, como o senhor pode imaginar,  provvel que haja dificuldades se se esperar que um 
processo instintual que tenha seguido um caminho especfico durante dcadas de sbito siga uma nova trilha que acabe de ser aberta para ele. Isso poderia ser denominado 
de resistncia do id. A luta contra todas essas resistncias constitui nosso principal trabalho durante um tratamento analtico; a tarefa de fazer interpretaes 
no  nada em comparao com ela. Mas como resultado dessa luta e da superao das resistncias, o ego do paciente fica to alterado e fortalecido que podemos antecipar 
com tranqilidade seu futuro comportamento quando o tratamento estiver terminado. Por outro lado, pode-se compreender agora por que so necessrios tratamentos to 
prolongados. A extenso do caminho de desenvolvimento e a riqueza do material no so os fatores decisivos.  mais uma questo de o caminho estar desimpedido. Um 
exrcito pode ficar retido durante semanas numa extenso de terreno que na poca de paz um trem expresso percorre em poucas horas - se o exrcito tiver de superar 
ali a resistncia do inimigo. Essas batalhas exigem tempo tambm na vida mental. Infelizmente sou obrigado a dizer-lhe que todos os esforos no sentido de acelerar 
o tratamento analtico de formaaprecivel at agora malograram. A melhor maneira de encurt-lo parece ser lev-lo a efeito de acordo com as regras.
         'Se jamais senti desejo de caar furtivamente em seu parque de caa e tentar analisar algum, o que o senhor me diz sobre as resistncias me teria curado 
disso. Mas o que dizer da influncia pessoal especial que afinal de contas o senhor prprio admitiu? Isto no entra em ao contra as resistncias?'
         Foi bom o senhor me perguntar sobre isso. Essa influncia pessoal  a nossa ama dinmica mais poderosa.  o novo elemento que introduzimos na situao e 
por meio do qual a tornamos fluida. O teor intelectual de nossas explicaes no pode faz-lo, pois o paciente, que partilha de todos os preconceitos do mundo que 
o cerca, precisa acreditar em ns to pouco quanto o fazem os nossos crticos cientficos. O neurtico pe-se a trabalhar porque tem f no analista e neste cr porque 
adquire uma atitude emocional especial para com a figura do analista. Tambm as crianas s acreditam nas pessoas s quais esto ligadas. J lhe disse,ver em [[1]] 
que uso fazemos dessa influncia 'sugestiva' particularmente grande. No para suprimir os sintomas - isso distingue o mtodo analtico de outros processos psicoteraputicos 
-, mas como uma fora motora a fim de induzir o paciente a superar suas resistncias.
         'Muito bem, e se isso suceder, tudo ento no correr bem?'
         Sim, deve. Mas surge uma complicao inesperada. Talvez constitua a maior surpresa do analista constatar que a relao emocional que o paciente adota para 
com ele  de natureza bem peculiar. O primeiro mdico que tentou uma anlise - no fui eu - defrontou-se com esse fenmeno e no soube o que fazer dele, pois essa 
relao emocional, para express-lo de maneira simples,  da natureza do apaixonar-se. Estranho, no ? Especialmente quando se leva em conta que o analista nada 
faz para provoc-la mas, pelo contrrio, antes se mantm  distncia do paciente, falando humanamente, e o cerca de certo grau de reserva - quando se aprende, alm 
disso, que essa estranha relao de amor despreza tudo o mais que seja realmente propcio e toda variao quanto a atrao pessoal, idade, sexo ou classe. Esse amor 
 de natureza realmente compulsiva. No que essa caracterstica precise estar ausente do apaixonar-se espontneo. Como se sabe, o contrrio ocorre freqentemente. 
Mas na situao analtica surge com inteira regularidade sem haver qualquer explanao racional para isso. Ter-se-ia pensado que a relao do paciente com o analista 
nada mais exigia seno certa dose de respeito, confiana, gratido e simpatia humana. Em vez disso, existe esse apaixonar-se, que, ele prprio, d a impresso de 
ser um fenmeno patolgico.'Eu teria pensado da mesma maneira que isso seria favorvel s suas finalidades analticas. Se algum est apaixonado, ele  dcil, e 
tudo far no mundo para o bem de outra pessoa.'
         Sim.  favorvel para comear. Mas quando esse apaixonar-se se tornou mais profundo, toda a sua natureza vem  luz, grande parte da qual  incompatvel 
com a tarefa de anlise. O amor do paciente no se satisfaz com ser obediente; torna-se exigente, exige satisfaes afetuosas e sensuais, exclusivismo, torna-se 
ciumento e revela cada vez mais claramente seu lado oposto, sua disposio de tornar-se hostil e vingativo se no puder alcanar seus fins. Ao mesmo tempo, como 
todo o apaixonar-se, expulsa todo o outro material mental; extingue o interesse pelo tratamento e recuperao - em suma, no pode haver dvida alguma de que tomou 
o lugar da neurose e que nosso trabalho teve o resultado de eliminar uma forma de doena por outra.
         'Isso realmente parece um caso perdido! O que pode ser feito quanto a isso? A anlise teria de ser abandonada. Mas se, como o senhor diz, a mesma coisa 
acontece em todos os casos, seja como for seria impossvel levar a efeito qualquer anlise.'
         Comearemos utilizando a situao a fim de aprendermos algo dela. O que aprendermos talvez poder ento ajudar-nos a domin-la. No constitui fato extremamente 
digno de nota que conseguimos transformar toda neurose, qualquer que seja seu contedo, numa condio de amor patolgico?
         Nossa convico de que uma parte da vida ertica que tenha sido anormalmente empregada se acha na base das neuroses deve ser inabalavelmente fortalecida 
por essa experincia. Com essa descoberta estamos mais uma vez numa posio firme e podemos aventurar-nos a tornar esse prprio amor objeto de anlise. E podemos 
fazer outra observao. O amor analtico no se manifesta em todos os casos to clara e ruidosamente como tentei descrev-lo. Por que no? Logo poderemos ver.  
medida que as facetas puramente sensuais e hostis do seu amor tentam revelar-se, a oposio do paciente a elas  despertada. Ele luta contra elas e tenta reprimi-las 
perante nossos prprios olhos. O paciente est repetindo com o analista, sob a forma de apaixonar-se, experincias mentais pelas quais j passou antes; ele transferiu 
para o analista atitudes mentais que estavam prontas nele e intimamente associadas com sua neurose. Ele tambm est repetindo diante dos nossos olhos suas antigas 
aes defensivas; ele gostaria mais de repetir em sua relao com o analista toda a histria daquele perodo esquecido de sua vida. Assim, o que ele nos est mostrando 
 o ncleo da histria ntima de sua vida: ele o est reproduzindo de forma tangvel, como se ele realmente estivesse acontecendo, em vez de recordar-se dele. Dessa 
maneira, o enigma do amortransferencial  solucionado e a anlise pode seguir seu caminho - com a ajuda da nova situao que lhe parecera uma grande ameaa.
         'Isso  muito engenhoso. E  to fcil convencer o paciente de que ele no est apaixonado, mas somente obrigado a levar  cena uma revivescncia de uma 
antiga pea?'
         Tudo agora depende disso. E toda a habilidade para lidar com a 'transferncia'  dedicada a ocasion-la. Como o senhor est vendo, as exigncias da tcnica 
analtica alcanam seu mximo nesse ponto. Aqui se podem cometer os erros mais graves ou os maiores xitos podem ser registrados. Seria estultcie tentar fugir s 
dificuldades suprimindo-se ou negligenciando-se a transferncia; qualquer outra coisa mais que se tivesse feito no tratamento no mereceria o nome de anlise. Despachar 
o paciente logo que as inconvenincias da sua neurose de transferncia surgem no seria mais sensato, e alm disso seria covardia. Seria como se algum houvesse 
invocado espritos e deles fugisse logo que aparecessem. Algumas vezes,  verdade, nada mais  possvel. Existem casos nos quais no podemos dominar a transferncia 
desencadeada e a anlise tem de ser interrompida; mas devemos pelo menos ter lutado com os espritos maus com o mximo de nossas foras. Ceder s exigncias da transferncia, 
atender aos desejos do paciente no sentido de satisfao afetuosa e sensual,  no s com justia proibido por consideraes morais como tambm  inteiramente ineficaz 
como um mtodo tcnico para alcanar a finalidade da anlise. Um neurtico no pode ser curado por lhe ser permitido reproduzir esteretipos incorretos e inconscientes 
que nele esto  mo. Se nos empenharmos em conciliaes com ele mediante a oferta de satisfaes parciais em troca de sua colaborao ulterior na anlise, devemos 
ter cuidado para no incidirmos na situao ridcula do clrigo que devia converter um agente de seguros enfermo. O doente continuou no convertido mas o clrigo 
despediu-se segurado. A nica sada possvel da situao de transferncia  remont-la ao passado do paciente, como ele realmente a experimentou ou como ele a imaginou 
atravs da atividade realizadora de desejos de sua imaginao. E isto exige do analista muita habilidade, pacincia, calma e abnegao prpria.
         'E onde o senhor supe que o neurtico experimentou o prottipo do seu amor transferencial?'
         Em sua infncia: em geral, em sua relao com um dos seus pais. O senhor deve lembrar-se da importncia que tivemos de atribuir a esses primeiros laos 
emocionais. Assim, aqui o crculo se fecha.'O senhor finalmente acabou? Estou-me sentindo um pouco perplexo com tudo o que ouvi do senhor. Queira dizer-me apenas 
mais uma coisa: como e onde se pode aprender o que  necessrio para praticar-se a anlise?'
         No momento existem dois institutos nos quais se ministra instruo sobre psicanlise. O primeiro foi fundado em Berlim pelo Dr. Max Eitingon, que  membro 
da Sociedade local. O segundo  mantido pela Sociedade Psicanaltica de Viena s suas prprias expensas e com considervel sacrifcio. O papel desempenhado pelas 
autoridades limita-se, no presente, s muitas dificuldades que antepem ao novo empreendimento. Um terceiro instituto de formao est sendo agora inaugurado em 
Londres pela Sociedade dessa cidade, sob a direo do Dr. Ernest Jones. Nesses institutos os prprios candidatos so submetidos  anlise, recebem instruo terica 
mediante conferncias sobre todos os assuntos que so importantes para eles, e desfrutam da superviso de analistas mais velhos e mais experimentados quando lhes 
 permitido fazer suas primeiras experincias com casos relativamente brandos. Calcula-se um perodo de cerca de dois anos para essa formao. Mesmo aps esse perodo, 
naturalmente, o candidato  apenas um principiante e no ainda um mestre. O que ainda se necessita deve ser adquirido pela prtica e por uma troca de idias nas 
sociedades psicanalticas nas quais membros jovens e velhos se renem. O preparo para a atividade analtica de modo algum  fcil e simples. O trabalho  rduo, 
grande a responsabilidade. Mas qualquer um que tenha sido analisado, que tenha dominado o que pode ser ensinado em nossos dias sobre a psicologia do inconsciente, 
que esteja familiarizado com a cincia da vida sexual, que tenha aprendido a delicada tcnica da psicanlise, a arte da interpretao, de combater resistncias e 
de lidar com a transferncia - qualquer um que tenha realizado tudo isso no  mais um leigo no campo da psicanlise. Ele  capaz de empreender o tratamento de perturbaes 
neurticas e ainda poder com o tempo alcanar nesse campo o que quer que se possa exigir dessa forma de terapia.
         VI
         'O senhor despendeu grande dose de esforo ao mostrar-me o que  a psicanlise e que espcie de conhecimento se faz necessrio a fim de pratic-la com certa 
perspectiva de xito. Muito bem. Ouvi-lo no pode ter-me causado mal algum. Mas no sei que influncia o senhor espera que suas explicaes tenham em meu julgamento. 
Vejo diante de mim um caso que nada tem de inusitado a esse respeito. As neuroses so uma espcie especfica de doena e a anlise  um mtodo especfico de trat-las 
- um ramo especializado da medicina. Constitui regra em outros casos, bem como para um mdico que tenha escolhido um ramo especial da medicina, no se satisfazer 
com a educao que  confirmada pelo seu diploma: particularmente se ele pretende fixar-se numa cidade razoavelmente grande, uma cidade que, somente ela, possa oferecer 
um meio de vida a especialistas. Qualquer um que deseje ser cirurgio tenta trabalhar por alguns anos numa clnica cirrgica, e de forma semelhante o mesmo se verifica 
com oculistas, laringologistas, e assim por diante - para no dizer nada de psiquiatras, que talvez jamais sejam capazes de afastar-se de uma instituio ou um sanatrio 
do Estado. E o mesmo acontecer no caso de psicanalistas: qualquer um que se resolva em favor desse novo ramo especializado da medicina, quando concludos seus estudos, 
far os dois anos de especializao que o senhor mencionou num instituto de formao, se realmente este exigir tanto tempo. Ele tambm compreender depois que lhe 
ser vantajoso manter contato com seus colegas numa sociedade psicanaltica, e tudo correr bem. No posso ver onde haja lugar nisso para a questo da anlise leiga.'
         Um mdico que faz o que o senhor prometeu em seu nome ser bem acolhido por todos ns. Quatro quintos daqueles que eu reconheo como meus alunos so, de 
qualquer maneira, mdicos. Mas permita-me ressaltar-lhe como as relaes de mdicos com a anlise se desenvolveram realmente e como provavelmente continuaro a desenvolver-se. 
Os mdicos no tm qualquer reivindicao histrica pela posse nica da anlise. Pelo contrrio, at recentemente fizemos face  mesma com tudo aquilo que pudesse 
prejudic-la, desde o ridculo mais frvolo  calnia mais grave. O senhor responder com razo que isso pertence ao passado e no precisa afetar o futuro. Concordo, 
mas temo que o futuro ser diferente do que o senhor previu.
         Permita-me dar  palavra 'charlato' o significado que ela deve ter em vez do significado jurdico. De acordo com a lei, charlato  qualquer um que trata 
pacientes sem possuir um diploma oficial que prove que ele  medico. Eu preferiria outra definio: charlato  todo aquele que efetua um tratamento sem possuir 
o conhecimento e a capacidade necessrios para tanto. Firmando-me nessa definio, aventuro-me a afirmar que - no somente nos pases europeus - os mdicos formam 
um contingente preponderante de charlates na anlise. Eles com grande freqncia praticam o tratamento analtico sem o terem aprendido e sem compreend-lo.
         De nada vale o senhor argumentar que isso  inconsciente e que no pode acreditar que os mdicos sejam capazes disso; que afinal de contas um mdico sabe 
que um diploma de mdico no  uma carta de corso e que um paciente no  um fora-da-lei; e que se deve sempre admitir que um mdico est agindo de boa f mesmo 
que talvez esteja laborando em erro.
         Os fatos ficam; esperaremos que possam ser explicados como o senhor pensa. Tentarei explicar-lhe como se torna possvel a um mdico agir em relao com 
a psicanlise de uma forma que ele cuidadosamente evitaria em todos os outros campos. 
         A primeira considerao  que na escola de medicina um mdico recebe uma formao que  mais ou menos o oposto do que ele necessitaria como preparo para 
a psicanlise. Sua ateno foi dirigida para fatos objetivamente verificveis de anatomia, de fsica e de qumica, de cuja apreciao correta e influncia adequada 
depende o xito do tratamento mdico. O problema da vida  trazido para seu campo de viso at onde nos tenha sido explicado pelo jogo das foras que tambm podem 
ser observadas na natureza inanimada. Seu interesse no  despertado no lado mental dos fenmenos vitais; a medicina no se preocupa com o estudo das funes intelectuais 
superiores, que se situa na esfera de outra faculdade. Supe-se que s a psiquiatria lide com as perturbaes das funes mentais; mas sabemos de que maneira e com 
quais finalidades ela o faz. Ela procura os determinantes somticos das perturbaes mentais e os trata como outras causas de doena.
         A psiquiatria tem razo de agir dessa forma e a educao mdica  claramente excelente. Se for descrita como unilateral, deve-se primeiro descobrir o ponto 
de vista a partir do qual se est transformando essa caracterstica numa censura. Em si toda cincia  unilateral. Tem de ser assim, visto que ela se restringe a 
assuntos, pontos de vista e mtodos especficos.  uma insensatez, na qual eu no tomaria parte, lanar uma cincia contra a outra. Afinal de contas, a fsica no 
diminui o valor da qumica; ela no pode ocupar seu lugar mas, por outro lado, no pode ser substituda por ela. A psicanlise , por certo, bem particularmente 
unilateral, por ser a cincia doinconsciente mental. No devemos, portanto, contestar s cincias mdicas seu direito de serem unilaterais.
         S encontraremos o ponto de vista que estamos procurando se passarmos da medicina cientfica para a teraputica prtica. Uma pessoa doente  um organismo 
complicado. Ela poder lembrar-nos que at mesmo os fenmenos mentais, que so to difceis de apreender, no devem ser apagados do quadro da vida. Os neurticos, 
realmente, constituem uma complicao indesejvel, um estorvo tanto para a teraputica como para a jurisprudncia e o servio militar. Mas existem e so uma preocupao 
particular da medicina. A educao mdica, contudo, nada faz, literalmente nada, para compreend-los e trat-los. Em vista da estreita ligao entre as coisas que 
distinguimos como fsicas e mentais, podemos antecipar o dia em que os caminhos do conhecimento e, esperemos, da influncia sero desbravados, conduzindo da biologia 
e da qumica orgnicas para o campo de fenmenos neurticos. Esse dia ainda parece distante, e no momento essas doenas nos so inacessveis pela direo da medicina.
         Seria tolervel se a educao mdica apenas deixasse de proporcionar aos mdicos orientao no campo das neuroses. Mas ela faz mais do que isso: d-lhes 
uma atitude falsa e prejudicial. Os mdicos cujo interesse no foi despertado pelos fatores psquicos da vida esto mais que prontos para formar uma estimativa deficiente 
dos mesmos e ridiculariz-los como no cientficos. Por essa razo, so incapazes de aceitar algo de realmente srio que tenha a ver com eles e no reconhecem as 
obrigaes provenientes deles. Portanto, caem na falta de respeito do leigo pela pesquisa psicolgica e tornam sua prpria tarefa fcil para eles prprios. - Sem 
dvida os neurticos tm de ser tratados, visto serem pessoas enfermas e procurarem o mdico, devendo-se estar sempre pronto para fazer-se experincia com algo novo. 
Mas por que arcar com o fardo de uma preparao tediosa? Ns nos arranjaremos muito bem; quem pode dizer se o que ensinam nos institutos analticos  de alguma valia? 
- Quanto menos tais mdicos compreenderem do assunto, mais aventurosos se tornam. S um homem que realmente sabe  modesto, pois ele sabe quo insuficiente  o seu 
conhecimento.
         A comparao que o senhor apresentou para tranqilizar-me, entre a especializao na anlise e em outros ramos da medicina, no , ento, aplicvel. Para 
a cirurgia, a oftalmologia, e assim por diante, a prpria escola de medicina oferece uma oportunidade de educao ulterior. Os institutos analticos so em pequeno 
nmero, recentes e destitudos de autoridade. As escolas de medicina no os reconheceram e deles no tomam qualquer conhecimento. O jovem mdico, que teve de confiar 
tanto em seus mestresque pouca ocasio teve de educar seu julgamento, prazerosamente aproveita o momento propcio para desempenhar o papel de crtico por exceo 
num campo no qual ainda no h qualquer autoridade reconhecida.
         Existem tambm outras coisas que favorecem seu apreciamento como um charlato analtico. Se ele tentasse efetuar operaes na vista sem suficiente preparo, 
o fracasso de suas extraes de cataratas e iridectomias e a ausncia de pacientes logo poriam termo  sua arriscada empresa. A prtica de anlise  relativamente 
segura para ele. O pblico  estragado pelo resultado mdio bem-sucedido de operaes na vista e espera do cirurgio a cura. Mas se um 'especialista em nervos' deixar 
de restaurar seus pacientes, ningum fica surpreendido. As pessoas no foram inutilizadas por xitos na terapia das neuroses; o especialista em nervos pelo menos 
'muito se preocupou com elas'. Realmente, no h muito que possa ser feito; a natureza deve ajudar, ou o tempo. Com as mulheres temos primeiro a menstruao, depois 
o casamento e posteriormente a menopausa. Finalmente a morte constitui uma verdadeira ajuda. Alm disso, o que o analista mdico tem feito com seu paciente neurtico 
 to insignificante que nenhuma censura lhe pode ser feita. Ele no tem feito uso de quaisquer instrumentos ou medicamentos; ele tem apenas conversado com ele e 
tentado persuadi-lo ou dissuadi-lo de alguma coisa. Certamente isto no pode causar mal algum, especialmente se ele evita abordar assuntos aflitivos ou inquietantes. 
O analista mdico, que tem evitado qualquer ensinamento rigoroso, sem dvida no ter omitido a tentativa de aperfeioar a anlise, de extrair-lhe as presas venenosas 
e de torn-la agradvel para o paciente. E ser prudente que ele pare por a, pois se ele realmente se aventurar a invocar resistncias e depois no souber fazer-lhes 
face, poder realmente tornar-se impopular.
         A honestidade obriga-me a admitir que a atividade de um analista no formado causa menos mal aos seus pacientes do que a de um cirurgio inbil. O possvel 
dano limita-se ao fato de o paciente ter sido levado a uma despesa intil e de ter suas possibilidades de recuperao eliminadas ou diminudas. Alm disso, a reputao 
da terapia analtica foi reduzida. Tudo isso  muito indesejvel, mas no tem comparao alguma com os perigos que advm do bisturi de um charlato cirrgico. Segundo 
me parece, no se devem temer agravamentos severos ou permanentes de uma condio patolgica, mesmo com um emprego no especializado da anlise. Em confronto com 
os traumas da vida que provocaram a doena, um pouco de impercia por parte do mdico no tem qualquer importncia. Simplesmente ocorre que a tentativa inadequada 
de curar no causou bem algum ao paciente.'Ouvi seu relato sobre o charlato mdico na anlise sem interromp-lo, embora formasse a impresso de que o senhor se 
acha dominado por uma hostilidade contra a profisso mdica, para cuja explicao histrica o senhor mesmo apontou o caminho. Mas admitirei uma nica coisa: se as 
anlises tm de ser levadas a efeito, isto deve ser efetuado por pessoas que foram formadas inteiramente para esse mister. E o senhor no pensa que com o tempo os 
mdicos que se dediquem  anlise tudo faro para obter essa formao?'
         Temo que no. Enquanto a atitude da escola mdica em relao ao instituto de formao analtica continuar inalterada, os mdicos acharo a tentao de tornarem 
as coisas mais fceis para eles prprios grande demais.
         'Mas parece que o senhor fica sistematicamente a fugir de qualquer pronunciamento direto sobre a questo da anlise leiga. O que penso agora  que, em vista 
de ser impossvel manter uma observao dos mdicos que querem analisar, o senhor est propondo, como vingana, por assim dizer, puni-los, privando-os do monoplio 
da anlise e abrindo de par em par as portas dessa atividade mdica tambm a leigos.'
         No posso dizer se o senhor adivinhou meus motivos de maneira correta. Talvez eu possa mais adiante apresentar-lhe provas de uma atitude menos parcial. 
Mas ponho nfase na exigncia de quem ningum deve praticar a anlise se no tiver adquirido o direito de faz-lo atravs de uma formao especfica. Se essa pessoa 
 ou no um mdico, a mim me parece sem importncia.
         'Ento que propostas definitivas tem a fazer?'
         Ainda no fui at esse ponto e no poderei dizer se chegarei l. Gostaria de examinar outra questo com o senhor, e antes de tudo aflorar um ponto especial. 
Diz-se que as autoridades, por instigao da profisso mdica, desejam proibir inteiramente a prtica da anlise por leigos. Tal proibio tambm afetaria os membros 
no-mdicos da Sociedade Psicanaltica, que tm desfrutado de excelente formao e se aperfeioado grandemente pela prtica. Se a proibio fosse efetivada, ns 
nos encontraramos numa posio na qual grande nmero de pessoas ficariam impedidas de executar uma atividade que podemos com segurana nos sentir convictos de que 
podem efetuar muito bem, ao passo que a mesma atividade est franqueada a outras pessoas para as quais no h qualquer garantia semelhante. Essa no  precisamente 
a espcie de resultado ao qual a legislao deva conduzir. Contudo, esse problema especial no  muito importante nem muito difcil de solucionar. Diz respeito apenas 
a um pequeno nmero de pessoas, que no pode ser seriamente prejudicado. Elas provavelmente emigraro para aAlemanha, onde nenhuma legislao as impedir de encontrar 
reconhecimento pela sua proficincia. Se se desejar poup-las disto e abrandar a severidade da lei, isto facilmente pode ser feito com base em alguns precedentes 
bem conhecidos. Sob a monarquia austraca com freqncia acontecia ser dada permisso a notrios charlates, ad personam [pessoalmente], para levarem a efeito atividades 
mdicas em certos campos, porque as pessoas estavam convencidas da verdadeira capacidade deles. Os interessados eram na sua maior parte curandeiros camponeses, e 
sua recomendao parece ter sido feita regularmente por um dos arquiduques que outrora eram to numerosos; mas deve ser possvel que isso tambm seja feito no caso 
de citadinos e com base em uma garantia diferente e meramente tcnica. Essa proibio teria efeitos mais importantes sobre o instituto de formao analtica de Viena, 
que da por diante seria incapaz de aceitar quaisquer candidatos, para formao, de crculos no mdicos. Assim, mais uma vez em nosso pas uma linha de atividade 
intelectual seria suprimida, a qual se permite que se desenvolva livremente em outras partes. Sou a ltima pessoa a reivindicar qualquer competncia para julgar 
leis e regulamentos. Mas posso compreender que dar nfase  nossa lei sobre charlatanismo no leva em direo  abordagem das condies na Alemanha a que tanto se 
visa hoje, e que a aplicao dessa lei ao caso da psicanlise traz em si algo de anacrnico, visto que na poca de sua promulgao ainda no havia essa coisa que 
se chama anlise e que a natureza peculiar das doenas neurticas ainda no era reconhecida.
         Agora chego a uma questo cujo exame me parece mais importante. A prtica da psicanlise  um assunto que deve, em geral, ficar sujeito  interferncia 
oficial, ou seria mais conveniente deix-lo seguir seu desenvolvimento natural? Certamente no chegarei a qualquer deciso sobre esse ponto aqui e agora, mas tomarei 
a liberdade de pr o problema diante do senhor para sua considerao. Em nosso pas desde antigamente um verdadeiro furor prohibendi [paixo por proibies] tem 
constitudo a regra, uma tendncia a manter as pessoas sob tutela, a interferir e a proibir, o que, como todos sabemos, no tem dado frutos particularmente bons. 
Em nossa nova ustria republicana, parece, as coisas ainda no mudaram muito. Imagino que o senhor ter algo de importante a dizer para a soluo do caso da psicanlise 
ora em considerao por ns; no sei se o senhor tem o desejo ou a influncia com que opor-se a essas tendncias burocrticas. Seja como for, no lhe pouparei meus 
pensamentos desautorizados sobre o assunto. Em minha opinio, uma pletora de regularmentos e proibies prejudica a autoridade da lei. Pode-se observar que onde 
h somente poucas proibies elas so cuidadosamente observadas, mas onde algum  acompanhado de proibies a cada passo, esse algum se sente realmente tentado 
a desprez-las. Alm disso, no significa que algum seja realmente um anarquista se estiver preparado para compreender que as leis e os regulamentos no podem, 
a partir de sua origem, alegar possuir o atributo de serem sagrados e no infringveis, que so muitas vezes inadequadamente elaborados e ofendem nosso sentimento 
de justia, ou o faro aps certo tempo, e que, em vista da lerdeza das autoridades, amide no existe outro meio de corrigir tais leis imprprias seno violando-as 
ousadamente. Alm disso, se se deseja manter o respeito pelas leis e regulamentos  aconselhvel nada promulgar onde no pode facilmente ser mantida uma vigilncia 
no sentido de serem obedecidos ou transgredidos. Grande parte do que citei acima sobre a prtica da anlise por mdicos poderia ser repetido aqui no tocante  anlise 
autntica por leigos que a lei vem procurando suprimir. O curso de uma anlise  muito modesto, no empregando nem medicamentos nem instrumentos, e consiste apenas 
em conversa e numa troca de informaes; no ser fcil provar que um leigo esteja praticando 'anlise', se ele afirmar que est simplesmente dando estmulo e explicaes 
e tentando estabelecer uma influncia humana saudvel sobre pessoas que esto  procura de assistncia mental. Por certo no seria possvel proibir isso meramente 
porque os mdicos algumas vezes fazem a mesma coisa. Nos pases de lngua inglesa as prticas da Cincia Crist tornaram-se muito difundidas: uma espcie de negao 
dialtica dos males da vida, baseada num apelo s doutrinas da religio crist. No hesito em afirmar que esse procedimento representa uma aberrao lamentvel do 
esprito humano; mas quem nos Estados Unidos ou na Inglaterra sonharia em proibi-lo e torn-lo punvel? As autoridades esto assim to certas do caminho correto 
para a salvao que elas se aventuram a impedir que cada um tente 'ser salvo segundo a sua prpria maneira'. E admitindo-se que muitas pessoas, se entregues a si 
prprias, correm para o perigo e fracassam, no seria melhor que as autoridades marcassem cuidadosamente os limites das regies que devem ser consideradas como proibidas, 
e quanto ao restante, at onde possvel, permitir que os seres humanos sejam educados pela experincia e influncia mtua? A psicanlise  algo to novo no mundo, 
a massa da humanidade  to pouco instruda sobre ela, a atitude da cincia oficial paracom ela  ainda to vacilante, que me parece precipitado intervir em seu 
desenvolvimento com regulamentos legislativos. Deixemos que os prprios pacientes descubram que lhes  prejudicial procurar assistncia mental junto a pessoas que 
no aprenderam a proporcion-la. Se explicarmos isto a eles e os advertirmos contra tal fato, teremos poupado a ns mesmos a necessidade de proibi-lo. Nas principais 
estradas da Itlia as torres de cabos de alta-tenso trazem a inscrio sucinta e impressionante: 'Chi tocca, muore [Quem tocar, morre].' Isso est perfeitamente 
calculado para regular o comportamento de transeuntes em relao a quaisquer fios que estejam pendentes. Os avisos alemes correspondentes exibem uma verbosidade 
desnecessria e ofensiva: 'Das Berhren der Leitungsdrhte ist, weil lebensgefhrlich, strengstens verboten [Tocar as linhas de transmisso , por ser perigoso  
vida, rigorosamente proibido].' Qualquer um que tenha amor  vida far a proibio para si mesmo; e qualquer um que deseja matar-se dessa maneira no pedir permisso.
         'Mas h casos que podem ser citados como precedentes legais contra a permisso da anlise leiga; quero dizer, a proibio de leigos praticarem o hipnotismo 
e a proibio recentemente baixada contra a realizao de sesses espritas ou a fundao de sociedades espritas.'
         No posso dizer que seja admirador dessas medidas. A segunda  uma invaso indisfarada de superviso policial em detrimento da liberdade intelectual. Estou 
acima da suspeio de ter muita crena naquilo que se conhece como 'fenmenos ocultos' ou de sentir qualquer desejo de que sejam reconhecidos. Mas proibies como 
essas no sufocaro o interesse das pessoas por esse mundo supostamente misterioso. Podero, pelo contrrio, ter causado grande dano e ter fechado a porta a uma 
curiosidade imparcial que poderia haver chegado a um julgamento que nos teria libertado dessas possibilidades vexatrias. Mais uma vez, contudo, isso somente se 
aplica  ustria. Em outros pases, pesquisas 'parapsquicas' no encontram quaisquer obstculos legais. O caso do hipnotismo  algo diferente do da anlise. O hipnotismo 
 a evocao de um estado mental anormal e  utilizado por leigos, nos dias que correm, somente com a finalidade de espetculos pblicos. Se a terapia hipntica 
tivesse mantido seus incios muito promissores, ter-se-ia chegado a uma posio semelhante  da anlise. E incidentalmente a histria do hipnotismo oferece um precedente 
para o da anlise em outra direo. Quando eu era um jovem conferencista de neuropatologia, os mdicos invectivavam ardorosamente o hipnotismo, declaravam que ele 
era um logro, um logro do demnio e um procedimento altamente perigoso. Hoje eles monopolizaram esse mesmo hipnotismo e dele fazem uso, sem hesitaes, como um mtodo 
de exame; para alguns especialistas de nervos ele ainda constitui seu principal instrumento teraputico.
         Mas j lhe disse que no tenho qualquer inteno de fazer propostas que se baseiem na deciso quanto a se o controle legal ou o deixar que as coisas sigam 
o seu curso deva ser preferido em matria de anlise. Sei que isto  uma questo de princpio, sendo que sobre a resposta a ela as inclinaes das pessoas de autoridade 
tero mais influncia do que argumentos. J estabeleci o que me parece falar em favor de uma poltica de laissez faire. Se a outra deciso for adotada - para uma 
poltica de interveno ativa - ento parece que em qualquer caso uma medida imperfeita e injusta de proibir implacavelmente a anlise por no-mdicos ser um resultado 
insuficiente. Algo mais ter de ser considerado nesse caso: tero de ser lanadas condies sob as quais a prtica da anlise ser permitida a todos aqueles que 
procurem dela fazer uso, ter de ser estabelecida uma autoridade da qual se possa aprender o que  a anlise e que espcie de preparo se faz necessrio para isso, 
e as possibilidades de instruo em anlise tero de ser estimuladas. Devemos portanto, ou deixar as coisas em paz ou estabelecer ordem e clareza; no devemos precipitar-nos 
numa situao complicada com uma nica proibio isolada proveniente mecanicamente de um regulamento que se tornou inadequado. 
         VII
         'Sim, mas os mdicos! os mdicos! No posso induzi-lo a penetrar no verdadeiro tema de nossas conversaes. O senhor ainda continua a esquivar-se de mim. 
Trata-se de se devemos ou no dar aos mdicos o direito de praticarem a anlise - e isto em nada me afeta, depois de haverem preenchido certas condies. A maioria 
dos mdicos no consiste em charlates em anlise como o senhor os representou. O senhor mesmo afirma que a grande maioria dos seus alunos e seguidores so mdicos. 
Chegou ao meu conhecimento que eles esto longe de partilhar seu ponto de vista sobre a questo da anlise leiga. Sem dvida posso presumir que seu alunos concordam 
com suas exigncias no sentido de suficiente preparo e assim por diante; e contudo esses alunos julgam coerente vedar a prtica da anlise a leigos.  isso mesmo? 
e em caso afirmativo, como o senhor o explica?
         Estou vendo que o senhor est bem informado. Sim, de fato. Nem todos,  verdade, mas boa proporo dos meus colegas no concorda comigo em relao a esse 
ponto, sendo favorveis a que os mdicos tenham o direito exclusivo ao tratamento analtico de neurticos. Isto lhe mostrar que divergncias de opinio so permitidas 
mesmo em nosso campo. O partido que eu tomo  bem conhecido e a contradio sobre o assunto da anlise leiga no interfere em nossa boa compreenso. Como posso explicar-lhe 
a atitude desses meus alunos? No sei ao certo; penso que deve ser a fora do sentimento profissional. O curso do desenvolvimento deles tem sido diferente do meu, 
eles ainda no se sentem  vontade em seu isolamento dos colegas, gostariam de ser aceitos pela 'profisso' como tendo plenos direitos, e esto preparados, em troca, 
por essa tolerncia, para fazer um sacrifcio num ponto cuja importncia vital no lhes  evidente. Talvez possa ser de outra forma; imputar motivos de concorrncia 
a eles seria no somente acus-los de sentimentos baixos, mas tambm atribuir-lhes uma estranha miopia. Esto sempre prontos a introduzir outros mdicos na anlise, 
e de um ponto de vista material deve ser-lhes indiferente ter de partilhar os pacientes disponveis com colegas mdicos ou com leigos. Mas algo diferente provavelmente 
desempenha seu papel. Esses meus alunos podem ser influenciados por certos fatores que garantem a um mdico indubitvel vantagem sobre um leigo na prtica analtica.
         'Garantir-lhe uma vantagem? A est. Ento finalmente o senhor est admitindo a vantagem? Isto deve resolver a questo.'No me  difcil admiti-lo, o que 
poder revelar-lhe que no tenho assim um preconceito to arraigado como o senhor supe. Deixei de mencionar essas coisas porque sua discusso mais uma vez tornaria 
necessrias consideraes tericas.
         'Em que est pensando agora?'
         Primeiramente h a questo do diagnstico. Quando se submete  anlise um paciente que sofre do que se descreve como perturbaes nervosas, deseja-se de 
antemo estar certo - at agora, naturalmente, conforme a certeza possa ser alcanada - de que ele se presta a essa espcie de tratamento, de que se pode ajud-lo 
por esse mtodo. Isso, contudo,  o caso apenas se ele realmente tiver uma neurose.
         'Eu teria pensado que isso seria reconhecvel a partir dos fenmenos, dos sintomas dos quais ele se queixa.'
          a que surge uma nova complicao. Ela nem sempre pode ser reconhecida como uma certeza absoluta. O paciente poder exibir o quadro externo de uma neurose 
e, contudo, poder ser algo mais - o incio de uma doena mental incurvel ou a fase preliminar de um processo destrutivo no crebro. A distino - o diagnstico 
diferencial - nem sempre  fcil e nem pode ser feita imediatamente em cada fase. A responsabilidade de tal deciso s pode, naturalmente, ser empreendida por um 
mdico. Como eu disse, nem sempre  fcil para ele. A doena pode ter uma aparncia inocente por considervel tempo, at que por fim, afinal de contas, apresenta 
o seu mau carter. Na realidade, constitui um dos temores comuns dos neurticos que eles venham a tornar-se insanos. Contudo, se um mdico se tiver enganado por 
algum tempo com um caso dessa espcie ou tiver estado incerto a respeito dele, nenhum mal foi provocado e nada de desnecessrio foi feito. Nem realmente o tratamento 
analtico desse caso teria causado qualquer dano, embora tivesse sido exposto como um desperdcio desnecessrio. E alm disso certamente haveria muitas pessoas que 
culpariam a anlise pelo infeliz resultado. Injustamente, sem dvida, mas tais ocasies devem ser evitadas.
         'Mas isso parece um caso perdido. Atinge as razes de tudo o que o senhor me disse sobre a natureza e a origem de uma neurose.'
         De modo algum. Simplesmente conforma mais uma vez o fato de que os neurticos so uma praga e um estorvo para todos os interessados - inclusive os analistas. 
Mas talvez eu elucide sua confuso se enunciar minha nova informao em termos mais corretos. Provavelmente seria mais correto dizer dos casos com os quais estamos 
agora lidando que eles desenvolveram realmente uma neurose, no sendo ela, no entanto, psicognica mas somatognica - que suas causas no so mentais, mas fsicas. 
O senhor compreende?'Sem dvida, compreendo. Mas no posso harmonizar isso com a outra faceta, a psicolgica.'
         Isso pode ser resolvido, contudo, se se tiver em mente as complexidades da substncia viva. Em que achamos a essncia de uma neurose? No fato de que o ego, 
a organizao superior do aparelho mental (elevada atravs da influncia do mundo externo), no  capaz de cumprir com sua funo de mediador entre o id e a realidade, 
de que na sua debilidade ela recua de certas partes instituais do id e, a fim de compensar isto, tem de aturar as conseqncias de sua renncia sob a forma de restries, 
sintomas e formaes reativas malsucedidas.
         Uma debilidade do ego dessa espcie  encontrada em todos ns na infncia e eis por que as experincias dos primeiros anos da infncia so de importncia 
to grande para a vida ulterior. Sob o fardo extraordinrio desse perodo da infncia - temos em poucos anos de abarcar a enorme distncia de desenvolvimento entre 
os homens primitivos da idade da pedra e os participantes da civilizao contempornea, e, ao mesmo tempo e em particular, temos de desviar os impulsos instituais 
do perodo sexual inicial -, sob esse fardo, portanto, nosso ego procura refgio na represso e fica exposto a uma neurose da infncia, cujo precipitado ele carrega 
consigo at a maturidade como uma disposio a uma doena nervosa ulterior. Tudo agora depende de como o organismo em crescimento  tratado pelo destino. Se a vida 
tornar-se muito rdua, se o abismo entre reivindicaes instituais e as exigncias da realidade tornar-se grande demais, o ego poder falhar em seus esforos para 
reconciliar os dois, e mais prontamente, quanto mais for inibido pela disposio trazida por ele na infncia. O processo de represso  ento repetido, os instintos 
separam-se violentamente do domnio do ego, encontram suas satisfaes substitutivas pelos caminhos da regresso e o pobre ego tornou-se desamparadamente neurtico.
         Apeguemo-nos firmemente apenas a isto: o ponto nodal e o piv de toda a situao  a fora relativa da organizao do ego. Acharemos ento fcil concluir 
nosso levantamento etiolgico. Como o que pode ser denominado de causas normais da doena neurtica, j conhecemos a debilidade do ego infantil, a tarefa de lidar 
com os primeiros impulsos sexuais e os efeitos das experincias mais ou menos fortuitas da infncia. No  possvel, contudo, que ainda outros fatores desempenhem 
seu papel, proveniente da poca anterior ao incio da vida da criana? Por exemplo, uma fora e insubordinao inatas da vida instintual no id, que desde o comeo 
atribuem ao ego tarefas por demais rduas para ele? Ou uma debilidade de desenvolvimento especial do ego devida a razes desconhecidas? Tais fatores devem, naturalmente,adquirir 
uma importncia etiolgica, em alguns casos transcendente. Invariavelmente temos de lidar com a fora instintual do id; se ela se tiver desenvolvido de forma excessiva, 
as perspectivas de nossa terapia so precrias. Ainda sabemos muito pouco a respeito das causas da uma inibio de desenvolvimento do ego. Esses ento seriam os 
casos de neurose com uma base essencialmente constitucional. Sem alguns de tais fatores favorveis constitucionais e congnitos uma neurose, sem dvida, dificilmente 
pode ocorrer.
         Mas se a relativa debilidade do ego for o fator decisivo para a gnese de uma neurose, tambm deve ser possvel que uma doena fsica ulterior produza uma 
neurose, contanto que ela possa acarretar um enfraquecimento do ego. E isto, mais uma vez,  verificado muito amide. Uma perturbao fsica dessa espcie pode afetar 
a vida instintual no id e aumentar a fora dos instintos alm do limite at o qual o ego  capaz de lidar com eles. O modelo normal de tais processos talvez seja 
a alterao, nas mulheres, causada pelos distrbios da menstruao e da menopausa. Ou ainda, uma doena somtica geral, na realidade uma doena orgnica do rgo 
central nervoso, poder atacar as condies nutritivas do aparelho mental e compeli-lo a reduzir seu funcionamento e paralisar suas operaes mais delicadas, uma 
das quais  a manuteno da organizao do ego. Em todos esses casos surge aproximadamente o mesmo quadro da neurose; esta tem sempre o mesmo mecanismo psicolgico, 
mas, como vemos, uma etiologia mais variada e muitas vezes muito complexa.
         'O senhor agora est me agradando mais. Finalmente comeou a falar como mdico. E agora espero que o senhor admita que um assunto to complicado como uma 
neurose s possa ser manejado por um mdico.'
         Temo que o senhor esteja indo alm do alvo. O que vimos examinando era um ponto de patologia, aquilo em que estamos interessados na anlise  um procedimento 
teraputico. Admito - no, insisto - que em todo caso que esteja em considerao para anlise o diagnstico ser estabelecido em primeiro lugar pelo mdico. A maior 
parte das neuroses que nos ocupam  felizmente de natureza psicognica e no d motivo para suspeitas patolgicas. Uma vez que o mdico tenha firmado isto, pode 
confiantemente passar o tratamento a um analista leigo. Em nossas sociedades analticas as coisas sempre foram arranjadas dessa maneira. Graas ao estreito contato 
entre os membros mdicos e no-mdicos, erros tais que pudessem ser temidos foram inteiramente evitados. H uma contingncia ulterior, alis, na qual o analista 
tem de pedir a ajuda do mdico. No curso de um tratamento analtico, sintomas - na maior parte das vezes fsicos - podero surgir, havendodvida se devem ser considerados 
como pertencentes  neurose ou se devem ser relacionados como uma doena orgnica independente que interveio. A deciso sobre esse ponto deve, mais uma vez, ser 
deixada ao mdico.
         'De modo que mesmo durante o curso de uma anlise um analista leigo no pode passar sem um mdico. Um novo argumento contra sua aptido.'
         No. Nenhum argumento contra analistas leigos pode ser arquitetado a partir dessa possibilidade, pois em tais circunstncias um analista mdico no agiria 
de maneira diferente.
         'No compreendo isso.'
         H uma regra tcnica de que um analista, se surgirem sintomas dbios como esse durante o tratamento, no os submeter ao seu prprio julgamento mas os encaminhar 
a um mdico que esteja ligado  anlise - um mdico consultor, talvez -, mesmo se o prprio analista for mdico e at mesmo bem versado em seus conhecimentos mdicos.
         'E por que se deve elaborar uma regra que me parece to desnecessria?'
         No  desnecessria; de fato, existem vrias razes para ela. Em primeiro lugar, no constitui um bom plano que uma combinao de tratamento orgnico e 
psquico seja levada a efeito pela mesma pessoa. Em segundo lugar, a relao na transferncia pode tornar desaconselhvel ao analista examinar o paciente fisicamente. 
E em terceiro, o analista tem todos os motivos para duvidar se ele est desprovido de preconceitos, visto seus interesses estarem to intensamente dirigidos para 
os fatores psquicos.
         'Compreendo agora sua atitude para com a anlise leiga de maneira bem clara. O senhor deliberou que deve haver analistas leigos. E visto que no pode contestar 
a impropriedade deles quanto  sua tarefa, est reunindo tudo o que pode para desculp-los e tornar-lhes a vida mais fcil. Mas no posso nem de longe compreender 
por que deva haver analistas leigos, que, afinal de contas, podem apenas ser terapeutas de segunda classe. Estou pronto, no que me toca, a abrir uma exceo no caso 
dos poucos leigos que j foram formados como analistas; mas outras no devem ser criadas e os institutos de formao devem ser submetidos  obrigao de no aceitarem 
mais leigos para formao.'
         Estou de acordo com o senhor, se puder ser demonstrado que todos os interesses em jogo sero atendidos por essa restrio. O senhor h de concordar que 
esses interesses so de trs espcies: o dos pacientes, o dos mdicos e - ltimo em ordem mas no em importncia - o da cincia, querealmente abrange os interesses 
de todos os futuros pacientes. Vamos examinar esses trs pontos juntos?
         Para o paciente, portanto,  uma questo de indiferena se o analista for um mdico ou no, contanto somente que o perigo de sua condio ser mal compreendida 
fique excludo pelo relatrio mdico necessrio antes do incio do tratamento e em algumas ocasies possveis durante o curso do mesmo. Para ele  incomparavelmente 
mais importante que o analista deva possuir qualidades pessoais que o tornem digno de confiana, e que ele deva ter adquirido o conhecimento e a compreenso, bem 
como a experincia, que, somente estes, possam tornar-lhe possvel cumprir sua tarefa. Poder-se-ia pensar que a autoridade de um analista seria prejudicada se o 
paciente soubesse que ele no  mdico e que no pode, em certas situaes, passar sem o apoio de um mdico. Naturalmente jamais deixamos de informar os pacientes 
sobre a qualificao de seu analista, e temos sido capazes de nos convencer de que os preconceitos profissionais no encontram eco neles, estando prontos para aceitar 
uma cura de qualquer direo da qual provenha - o que, incidentalmente, a profisso mdica de h muito descobriu, para sua profunda mortificao. Nem os analistas 
leigos que praticam a anlise em nossos dias so um bando casual de rebotalho, mas pessoas de educao acadmica, doutores em filosofia, educadores, juntamente com 
algumas mulheres de grande experincia na vida e marcante personalidade. A anlise,  qual todos os candidatos num instituto de formao analtica tm de submeter-se, 
 ao mesmo tempo o melhor meio de formar um opinio sobre sua aptido pessoal para o desempenho de sua exigente profisso.
         Agora quanto ao interesse dos mdicos. No julgo que esse interesse possa lucrar com a incorporao da psicanlise  medicina. O currculo mdico j dura 
cinco anos e os exames finais avanam at o sexto ano. De poucos em poucos anos so feitas novas exigncias ao aluno, sem o cumprimento das quais o cadebal deste 
para o futuro teria que ser declarado insuficiente. O acesso  profisso mdica  muito difcil e a clnica no  nem muito satisfatria nem muito remuneradora. 
Se algum apoiar a exigncia, por certo plenamente justificada, de que os mdicos devem tambm familiarizar-se com a parte mental da doena, e se por causa disto 
se ampliar a instruo mdica a ponto de abranger certo preparo para a anlise, isto implica ulterior sobrecarga do currculo e um correspondente prolongamento do 
perodo letivo. No sei se os mdicos ficaro satisfeitos com essa conseqncia de sua reivindicao em relao  anlise. Mas dificilmente se pode fugir a esse 
fato. E isto num perodo em que as condies da existncia material se deterioram de tal forma para as classes das quais os mdicos so recrutados,um perodo no 
qual a gerao mais jovem se v compelida a provar suas necessidades por si mesma com a maior brevidade possvel na vida.
         Talvez, no entanto, o senhor escolha no sobrecarregar os estudos mdicos com o preparo para a prtica analtica, mas julgue mais conveniente que os futuros 
analistas sigam sua formao necessria somente aps a concluso dos seus estudos mdicos. Talvez diga que a perda de tempo que isso implica no seja de importncia 
prtica alguma, visto que, afinal de contas, um jovem com menos de trinta anos de idade jamais gozar da confiana dos seus pacientes, a qual  um sine qua non para 
proporcionar assistncia mental. Sem dvida talvez se dissesse como resposta que um mdico recm-sado da faculdade e que se dedique a doenas fsicas no pode esperar 
ser tratado pelos seus pacientes tambm com grande respeito e que um jovem analista poderia muito bem preencher seu tempo trabalhando numa clnica psicanaltica 
para pacientes externos sob a superviso de profissionais experimentados.
         Mas o que me parece mais importante  que com essa sua proposta o senhor est dando apoio a um desperdcio de energia para o qual, nestes tempos difceis, 
realmente no posso encontrar qualquer justificativa econmica. O tratamento analtico,  verdade, cruza o campo da educao mdica, mas um no inclui o outro. Se 
- o que pode parecer fantstico hoje em dia - algum tivesse de fundar uma faculdade de psicanlise, nesta teria de ser ensinado muito do que j  lecionado pela 
escola de medicina: juntamente com a psicologia profunda, que continua sempre como a principal disciplina, haveria uma introduo  biologia, o mximo possvel de 
cincia da vida sexual e familiarizao com a sintomatologia da psiquiatria. Por outro lado, a instruo analtica abrangeria ramos de conhecimento distantes da 
medicina e que o mdico no encontra em sua clnica: a histria da civilizao, a mitologia, a psicologia da religio e a cincia da literatura. A menos que esteja 
bem familiarizado nessas matrias, um analista nada pode fazer de uma grande massa de seu material.  guisa de compensao, a grande massa do que  ensinado nas 
escolas de medicina no lhe  de utilidade alguma para suas finalidades. Um conhecimento de anatomia dos ossos tarsianos, da constituio dos carboidratos, do curso 
dos nervos cranianos, uma compreenso de tudo o que a medicina trouxe  luz sobre as causas excitantes bacilares da doena e os meios de combat-las, sobre reaes 
do soro e sobre neoplasmas - todo esse conhecimento, que  indubitavelmente do mais alto valor em si, no obstante no lhe  de nenhuma conseqncia; no lhe interessa; 
nem o ajuda diretamente a compreender uma neurose e a cur-la, nem contribuir para um aguamento daquelas faculdades intelectuais s quaissua ocupao faz as maiores 
exigncias. No se pode objetar que o caso  o mesmo quando um mdico segue algum outro ramo especial de medicina - a odontologia, por exemplo: nesse caso, tambm, 
ele poder no precisar de parte daquilo em que precisa ser aprovado nos exames e muito ter que aprender alm disso, em relao ao que sua escolaridade no o preparou. 
Mas os dois casos no podem ser colocados no mesmo p de igualdade. Na odontologia os grandes princpios da patologia - as teorias da inflamao, da supurao, da 
necrose e do metabolismo dos rgos corporais - ainda conservam sua importncia. Mas a experincia de um analista est em outro mundo, com outros fenmenos e outras 
leis. Por mais que a filosofia possa ignorar o abismo entre o fsico e o mental, ele ainda existe para a nossa experincia imediata e ainda mais para os nossos empreendimentos 
prticos.
          injusto e inconveniente tentar compelir uma pessoa que deseja libertar algum do tormento de uma fobia ou de uma obsesso a seguir a estrada indireta 
do currculo mdico. Nem esse esforo ter qualquer xito, a menos que resulte inteiramente na supresso da anlise. Imagine uma paisagem na qual dois caminhos levam 
ao topo de uma colina de onde se descortina um panorama - um curto e reto, o outro longo, sinuoso e tortuoso. Tenta-se impedir o caminho curto mediante um aviso 
proibitrio, talvez porque passa por alguns canteiros de flores que se deseja proteger. A nica possibilidade que se tem de a proibio ser respeitada  se o caminho 
curto for ngreme e difcil, enquanto o mais longo for uma subida suave. Se, contudo, esse no for o caso, pode-se imaginar o uso da proibio e o destino dos canteiros! 
Temo que se conseguir compelir os leigos a estudarem medicina to pouco quanto serei capaz de induzir os mdicos a aprenderem anlise, pois o senhor conhece a natureza 
humana to bem quanto eu.
         'Se o senhor tiver razo, de que o tratamento analtico no pode ser efetuado sem formao especial, mas que o currculo mdico no pode suportar ainda 
mais o fardo de um preparo para ele, e que os conhecimentos mdicos so, em grande medida, desnecessrios para um analista, como chegaremos ao mdico ideal que esteja 
 altura de todas as tarefas de sua vocao?'
         No posso prever a maneira de sair dessas dificuldades, nem  da minha alada ressalt-la. Compreendo apenas duas coisas - primeiro que a anlise constitui 
um estorvo para o senhor e que a melhor coisa seria que ela no existisse, embora os neurticos, sem dvida, constituam tambm um estorvo; e em segundo lugar, que 
os interesses de todos os que se preocupam com esse assunto seriam por enquanto atendidos se os mdicos pudessem resolver tolerar uma classe de terapeutas que os 
aliviariam do tdio de tratar asneuroses psicognicas enormemente comuns, enquanto ficariam em permanente contato com eles em benefcio dos pacientes.
         'Essa  a ltima palavra sobre o assunto? ou tem algo mais a dizer?'
         Sim, realmente. Eu quis apresentar um terceiro interesse - o da cincia. O que tenho a dizer sobre isso pouco lhe interessar; mas, por comparao,  de 
toda a importncia para mim.
         Pois no consideramos absolutamente conveniente para uma psicanlise ser devorada pela medicina e encontrar seu ltimo lugar de repouso num livro de texto 
de psiquiatria sob a epgrafe 'Mtodos de Tratamento', juntamente com procedimentos tais como sugesto hipntica, auto-sugesto e persuaso, que, nascidas da nossa 
ignorncia, tm de agradecer a indolncia e a covardia da humanidade por seus efeitos efmeros. Merece melhor destino e, pode-se esperar, o ter. Como uma 'psicologia 
profunda', uma teoria do inconsciente mental, pode tornar-se indispensvel a todas as cincias que se interessam pela evoluo da civilizao humana e suas principais 
instituies como a arte, a religio e a ordem social. Em minha opinio ela j proporcionou a essas cincias considervel ajuda na soluo de seus problemas. Mas 
essas so apenas pequenas contribuies em confronto com o que poderia ser alcanado se historiadores da civilizao, psiclogos da religio, filsofos e assim por 
diante concordassem em manejar o novo instrumento de pesquisa que est a seu servio. O emprego da anlise para o tratamento das neuroses  somente uma das suas 
aplicaes; o futuro talvez demonstre que no  o mais importante. Seja como for, seria errneo sacrificar todas as outras aplicaes a essa nica, s porque diz 
respeito ao crculo de interesses mdicos. 
         Pois aqui uma perspectiva ulterior estende-se adiante, a qual no pode ser invadida com impunidade. Se os representantes das vrias cincias mentais devem 
estudar a psicanlise a fim de ser capazes de aplicar seus mtodos e ngulos de abordagem ao seu prprio material, no lhes ser suficiente parar de repente nos 
achados que so formulados na literatura analtica. Eles devem aprender a anlise da nica maneira possvel - submetendo-se eles prprios a uma anlise. Os neurticos 
que necessitam de anlise contariam assim com a companhia de uma segunda classe de pessoas, que aceitam a anlise por motivos intelectuais, mas que sem dvida tambm 
acolhero o aumento da capacidade que incidentalmente alcancem. Para efetuar essa anlise far-se- necessrio grande nmero de analistas, para os quais qualquer 
conhecimento mdico ter particularmente pouca importncia. Mas esses 'analistas didatas' - vamos cham-los assim - precisaro ter tido uma educao especificamente 
cuidadosa. Se se quiser que ela nofique tolhida, eles devem receber a oportunidade de colher experincia de casos instrutivos e informativos; e visto que pessoas 
saudveis, s quais tambm falta o motivo da curiosidade, no se apresentam para anlise,  mais uma vez somente com os neurticos que ser possvel aos analistas 
didatas - sob cuidadosa superviso - ser educados para a sua atividade no-mdica subseqente. Tudo isso, contudo, requer certa dose de liberdade de movimento, no 
sendo compatvel com restries mesquinhas. 
         Talvez o senhor no creia nesses interesses puramente tericos da psicanlise ou no possa permitir-lhes que afetem a questo prtica da anlise leiga. 
Ento deixe-me adverti-lo de que a psicanlise tem ainda outra esfera de aplicao, que se acha fora do mbito da lei sobre charlatanismo e com relao  qual os 
mdicos quase no faro reivindicao. Refiro-me  aplicao  educao de crianas. Se uma criana comea a mostrar sinais de um desenvolvimento indesejvel, se 
se tornar mal-humorada, indcil e desatenta, o pediatra e mesmo o mdico da escola nada podero fazer por ela, mesmo se a criana apresenta sintomas neurticos claros, 
tais como nervoso, perda de apetite, vmitos ou insnia. Um tratamento que combine a influncia analtica com medidas educacionais, levado a efeito por pessoas que 
no se envergonhem de interessar-se pelos assuntos prprios do mundo da criana, e que compreendam como orientar-se na vida mental de uma criana, pode ocasionar 
duas coisas ao mesmo tempo: a eliminao dos sintomas neurticos e a reverso da mudana de carter que havia comeado. Nosso reconhecimento da importncia dessas 
neuroses obscuras das crianas, como sendo o que alicera a disposio para graves doenas mais adiante na vida, ressalta essas anlises infantis como excelente 
mtodo de profilaxia. A anlise indubitavelmente ainda tem seus inimigos. No sei se estes dispem de meios ao seu alcance para paralisar as atividades desses analistas 
educacionais ou educadores analticos. No penso que seja muito provvel; mas nunca se pode estar muito certo.
         Alm disso, voltando  nossa questo do tratamento analtico dos neurticos adultos, mesmo a anda no esgotamos todas as linhas de abordagem. Nossa civilizao 
nos impe uma presso quase intolervel e exige um corretivo. Ser demasiado fantstico esperar que a psicanlise, apesar de suas finalidades, possa estar destinada 
 tarefa de preparar a humanidade para tal corretivo? Talvez mais uma vez um norte-americano tenha a idia de gastar algum dinheiro para que os 'assistentes sociais' 
do seu pas sejam formadosanaliticamente e para transform-los num grupo de auxiliares a fim de combaterem as neuroses da civilizao.
         'Ah! uma nova espcie de Exrcito da Salvao!'
         Por que no? Nossa imaginao sempre obedece a padres. A corrente daqueles ansiosos por aprender, que ento fluir para a Europa, ser obrigada a passar 
por Viena, pois aqui o desenvolvimento da anlise poder ter sucumbido a um trauma prematuro de proibio. O senhor est sorrindo? No estou dizendo isso como um 
suborno em seu apoio. De modo algum. Sei que o senhor no me conhece, nem posso garantir que isso me venha a acontecer. Mas de uma coisa eu sei. De forma alguma 
 to importante qual a deciso que o senhor possa adotar no tocante  questo da anlise leiga. Isso poder ter um efeito local. Mas as coisas que realmente importam 
- as possibilidades na psicanlise de desenvolvimento interno - jamais podero ser afetadas por regulamentos e proibies.
         
         PS-ESCRITO (1927)
         
         Logo aps eu ter escrito o pequeno volume que constituiu o ponto de partida da presente apreciao, houve uma acusao de charlatanismo apresentada contra 
um membro no-mdico de nossa Sociedade, o Dr. Theodor Reik, nos tribunais de Viena. Em geral se sabe, penso eu, que depois de todos os trmites preliminares terem 
sido concludos e grande nmero de pareceres tcnicos terem sido recebidos, a acusao foi abandonada. No creio que isso tenha sido resultado do meu livro. Sem 
dvida o argumento da procuradoria foi muito fraco, e a pessoa que apresentou a acusao como a parte agravada demonstrou ser uma testemunha indigna de confiana. 
De modo que a anulao do processo contra o Dr. Reik provavelmente no dever ser considerada como um julgamento ponderado dos tribunais de Viena sobre a questo 
geral da anlise leiga. Quando tracei a figura da 'Pessoa Imparcial' que foi meu interlocutor em meu opsculo, tive diante de minha mente um dos nossos altos funcionrios. 
Este foi um homem com quem eu prprio conversara sobre o caso de Reik e a quem, a pedido dele, escrevera um parecer confidencial sobre o assunto. Eu sabia que no 
tinha conseguido convert-lo aos meus pontos de vista, e foi por isso que fiz com que meu dilogo com a Pessoa Imparcial terminasse tambm sem acordo.
         Nem esperei que conseguisse xito na obteno de unanimidade da atitude dos prprios analistas em relao ao problema da anlise leiga. Qualquer um que 
compare os pontos de vista expressos pela Sociedade Hngara nessa apreciao com os do grupo de Nova Iorque talvez conclua que meu livro no produziu efeito algum 
e que cada um persiste em sua opinio anterior. Mas tambm no creio nisso. Penso que muitos dos meus colegas modificaram seu extremo parti pris e que a maioria 
aceitou minha opinio de que o problema da anlise leiga no deve ser solucionado nos mesmos moldes do uso tradicional, mas que decorre de uma nova situao e, portanto, 
exige novo julgamento.
         Alm disso, a forma que dei a todo o exame parece que contou com aprovao. Minha tese principal foi no sentido de que a questo importante no  se um 
analista possui um diploma mdico, mas se ele recebeu a formao especial necessria  prtica da anlise. Isto serviu de ponto de partida para uma discusso, que 
foi avidamente adotada, quanto a qual  a formao mais adequada para um analista. Meu ponto de vista foi eainda continua sendo o de que no  a formao prescrita 
pela universidade para futuros mdicos. O que se conhece como educao mdica parece-me uma maneira rdua e indireta de abordagem da profisso da anlise. Sem dvida 
ela oferece a um analista muito do que lhe  indispensvel. Mas ela o sobrecarrega de muitas outras coisas que ele jamais utilizar, havendo o perigo de desviar 
seu interesse e todo seu modo de pensamento da compreenso dos fenmenos psquicos. Um esquema de formao para analistas ainda tem de ser criado. Deve ele abranger 
elementos das cincias mentais, da psicologia, da histria e do estudo da evoluo. H tanto a ser ensinado em tudo isso que  justificvel omitir do currculo qualquer 
coisa que no tenha relao direta alguma com a prtica da anlise e somente sirva indiretamente (como qualquer outro estudo) de formao para o intelecto e para 
os poderes de observao.  fcil fazer face a essa sugesto objetando-se que as escolas analticas dessa natureza no existem e que eu estou simplesmente estabelecendo 
um ideal. Um ideal, sem dvida. Mas um ideal que pode e deve ser concretizado. E em nossos institutos de formao, apesar de todas as suas insuficincias prprias 
de seus verdes anos, essa concretizao j teve incio.
         No ter escapado aos meus leitores que naquilo que afirmei presumi como axiomtico algo que  ainda violentamente debatido no exame. Presumi, vale dizer, 
que a psicanlise no  um ramo especializado da medicina. No vejo como  possvel discutir isso. A psicanlise  uma parte da psicologia; no da psicologia mdica 
no velho sentido, no da psicologia de processos mrbidos, mas simplesmente da psicologia. Certamente no  o todo da psicologia, mas sua subestrutura e talvez mesmo 
todo o seu alicerce. A possibilidade de sua aplicao a finalidades mdicas no nos deve desorientar. A eletricidade e a radiologia tambm tm sua aplicao mdica, 
mas a cincia  qual ambas pertencem , no obstante, a fsica. Nem a situao delas pode ser afetada por argumentos histricos. Toda a teoria da eletricidade teve 
sua origem numa observao de um preparado muscular nervoso; contudo, ningum sonharia hoje em consider-la como parte da fisiologia. Argumenta-se que a psicanlise 
foi, afinal de contas, descoberta por um mdico no curso dos seus esforos para assistir seus pacientes. Mas isto claramente no est nem nesse ponto nem naquele. 
Alm disso, o argumento histrico  uma faca de dois gumes. Poderamos acompanhar a histria e recordar a inamistosidade e mesmo a animosidade com que a profisso 
mdica tratou a anlise bem desde o comeo. Isso pareceria implicar que ela no pode fazer quaisquer reivindicaes  anlise no momento atual. E embora eu no aceite 
essaimplicao, ainda sinto certas dvidas quanto a se o presente cortejar da psicanlise pelos mdicos est baseado, do ponto de vista da teoria da libido, na primeira 
ou na segunda subfases de Abraham - se desejam tomar posse de seu objeto com a finalidade de destru-lo ou de preserv-lo.
         Gostaria de considerar o argumento histrico por mais um momento. Visto que  em mim pessoalmente que estamos interessados, posso lanar um pouco de luz, 
para qualquer um que esteja interessado, sobre meus prprios motivos. Aps quarenta e um anos de atividade mdica, meu autoconhecimento me diz que nunca fui realmente 
mdico no sentido adequado. Tornei-me mdico por ter sido compelido a desviar-me do meu propsito original; e o triunfo da minha vida est em eu haver, aps uma 
viagem longa e indireta, encontrado meu caminho de volta  minha senda mais antiga. No tenho conhecimento algum de haver tido qualquer anseio, na minha primeira 
infncia, de ajudar a humanidade sofredora. Minha disposio sdica inata no foi muito forte, de modo que no tive qualquer necessidade de desenvolver essa disposio 
dos seus derivados. Nem jamais 'brinquei de mdico'; minha curiosidade infantil evidentemente escolheu outros caminhos. Em minha juventude senti uma necessidade 
absorvente de compreender algo dos enigmas do mundo em que vivemos e talvez mesmo de contribuir com alguma coisa para a soluo dos mesmos. O meio mais esperanoso 
de alcanar esse fim pareceu ser matricular-me na faculdade de medicina; no entanto, mesmo aps isto realizei experincias - sem xito - com a zoologia e a qumica, 
at que afinal, sob a influncia de Brcke, que teve mais influncia sobre mim do que qualquer outra pessoa em toda minha vida, fixei-me em fisiologia, embora naqueles 
dias ela estivesse muito estreitamente restrita  histologia. Naquela ocasio j havia sido aprovado em todos os meus exames mdicos, mas no adquiri qualquer interesse 
por coisa alguma que tivesse a ver com a medicina, at que o professor que eu to profundamente respeitava advertiu-me de que em vista das minhas circunstncias 
materiais precrias eu no poderia possivelmente seguir uma carreira terica. Assim, passei da histologia do sistema nervoso para a neuropatologia e depois, incentivado 
por novas influncias, comecei a interessar-me pelas neuroses. Quase no penso, contudo, que a minha falta de autntico temperamento mdico tenha causado grande 
dano aos meus pacientes, pois no  muito vantajoso para os pacientes se o interesse teraputico do seu mdico tiver uma nfase emocional muito marcante. Eles so 
maisbem ajudados se ele executar sua tarefa friamente e obedecendo s regras to de perto quanto possvel.
         Sem dvida o que acabo de dizer lana pouca luz sobre o problema da anlise leiga; destinou-se apenas a apresentar minhas credenciais pessoais, como sendo 
eu prprio um partidrio do valor inerente da psicanlise e da independncia de sua aplicao em relao  medicina. Mas objetar-se-, a esta altura, que se a psicanlise, 
considerada como uma cincia, for considerada uma subdiviso da medicina ou da psicologia, isto ser uma questo puramente acadmica e de nenhum interesse prtico. 
O verdadeiro ponto em debate, dir-se-,  diferente, a saber, a aplicao da anlise ao tratamento de pacientes; at onde ela alega que faz isso, ela deve contentar-se, 
continuar o argumento, em ser aceita como um ramo especializado da medicina, como a radiologia, por exemplo, e em submeter-se s regras formuladas para todos os 
mtodos teraputicos. Reconheo que isto seja assim; admito-o. S quero sentir-me seguro de que a terapia no destruir a cincia. Infelizmente, as analogias s 
nos levam at certa distncia; logo se alcana um ponto no qual os assuntos da comparao seguem caminhos divergentes. O caso da anlise difere do da radiologia. 
No  preciso que um fsico tenha um paciente a fim de estudar as leis que regem os raios X. Mas o nico tema da psicanlise so os processos mentais dos seres humanos 
e  somente nos seres humanos que ele pode ser estudado. Por motivos que podem facilmente ser compreendidos, os seres humanos neurticos oferecem material muito 
mais instrutivo e acessvel do que os normais, e sonegar esse material a qualquer um que deseje estudar e aplicar a anlise  priv-lo de boa metade das suas possibilidades 
de formao. No tenho, naturalmente, inteno alguma de pedir que os interesses de pacientes neurticos sejam sacrificados queles de instruo e de pesquisa cientfica. 
O objetivo do meu pequeno volume sobre a questo da anlise leiga foi precisamente demonstrar que, se certas precaues forem observadas, os dois interesses podero 
facilmente ser harmonizados e que os interesses da medicina, conforme compreendidos de maneira correta, no sero os ltimos a lucrar com tal soluo.
         Eu mesmo formulei todas as precaues necessrias e posso afirmar com segurana que o debate nada acrescentou a esse ponto. Mas gostaria de acrescentar 
que a nfase foi dada muitas vezes da maneira que no fazia justia aos fatos. O que se disse sobre as dificuldades do diagnstico diferencial e da incerteza, em 
muitos casos, de chegar a uma deciso sobre os sintomas somticos - situaes, vale dizer, nas quais os conhecimentos mdicos e a interveno mdica so necessrios 
-, tudo isso  perfeitamente verdadeiro. No obstante, o nmero de casos em que dvidas dessa espciejamais surgem de maneira alguma e que no se exige um mdico 
 por certo incomparavelmente maior. Esses casos podem ser bem desinteressantes cientificamente, mas desempenham papel bastante importante na vida para justificarem 
as atividades de analistas, que so perfeitamente capazes para lidar com eles. H algum tempo analisei um colega que dava provas de uma averso particularmente forte 
 idia de permitir que qualquer um se empenhasse numa atividade mdica caso no fosse mdico. Eu estava em condies de dizer-lhe: 'Estamos agora trabalhando h 
mais de trs meses. Em que ponto de nossa anlise tive ocasio de fazer uso dos meus conhecimentos mdicos?' Ele admitiu que eu no tivera tal ocasio.
         Alm disso, no atribuo grande importncia ao argumento de que um analista leigo, porque ele deve estar preparado para consultar um mdico, no tenha autoridade 
aos olhos dos seus pacientes e no seja tratado com mais respeito do que pessoas tais como endireitas* ou massagistas. Mais uma vez, a analogia  imperfeita - bem 
independente do fato de que o que rege os pacientes no reconhecimento, por parte destes, da autoridade , em geral, a transferncia emocional deles e que a posse 
de um diploma mdico no os impressiona tanto como os mdicos acreditam. Um analista leigo no ter dificuldade alguma em angariar tanto respeito como  devido a 
um assistente pastoral secular. Realmente, as palavras 'assistente pastoral secular' bem poderiam servir como uma frmula geral para descrever a funo que o analista, 
seja ele mdico ou leigo, tem de realizar em relao ao pblico. Nossos amigos do clero protestante, e mais recentemente tambm entre o clero catlico, so muitas 
vezes capazes de liberar seus paroquianos das inibies de sua vida cotidiana confirmando-lhes a f - depois de primeiro lhes haver oferecido um pouco de informao 
analtica sobre a natureza dos seus conflitos. Nossos antagonistas, os 'psiclogos do indivduo' adlerianos, se esforam por produzir um resultado semelhante em 
pessoas que se tenham tornado instveis e deficientes, provocando-lhes o interesse pela comunidade social - aps terem primeiro lanado alguma luz sobre um nico 
recanto de sua vida mental e lhes terem revelado o papel desempenhado na doena deles pelos seus impulsos egostas e suspeitosos. Ambos esses processos, que tiram 
sua fora por estarem baseados na anlise, tm seu lugar na psicoterapia. Ns que somos analistas pomos diante de ns como nosso objetivo a anlise mais completa 
e mais profunda possvel de quem quer que possa ser nosso paciente. No procuramos levar-lhe alvio recebendo-o na comunidade catlica, protestante ou socialista. 
Antes procuramos enriquec-lo a partir de suas prpria fontes internas, colocando  disposio do seu ego aquelas energias que, devido  represso, se acham inacessivelmente 
confinadas em seuinconsciente, bem como aquelas que seu ego  obrigado a desperdiar na tarefa infrutfera de manter essas represses. Uma atividade como essa  
trabalho pastoral no melhor sentido da palavra. Atribumos a ns mesmos uma finalidade demasiado alta? A maioria dos nossos pacientes merece os cuidados que esse 
trabalho exige de ns? No seria mais econmico escorar suas fraquezas de fora antes do que reconstru-las de dentro? No posso dizer; mas existe algo mais que eu 
realmente sei. Na psicanlise tem existido desde o incio um lao inseparvel entre cura e pesquisa. O conhecimento trouxe xito teraputico. Era impossvel tratar 
um paciente sem aprender algo de novo; foi impossvel conseguir nova percepo sem perceber seus resultados benficos. Nosso mtodo analtico  o nico em que essa 
preciosa conjuno  assegurada.  somente pela execuo do nosso trabalho pastoral analtico que podemos aprofundar nossa compreenso que desponta da mente humana. 
Essa perspectiva de ganho cientfico tem sido a feio mais orgulhosa e feliz do trabalho analtico. Devemos sacrific-la a bem de quaisquer consideraes de natureza 
prtica?
         Algumas observaes feitas no curso dessa apreciao levaram-me a suspeitar que, apesar de tudo, meu livro sobre anlise leiga foi mal compreendido sob 
um aspecto. Os mdicos se tm defendido de mim, como se eu houvesse declarado que eles eram em geral incompetentes para praticar a anlise e como se eu tivesse afirmado 
como uma senha que reforos mdicos deviam ser rejeitados. A idia provavelmente surgiu de eu ter sido levado a declarar no curso de minhas observaes (que tinham 
uma finalidade controversa em vista) que analistas mdicos no formados eram ainda mais perigosos que os leigos. Talvez possa tornar clara minha verdadeira opinio 
sobre essa questo dando eco a uma observao cnica sobre as mulheres que certa vez apareceu em Simplicissimus. Um homem se queixava a outro das fraquezas e da 
natureza melindrosa do belo sexo. 'Seja como for', replicou seu companheiro, 'as mulheres so a melhor coisa que temos dessa espcie'. Sou obrigado a admitir que, 
enquanto as escolas que desejamos para formao de analistas ainda no existirem, as pessoas que tenham tido uma educao preliminar em medicina constituem o melhor 
material para futuros analistas. Temos o direito de exigir, contudo, que elas no devem confundir sua educao preliminar com uma formao completa, que elas devem 
superar aunilateralidade que  estimulada pela instruo nas escolas de medicina e que devem resistir  tentao de flertar com a endocrinologia e o sistema nervoso 
autnomo, quando aquilo de que se necessita  de uma percepo de fatos psicolgicos com a ajuda de uma estrutura de conceitos psicolgicos. Tambm partilho do ponto 
de vista de que todos aqueles problemas que se relacionam com a ligao entre os fenmenos psquicos e seus fundamentos orgnicos, anatmicos e qumicos podem ser 
abordados somente por aqueles que tenham estudado ambos, isto , por analistas mdicos. No se deve esquecer, contudo, que isso no  o todo da psicanlise, e que 
quanto ao seu outro aspecto nunca podemos passar sem cooperao de pessoas que tenham tido uma educao preliminar nas cincias mentais. Por motivos prticos temos 
tido o hbito - e isso  verdade, incidentalmente, tambm em relao s nossas publicaes - de distinguir entre anlise mdica e aplicada. Mas essa no  uma distino 
lgica. A verdadeira linha de diviso situa-se entre a anlise cientfica e suas aplicaes igualmente nos setores mdico e no-mdico. 
         Nessas apreciaes, a rejeio mais rude da anlise leiga foi expressa por nossos colegas norte-americanos. Algumas palavras em resposta a eles, no sero, 
penso, fora de propsito. Dificilmente posso ser acusado de fazer mau uso da anlise para finalidades controversas, se expressar a opinio de que a resistncia por 
parte deles provm inteiramente de fatores prticos. Eles vem como em seu prprio pas os analistas leigos submetem a anlise a todas as espcies de finalidades 
nocivas e ilegtimas e, em conseqncia, causam dano tanto aos seus pacientes como ao bom nome da anlise. No , portanto, de se admirar que em sua indagao eles 
evitem o mais amplamente possvel tais inescrupulosos fomentadores de discrdia e tentem impedir que quaisquer leigos tenham participao na anlise. Mas esses fatos 
j so suficientes para reduzir o significado da posio norte-americana, pois a questo da anlise leiga no deve ser resolvida somente com base em consideraes 
prticas, e as condies locais nos Estados Unidos no podem ser a nica influncia determinante sobre nossos pontos de vista.
         A resoluo aprovada por nossos colegas norte-americanos contra os analistas leigos, baseada como essencialmente est em razes prticas, parece-me, no 
obstante, pouco prtica, pois no poder afetar qualquer dos fatores que regem a situao. Ela  mais ou menos equivalente a uma tentativa de represso. Se for impossvel 
impedir os analistas leigos de exercerem suas atividades e se o pblico no apoiar a campanha contra eles, no seria mais aconselhvel reconhecer o fato de sua existncia 
oferecendo-lhes oportunidades de formao? Talvez no fosse possvel, dessa maneira, alcanar certainfluncia sobre eles? E, se lhes fosse oferecida como incentivo 
a possibilidade de receberem a aprovao da profisso mdica e de serem convidados a cooperar, ser que eles no teriam certo interesse em elevar seu prprio padro 
tico e intelectual?
         VIENA, junho de 1927
         
         
         










PSICANLISE (1926) 
         
         NOTA DO EDITOR INGLS
         
         (a) EDIES ALEMS:
         (1925 Provvel data da composio.)
         1934 G.S., 12, 372-80.
         1934 Almanach 1935, 9-17. (Omitindo-se a Bibliografia.)
         1935 Z. Psychoanal. Pd., 9 (2), 73-80. (Com incluso da Bibliografia.)
         1948 G.W., 14, 299-307.
         
         (b) TRADUO INGLESA:
         
         'Psychoanalysis: Freudian Scholl'
         1926 Em Encyclopaedia Britannica, 13 ed., Novo Vol. 3, 253-5. (Trad. de James Strachey.)
         1929 Em Encyclopaedia Britannica, 14 ed., 18, 672-4. (Reimpresso da anterior.)
         
         A presente traduo  uma reviso daquela publicada pela primeira vez em 1926. O artigo  reimpresso aqui mediante entendimento com autores da Encyclopaedia 
Britannica.
         
         A Dcima-Primeira Edio da Encyclopedia Britannica veio a lume em 1910-11. No continha qualquer referncia  psicanlise. Aps a primeira guerra mundial, 
em 1922, surgiu o que se declarou ser a 'Dcima-Segunda Edio'. Esta consistia na antiga Dcima-Primeira Edio juntamente com trs 'Novos Volumes'. Ainda no havia 
qualquer artigo sobre psicanlise. Logo depois resolveu-se lanar, em 1926, uma 'Dcima-Terceira Edio,' que iria consistir novamente na antiga Dcima-Primeira 
com o acrscimo, mais uma vez, de trs 'Novos Volumes Suplementares' - mas diferentes daqueles que haviam integrado a 'Dcima-Segunda Edio'. Dessa vez um artigo 
sobre psicanlise foi julgado necessrio, e solicitaram ao prprio Freud que colaborasse com o mesmo. Sem dvida ele ficou satisfeito em aceitar o convite, visto 
que a Encyclopaedia Britannica ocupava um lugar predileto em seu corao. Enquanto preparava Totem e Tabu, escreveu a Ernest Jones (em 24 de fevereiro de 1912) dando 
uma lista de todas as autoridades que ele havia consultado, e conclua com evidente orgulho: 'Estou agora at de posse da Encyclopaedia Britannica, 11 ed., 1911.' 
(Jones, 1953, 395.) E era uma obra que ele estava sempre vido por consultar. J, alm disso, em 1924, ele havia contribudo com um longo captulo sobre psicanlise 
para uma compilao em dois volumes que fora lanada pelos editores da Encyclopaedia Britannica sob o ttulo These Eventful Years. Muito pouco tempo aps a publicao 
da Dcima-Terceira Edio, reconheceu-se a necessidade de produzir uma nova edio completa de toda obra. Houve um movimento para substituir o artigo de Freud por 
um diferente; mas, atravs dos esforos conjuntos de Ernest Jones e do prprio Freud, essa idia foi eliminada, e o artigo foi mantido inalterado na Dcima-Quarta 
Edio (1929) e em todas as subseqentes.
         De fato, contudo, quando o original alemo veio  luz em 1934, viu-se que certo nmero de modificaes pequenas, mas no destitudas de importncia, tinham, 
desde o incio, sido feitas na verso inglesa. O ttulo do artigo, por exemplo, fora alterado de 'Psicanlise' para 'Psicanlise: Escola Freudiana' e uma referncia 
pouco lisonjeira a Jung e Adler havia sido omitida. Subttulos adicionais tambm tinham sido inseridos, o que no parece ajudar o encadeamento do argumento de Freud. 
Para finalidades atuais, o melhor plano pareceu remontar ao original alemo, conforme elaborado por Freud, sendo as divergncias mais importantes da verso da Encyclopaedia 
Britannica indicadas em notas de rodap. Aproveitou-se a oportunidade para rever a traduo e harmonizar alguns dos termos tcnicos com o uso adotado em outras partes 
nesta edio. 
         
         PSICANLISE
         
         Visto que a psicanlise no foi mencionada na dcima-primeira edio da Encyclopaedia Britannica,  impossvel restringir este relato aos seus progressos 
desde 1910. A parte mais importante e mais interessante de sua histria est no perodo antes dessa data.
         
         PR-HISTRIA
         Nos anos de 1880-2 um mdico vienense, o Dr. Josef Breuer (1842-1925), descobriu um novo mtodo por meio do qual aliviou uma moa, que vinha sofrendo de 
grave histeria, de seus muitos e variados sintomas. Ocorreu-lhe a idia de que os sintomas estavam ligados a impresses que ela recebera durante um perodo de agitao 
enquanto cuidava do pai enfermo. Ele ento induziu-a, enquanto ela se encontrava num estado de sonambulismo hipntico, a procurar essas ligaes em sua memria e 
a viver atravs das cenas 'patognicas' mais uma vez, sem inibir, os afetos que surgiam no processo. Ele verificou que quando ela fizera isso, o sintoma em causa 
desapareceu para sempre.
         Isso ocorreu numa data anterior s investigaes de Charcot e de Pierre Janet sobre a origem dos sintomas histricos, e assim a descoberta de Breuer no 
foi de modo algum influenciada por eles. Mas ele no levou o assunto adiante na poca e s uns dez anos depois  que o recomeou em colaborao com Sigmund Freud. 
Em 1895 publicaram um livro, Estudos sobre a Histeria, no qual as descobertas de Breuer foram descritas e se fez uma tentativa para explic-las pela teoria da 'cartase'. 
De acordo com essa hiptese, os sintomas histricos se originam atravs da energia de um processo mental que  afastado da influncia consciente e desviada para 
a inervao corporal ('converso'). Um sintoma histrico seria assim um substituto de um ato mental omitido e uma reminiscncia da ocasio que deve ter dado margem 
a esse fato. E, com base nesse ponto de vista, a recuperao seria o resultado da liberao do afeto que se extraviara e de sua descarga por um caminho normal ('ab-reao'). 
O tratamento catrtico deu excelentes resultados teraputicos, mas verificou-se que no eram permanentes e que no eram independentes da relao pessoal entre o 
paciente e o mdico. Freud, que depois prosseguiu com essas investigaes sozinho, fez uma alterao tcnica das mesmas, substituindo a hipnose pelo mtodo da associao 
livre. Ele inventou o termo 'psicanlise', que no curso do tempo veio a ter dois significados: (1) um mtodo especfico de tratar as perturbaes nervosas e (2) 
a cincia dos processos mentais inconscientes, que tambm  apropriadamente descrita como 'psicologia profunda'.
         
         
         TEMA DA PSICANLISE
         A psicanlise encontra apoio sempre crescente como mtodo teraputico, devido ao fato de que pode fazer mais pelos seus pacientes do que qualquer outro 
mtodo de tratamento. O principal campo de sua aplicao so as neuroses mais brandas - histeria, fobias e estados obsessivos; e nas malformaes do carter e inibies 
ou anormalidades sexuais ela tambm pode trazer acentuadas melhorias ou mesmo recuperaes. Sua influncia sobre a demncia precoce e a parania  duvidosa; por 
outro lado em circunstncias favorveis pode lidar com estados depressivos, mesmo se forem de tipo grave.
         Em cada caso, o tratamento exige muito, tanto do mtodo como do paciente: o primeiro necessita de uma formao especial e deve dedicar longo perodo de 
tempo  explorao da mente do paciente, ao passo que o segundo deve fazer considerveis sacrifcios, tanto materiais como mentais. No obstante, todas as preocupaes 
em jogo so, em geral, recompensadas pelos resultados. A psicanlise no atua como uma panacia conveniente ('cito, tute, jucunde') para perturbaes psicolgicas. 
Ao contrrio, sua aplicao tem sido essencial para tornar claras pela primeira vez as dificuldades e as limitaes no tratamento de tais distrbios. No momento, 
s em Berlim e em Viena  que h instituies voluntrias que tornam o tratamento psicanaltico acessvel s classes assalariadas.
         A influncia teraputica da psicanlise depende da substituio de atos mentais inconscientes por conscientes e vigora dentro dos limites desse fator. A 
substituio  efetivada superando-se as resistncias internas na mente do paciente. O futuro provavelmente atribuir muito maior importncia  psicanlise como 
a cincia do inconsciente do que como um procedimento teraputico.
         A psicanlise, no seu carter de psicologia profunda, considera a vida mental de trs pontos de vista: o dinmico, o econmico e o topogrfico.
         Do primeiro desses pontos de vista, o dinmico, a psicanlise extrai todos os processos mentais (independentes da recepo de estmulos externos) da ao 
mtua de foras, que ajudam ou inibem umas s outras, se combinam, entram em conciliaes umas com as outras etc. Todas essas foras so originalmente da natureza 
de instintos; assim, possuem uma origem orgnica. So caracterizadas por possurem uma reserva de energia (somtica) imensa ('a compulso  repetio'); e so representadas 
mentalmente como imagens ou idias com uma carga afetiva. Na psicanlise, no menos do que em outras cincias, a teoria dos instintos  um assunto obscuro. Uma anlise 
emprica conduz  formulao de dois grupos de instintos: os denominados 'instintos do ego', que esto dirigidos para a autopreservao, e os 'instintos do objeto', 
que dizem respeito s relaes com um objeto externo. Os instintos sociais no so considerados como elementares ou irredutveis. A especulao terica leva  suspeita 
de que h dois instintos fundamentais que jazem ocultos por detrs dos instintos do ego e dos instintos do objeto manifesto: a saber, (a) Eros, o instinto que luta 
sempre por uma unio mais estreita, e (b) o insisto de destruio, que leva no sentido da destruio do que est vivo. Em psicanlise d-se o nome de 'libido'  
manifestao da fora de Eros.
         Do ponto de vista econmico, a psicanlise supe que os representantes mentais dos instintos tm uma carga (catexia) de quantidades definidas de energia, 
sendo finalidade do aparelho mental impedir qualquer represamento dessas energias e manter o mais baixo possvel o volume total das excitaes com que ele se acha 
carregado. O curso dos processos mentais  automati-camente regulado pelo 'princpio do prazer-desprazer'; o desprazer est assim de certa forma relacionado com 
um aumento de excitao, e o prazer com uma reduo. No curso do desenvolvimento, o princpio de prazer original passa por uma modificao com referncia ao mundo 
externo, dando lugar ao 'princpio de realidade', de conformidade com o qual o aparelho mental aprende a adiar o prazer da satisfao e a tolerar temporariamente 
sentimentos de desprazer.
         Topograficamente, a psicanlise considera o aparelho mental como um instrumento composto, esforando-se por determinar em quais pontos dele ocorrem os vrios 
processos mentais. De acordo com os pontos de vista psicanalticos mais recentes, o aparelho mental compe-se de um 'id', que  o repositrio dos impulsos instintuais, 
de um 'ego', que  a parte mais superficial do id e aquela que foi modificada pela influncia do mundo externo, e de um 'superego', que se desenvolve do id, domina-o 
e representa as inibies do instinto que so caractersticas do homem. A qualidade da conscincia, tambm, conta com uma referncia topogrfica, pois os processos 
no id so inteiramente inconscientes, ao passo que a conscincia  a funo da camada mais externa do ego, que se interessa pela percepo do mundo externo.
         A esta altura, duas observaes talvez sejam cabveis. No se deve supor que estas idias muito gerais sejam pressuposies das quais depende o trabalho 
da psicanlise. Pelo contrrio, so suas concluses mais recentes e esto 'abertas  reviso'. A psicanlise est firmemente alicerada na observao dos fatos da 
vida mental e por essa mesma razo sua superestrutura terica ainda est incompleta e sujeita a constante alterao. Em segundo lugar, no existe motivo para surpresa 
que a psicanlise, que originalmente nada mais era que uma tentativa de explicar os fenmenos mentais patolgicos, deva ter-se desenvolvido numa psicologia da vida 
mental normal. A justificativa disso surgiu com a descoberta de que os sonhos e os erros ['parapraxias', tais como lapsos de linguagem etc.] de homens normais tm 
o mesmo mecanismo que os sintomas neurticos.
         A primeira tarefa da psicanlise foi a elucidao dos distrbios neurticos. A teoria analtica baseia-se em trs pedras angulares: o reconhecimento da 
(1) 'represso', da (2) importncia do instinto sexual e da (3) 'transferncia'.
         (1) H uma fora na mente que exerce as funes de uma censura e que exclui da conscincia e de qualquer influncia sobre a ao todas as tendncias que 
a desagradam. Tais tendncias so descritas como 'reprimidas'. Elas permanecem inconscientes e se algum tentar lev-las para a conscincia do paciente provoca-se 
uma 'resistncia'.2 Esses impulsos instintuais reprimidos, contudo, nem sempre se tornaram impotentes. Em muitos casos conseguiram fazer sentir sua influncia na 
mente por caminhos indiretos, e as satisfaes indiretas ou substitutivas dos impulsos reprimidos assim alcanadas so o que constitui os sintomas neurticos. (2) 
Por motivos culturais, a represso mais intensa incide sobre os instintos sexuais; mas  precisamente em relao com eles que a represso mais facilmente falha, 
de modo que se verifica que os sintomas neurticos so satisfaes substitutivas da sexualidade reprimida. A crena de que no homem a vida sexual comea apenas na 
puberdade  incorreta. Pelo contrrio, sinais dela podem ser detectados desde o comeo da existncia extra-uterina; ela atinge um primeiro ponto culminante no ou 
antes do quinto ano ('perodo primitivo'), depois do qual fica inibida ou interrompida ('perodo de latncia') at a idade da puberdade, que  o segundo clmax do 
seu desenvolvimento. Esse desencadeamento bifsico do desenvolvimento sexual parece ser distintivo do gnero Homo. Todas as experincias durante o primeiro perodo 
da infncia so da maior importncia para o indivduo e em combinao com sua constituio sexual herdada foram as disposies para o desenvolvimento subseqente 
do carter e da doena.  errneo fazer a sexualidade coincidir com a 'genitalidade'! Os instintos sexuais passam por um complicado curso de desenvolvimento, e s 
no fim deste  que a 'primazia das zonas genitais'  alcanada. Antes disso h grande nmero de organizaes 'pr-genitais' da libido - pontos nos quais ela pode 
tornar-se 'fixada' e aos quais, no caso de subseqente represso, ela retornar ('regresso'). As fixaes infantis da libido so o que determina a forma de qualquer 
neurose ulterior. Assim, as neuroses devem ser consideradas como inibies no desenvolvimento da libido. No existem causas especficas de perturbaes nervosas; 
a questo de se um conflito encontra uma soluo saudvel ou conduz a uma inibio neurtica de funo depende de consideraes quantitativas.
         O conflito mais importante com o qual se defende uma criancinha  sua relao com os pais, o 'Complexo de dipo';  ao tentar lidar com esse problema que 
aqueles destinados a sofrer de uma neurose habitualmente malogram. As reaes contra as exigncias instintuais do complexo de dipo so a fonte das realizaes mais 
preciosas e socialmente importantes da mente humana; e isto  vlido no somente na vida dos indivduos, como tambm provavelmente na histria da espcie humana 
como um todo. O superego tambm, a instncia moral que domina o ego, tem sua origem no processo de superao do complexo de dipo.
         (3) Por 'transferncia' quer-se dizer uma peculiaridade marcante dos neurticos. Eles desenvolvem para com seu mdico relaes emocionais, tanto de carter 
afetuoso como hostil, que no se baseiam na situao real, mas que derivam de suas relaes com os pais (o complexo de dipo). A transferncia  uma prova do fato 
de que os adultos no superaram sua antiga dependncia infantil; ela coincide com a fora que foi designada como 'sugesto'; e  somente aprendendo a fazer uso dela 
que o mdico fica capacitado a induzir o paciente a superar suas resistncias internas e a eliminar suas represses. Dessa forma, o tratamento analtico atua como 
uma segunda educao do adulto, como um corretivo da sua educao enquanto criana.
         Dentro desse estreito mbito foi impossvel mencionar muitos assuntos do maior interesse, tais como a 'sublimao' dos instintos, o papel desempenhado pelo 
simbolismo, o problema da 'ambivalncia' etc. Nem houve espao para aludir s aplicaes da psicanlise - originadas, como vimos, na esfera da medicina - a outros 
setores do conhecimento (como a antropologia social, o estudo da religio, a histria literria e a educao), onde sua influncia vem constantemente aumentando. 
Basta dizer que a psicanlise, em seu carter da psicologia dos atos mentais inconscientes mais profundos, promete tornar-se o elo entre a psiquiatria e todos aqueles 
outros ramos da cincia mental.
         
         
         A HISTRIA EXTERNA DA PSICANLISE 
         Os primrdios da psicanlise podem ser assinalados por duas datas: 1895, que viu a publicao dos Estudos sobre a Histeria de Breuer e Freud, e 1900, que 
testemunhou a da Interpretao de Sonhos, de Freud. De incio, as novas descobertas no despertaram interesse algum quer na profisso mdica, quer entre o pblico 
em geral. Em 1907 os psiquiatras suos, sob a liderana de E. Bleuler e C. G. Jung, comearam a interessar-se pelo assunto; em 1908 realizou-se em Salzburgo uma 
primeira reunio dos partidrios provenientes de grande nmero de diferentes pases. Em 1909 Freud e Jung foram convidados para visitar os Estados Unidos por G. 
Stanley Hall a fim de pronunciarem uma srie de conferncias sobre psicanlise na Universidade de Clark, Worcester, Mass. A partir daquela poca, o interesse cresceu 
rapidamente na Europa; expressou-se contudo, numa rejeio muito enrgica dos novos ensinamentos - uma rejeio que muitas vezes revelou uma colorao no-cientfica.
         As razes dessa hostilidade iriam ser encontradas, do ponto de vista mdico, no fato de que a psicanlise d nfase a fatores psquicos, e, do ponto de 
vista filosfico, na suposio do conceito da atividade mental inconsciente como sendo um postulado fundamental; mas a razo mais forte foi, indubitavelmente, a 
indisposio geral da humanidade em conceder ao fator da sexualidade a importncia que lhe  atribuda pela psicanlise. Apesar dessa oposio generalizada, contudo, 
o movimento em prol da psicanlise no iria ser refreado. Seus partidrios aglutinaram-se numa Associao Internacional, que atravessou inclume as provaes da 
grande guerra, e na hora presente (1925) abrange grupos locais em Viena, Berlim, Budapeste, Londres, Sua, Holanda, Moscou e Calcut, bem como dois nos Estados 
Unidos. H trs peridicos que representam os pontos de vista dessas sociedades: o Internationale Zeitschrift fr Psychoanalyse, Imago (que se interessa pela aplicao 
da psicanlise a campos no-mdicos de conhecimentos), e o International Journal of Psycho-Analysis.
         Durante os anos de 1911-13 dois ex-partidrios, Alfred Adler, de Viena, e C. G. Jung, de Zurique, retiraram-se do movimento psicanaltico e fundaram suas 
escolas de pensamento, as quais, em vista da hostilidade geral  psicanlise, podiam estar certas de uma acolhida favorvel, mas permaneceram cientificamente estreis. 
Em 1921 o Dr. M. Eitingon fundou em Berlim a primeira clnica e escola de formao psicanaltica pblica, logo acompanhada de uma segunda em Viena.
         
         
         BIBLIOGRAFIA
         Breuer e Freud, Studien ber Hysterie (1895); Freud, Traumdeutung (1900); Zur Psychopathologie des Alltagslebens (1904); Drei Abhandlugen zur Sexualtheorie 
(1905); Vorlesungen zur Einfhrung in die Psychoanalyse (1916). As obras completas de Freud foram publicadas em alemo (Gesammelte Schriften) (1925) e em espanhol 
(Obras completas) (1923); a maior parte delas foi traduzida para o ingls e outras lnguas. Breves relatos do tema e da histria da psicanlise sero encontrados 
em: Freud, ber Psychoanalyse (as conferncias pronunciadas em Worcester, EUA) (1909); Zur Geschichte der psychoanalytischen Bewegung (1914); Selbstdarstellung (na 
coleo de Grote, Die Medizin der Gegenwart in Selbstdarstellungen) (1925). Particularmente acessveis aos leitores ingleses so: Ernest Jones, Papers on Psycho-Analysis, 
e A. A. Brill, Psychoanalysis. 
         
         
         































DISCURSO PERANTE A SOCIEDADE DOS 
BNAI BRITH (1941 [1926]) 
         
         
         ANSPRACHE AN DIE MITGLIEDER
         DES VEREINS BNAI BRITH 
         
         (a) EDIO ALEM:
         1941 G. W., 17, 51-3.
         
         (b) TRADUO INGLESA:
         'Adress to the Society of B'nai B'rith.'
         
         A presente traduo, de James Strachey, parece ser a primeira para o ingls. Algumas frases dela foram apresentadas numa nota de rodap na p.312 de The 
Origins of Psycho-Analysis (1954), a traduo inglesa de Freud, 1950a.
         
         Esse discurso foi lido em nome de Freud numa reunio dos B'nai B'rith realizada em 6 de maio de 1926, em honra ao seu septuagsimo aniversrio. Fora precedido 
por um discurso laudatrio feito pelo seu mdico, o professor Ludwig Braun.
         Os B'nai B'rith (Filhos da Aliana) so uma ordem que representa os interesses judeus - culturais, intelectuais e caritativos. Originalmente fundada nos 
Estados Unidos em meados do sculo XIX, tem lojas filiadas em muitas partes do mundo. Como se ver adiante, Freud filiou-se ao grupo de Viena em 1895 e durante muitos 
anos foi freqentador assduo de suas reunies, realizadas em teras-feiras alternadas. De tempos a tempos ele prprio pronunciou conferncias ali, havendo os temas 
de algumas delas sido registrados: duas conferncias sobre sonhos em dezembro de 1897 (Freud, 1950a, Carta 78); outra, no especificada, em maro de 1900 (ibid., 
Carta 130); sobre La fcondit, de Zola, em 27 de abril de 1900 (Jones, 1953, 363); sobre La rvolte des anges, de Anatole France (Sachs, 1945, 103); e a segunda 
parte de suas 'Reflexes para os Tempos de Guerra e Morte', em 1915 (Jones, 1955, 415). 
         
         
         
         
         DISCURSO PERANTE A SOCIEDADE DOS BNAI BRITH 
         
         Ilustrssimo Gro Presidente, ilustrssimos Presidentes, caros Irmos, -
         Agradeo-vos as honrarias que me prestastes hoje. Sabeis por que no podeis ouvir o som de minha prpria voz. Ouvistes um dos meus amigos e alunos falar 
do meu trabalho cientfico; mas  difcil formar um julgamento sobre tais coisas e por muito tempo ainda ele no pode ser alcanado com segurana. Permiti-me acrescentar 
algo ao que foi dito por aquele que  tanto meu amigo como o mdico que vela por mim. Gostaria de dizer-vos em breves palavras como me tornei um dos vossos e o que 
procurei de vs.
         Aconteceu que nos anos a partir de 1895 fiquei sujeito a duas poderosas impresses que se combinaram para produzir o mesmo efeito sobre mim. Por um lado, 
alcanara minha primeira compreenso interna (insight) das profundezas da vida dos instintos humanos; eu vira certas coisas que eram tranqilizadoras e mesmo, de 
incio, assustadoras. Por outro, a comunicao das minhas descobertas desagradveis teve como resultado a ruptura da maior parte dos meus contatos humanos; senti-me 
como se fosse desprezado e universalmente evitado. Em minha solido fui presa do anseio de encontrar um crculo de homens de escol de carter elevado que me recebesse 
com esprito amistoso, apesar da minha temeridade. Vossa sociedade foi-me indicada como o lugar onde tais homens deviam ser encontrados.
         O fato de vs serdes judeus s me poderia ser agradvel, pois eu prprio sou judeu, e sempre me parecera no somente indigno como positivamente insensato 
negar esse fato. O que me ligava ao povo judeu no era (envergonho-me de admitir) nem a f nem o orgulho nacional, pois sempre fui um descrente e fui educado sem 
nenhuma religio, embora no sem respeito pelo que se denomina de padres 'ticos' da civilizao humana. Sempre que sentia inclinao pelo entusiasmo nacional esforava-me 
por suprimi-lo como sendo prejudicial e errado, alarmado pelos exemplos de advertncia dos povos entre os quais ns judeus vivemos. Mas restavam muitas outras coisas 
que tornavam a atrao do mundo judeu e dos judeus irresistvel - muitas foras emocionais obscuras, que eram mais poderosas quanto menos pudessem ser expressas 
em palavras, bem como uma ntida conscincia de identidade interna, a reserva segura de uma construo mental comum. E alm disso havia uma percepo de que era 
somente  minha natureza judaica que eu devia duas caractersticas que se haviam tornado indispensveis para mim no difcil curso de minha vida. Por ser judeu encontrei-me 
livre de muitos preconceitos que restringiam outros no uso de seu intelecto, e como Judeu estava preparado para aliar-me  Oposio e passar sem consenso  'maioria 
compacta'.
         Assim foi que me tornei um dos vossos, tive minha parcela em vossos interesses humanitrios e nacionais, angariei amigos entre vs e persuadi meus prprios 
e poucos amigos restantes a se filiarem  nossa sociedade. No houve absolutamente qualquer dvida em convencer-vos das minhas novas teorias; mas numa poca em que 
ningum na Europa me dava ouvidos e ainda no tinha nenhum discpulo mesmo em Viena, vs me concedestes vossa amvel ateno. Vs fostes o meu primeiro auditrio.
         Durante cerca de dois teros do longo perodo que decorreu desde meu ingresso persisti convosco de maneira conscienciosa, e encontrei refrigrio e estmulo 
em minhas relaes convosco. Vs tendes sido bastante amveis hoje para no incriminar-me de que durante a ltima tera parte do tempo me mantive afastado de vs. 
Estive sobrecarregado de trabalho e as exigncias ligadas ao mesmo pesaram sobre mim; o dia deixou de ser bastante longo para que eu freqentasse vossas reunies, 
e logo meu corpo comeou a rebelar-se contra uma refeio tomada tarde da noite. Finalmente sobrevieram os anos de minha doena, o que me impede de estar entre vs 
at mesmo num dia como o de hoje.
         No posso dizer se fui um autntico Filho da Aliana no vosso sentido da palavra. Estou quase inclinado a duvidar disso; muitas circunstncias excepcionais 
surgiram no meu caso. Mas de uma coisa posso assegurar-vos - que vs muito significastes para mim e muito fizestes por mim durante os anos nos quais fiz parte de 
vs. Peo-vos, portanto, que aceiteis meus calorosos agradecimentos tanto por esses anos como por hoje.
         Vosso em W. B. & E.Sigm. Freud 
         
         
         

























BREVES ESCRITOS (1926) 
         
         KARL ABRAHAM 1926 
         
         O Dr. Karl Abraham, presidente do grupo de Berlim, do qual foi o fundador, e presidente, na poca, da Associao Psicanaltica Internacional, faleceu em 
Berlim em 25 de dezembro [1925]. No havia alcanado a idade de cinqenta anos quando sucumbiu a um mal interno contra o qual sua poderosa constituio tivera de 
lutar desde a primavera. No Congresso de Houburg ele parecera, para grande alegria de todos ns, ter-se recuperado, mas uma recada nos trouxe penoso desapontamento.
         Enterramos com ele - integer vitae scelerisque purus - uma das esperanas mais firmes da nossa cincia, jovem como  e ainda to implacavelmente agredida, 
e uma parte do seu futuro que agora, talvez, seja irrealizvel. Dentre todos aqueles que me acompanhavam pelos sombrios caminhos da pesquisa psicanaltica, ele granjeou 
um lugar to proeminente que somente um outro nome poderia ser posto ao lado dele.  provvel que a confiana ilimitada de seus colegas e alunos o teria convocado 
para a liderana e sem dvida ele teria sido um lder modelo na busca da verdade, no se deixando desencaminhar nem pelo louvor, nem pela censura dos muitos, nem 
pela sedutora iluso de suas prprias fantasias.
         Escrevo estas linhas para os amigos e companheiros de trabalho que conheceram e valorizaram Abraham como eu. Eles acharo fcil compreender o que a perda 
desse amigo, muito mais jovem que eu, significa para mim; e me perdoaro se eu no fizer qualquer outra tentativa de expressar o que  to difcil de traduzir em 
palavras. Um relato da personalidade cientfica de Abraham e uma apreciao do seu trabalho sero empreendidos para a nossa revista por outrem.
         
         A ROMAIN ROLLAND(1926) 
         
         Viena IX, Bergasse, 19, 29 de janeiro de 1926.
         Inesquecvel amigo! Com que dificuldades e sofrimentos voc deve ter lutado para atingir o ponto culminante da humanidade como o seu!
         Muitos anos antes de v-lo, eu o havia exaltado como um artista e um apstolo do amor da humanidade. Eu prprio fui um discpulo do amor da humanidade, 
no por motivos sentimentais ou em busca de um ideal, mas por motivos desapaixonados e econmicos, porque, sendo os nossos instintos inatos e o mundo que nos cerca 
o que so, no poderia deixar de considerar esse amor como no menos essencial para a sobrevivncia da raa humana do que tais coisas como a tecnologia.
         E quando finalmente vim a conhec-lo pessoalmente, fiquei surpreendido em verificar que voc pode apreciar a fora e a energia to altamente e que voc 
mesmo encarna essa fora de vontade.
         Que a prxima dcada no lhe traga outra coisa seno xitos!
         Muito cordialmenteSigm. Freud, aetat, 70
         
         NOTA PREAMBULAR A UM ARTIGO DE E. PICKWORTH FARROW (1926) 
         
         Conheo o autor deste artigo como um homem de inteligncia valiosa e independente. Provavelmente por ser um tanto voluntarioso deixou de manter boas relaes 
com dois analistas com os quais fez a tentativa. Logo depois passou a fazer uma aplicao sistemtica do mtodo de auto-anlise que eu prprio empreguei no passado 
para a anlise de meus prprios sonhos. Seus achados merecem ateno precisamente por causa do carter peculiar de sua personalidade e de sua tcnica. 
         
         
         



2



 Um estudo autobiogrfico, Inibies, sintomas e ansiedade e outros trabalhos - Sigmund Freud
